Calendário CBF 2021: que seja a gota d'água para criação da Liga de Clubes
Poderíamos desenvolver um tratado sobre o funcionamento da CBF e a sua política interna, com um estatuto que privilegia as Federações estaduais que, na sua maioria, pouco produzem pelo futebol brasileiro e ainda abocanham dinheiro que poderia ser dos clubes (basta ver borderôs dos jogos).
Poderíamos também falar da pífia produção e promoção do futebol brasileiro, que não tem qualquer força internacional (à parte, evidentemente, a seleção brasileira). Até no mercado interno o produto brasileiro se tornou coadjuvante, afinal, finais da Europa League e Champions League geram muito mais engajamento no Brasil do que qualquer jogo do Campeonato Brasileiro, vide a polêmica da cessão da Allianz Parque em dia de clássico entre Palmeiras e Santos para realização de um Drive-in com transmissão da partida entre PSG e Bayern.
O que a CBF faz pelos clubes brasileiros, de fato? Abre linha de crédito na crise do COVID? Aliás, por que a CBF acumula tanto dinheiro? Para quem?
Por que o futebol brasileiro não tem um calendário decente, com férias, pré-temporada e até uma janela adequada de contratações?
Sou defensor de que uma janela de contratações forçaria a melhora da gestão de futebol dos clubes, pois impediria aquisição de reforços em meio à temporada e a cada pequena crise em campo. Privilegiaria organização e planejamento. Mas o Brasil, diferentemente dos países civilizados, não tem “janelas” bem definidas para contratação. Tem, sim, um “varandão gourmet” que permite inscrição nos campeonatos durante quase o ano inteiro.
E os direitos de transmissão? A inércia da CBF (que vende sua Copa do Brasil – suposta e equivocadamente ventilada como a competição que melhor paga no país) contribui para a subvalorização do Brasileirão (esse, sim, seu produto premium) e para a má distribuição dos recursos provenientes dessa rubrica. Precisou o Flamengo se alinhar ao presidente da república, notadamente inimigo da Globo, para sair uma MP que chacoalhou o sistema, mas deve ser escanteada pelo nosso viciado congresso. E havia os que diziam que o tema não deveria ser tratado por Medida Provisória... Há anos existem projetos sendo discutidos e não vemos (nem veremos) evolução do assunto.
Fato é que não há uma instituição capaz e preocupada em melhorar e promover o nosso futebol. A necessidade de união dos clubes com criação de uma associação ou liga é urgente. Seja para pensar o futebol brasileiro comercialmente, com patrocínios, direitos de transmissão, direitos de apostas, gamificação etc; seja para pensar nosso futebol como produto em si mesmo, com maior qualidade técnica e um calendário de verdade que respeite e valorize clubes, atletas, parceiros e torcedores/consumidores.
O último soco no estômago dos amantes do futebol brasileiro foi a publicação do calendário 2021 pela CBF. O Brasileiro desse ano acabará em fevereiro do ano que vem e será seguido, imediatamente, pelo início dos estaduais 2021...
Não paramos (nem pararemos) nossos jogos em datas Fifa! Para quê, não é mesmo? Para valorizar nosso campeonato e não enfraquecer nossos times? Quem precisa disso?
Os estaduais faliram há muito tempo (com raras exceções, como o paulista), mas a CBF os banca porque, por sua estrutura, quem lhe sustenta politicamente são as Federações. Se não dá para mudar a “Casa do Futebol Brasileiro” que os clubes alicercem sua nova residência. Que montem uma estrutura capaz de pensar o futebol brasileiro, verdadeiramente, como um produto da indústria do entretenimento.
Com profissionais de gabarito cuidando do Brasileirão teríamos algo de extremo valor para levar ao mercado mundial.
Hoje, entretanto, temos apenas uma possibilidade...
Temos o romantismo do futebol pentacampeão...
Um celeiro de craques...
E paraíso de cartolas incompetentes.
*Pedro Henriques é executivo do esporte e advogado
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