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O Jornalismo na pandemia da Covid-19

Por Claudia Correia

O Jornalismo na pandemia da Covid-19
Foto: Divulgação

A pandemia do Covid-19 se disseminou rápido pelo mundo, transformando nossas relações de trabalho, de consumo, familiares, com a mídia, com as instituições públicas e especialmente conosco. A realidade obrigou a incorporação de novos hábitos, nesse cotidiano improdutivo que vivemos sempre atropelados pelo tempo, e às vezes vazio de sentido e significados. Nós não seremos mais os mesmos pós pandemia e na comunicação nada será como antes.

 

Nunca vi tanta “live”, “delivery” “drive thru”, “home office” e outras estratégias para entender e agir num cenário de crise. Agora a prioridade é enfrentar os riscos de uma doença letal, uma guerra pela sobrevivência que revela nitidamente as perversas desigualdades sociais e a miserabilidade de grande contingente da população brasileira.

 

O que mais me chama atenção em alguns conteúdos pseudo jornalísticos é a péssima qualidade da apuração dos fatos, as falhas nas escolhas das fontes, a reprodução de discursos impregnados de preconceitos, noções equivocadas que confundem a opinião pública ou reforçam estigmas. Assisti uma cobertura em que a jovem repórter se referia ao “vírus chinês”, a um complô comunista para dominar a economia mundial e defendia a suspensão imediata das medidas de distanciamento social em nome da estabilidade política para o presidente brasileiro governar e a economia se restaurar. Incrível o caráter manipulador da matéria, que mais parecia um editorial mal redigido.

 

Passado o primeiro susto, impactada com a gravidade da fúria desse poderoso inimigo tratei de superar o medo, selecionar o que consumir, me proteger, me solidarizar com os segmentos sociais mais atingidos e filtrar as informações que acesso nos meios de comunicação. De cara, eliminei os telejornais das emissoras da chamada “mídia hegemônica”, em busca de uma versão dos fatos menos contaminada. Não tenho sentido falta desse conteúdo enviesado, que prejudica tanto nossa saúde mental, com pouca análise dos dados estatísticos como preconiza o bom e velho Jornalismo Científico. Aliás, por falar nele, por que poucos cientistas do nível de Miguel Nicolelis são ouvidos nas matérias? Por sinal, no Dia do Jornalista, 7 de abril, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia-Sinjorba inaugurou o Encontro Digitais com uma videoconferência brilhante do neurocientista Nicolelis, que é coordenador do Comitê Científico de Monitoramento da Covid-19 do Consórcio Nordeste.

 

Lembro-me das aulas para elaborar pautas para o InfoCiência, premiado jornal do Curso de Jornalismo da Estácio/FIB em 2006, dos princípios e técnicas exigidos para uma cobertura consistente, capaz de aprofundar a análise dos temas da Ciência, da Pesquisa e da Tecnologia com responsabilidade social. 

 

Enquanto as entidades sindicais dos jornalistas no país e a Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ lutaram contra a Medida Provisória 905, que tentou desregulamentar o registro da profissão (dentre outras) percebemos o avanço de canais de comunicação, blogs, lives e outros meios sem qualquer compromisso com o direito humano à informação que amplie a compreensão sobre a grave crise sanitária, política e econômica que vivemos. A desqualificação de alguns ditos comunicadores e a redução dos postos de trabalho para jornalistas comprometem o nível do produto que é disponibilizado para o público. As informações fraudulentas provocam ainda mais pânico e desviam o foco do que é essencial, gerando perda de tempo para serem contestadas.

 

Nunca fomos tão exigidos como categoria profissional, tanto nos aspectos teóricos e técnicos como nos ético políticos. A relação dos profissionais do Jornalismo com a sociedade também está mais complexa. Recentemente Marcelo Cosme da Globonews (Em Pauta) foi ameaçado e xingado por um senhor enquanto se exercitava na orla carioca porque “ele e a emissora defendem o distanciamento social” mas o âncora estava livremente circulando no seu cooper rotineiro. Já Andrea Silva, da Rede Bahia, foi seguida e hostilizada por um homem em Salvador que a acusou de estar trabalhando normalmente enquanto muitos estão sem sustento, perdendo o emprego devido ao isolamento social “defendido pelo patrão dela”. Cenas constrangedoras para profissionais que cumprem seu dever num momento de forte tensão, às vezes submetidos a assedio moral, longas jornadas e múltiplas funções.

 

Enfim, se a pandemia revelou o importante papel da Ciência e dos cientistas para toda a humanidade, também colocou em evidência o valor das notícias, os estragos das fake news para a gestão pública e para a sociedade, o lugar de fala dos jornalistas, o seu compromisso ético diante dos fatos e versões divulgados, para além de conveniências políticas ou vaidades narcisistas. Afinal, o que seria da Democracia sem uma Imprensa Livre e um Jornalismo a serviço dos direitos humanos?

 

*Claudia Correia é assistente social, jornalista, mestre em Planejamento Urbano

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias