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Saída da Ford precisa acelerar mudanças

Por Ricardo Alban

Saída da Ford precisa acelerar mudanças
Foto: Fernando Duarte / Bahia Notícias

O ano começou com uma péssima notícia para o país, em particular para o setor industrial: o encerramento das atividades da Ford em território nacional, inclusive a fábrica em Camaçari, na Bahia, que teve papel fundamental na indústria no Estado. Mas não é a primeira empresa automotiva a fazer um anúncio dessa natureza em tempos recentes, o que revela uma dificuldade competitiva estrutural da nossa economia.

 

O fato de uma empresa como a Ford encerrar as atividades de produção no Brasil e mantê-las na Argentina e Uruguai, por exemplo, denota dificuldades muito maiores.

 

Quando os fundamentos são ruins, incentivos específicos, como estímulos fiscais localizados, dificilmente resolvem, e a realidade se impõe. É hora de as lideranças da indústria e os formuladores de política agirem de forma ampla e na mesma direção, sem deixar que especificidades travem o debate e atrasem as medidas que precisam ser tomadas.

 

Que a saída da Ford sirva de catalisador.

 

Na Bahia, o impacto será significativo. O setor automotivo representa cerca de 5,5% do Valor da Transformação Industrial, além de cerca de 4,1% do pessoal ocupado na indústria de transformação. O prejuízo estimado é de R$ 5 bilhões para a economia estadual, valor equivalente a 2% do PIB. Além dos sistemistas, que atuavam na própria fábrica da Ford, serão impactados fornecedores diretos e indiretos nas áreas de pneus e petroquímica, as atividades portuárias e de logística.

 

A pergunta que se impõe é: a saída da Ford vai acelerar o processo de desindustrialização no país, como economistas já apontam, ou servir de catalisador para mudanças?

 

A indústria representa 21,8% do PIB do Brasil, mas essa fatia era 27,4% em 2010. Está claro que, além das medidas macroeconômicas urgentes para melhorar os fundamentos econômicos do país, precisamos de uma nova política industrial que se adeque e ganhe tração com a nova realidade brasileira e global.

 

Sem isso teremos mais baixas num setor que responde por 70,1% das exportações de bens e serviços, por 72,2% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por 33% dos tributos federais (exceto receitas previdenciárias).

 

Para cada R$ 1,00 produzido na indústria, são gerados R$ 2,40 na economia como um todo, efeito que se estende ao desempenho do agronegócio, que colhe frutos com a mecanização e a tecnologia providas pelo setor industrial.

 

Por que não aprendemos justamente com o agronegócio e construímos uma Embrapii à imagem e semelhança da Embrapa? Esta, criada em 1973, ajudou a transformar a agropecuária brasileira e tem orçamento anual de R$ 2 bilhões. Enquanto isso, a Embrapii tem à disposição apenas R$ 50 milhões para aplicação em pesquisa da indústria. Sem pesquisa e inovação num mundo globalizado, vamos ficar ainda mais defasados.

 

A pandemia agravou esse cenário. Muitos países adotaram medidas agressivas em defesa de seus mercados, empresas e empregos. O Brasil precisa rever a sua estratégia de inserção no mercado global, buscando resguardar os interesses nacionais. Mas isso não significa protecionismo ou simplesmente subsídios.

 

Muitas transformações estão em curso e deverão se intensificar nos próximos anos, como a necessidade de agregar valor através da maior simbiose entre produto, serviços, conectividade, inteligência artificial, big data etc. As potencialidades da indústria precisam ser tratadas de forma estratégica, assim como a necessária integração entre os setores industrial e de serviços, pelo bem do país.

 

O mundo e as cadeias industriais estão se reorganizando e o Brasil, em termos de competitividade industrial, não pode ficar para trás, sob pena de ampliar a distância que nos separa dos países desenvolvidos. Todos os Poderes precisam enxergar esta tendência e, juntos, produzirem as políticas necessárias para que o país encontre o melhor caminho para a sustentabilidade industrial.

 

O país não pode se limitar a ter apenas um grande e próspero agronegócio. A pauta da indústria está além das suas atividades de manufatura. Sua integração com os demais setores da economia é vital para uma nova lógica de desenvolvimento.

 

A agregação de valor e a diversificação produtiva são fundamentais para consolidar uma nova estratégia, que passa também pela redução das desigualdades, inclusive as regionais. Construir cadeias produtivas que integrem diversas regiões do país também são uma importante forma de avançar na competitividade e na diversificação da produção.

 

Não faltam caminhos. Nem alertas, como o da Ford. É hora de agir.

 

*Ricardo Alban é presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias