Cid Teixeira: um mestre inesquecível
Faleceu nessa terça-feira, 21/12/2020, o historiador, advogado e professor da UFBA e da UCSAL, Cid Teixeira, um dos maiores estudiosos da nossa história e profundo conhecedor da sociedade baiana. Tive o privilégio de ter sido seu aluno nos cursos de graduação em História e Mestrado em Ciências Sociais, ambos na UFBA. Foi uma honra ter sido o autor da proposição para que a Assembleia Legislativa da Bahia lhe concedesse a Comenda Dois de Julho.
Além da docência, também foi articulista de vários jornais e “rádio educador”, sendo um dos responsáveis pela criação do Instituto de Radiodifusão da Bahia - IDERB. Possuidor de uma cultura e conhecimentos enciclopédicos, era um verdadeiro Google. Durante muitos anos comandou um programa de Rádio chamado “Pergunte ao José”, em que respondia sobre qualquer assunto da História da Bahia, especialmente sobre Salvador.
Suas aulas, palestras e conferências tinham uma verdadeira magia. Empregava uma didática original. Nunca o vi escrevendo na lousa ou lendo textos, no máximo consultava um roteiro, um esquema. A sua metodologia se traduzia em conversas, papos e “prosas”. Os alunos com ele interagiam em diálogos intermitentes. Não havia temas que desconhecesse e era capaz de discorrer com profundidade sobre todos os assuntos relativos à Bahia e ao Brasil.
De forma inesperada, no primeiro dia de aula, após apresentar as linhas gerais do curso a ser ministrado, avisava para os alunos que quem quisesse só a nota para ser aprovado na disciplina poderia ir para casa, pois já estava “aprovado”, mas quem quisesse estudar ficasse nas aulas. Em todas as disciplinas que fiz com ele, nunca faltei a uma aula sem um motivo maior.
Foi em uma de suas aulas que ouvi, pela primeira vez, o nome de Elomar Filgueira. Isso nos idos de 1974. Era uma recomendação para uma apresentação que seria feita no Teatro Cabus. Elomar foi referido como seu ex-aluno no curso de Arquitetura e “um compositor e cantor que trazia para a música as raízes da história sertaneja”. Fui ver o concerto, cujo apresentador foi Fábio Paes, colega do curso de história, já compositor e cantor e amigo do nosso menestrel conquistense. Desde então, me tornei um admirador da obra elomariana.
Espirituoso, dizia que emprestar e devolver livros emprestados era um ato de burrice, por isso não fazia nem uma coisa nem outra. Bibliófilo, visitei, certa feita, sua biblioteca de trabalho, que ocupava três salas abarrotadas em um prédio na Rua Carlos Gomes, para pegar umas dicas de fontes e títulos de livros.
Não levei nenhum emprestado, obviamente, mas ganhei de presente a monumental obra, rara desde sempre, “A Grande Salvador: uso e posse da Terra,” editada pela CONDER, entre cujos organizadores estavam Cid e seu filho Cidelmo.
O Mestre Cid Teixeira contribuiu para a formação de várias gerações de cientistas sociais e historiadores. Foi autor e consultor de obras decisivas para o conhecimento da sociedade baiana. Era uma fonte permanente da qual se nutriu inúmeros pesquisadores e escritores do Brasil e do exterior. A minha geração foi premiada por tê-lo como mestre e aprendido com suas aulas inesquecíveis sobre o nosso passado.
Nosso sentimento de pesar, aos familiares amigos, e de saudades.
*José Raimundo Fontes, Prof. Universitário, deputado estadual (PT), ex-prefeito de Vitoria da Conquista, Doutor em História Econômica (USP), Mestre em Ciências Sociais (UFBA), Graduado em História e Pedagogia. Homenageou Cid Teixeira com a entrega da Comenda 2 de Julho, em 2013, pela Assembleia Legislativa da Bahia
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