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Um olhar ampliado sobre a prevenção e contenção da violência no ambiente educacional

Por Fernanda Levy e Murilo Vilas Boas

Um olhar ampliado sobre a prevenção e contenção da violência no ambiente educacional
Foto: Divulgação

A sociedade brasileira vem acompanhando, durante as últimas semanas, uma crescente nos casos de violência no âmbito educacional, especialmente diante da ocorrência de diversas ameaças de atentados em escolas. Tal situação, de impacto social relevante, vem chamando atenção para a necessidade da ampliação de medidas de prevenção e enfrentamento da violência nas instituições de ensino.

 

Dentre as inúmeras reflexões que este tema é capaz de provocar, neste breve artigo pretendemos focar a respeito do papel que a sociedade e os gestores públicos são instados a desempenhar diante de um contexto de crise de base violenta e com impactos negativos na educação.

 

Em primeiro momento, podemos imaginar que o tema interessa somente aos educadores, aos estudantes e suas famílias. Porém, ao encararmos a situação com uma lente ampliada, perceberemos que um ato de violência é capaz de provocar uma crise em todo sistema social. Assim, perceberemos que não é somente possível como necessário que toda a sociedade participe dessa discussão, já que a violência tem as suas bases fincadas nas relações sociais.

 

Podemos nos questionar, por exemplo, como o nosso gesto individual poderia contribuir para a contenção e prevenção da violência em creches ou até mesmo quais medidas os gestores públicos, eleitos democraticamente, poderiam adotar para responder a esse quadro de insegurança e tensão que foi acesa nos últimos dias, mas que vem se desenrolando há muito tempo.

 

Relembrando as palavras de Marshall Rosenberg, que dedicou seus estudos e atividades à propagação da cultura da não violência, esses tristes acontecimentos nos levam a uma tentativa de compreender —nas palavras dele— “o que nos desconecta de nossa natureza compassiva, e o que faz com que há pessoas que permanecem conectadas com sua natureza compassiva, mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras”.

 

Somos seres compassivos e dotados de potencial transformador para o bem, o tema está centrado em como fazê-lo. Destacamos aqui, os meios consensuais de prevenção e gestão de conflitos que se encontram disponíveis para serem utilizados e representam grande valia, especialmente no presente momento.

 

Alguns mecanismos, a exemplo da Mediação e da Justiça Restaurativa, vêm sendo utilizados desde os tempos mais remotos da humanidade para a construção do consenso e restabelecimento de laços sociais. A mediação de conflitos, por exemplo, não possibilita exclusivamente a resolução de conflitos, mas também a prevenção e transformação dos envolvidos.  Por meio da sensibilização para a inclusão e compreensão de sua prática no espaço educacional, esse meio representa um processo construtivo, educativo e pedagógico, tanto na esfera pessoal quanto na profissional, isto é, um novo olhar para compreender o complexo sistema e problemáticas que circundam o ambiente escolar, promovendo a cultura de paz.

 

Já a Justiça Restaurativa, que se propõe a oferecer um espaço qualificado para os cuidados aos envolvidos e afetados por atos causadores de danos, atores e as respectivas comunidades de apoio, encontram no diálogo e na substituição da culpa pela responsabilidade, campo fértil para a transformação de situações conflitivas em relações de cooperação e construção conjunta, também em ambiente educacional. O propósito da justiça restaurativa é a restauração das relações entre vítimas, ofensores e comunidade, e a reparação dos danos provocados pelo conflito, tem sido entendida como uma forte aliada na prevenção da escalada da violência, já que trabalha o conflito em todas as suas dimensões e o contém para que atos mais graves não aconteçam.

 

Para que possamos promover, manter e restabelecer a harmonia no ambiente educacional, se faz  necessário um olhar ampliado sobre a prevenção e contenção da violência por meio de um esforço conjunto, uma verdadeira força tarefa que envolve toda comunidade, pais, alunos, docentes, gestores educacionais e políticos, com a participação conjunta nas discussões e no desenho de ações que serão empreendidas.

 

Nesse sentido, o que se quer aqui destacar é a importância que a participação da sociedade e a condução por parte das autoridades legitimamente instituídas no poder possuem diante de tais situações. A aproximação e parceria dos(as) gestores(as) públicos com o povo que os (as) elegeram assume, neste momento, uma grande relevância.

 

As lideranças políticas, diante de crises, também enfrentam um grande desafio de gestão, e a transparência e embasamento de suas decisões mostram-se  grandes aliadas  na sua adesão pela sociedade.

 

Neste formato, com a escuta dos anseios da sociedade, dos especialistas em educação e em gestão de conflitos, pode haver visões diferentes quanto ao teor das decisões que são adotadas pelos(as) gestores(as) em momentos de crise, mas a tendência é que haja consenso quanto a sua observância, na medida em foram construídas conjuntamente e sobre solo especializado e na confiança de que o bem de todos deseja ser preservado.

 

*Fernanda Levy é mediadora, sócia fundadora do Instituto D'accord, Doutora em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP; Murilo Vilas Boas é advogado, mediador de conflitos, pesquisador no Observatório da Pacificação Social / UFBA e membro da Comissão de Mediação e Conciliação da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias