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PROTOCOLO MULTICULTURAL (I): PECULIARIDADES INDIANAS


Edvalda Bomfim

Considerada como a maior democracia do mundo pelo tamanho da sua população, o sistema político da India é parlamentarista e  o voto não é obrigatório. Há um Chefe de Estado, um Chefe de Governo, duas câmaras: a baixa ou Câmara do Povo e câmara alta ou Conselho de Estado, vários partidos políticos e sindicatos. São vários, também, os seus símbolos oficiais:  a bandeira, o emblema nacional, a flor de lotus, o pavão, o tigre e a árvore de Banyan, além do Taj  Mahal que simboliza o turismo. No que se refere ao  tratamento ou a exibição desses  símbolos  existem  regras  protocolares que são tradicionais e devem ser rigorosamente observadas. Uma curiosidade acerca da bandeira nacional é que ela  só pode  ser confeccionada com um tipo especial de tecido " khãdi" um pano fiado a mão e  que ficou muito popular pois era usado e recomendado  pelo líder  Mahatma Gandhi. A bandeira nacional, por Decreto não pode  ser reproduzida em almofadas ou na parte de  vestimentas com  uso da  cintura para baixo.

Quase  tudo na India é espiritualidade, é a busca insessante do conhecimento e da remoção da  ignorância - enquanto a ignorância é como a escuridão o conhecimento é como a luz.  Uma profusão de outros símbolos, permeia à vida dos indianos neste sentido, como o da lamparina que tradicionalmente feita de cerâmica, representa o ser humano e o óleo que é queimado nela o poder da vida. Com esta intenção nos templos sempre é  oferecida uma chama. A simbologia da flor de lotus presente em muitas imagens significa  que mesmo crescendo na águas pantanosas ela não é afetada pelo lodo; da mesma forma, o ser humano deve ficar acima das ilusões do  mundo material embora esteja vivendo nele e as centenas de pétalas da flor representam a cultura da unidade na diversidade. As divindades com seus inúmeros braços, o Deus Ganesha com sua cabeça de elefante, a sílaba  OM, enfim toda uma gama de  simbolos que são vistos pelos os  outros países como a  representação da própria India.

Herdeira direta da colonização inglesa  e tendo  encontrado um  terreno fértil na hierarquizada sociedade indiana, a burocracia  é uma questão dominante em  todos os segmentos da vida pública e privada daquele país. Uma simples reunião com um empresário pecorre longos caminhos, por esta razão, o networking com profissionais indianos é imprescindível para que os trâmites nos acordos  venham a ser  agilizados. O inglês é a lingua comum para condução de negócios com estrangeiros, embora o hindi seja a língua nacional, existem ainda 15 línguas principais e  844 dialetos falados nas mais diversas regiões do país. A precedência do homem mais velho, seja nas relações familiares, comerciais ou institucionais é rigorosamente observada.

O   cartão de visita, em inglês, contendo além do nome, títulos e cargo é uma ferramenta que não pode faltar ao profissional que necessite fazer contatos com os indianos. Eles costumam usar nos seus cartões o seu nome seguido do nome do seu  pai. Se no cartão de visita de um parceiro comercial estiver escrito V. Thiruselvan ou Thiruselvan s/o Vijay, este deve ser tratado por Mr. Thiruselvan. A abreviatura V. indica o nome do pai  e s/o quer dizer que ele é filho de Vijay. Alguns indianos  preferem abreviar o seu nome, o Senhor Thiruselvan pode decidir ser tratado como Mr. Thiru ou Mr. Selvan. A orientação é que seguido ao ato de recebimento do cartão  deva ser perguntado ao interlocutor como quer ser tratado.

 É importante que seja observada a  linguagem corporal; eles mexem mais a cabeça do que os braços ou as mãos enquanto falam, ao contrário do ocidente, onde abanar a cabeça da direita para esquerda significa dizer não, na India este gesto, quer dizer sim. O cumprimento tradicional indiano continua sendo o "namastê" que traduzindo, diz: o divino que está mim saúda o divino que vive em você  e é feito com as mãos na posição da prece, em cima do coração e com  um leve gesto de inclinar a cabeça para frente, mas nas  relações de negócios com ocidentais é comum  o aperto de mão. Igualmente os árabes, os homens costumam andar de mãos dadas na rua numa demonstração de amizade, contudo, beijos e abraços em público é impróprio até  mesmo entre mulheres.

 Os indianos são muito hospitaleiros e tem o hábito de convidar, mesmo tendo acabado de conhecer, os seus parceiros comerciais para a  sua casa e costumam presenteá-los em  agradecimento pelo convite  ter sido aceito. A comida é quase sempre vegetariana e uma refeição de luxo compõe-se de 33 pratos de legumes (muito apimentados)  e 33 sobremesas  diferentes.As estratégias de negociação acontecem sempre em ritmo descontraído, são demoradas e normalmente acompanhadas de muito chá. Existem alguns tabus na cultura indiana que devem ser respeitados, por exemplo, comparar a India ao  Paquistão, perguntar a uma pessoa  a que casta ela pertence, oferecer um brinde fabricado com couro de vaca, entre outros.

Acima de tudo, quem imagina  a India  representando  uma  sociedade com um estilo de vida místico, com cheiro de insenso, guirlandas, saris, turbantes, homens santos vagando pelas ruas, enfim uma diversidade de aromas, cores e preceitos religiosos, um lugar onde se tira, deixando do lado de fora, os sapatos para entrar em templos, residências e até casas comerciais e mesmo existindo uma quantidade enorme de pessoas que não possuem poder aquisitivo para comprar um chinelo sequer, estes não são roubados. É assim mesmo!. O povo indiano embora profundamente arraigado ao sentimento de amor a sua nação e de orgulho de sua civilização ascentral, segue convivendo também com a modernidade, formando uma multiculturalidade, única no mundo.
                                                                                                                                 Namastê.

*Edvalda Bomfim é graduada em História, pós-graduada em Administração e Organização de Eventos Públicos e Privados e em Educação a Distância. Membro do Conselho Nacional de Cerimonial Público e da Associação Portuguesa de Estudos do Protocolo.
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