O BEM-VINDO SOCORRO FINANCEIRO DOS EUA

Merheg Cachum
Embora atrasada, foi muito positiva a aprovação pelo Congresso norte-americano e sanção pelo presidente George W. Bush do plano de socorro às instituições financeiras, de US$ 850 bilhões. A derrota do pacote na primeira votação realizada na Câmara dos Deputados havia semeado medo e pânico em todos os mercados. Uma ironia, pois ocorreu exatamente nessa casa a gênese do crash das hipotecas, com a aprovação de lei que reduzia, de maneira populista, as garantias necessárias à concessão dos créditos. O Executivo, que sancionou a medida, também tem grande responsabilidade no processo, pois não se mostrou muito preocupado em fiscalizar e controlar a liquidez dos financiamentos imobiliários.
O socorro ao sistema financeiro não interessa apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo, que não pode pagar preço tão elevado em decorrência de um problema nascido em decorrência de uma série de equívocos cometidos por políticos e alguns poucos empresários inescrupulosos. O povo norte-americano, que construiu com trabalho e competência a maior economia do Planeta, também não pode ser tão apenado pelo populismo político, pelo hiato de liderança que parece abater-se sobre seu país (considerando que a Câmara dos Deputados, na primeira votação, ignorou os argumentos do presidente da República e dos candidatos à sua sucessão) e por uma política irresponsável de financiamento.
O plano de contingência sancionado por George W. Bush é a única alternativa capaz de evitar o pior neste momento. É verdade que o socorro sairá do bolso dos contribuintes do fisco dos Estados Unidos, já que virá dos impostos, mas é o menor dos males. O governo norte-americano não tem, é óbvio, uma situação fiscal das mais confortáveis na presente conjuntura, em que um imenso ralo de dinheiro chamado "intervenção no Iraque" consome pesadíssimas verbas oficiais. No conjunto, a situação é realmente grave, mas não há opção, a não ser o pacote de resgate financeiro.
Espera-se uma reação urgente da economia mundial à aprovação e sanção do pacote, depois do susto que os deputados deram no mundo, derrubando as medidas na primeira votação. Definitivamente, não é hora para arroubos de neoliberalismo. Mais do que nunca — para os norte-americanos e a humanidade! — é muito bem-vinda e necessária a intervenção do Estado nesse processo. Há um consenso cosmopolita quanto ao acerto da medida. Sua adoção já não garante plenamente uma saída rápida para a crise. Se fosse derrubada, seria impossível prever a extensão e profundidade das conseqüências.
A economia dos Estados Unidos, como se sabe, é um terço do PIB mundial. O país teve todo o mérito na construção dessa riqueza, cujos fundamentos baseiam-se no trabalho, na valorização da iniciativa privada e no inegável respeito às liberdades individuais e coletivas. A sua saga de desenvolvimento é uma referência para toda a presente civilização. Assim, não se pode colocar em dúvida o paradigma histórico desse povo vencedor. Contudo, para os próprios norte-americanos não teria sido prudente radicalizar os princípios de uma doutrina econômica em detrimento da preservação de tudo o que edificaram com trabalho, suor e lágrimas.
Por tudo isso, deve-se avaliar com otimismo a viabilização do plano de socorro por parte do Congresso e do Governo dos Estados Unidos. Os norte-americanos, latino-americanos, europeus, asiáticos, africanos e oceânicos agradecem...
*Merheg Cachum é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).