Por uma outra cultura política
Tempo Rei,
Transformai as velhas formas do viver
Gilberto Gil
Tempo é orixá da transformação, do movimento. É cantando pro Tempo, através de Gil, que abrimos esse artigo falando do que compreendemos ser a conformação de uma outra cultura política, a partir das experiências que temos enquanto pesquisador em comunicação e cultura, ativista da ManifestA ColetivA e assessor parlamentar da mandata da vereadora Maria Marighella em Salvador.
Um primeiro lugar de olhada são as ainda não assimiladas manifestações de Junho de 2013, que colocaram para todes nós o desafio de reconhecer a demanda por outros modos de participação - horizontais, amplos - que não se deixam aprisionar em certas noções que afirmam que só há um modo de fazer política em nosso país. O Brasil possui como elementos dominantes da sua cultura política o paternalismo, o patrimonialismo, o patriarcado, a relação central que confere às grandes propriedades como modos de relação com a terra.
Estamos fundados, portanto, numa cultura política que se organiza através de um “cistema” patriarcal racista colonial, central para a reprodução das violências vindas da acumulação de capital, marcada por práticas racistas e misóginas que subalternizam vidas diversas - da classe trabalhadora, de mulheres, negras e negros, pessoas LGBTQIAPN+, povos originários, pessoas com deficiência - e orientada para garantir a participação e privilégios de poucos.
Por outro lado, uma outra cultura política tem reivindicado presença e ação. Contra modos hegemônicos da política institucional - não republicanos e afastados de uma compreensão radical de democracia - se afirma uma cultura política feminista, antirracista, diversa e que se nutre dos saberes e cosmovisões dos povos indígenas e negros.
Essa outra cultura política está comprometida com a ocupação permanente dos espaços institucionais, tensionando métodos tidos como “normais”, promovendo espaços permanentes de formação e garantindo uma efetiva participação popular. Uma política que tem como horizonte a convergência de interesses que beneficiam a vida pública, nunca a troca de favores ou a defesa de interesses particulares.
Uma política que estimula a participação de todas as pessoas, expandindo a noção de política para uma compreensão que coloque as vidas - em sua diversidade - na centralidade. Uma cultura política que rejeita se confundir com os pressupostos iluministas e eurocêntricos e reivindica políticas que mobilizem afetos de transformação e justiça social.
Uma política que se movimenta pelas brechas feitas cotidianamente pelas pessoas em suas vidas. Uma cultura política que, com, sob e como o Tempo, encruzilha transformando as velhas formas do viver.
*Thiago Manuca Ferreira é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, pesquisador associado ao TRACC-UFBA, ativista da ManifestA ColetivA e assessor da mandata de Maria Marighella na Câmara Municipal de Salvador.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
