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Por que literatura LGBTQIAPN+?

Por Nilton Milanez

Por que literatura LGBTQIAPN+?
Foto: Acervo pessoal

Você chega a uma livraria e quer olhar por si mesmo nas prateleiras os livros lgbtqiapn+ e pergunta: Onde ficam os livros LGBT? A resposta é um pouco frustrante. Não existe uma estante para os livros LGBT. E nossa pergunta é respondida com outra pergunta: Posso te ajudar em algo mais? Ora, ora. A literatura lgbtqiapn+ está escondida, silenciada e até mesmo apagada entre uma gama de gêneros e tipos de livros. Ache-os quem puder.

 

A questão da qual se trata essa situação é a do próprio reconhecimento da literatura lgbtqiapn+ que tem, obviamente, as suas especificidades em relação aos seus temas, seu impacto social, sua intervenção nos modos de vida das pessoas. Dessa grande questão, outro problema se coloca: o da nomeação. Não há dúvidas da importância de se nomear para dar lugar a uma existência. Os objetos, as pessoas, os sentimentos tomam forma para nós diante da linguagem. Daí ser imprescindível dar nome às coisas, porque é assim que passamos a identificá-las. 

 

Se não designamos pelo seu nome a literatura lgbtqiapn+, é como se ela não ocupasse um lugar social, e histórico, na vida das pessoas leitoras.  Ainda digo mais, se não chamamos pelo nome a condição e modo de existir em relações das pessoas, estamos mantendo uma imensidão de vidas fora do uso de seus direitos e do exercício de sua cidadania. A maior prova da convivência com a diversidade das sexualidades está na visibilidade de todas as formas das pessoas se conduzirem na vida. 

 

Existir significa ocupar um lugar em seu bairro, em sua comunidade, em sua cidade, no seu país. Dizer lgbtqiapn+ é se fazer ver e ouvir por seu nome. Atestamos, assim, viver uma vida cidadã e contribuir com a regência de nossas vidas e dos outros que nos cercam. 

 

Toda causa para um indivíduo lgbt+ e pessoas aliadas é um exercício de cidadania que colabora com a inscrição de todos os indivíduos para a escrita de nossa história. E uma das formas efetivas de participação democrática das pessoas está no campo da literatura.

 

A literatura lgbtqiapn+ chama a atenção para a constatação de que há escritoras e escritores lgbt+, que há pessoas leitoras e, sobretudo, que as pessoas e, por assim dizer, suas identidades lgbt+ estão em todos os lugares sociais. Lembremos que a literatura se reúne com um grupo bastante diverso das artes no cinema, na fotografia, no teatro, na televisão, na música, na dança. E em muitas outras territorialidades mais, que reafirmam as posições lgbtqiapn+. 

 

As relações do sujeito lgbt+ no corpo das artes é complexa, pois não se trata efetivamente de ser lgbt+. Essas relações dizem respeito, principalmente, sobre a maneira de viver como pessoa lgbt+ pela via da escrita das narrativas. Tais narrativas dizem a verdade de como nos conduzimos face às opressões, aos abusos e às violências contra a conduta de corpos que estabelecem um padrão binário, heterocisnormativo, aquele que marca no biológico, no sexo, o que é ser homem e ser mulher, produzindo mecanismos de exclusão.

 

A literatura e as artes lgbtqiapn+, portanto, importam muito para nós, porque revelam uma maneira de viver que fala sobre todo tipo possível de amar, hoje. A vida e sua arte de amar na literatura reconhece que as sexualidades não são fixas, não se limitam a padrões e normas do corpo biológico. Acima de tudo, a literatura lgbtqiapn+ propõe a discussão do pertencimento do ser humano com lugar ao sol do jeito que cada indivíduo se compreende a si em seu afeto, em seu corpo, em suas atividades sociopolíticas como pessoa.

 

A literatura lgbtqiapn+ é um domínio de reivindicação da força criativa nas artes que se desdobra sobre duas vertentes. De um lado, eleva a relação da pessoa lgbt+ consigo própria, uma vez que sua vida cheia de planos, dores e amores está ali representada. De outro, faz a ponte da pessoa lgbt+ com o laço social, ou seja, ilumina a maneira de viver da pessoa lgbt+ e a coloca no movimento do cotidiano, não à margem, mas junto de toda a sociedade, assegurando seus direitos na esfera individual, social e política.

 

Literatura lgbtqiapn+ e pessoa lgbtqiapn+ se colam a um mesmo objetivo, isto é, ocupar o espaço social do corpo junto à escrita de sua história. Quando isso se realiza, outra força vem com ela: é o vigor da colaboração com políticas públicas que lutam contra o ódio da pessoa humana na homofobia, na transfobia, na lesbofobia. Pessoas à margem da humanidade e da legalidade são essas que transformam seus medos em abusos e violências criminosas. Nenhuma pessoa tem o direito de privar o ir, vir e viver de qualquer pessoa lgbtqiapn+ enquanto pessoas cidadãs. Essa é a verdadeira política da literatura lgbtqiapn+.

 

A literatura lgbtqiapn+ tem braços longos e mãos carinhosas. Ela abriga pessoas e suas relações, pessoas lgbts+ em convivência com outras formas de expressão de existência quaisquer que sejam elas. A existência das diversidades está no trabalho, na saúde, na família, na escola. A literatura lgbtqiapn+ é, então, lugar de filiação e de nossa inscrição nessa história. São elas, as Letras, uma das maneiras de se produzir o enlace coletivo e a celebração da vida lgbtqiapn+ em literatura. 

 

Ao final, modo de leitura e modo de vida se complementam. Intervenha-se nessa trama da história lgbtqiapn+ que inclui a mim, homem gay, cis, branco, e a você, na pluralidade e singularidade de ser quem se é, de ser quem somos e marcarmos nossa presença na literatura da vida lgbtqiapn+. 

 

*Nilton Milanez é escritor, professor e pesquisador sobre o tema das sexualidades e questões lgbtqiapn+ na Universidade do Estado da Bahia

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias