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A queda do futebol baiano

Por Pablo Coutinho

A queda do futebol baiano
Foto: Divulgação

O ano de 2021 não poderia terminar de maneira mais melancólica para os amantes do futebol baiano: Bahia, Vitória e Jacuipense foram rebaixados para as Séries B, C e D, respectivamente; e o máximo obtido por Atlético de Alagoinhas, Bahia de Feira e Juazeirense, os participantes do estado na Série D deste ano, foi uma eliminação na segunda fase da competição. O maior feito, em termos nacionais, do futebol baiano no ano foi colocar pela primeira vez três clubes da Bahia na fase das oitavas de final da Copa do Brasil, com todos sendo eliminados ainda nesta etapa. Será que o fraco desempenho é apenas coincidência?

 

Segundo a literatura da Economia Regional, existem evidências de que, ao observar uma determinada indústria, estar geograficamente próximo de firmas com boa performance, afeta positivamente o próprio desempenho de uma firma. Em outras palavras e trazendo a ideia de forma mais simples, a melhor localização possível que um empreendedor pode escolher ao decidir abrir uma farmácia, por exemplo, é próxima de farmácias com bons resultados. Dentre diversos motivos, isto ocorre principalmente por: conta da possibilidade de encontrar com maior facilidade trabalhadores especializados; maior disponibilidade em negociar com fornecedores e encontrar serviços que atendam a firma; e pelo conhecimento gerado através da troca de informações. Mas qual a relação deste assunto com o futebol?

 

Em um estudo realizado para o futebol da Inglaterra, publicado na revista Regional Studies em 2018, os pesquisadores Justin Doran e Declan Jordan analisaram o efeito da proximidade geográfica e rivalidade no desempenho dos clubes a partir de evidências da Liga Inglesa de Futebol.  Além de confirmar a importância de fatores mais tradicionais no desempenho, como a riqueza do clube e mudança de treinadores, a principal contribuição do estudo foi demonstrar o impacto da dependência espacial entre os clubes na performance dentro da Liga Inglesa. Isso significa que, assim como em outras indústrias, dentro da indústria do futebol na Inglaterra, estar geograficamente próximo de clubes com melhores resultados, em média, afetará o desempenho de um clube positivamente e, de forma análoga, estar perto de clubes com resultados ruins o impactará negativamente.

 

Apesar do estudo similar aplicado ao futebol brasileiro ainda estar em fase de desenvolvimento, há uma forte hipótese de que, assim como no caso da Liga Inglesa, a proximidade geográfica afeta o desempenho no Campeonato Brasileiro. Analisando os 10 últimos campeões brasileiros, por exemplo, é possível observar que todos os títulos foram de clubes localizados na Região Sudeste: o estado de São Paulo possui 4 títulos, enquanto Minas Gerais e Rio de Janeiro possuem 3 títulos cada. Como uma das possíveis implicações, caso esta hipótese seja confirmada, dentre outros fatores, investidores irão considerar o contexto geográfico ao decidir aplicar seus recursos, tais quais já ocorrido com a parceria da Red Bull com o Bragantino, clube localizado em São Paulo.

 

Analisando evidências do futebol baiano, representado principalmente através de Bahia e Vitória, é difícil acreditar que o ocorrido em 2021 seja apenas coincidência. Desde o início da disputa do Campeonato Brasileiro pelo método dos pontos corridos em 2003, Bahia e Vitória foram rebaixados conjuntamente em 3 ocasiões: 2005, com ambos caindo para a Série C, 2014, com ambos sendo rebaixados para a Série B e 2021, com Bahia caindo para a Série B e o Vitória para a C. Principalmente através de péssimos desempenhos compartilhados, torcedores baianos, ao dividirem o sentimento de que Bahia e Vitória “caminham de mãos dadas na mesma direção”, percebem intuitivamente o impacto negativo dos clubes estarem localizados próximos de outros com desempenho fraco, inclusive o impacto de um estar próximo do outro.

 

Como principal ensinamento para Bahia, Vitória e demais clubes baianos, fica a lição de que, além de se preocuparem com a administração e desempenho dos próprios clubes, é necessário que fiquem atentos a performance dos clubes geograficamente próximos, afinal, serão afetados por ela. Para entidades como a Federação Baiana de Futebol, deve-se buscar cumprir um de seus objetivos fundamentais que é “aperfeiçoar constantemente o futebol e promovê-lo em todo o território estadual”, de modo que a Bahia possua cada vez mais clubes com bons desempenhos. Ao torcedor baiano, o desejo que fica é de que em temporadas futuras, seja possível comemorar muito mais do que o rebaixamento do seu rival e que os principais clubes estejam disputando entre si objetivos cada vez maiores.

 

*Pablo Coutinho é pesquisador da área da Economia do Esporte, mestrando em Economia e Economista pela UFBA

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias