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O papel da imprensa na construção da rejeição a Lula: quando os fatos não vencem a narrativa

Por Lucas Figueredo

O papel da imprensa na construção da rejeição a Lula: quando os fatos não vencem a narrativa
Foto: Acervo pessoal

Uma nova pesquisa do instituto Quaest revelou uma tendência preocupante: o crescimento da rejeição ao governo Lula tem se convertido em rejeição eleitoral. Segundo o CEO da empresa, "o recado aqui é claro. Pela primeira vez, a rejeição ao governo está se transformando em rejeição eleitoral a Lula, alavancando as candidaturas dos potenciais herdeiros de Bolsonaro". A leitura, apesar de válida do ponto de vista estatístico, ignora um fator essencial: a construção dessa rejeição não se dá apenas pelas ações ou omissões do governo, mas pelo enredo que parte significativa da imprensa insiste em escrever, mesmo diante de fatos que a contradizem.

 

Há, sim, problemas de comunicação no governo federal. Não há como negá-los. No entanto, a assimetria entre os resultados alcançados e o espaço que ocupam nos noticiários revela uma distorção mais grave. O exemplo mais explícito foi a declaração da jornalista Andréia Sadi, da GloboNews, que afirmou: “Lula não ganhou a eleição, Bolsonaro quem perdeu”. A frase sintetiza uma narrativa recorrente: de que o atual presidente não tem mérito próprio, nem mesmo quando os dados mostram o contrário.

 

Um exemplo claro do contraste entre os fatos e a percepção pública está no balanço do governo federal em 2024. O ano consolidou conquistas significativas em diversas frentes, com avanços robustos na economia, na área social e no papel do Brasil no cenário internacional. Em vez de crise, o país vivenciou crescimento: o PIB brasileiro avançou 2,9% em 2023 e já cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2025 — superando as economias dos Estados Unidos, União Europeia e do G7 no mesmo período. Isso se refletiu em resultados concretos, como a geração de mais de 1,5 milhão de empregos formais em 2024, o controle da inflação e o menor índice de pobreza e extrema pobreza da série histórica do IBGE.

 

Na área social, a recomposição e ampliação do Bolsa Família garantiram proteção a mais de 20 milhões de famílias, com valor médio superior a R$ 680. A política de valorização do salário mínimo resultou em aumento real pelo segundo ano consecutivo, impactando diretamente o poder de compra dos trabalhadores. No campo da educação, 2024 marcou a retomada do papel indutor do Estado com investimentos históricos: o maior orçamento da história do Ministério da Educação e a criação do programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio. Na saúde, a ampliação da cobertura vacinal, o fortalecimento do SUS, a reestruturação do Mais Médicos e a queda das taxas de mortalidade materna e infantil evidenciam uma reconstrução vigorosa da rede de proteção à vida — ainda mais importante após o desmonte promovido na gestão anterior.

 

O contraste é ainda mais evidente quando olhamos para o noticiário. Uma cobertura predominantemente negativa, que dedica manchetes a disputas internas, ruídos na base aliada e críticas à condução política do governo, mas raramente se detém sobre os impactos positivos das políticas públicas implementadas. Onde estão as capas destacando que o Brasil vive seu menor índice de pobreza desde que a série histórica do IBGE começou? Onde estão os destaques para a liderança do país em fóruns internacionais e a recuperação do prestígio diplomático que havia sido corroído?

 

Quando a imprensa escolhe o enquadramento das notícias — o que enfatiza, o que omite, o que relativiza — ela não está apenas informando: está moldando a opinião pública. E, no caso do governo Lula, a opção tem sido frequentemente pela corrosão simbólica. Um governo que reorganizou programas sociais, aprovou a reforma tributária, iniciou a transição ecológica, fortaleceu o protagonismo internacional do Brasil e ainda lidera a economia em crescimento é retratado como vacilante, dividido, fraco. Um enredo dissonante da realidade concreta.

 

Isso não significa negar os desafios. O governo enfrenta obstáculos importantes, desde a tensão fiscal até a necessidade de recompor a base no Congresso. Mas é insustentável que conquistas expressivas e inéditas sejam varridas para debaixo do tapete por uma imprensa que, consciente ou não, escolheu fritar o governo como personagem central de sua dramaturgia política. Mais do que informar, parte da mídia tem optado por construir (ou destruir) narrativas. E, nesse cenário, a rejeição cresce não necessariamente porque o governo fracassa, mas porque os feitos não chegam à população com a força que deveriam.

 

A crítica à comunicação governamental é legítima. Mas seria intelectualmente desonesto ignorar que, mesmo quando há entregas claras, os megafones do país insistem em abafar a mensagem. Se o jornalismo deseja manter sua relevância e credibilidade, precisa se reconciliar com os fatos e deixar que os números falem tão alto quanto as narrativas.

 

*Lucas Figueredo é jornalista, pós-graduado em comunicação pública e governamental, diretor regional da ABC Pública na Bahia e autor do livro reportagem Só por Hoje – A luta dos Dependentes Químicos em Reabilitação

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias