Sexta, 26 de Junho de 2020 - 10:00

'A MP 984 vai acelerar o Bahia!' Será?

por Leandro Barros

'A MP 984 vai acelerar o Bahia!' Será?
Foto: Acervo pessoal

O posicionamento do presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, sobre a MP 984 (MP que altera os direitos de transmissão) causou surpresa em alguns torcedores e em alguns setores da imprensa, mas não deveria. Em agosto de 2019 Bellintani esteve no programa Bola da Vez da ESPN e já deixava público o seu posicionamento em favor de uma mudança que desse direitos de transmissão exclusivamente ao mandante, alegando ser esse o modelo utilizado em outros países.

 

Antes de entrar em qualquer abordagem é importante lembrar que, por ser uma Medida Provisória, ela tem um prazo máximo de 120 dias (60 dias prorrogáveis uma vez por igual período) para ser votada na Câmara. Ultrapassando o prazo, ela caduca e perde a validade.

 

O que muda com a MP?

A MP 984 alterou a maneira como as transmissões esportivas serão comercializadas. Antes uma partida só poderia ser transmitida se os dois clubes envolvidos tivessem um contrato firmado com a mesma emissora, agora o direito de comercializar passará a ser exclusivo do mandante. Portanto, caberá a cada clube negociar a venda dos seus próprios jogos na condição de mandante sem a necessidade de envolver o visitante na negociação.

 

Não será necessário entrar em detalhes para explicar que essa MP foi feita e publicada às pressas para beneficiar o Flamengo em sua briga na renovação do contrato com a Rede Globo, afinal essa manobra política foi tão escancarada que, horas após a publicação, a MP ganhou o apelido de MP do Flamengo. Por enquanto, essa medida terá efeito apenas nos jogos do Flamengo no Campeonato Carioca, pois no Campeonato Brasileiro o contrato do clube do Rio (e de quase todos os clubes) com a emissora vai até 2024.

 

Faz muito sentido um clube que possui a maior torcida do Brasil e que possui o maior potencial de vendas do país perceba que esse novo modelo poderá fazer sua receita atingir níveis que dificilmente serão alcançados por outros clubes que joguem contra ele na temporada. As interrogações começam quando tentamos compreender como o presidente do Bahia consegue ver o tricolor baiano sendo beneficiado nesse processo.

 

Em sua conta no twitter, Bellintani relacionou treze pontos que sustentam o seu encantamento com a Medida Provisória. Destaco aqui o item 7 pois é o ponto de partida de um desencadear de dúvidas:

 

“7. Com a MP, a Tv Aberta do Bahia ganha mais força. Temos como vender nossos jogos contra Flamengo, Corinthians, Vasco e Palmeiras. Mais uma vez, a formação de blocos será importante. Bahia sozinho não terá muitos caminhos.”

 

Não há como discordar que jogar contra esses 4 clubes gera uma maior valorização do produto televisivo e consequentemente permite comercializar a transmissão dessas partidas por preços maiores, porém um campeonato não é composto apenas por 4 ou 5 clubes e as incertezas começam a aparecer quando o assunto é o interesse nas partidas de médio apelo comercial e nas partidas de pequeno apelo comercial. São partidas que passarão a ser menos atrativas para as audiências na televisão e forçará o clube a comercializá-las por valores baixos, havendo até casos em que ofertas de valores poderão sequer acontecer.

 

Conforme já abordado pelo pesquisador Anderson Santos (autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” e colega no Podcast Baião de Dois), a mudança que pôs fim a um modelo que realizava acordos sobre os direitos de transmissão com o bloco do Clube dos 13 e estabeleceu um modelo onde cada clube poderia negociar seu contrato individual, gerou, de 2012 a 2018, um aumento na distância entre as receitas dos clubes que possuem maior visibilidade nacional e os clubes de menor visibilidade. Com essa negociação individual, o Bahia conseguiu acordos melhores do que os anteriores e aumentou a sua captação no mercado. Em contrapartida, outros clubes cresceram financeiramente em uma proporção inalcançável para o tricolor baiano.

 

A atual modificação criada pela MP individualiza ainda mais os contratos e poderá criar abismos financeiros ainda maiores entre os clubes. Não é necessário muito esforço para concluir que mesmo você saindo de um motor 1.0 para um motor 1.8, você não entrará em condições de competir com um piloto que saiu do carro 2.0 para o carro 4.0. Por mais que uma nova regra te ofereça possibilidades de conseguir um motor 2.5, o outro competidor irá para um motor 6.0 e fará de você um ser pouco significativo na disputa. A desvantagem de mudanças nessas proporções são claras e já temos o reflexo disso nos campeonatos nacionais e também na copa do nordeste, mas, de acordo com a sua entrevista no Bola da Vez e seu atual entusiasmo, Guilherme Bellintani entende que isso não incomoda, afinal ele trabalha com a situação hipotética de que “amanhã um patrocinador poderá oferecer ao Bahia o mesmo que oferece ao Palmeiras”.

 

A realidade no estado da Bahia

É importante observar que estamos diante de uma comparação com clubes que ultrapassaram as divisas do seu próprio estado e se espalharam por todos os estados do Brasil (em função de uma consequência histórica de políticas públicas nas comunicações concentradas na expansão do sinal do Rio e de São Paulo para todo o país). Ainda que ocorra a intenção de realizar comparações com clubes que concentram a sua torcida no próprio estado (Gremio, Inter, Cruzeiro, Atletico Mineiro), a construção histórica diverge do modelo que tivemos no estado da Bahia. Na realidade do nosso estado, quanto mais distante da capital, menor é a mobilização da cultura do futebol em torno da dupla Bavi e maior se torna a ligação dos torcedores com os clubes do Rio e de São Paulo. Dessa forma, a base da torcida do Bahia se resume a região metropolitana de Salvador, região do recôncavo, região de Feira de Santana e Alagoinhas.

 

Duas grandes apostas vem sendo apresentadas pela atual gestão tricolor: as possibilidades do Bahia explorar mais o seu próprio serviço de streaming, o que é uma discussão atual no mundo desportivo, e as possibilidades de formar blocos de negociações com outros clubes para ter um maior poder de barganha.

 

Sobre o serviço de streaming, existem, de fato, modelos fora do Brasil em que clubes transmitem suas partidas no streaming e usam esse modelo para buscar expansão de torcedores além do seu território, porém considerando que a busca do Bahia por território ainda está na na faixa dos 200 km além da capital e, tendo consciência do déficit de velocidade de internet que existe em diferentes regiões do estado (sem nenhuma perspectiva concreta de mudanças no panorama), como é possível compreender que o serviço de streaming fará o Esporte Clube Bahia alcançar esse posicionamento pretendido? E sobre a formação dos blocos? Como apostar em um modelo de formação de blocos quando o histórico dessa prática no Brasil mostra que ela sempre deixou ou tentou deixar de fora os clubes de pequeno e médio alcance? Qual o tamanho da base comercial que o Bahia terá a oferecer que o fará entrar em condições plenas de colocar também as suas condições dentro de um bloco de clubes que possuem condições de negociar um pacote de todos os seus jogos? Como os torcedores terão acesso a algum jogo do Bahia fora de casa se o clube mandante também apostar no seu próprio streaming?

 

São muitas as questões, mas poucas são as respostas que trazem para a mesa quais foram os elementos que geraram toda essa maré de otimismo. Até o momento só podemos ter duas certezas. A primeira é que correr na esteira vai ajudar na manutenção da sua saúde, mas não te fará sair do lugar. A segunda certeza é que a MP seguirá seu curso natural no legislativo (esperamos que até lá ele ainda exista) e passará por debates, propostas de emenda, lobby etc. Até o final do processo tudo poderá mudar, mas será importante acompanhar e saber por quais propostas se mobilizaram os gestores dos clubes e quais as consequências das propostas por eles defendidas.

 

 

*Leandro Menezes Barros Oliveira é jornalista, produtor do Podcast Baião de Dois na Central 3 e pós-graduando em Gestão Cultural pela Universidade Estadual de Santa Cruz

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Histórico de Conteúdo