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Mulheres, Rua e Direitos Humanos

Por Anhamoná Brito

Mulheres, Rua e Direitos Humanos
Foto: Divulgação

Gosto das músicas de Milton Nascimento, mas não de alguns versos de Maria, Maria, apesar de a ter achado linda muitas vezes. O nó está no “é preciso ter”, atribuindo condutas às mulheres e refletindo pesos que ainda carregamos: rir ao invés de chorar, aguentar ao invés de viver, merecer e não amar, tomar dor por alegria.  

 

Somos mulheres pelo que nos unifica e pelo que nos diferencia. Os marcadores sociais da existência tornam a experiência do feminino heterogênea e exigem atenção às singularidades, que modulam as opressões de gênero e deveriam repercutir nas estratégias para sua superação. A interação rizomática das dimensões de raça, gênero, orientação sexual, cultura, classe, geração, crença e consciência, emaranham-se sem início ou fim, impactando em nossas existências e resistências. As Marias em situação de rua, por exemplo, vivem em cenas onde opressões, vulnerabilidades e desigualdades são mais acintosas, afastando-as do acesso a direitos, serviços e justiça social; gerando uma desvalorização coletiva de sua humanidade, também esvaziada em sua autopercepção.  

 

Compartilhando experiências, percebi a recorrência de crimes de estupro nas vias públicas - de dia, à noite e várias vezes numa mesma semana - praticados principalmente por homens “das ruas” e policiais. As marcas que elas trazem no corpo não estão na música de Milton: fome e outras restrições afastam-nas de um existir digno; ausência de lar referencial; uso abusivo de álcool e outras drogas; conflitos pelo não exercício da maternidade, nos termos socialmente fixados; transtorno mental gerado por violências e pela própria situação de rua.  

 

Neste mês dos Direitos Humanos e da campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim das Violências contra Mulheres”, Marias Pop Rua de todo o país estão em Brasília no I Encontro Nacional de Mulheres em Situação de Rua e suas Diversidades. Este momento marca as lutas por reconhecimento das mulheres Pop Rua como categoria analítica e grupo social estratégico, articulando pautas, políticas e práticas pela valorização de suas ideias, vivências e presenças. A garantia de seus Direitos Humanos carece de reconhecermos sua existência desumanizadora, numa sociedade que vira o rosto para não as ver e também as mata.  

 

As Marias Pop Rua - representadas por Maria Sueli Oliveira, Annemone Santos, Joana D´Arc e Rafaely Machado - tiveram na baiana Maria Lúcia Pereira, fundadora do Movimento Nacional de População de Rua, um farol. Todas discípulas de outra estrela maior, Lélia Gonzalez, com quem aprenderam o valor de assumirem a própria fala e todas as implicações, deixando “o lixo falar; e numa boa”, mesmo quando faltar fé na vida.  

 

*Anhamoná Brito é advogada, ativista de DHs, Doutora em Análise Cognitiva e Professora de Direito da Uneb

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias