Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Artigo

Artigo

'Depois que nasce, ninguém se importa'

Por Andrea Marques

'Depois que nasce, ninguém se importa'
Foto: Divulgação

Às vezes tenho a impressão de estar vivendo numa realidade paralela: o mundo em que algumas pessoas pensam viver e o mundo em que eu existo com outras tantas. Desde 1997, após ler o livro "Quem Mandou Nascer Mulher?"[1], uma série de estudos patrocinados pela UNICEF a respeito da realidade vivenciada por crianças e adolescentes pobres das cidades do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, foi que consolidei a minha bandeira em prol da defesa dos direitos das meninas, das mulheres e do feminismo.  Desde então, tenho vivenciado essa luta e provocado instituições públicas e privadas, grupos e lideranças a perceberem que somos ao mesmo tempo fruto de uma sociedade violenta com meninas e mulheres e, ao mesmo tempo, produtores inconscientes dessa violência.

 

Nesses últimos dias, a sociedade brasileira "se deparou" com a notícia que uma menina de 10 anos estava grávida de seu próprio tio de 33 e que sofria violência sexual há pelo menos 4 anos. Desse calvário de abusos, aconteceu a gestação e a criança foi submetida ao abortamento legal, após protestos raivosos de conservadores "pró-vida" e de milhares de comentários nas redes sociais, imprensa escrita e falada. Houve quem tentasse impedir a realização do aborto, quem xingasse a criança de 'assassina' e quem tentasse partidarizar a polêmica, aproveitando-se da aproximação das eleições e do dualismo perverso que se tornou esse país. A criança está sendo acompanhada por uma equipe multidisciplinar e irá se recuperar em poucos dias do procedimento hospitalar a que foi submetida. Dos traumas psíquicos decorrentes de anos de abuso, talvez nunca se recupere, como costuma acontecer com milhares de crianças abusadas diariamente por décadas no Brasil.

 

Foram dias de horror nas redes e de grande espanto: as pessoas pareciam não saber que isso acontece habitualmente nos lares brasileiros. Não apenas o abuso sexual de crianças, mas a gravidez na infância. Tudo sendo tratado como grande novidade, surpresa, a bola da vez. Levantamento divulgado em 2019 pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, apontam que 90% dos crimes de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes acontecem no ambiente familiar. Quatro meninas de até 13 anos são estupradas a cada hora na nossa amada pátria. 500 mil é o número de vítimas de exploração sexual por ano, segundo a estimativa pelo Disque 100, com base em denúncias registradas nos últimos anos. Só em 2018, foram 32 mil ocorrências de abuso sexual infantil, o maior registrado desde 2011, quando os agentes de saúde passaram a ser obrigados a notificar o Ministério da Saúde sobre as vítimas.

 

A garotinha de 10 anos seria apenas mais uma a somar esses números esse ano, mas, por uma escolha de algum veículo de imprensa, virou notícia e todos - de repente - ficaram sabendo que meninas são estupradas por seus familiares e que desse estupro surgem meninas grávidas e que têm direito à interromperem a gestação. Houve, para minha indignação, um levante de pessoas para proteger o feto fruto dessa violência, sob o argumento de que era um inocente em formação e que tinha direito à vida. Seguramente o mesmo grupo de pessoas que vocifera pela pena de morte, no discurso "bandido bom, é bandido morto"; que exige a redução da maioridade penal para 16 anos; que acha importante o trabalho infantil, para colocar desde cedo no "caminho certo". Acontece que esse discurso é sempre direcionado às crianças pobres, as excluídas, as famintas, as que vão crescer na vulnerabilidade, ser abusadas, exploradas, criminalizadas e banidas. Porque se o ventre é pobre, o discurso "pró-vida" é sempre hipócrita. Afinal, depois que nasce, ninguém se importa.

 

*Andrea Marques é ativista feminista, advogada há 23 anos, ilustradora, mestranda em estudos de gênero, mulheres e feminismo pelo PPGNEIM/UFBA

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

 

[1] MADEIRA, Felícia Reicher, "Quem Mandou Nascer Mulher?" Estudos sobre Crianças e Adolescentes Pobres no Brasil, Rio de Janeiro: Record/Editora Rosa dos Tempos, 1997.