Rede de mobilização pela democracia
O aprimoramento e o fortalecimento da democracia passam pela formação de uma consciência plena de cidadania e de enfrentamento às desigualdades sociais, questões estruturais para qualquer sociedade e governo que se deseje progressista e humanista. Apesar dos grandes avanços ocorridos nas últimas décadas e das conquistas obtidas pela população no período pós constituinte, ainda convivemos com problemas de desconhecimento dos deveres e direitos. O pior foi que governo que acaba de ruir promoveu a barbárie como regra e o negacionismo como conhecimento, desestruturando o tecido social.
É expressivo o número de pessoas que têm defendido intervenção militar e a ruptura com o estado de direito, como se este ato extremo e autoritário fosse simples como o de se trocar uma camisa. Essas pessoas mais parecem baratas tontas pedindo uma dose de inseticida. Resistir e avançar para derrotar estes pressupostos fascistas é o dever de todo cidadão que defende a democracia e a inclusão social como modelo de desenvolvimento.
Esta é uma missão inadiável para o futuro das novas gerações. A única forma de vencermos os imensos desafios colocados pelo cenário atual é com a articulação de uma Rede de Mobilização Pela Democracia. Movimento capaz de avançar do estágio em que nos encontramos em direção de uma nova política de desenvolvimento que propicie o pleno exercício da cidadania em um contexto contemporâneo e digital, distribuindo renda e assegurando os direitos sociais.
Para Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, um dos mais importantes pensadores sobre democracia da América Latina, “uma rede é um modelo organizativo que se caracteriza por sua estrutura horizontal, orgânica e com uma relativa autonomia, onde a participação é incentivada, a diversidade é valorizada e o protagonismo é de fato desenvolvido”.
O método de montagem de uma Rede de Mobilização Pela Democracia deve ocorrer a partir da construção de um imaginário coletivo que expresse um horizonte atraente, para que, reeditado, em cada campo de atuação, seja capaz de tocar as emoções das pessoas, refletir um consenso, uma ideia acima das divergências. É preciso o envolvimento de toda a comunidade. Só assim o sentimento de pertencimento poderá aflorar.
Porém, mobilizar em rede significa convocar vontades para uma ação em direção de um propósito comum, sob um sentido compartilhado. Participar de um processo de mobilização em rede é atuar com liberdade, paixão e razão, movido por valores éticos nos quais a democracia, a solidariedade e a dignidade humana são seus pilares básicos. Para isso será fundamental uma nova mentalidade que perceba a si mesma como fonte criadora da convivência social, o que requer uma sinergia contagiante.
Não podemos nos omitir, enquanto sociedade organizada, da responsabilidade de contribuir para esta coesão social em torno dos princípios universais que orientam os regimes democráticos. É nossa tarefa assumir a edificação de um projeto desta natureza. A atitude decorrente da abstenção é sempre de fatalismo ou de subserviência, nunca uma atitude transformadora e construtora de novos mundos.
Todos os governos, em todos os níveis, capitaneado pela gestão nacional, os cidadãos e cidadãs, sociedade civil, empresas privadas, universidades, imprensa, igrejas, intelectuais e outros segmentos comprometidos com a democracia e a justiça social devem ser chamados a participar desta grande Rede de Mobilização Pela Democracia. Esta é a expectativa do povo brasileiro em relação aos governos eleitos.
*Edson Valadares é secretário geral da Federação Nacional dos Sociólogos do Brasil e assessor de Planejamento e Gestão da Secti Bahia
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