Saúde mental no trabalho exige equilíbrio
A preocupação com a saúde mental tem se tornado uma pauta importante no âmbito corporativo. O trabalho ocupa parte significativa da nossa existência e, além do meio de sustento, pode ser uma fonte de propósito, realização e identidade; por outro lado, também pode causar sofrimento. Ignorar essa dualidade colabora para a sua transformação em um lugar onde o estresse não é apenas tolerado, mas institucionalizado.
Ações que pautem a saúde mental são essenciais para um ambiente de trabalho seguro e saudável. Um estudo inédito da Conexa, divulgado em 2023, apontou que 87% das empresas brasileiras tiveram ao menos um afastamento devido a doenças que afetaram a saúde mental do colaborador. Ansiedade (51%), depressão (17%), estresse (16%) e síndrome de Burnout (14%) lideram como as principais causas.
Imaginar que o meio corporativo não impacta na saúde mental do indivíduo é um erro. Empresas precisam abandonar a ideia de benefícios esporádicos ou palestras genéricas e começar, de fato, a pensar sobre o assunto. Para isso, é essencial reavaliar práticas organizacionais que perpetuam o estresse crônico, a sobrecarga e o esgotamento, repensando o culto ao sempre disponível e à produtividade infinita.
Oferecer um programa de mindfulness, enquanto as práticas de gestão continuam baseadas na pressão e na exclusão, é como tapar um vazamento sem consertar o encanamento. Políticas de saúde mental devem ser acompanhadas de mudanças reais no volume de trabalho, expectativas de desempenho e na forma como a organização enxerga as pessoas – não como recursos, mas como sujeitos. Empresas que fazem isso, criam um espaço onde o esforço vale a pena porque existe diálogo com leveza, o estresse se torna saudável e produtivo e as pessoas experimentam a tensão criativa – que impulsiona o crescimento –, em vez da tensão emocional, que paralisa e esgota.
Para criar ambientes saudáveis reais é preciso começar com um olhar honesto para dentro. Não basta adotar discursos inspiradores ou implementar iniciativas pontuais; é preciso perguntar: qual é a cultura desta empresa? Que valores ela sustenta no dia a dia? Se a resposta revela um ambiente que tolera comportamentos abusivos, glorifica o excesso de trabalho ou prioriza resultados a qualquer custo, então a mudança precisa começar pela estrutura e pela mentalidade que sustentam essas práticas.
Sem esse trabalho de autoconhecimento organizacional, qualquer discurso sobre bem-estar se torna vazio e, pior, pode enveredar para um ato de cinismo, uma violência psicológica disfarçada de cuidado, transferindo o peso para o indivíduo ao invés da estrutura que realmente adoece, que acaba permanecendo intocada. E, assim, manterá essas estatísticas preocupantes em relação a saúde mental do trabalhador.
*Lucas Franco Freire é psicólogo organizacional e diretor de Desenvolvimento Humano e Organizacional da ABRH Bahia
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