Covid-19 e a obsessão de Bruno Reis pelo Carnaval
Após 10 meses da campanha de vacinação contra a covid-19 Salvador ainda tem mais de 70 mil pessoas sem a primeira dose do imunizante, 283 mil pessoas com a segunda dose em atraso e 156 mil pessoas que estão aptas, mas ainda não procuraram uma unidade de saúde para receber a dose de reforço. Os números, bem preocupantes, são da Prefeitura de Salvador.
Em toda a Bahia quase três milhões de pessoas estão com a vacinação atrasada, de acordo com a Sesab. No Brasil inteiro pouco mais de 74% da população recebeu a primeira dose da vacina. Na Bahia o número é um pouco menor. O estado vacinou com a primeira dose 71% da população. Os números são ainda menores em relação à segunda dose ou à vacina de dose única. Enquanto o Brasil registra 61% de vacinados, a Bahia atinge a marca de 63%. Em Salvador a Secretaria Municipal de Saúde não disponibiliza os percentuais, mas em aparições públicas o prefeito chegou a afirmar que 80% da população já teriam recebido as duas doses da vacina e que 99% da população acima dos 12 anos já recebeu a primeira dose do imunizante.
Uma nova variante da covid-19 potencialmente muito contagiosa e com múltiplas mutações foi detectada na África do Sul e acendeu o alerta entre autoridades de saúde de todo o mundo. Apesar desse retrato, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, está com uma sanha e não fala de outra coisa que não a realização do Carnaval em 2022. Ele chega a garantir que é possível realizar a maior festa popular do mundo de maneira segura. Bruno Reis vai na contramão. Enquanto diversas cidades de São Paulo estão cancelando os já anunciados festejos carnavalescos, o prefeito quer, a todo custo, realizar a folia.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia entregou à Comissão Especial de Acompanhamento da Retomada de Eventos da Câmara Municipal de Salvador um parecer onde aponta que a festa só pode acontecer com 90% da população imunizada com pelo menos duas doses até a data do evento. Bruno Reis diz que vai conseguir atingir esse número. Ainda que consiga atingir a meta, o prefeito esquece que o Carnaval de Salvador recebe turistas do mundo inteiro. Esquece ainda que o governo brasileiro não exige comprovante de vacinação para entrada de estrangeiros no país e que o passaporte da vacina não é uma unanimidade no território nacional. Esquece que o Carnaval é uma festa de contato. De multidões. De beijos, abraços e aglomerações. Até parece que nunca curtiu um Carnaval. É uma temeridade, uma leviandade, uma grande tragédia anunciada abarrotar a cidade gente por sete dias de alegria e UTIs lotadas, insegurança sanitária e recorde de mortes nos outros 358.
Não dá para justificar a realização da festa com a geração de emprego e renda. Sabemos que a festa é altamente lucrativa, mas não podemos esquecer que cordeiros, músicos, técnicos e diversos artistas que se apresentam nos circuitos muitas vezes só vêem a cor do cachê às vésperas da folia do ano seguinte. Isso sem contar com via crúcis enfrentada anualmente pelos vendedores ambulantes que precisam se aglomerar e se humilhar por dias para conseguir a licença e poder trabalhar na festa. Festa, aliás, que é cara para os cofres da prefeitura e do governo com investimentos públicos que superam a ordem dos R$ 100 milhões de reais.
Como bom folião, estou desejando um Carnaval. Mas não é o momento. Primeiro, precisamos garantir condições seguras de voltar às ruas. Enquanto isso a gente segue com as pequenas festas, com limitação de público e exigência do passaporte da vacina.
*Lucas Figueredo é jornalista e autor do livro reportagem Só por Hoje – A luta dos Dependentes Químicos em Reabilitação
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