Combinaram com os russos?
Nos contam que em 1958, Vicente Feola, técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, idealizou uma jogada complexa envolvendo vários jogadores da sua equipe, que transporiam a forte defesa da Rússia e finalizaria com Garrincha marcando um tento. Após a sua exposição, o Anjo de Pernas Tortas teria lhe indagado algo assim: “Tá legal, Seu Feola, mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?”.
Essa história que é por todos nós conhecida tem uma amplitude incrível, sempre nos fazendo reviver o espírito crítico e sarcástico do craque Garrincha, e se aplicando a inúmeras situações da vida.
E, hoje, penso eu, que a pergunta tem pertinência no que tange ao tão pretendido retorno dos jogos de futebol em tempos de pandemia da covid-19.
Ultimamente, temos assistido com muita frequência um debate acerca da viabilidade do retorno dos clubes aos gramados para darem sequência aos jogos interrompidos em meados de março e, assim, concluir as competições previstas no primeiro semestre do ano e se iniciar o Brasileirão 2020.
Não raro se publica uma notícia sobre lançamento de protocolo de saúde, se ventilam novas fórmulas de campeonatos, sempre almejando-se o retorno. Há, atualmente, uma certeza de que qualquer retorno será gradual, inicialmente pelos treinos – lógico! – e, passadas algumas semanas, culminando com as partidas oficiais e sua transmissão pelas redes de televisão – o sonho de milhões de torcedores órfãos de viver momentos de amor/ódio por seu clube do coração.
Muito embora se perceba que essa movimentação se iniciou de forma esparsa, com uma publicação da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (FFERJ), divulgando um bem concebido protocolo; em seguida, a edição de outro protocolo, agora pela Federação Catarinense de Futebol (FCF); e as reuniões no âmbito da Federação Paulistas de Futebol (FPF), entre a entidade e os seus filiados, discutindo como se poderia retomar o certame e definindo que este não será finalizado, senão em campo.
Desde a deflagração da pandemia, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também se manteve alerta, mas adotando um perfil mais discreto, seguramente, com tratativas com o Ministério da Saúde, federações e clubes para encaminhar um retorno das atividades do futebol brasileiro. Mas, fato é que se manteve silente para todo o grande público, sobretudo o consumidor de esportes.
A sensação que se passou até o momento é que não existe no Brasil uma ação conjunta dos órgãos de governo do futebol nacional e estaduais, quero dizer, desde o começo cada um atuou nos limites territoriais de alcance, inobservando que a pandemia nos impõe soluções e saídas para os problemas que se apresentaram de maneira coletiva.
Força convir que as realidades locais serão preponderantes para que um campeonato possa ser realizado, o índice de contágio da população e o grau de saturação do sistema de saúde são dois índices que talvez possam influenciar, para retorno ou não dos jogos. Inafastável, portanto, a realização de jogos sem que conte com anuência e apoio dos poderes públicos, especialmente porque em diversos estados e municípios existem decretos proibindo a realização de eventos esportivos.
Além disso, dada a magnitude dos efeitos da covid-19 ninguém quer arriscar fazer nada sem respaldo do Estado. E, nesse caso, penso, não pode ser diferente, é preciso que as ações tomadas estejam alinhadas com os entes públicos federal, estadual e municipal. Digo até mais, deve se observar, também, o que nos diz a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Com efeito, o papel de liderar este movimento é da CBF, enquanto órgão máximo do futebol no Brasil. Malgrado me pareçam louváveis os esforços dos Presidentes das Federações Estaduais, o momento demanda uma ação única e concentrada para se criar protocolo único e capaz de ser cumprido por todos os clubes, pois até mesmo em torneios estaduais como o paulista ou carioca, existe abismo entre os grandes clubes e os menores.
Portanto, de nada adiantará criar um protocolo que se reflita como impossível de se executar pelos clubes menores. Diz-se isso, pois, a segurança ao derredor da normativa de saúde deve ser inflexível.
A despeito disso, nota-se que todo o debate sobre retorno de treinos e jogos tem sido conduzido por CBF/Federações e clubes, porém, é preciso se indagar: o que acham de tudo isso os técnicos, atletas e árbitros?
Não se leu uma notícia de que, durante as reuniões, as representações de atletas, técnicos ou árbitros indicaram médicos para colaborar ou mesmo opinar sobre os protocolos de saúde concebidos até agora.
É ai que a memória de Garrinha com sua impertinente – mas oportuna- pergunta “já combinaram com os russo?” se mostra atualíssima e adequada!
Relembro que muitos técnicos fazem parte de grupo de risco, atletas, sobretudo os mais jovens, residem com pais/avós, sem mencionar aqueles que têm em sua residência outras pessoas que integram os ditos grupos de vulneráveis à covid-19.
Além disso, são jogadores, técnicos e árbitros que mais se expõem desde os treinamentos, às viagens, concentrações e durante as partidas. Após retomado o campeonato, serão esses três que mais terão contato com agrupamentos de pessoas diferentes, fora de determinado grupo restrito.
As notícias que veiculam do retorno do futebol se originam de dirigentes esportivos, como se ignorassem o diálogo necessário com os que são as estrelas principais num espetáculo de futebol, aqueles que vão à jogo efetivamente.
A convocação de representações de atletas, técnicos e árbitros para debater o assunto, conhecer os protocolos, opinar ou sugerir é medida que se impõe dentre da perspectiva de resolução coletiva! E mais, a abertura de diálogo interno dos clubes com seus atletas e técnicos para identificar meios e formas de melhor regressarem é também utilíssimo.
Uma simples busca em redes sociais revela que atletas, em especial, estão temerosos, não exibem a confiança dos dirigentes, vide postagem recente de Alexandre Pato no Twitter (conta @pato):
Apesar de ser uma pergunta aos seguidores, a verdade é que não há plena confiança nas palavras de Pato quanto a voltar a treinar ou jogar, sobretudo em São Paulo. E ele está certíssimo.
O efeito da ausência participação efetiva destas três peças-chave na retomada dos jogos poderá resultar em insatisfação destes, muitas vezes até escamoteada, que, naturalmente, poderá se refletir em campo e no dia-a-dia nos Centro de Treinamentos.
Poderíamos crer que um atleta, com medo de viajar, simulasse uma contusão?
E dentro de campo, claro que ali quando a bola rola ninguém pensa em mais nada, senão ganhar a partida, mas, se tiver um segundo em que o sangue esfrie, será que não virá medo de evitar choques com outros atletas, formar aquela aglomeração na grande área...E se algum outro atleta espirar os tossir com frequencia?
Será que os árbitros arriscarão tudo para cruzar o país ou seus estados para apitar jogos? Ou, irão dar aquele pito ou bronca olho-no-olho de atletas?
Apesar de tais incertezas, noticia-se que oito clubes da Série A reiniciarão suas atividades, sendo que destes somente Grêmio e Internacional farão de forma presencial, os demais por meio virtual.
É preciso que dúvidas sobre a covid-19 sejam sanadas junto aos atletas, que se internalizem os (novos) comportamentos para se adotar dentro e fora de casa, que haja um compromisso ao derredor deste retorno da atividade do futebol e se crie um ambiente de segurança, para além de se cumprir a obrigação hierárquica natural da relação empregador e empregado.
D’outro giro, até o momento não se observa a grita de entidades de classes destes pedindo assento à mesa, para debater o assunto, ao contrário de quando se fala de qualquer mudança legal para modificar seus direitos. E, como disse, os treinos estão iniciando, perdeu-se valioso tempo para encetar este debate.
Atletas, técnicos e árbitros fazem parte do sistema do futebol profissional e devem ter esta compreensão da sua importância para o seu funcionamento, assim como, os clubes são relevantes para a existência do atual modelo. É uma relação orgânica. O sistema precisará de todos para poder sobreviver, não existe o futebol sem cada um dos atores que aqui menciono.
Assim como é preciso que Federações/Clubes se recordem de atletas, técnicos e árbitros para construir o novo cenário do futebol nacional, estes precisam assumir postura mais proativa. Somente assim invocaremos a memória de Garrinha para nos lembraremos da sua habilidade desconcertante, a alegria de jogar bola e fazer sorrir a massa de torcedores.
*Milton Jordão é advogado, Mestre em Políticas Sociais e Cidadania pela UCSAL, Mestrando em Direito Desportivo pela Universidade de Lleida (Espanha); membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB Nacional; presidente do Instituto de Direito Desportivo da Bahia (IDDBA); ex-presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB/BA; presidente do STJD do Judô, ex-procurador do STJD do Futebol; e autor de artigos e obras jurídicas sobre Direito Desportivo
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