PRIMEIRA DAMA: DIMENSÃO PÚBLICA E IMPORTÂNCIA PROTOCOLAR

Edvalda Bomfim
A partir do século XIX, quando foi citada pela primeira vez por um Presidente norte-americano em uma referência elogiosa à falecida esposa de seu antecessor, a expressão primeira-dama passou a ser usada como uma definição coloquial para as esposas de chefes de Estado. Mais tarde, às esposas dos governadores e prefeitos passariam a receber a mesmo tratamento. Nos dias atuais, é perceptível a crescente relevância dos seus papéis nas estruturas sociais e políticas no âmbito desses poderes.
No decorrer da vida política dos Estados Unidos, algumas referências enfatizam, Lucy Haynes, mulher do Presidente Rutherford B. Haynes, pelo seu trabalho nas áreas assistenciais do país ( 1877-1881). Eleanor Rooselvelt ( 1933-1945), é tida como o ícone do "preimeiro-damismo" norte-americano; entre os seus feitos mais marcantes destaca-se a atuação frente à Comissão de Direitos Civis na ONU, na qual exerceu grande influência para assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em 10 de dezembro próximo completará 60 anos. Mais recente, assistimos o engajamento político da senadora Hillary Clinton, ex-pré-candidata democrata à presidência dos EUA, demonstrando que o título de primeira-dama com certeza foi um trampolin eficiente para a sua ascenção pública.
Não muito longe de nós, o exemplo de popularidade de Eva Perón ( Evita) não tem precedente histórico. Depois de tantos anos de falecida continua viva no imaginário do povo argentino. Isabel Perón e Cristina Kirchner exemplificam as amplas possibilidades do título. Da condição de primeiras-damas passaram para à posição de chefes de Estado, o que nos leva a reflexão de que na liturgia do poder elas traçaram a sua própria trajetória em direção à Casa Rosada.
Na história da Republica brasileira ( 1889 – 2008), a enciclopédia Wikipédia apresenta uma lista, do Marechal Deodoro da Fonseca ao Presidente Lula com suas respectivas esposas, na qual excluindo o Presidente Itamar Franco que era divorciado, constam 34 primeiras-damas. Com certeza, cada uma teve, de acordo com seu perfil e contexto histórico da época, um papel importante na consolidação institucional e de representação diplomática do Brasil.
Em um país com as dimensões geográficas como o nosso, com vinte e seis estados, um distrito federal e mais de cinco mil municípios, primeiras-damas e primeiros-cavalheiros ( assim deve ser chamado o marido da chefa do Executivo – por mais estranho que pareça), vão deixando para trás o seu papel histórico de acompanhante nas cerimônias oficiais e em campanhas de caridade e passam a atuar mais efetivamente, influindo, inclusive, na construção da imagem e no conceito da adminstração dos maridos ou mulheres prefeitas e governadoras e somando forças no intangível da vida pública nacional.
Estamos em ano eleitoral, muitas candidatas certamente já fazem uma reflexão acerca dos seus futuros papéis e já têm propostas e metas de trabalho prontas. Outras, reavaliam experiências e algumas certamente estão a se perguntar: existe um Protocolo destinado a uma primeira- dama do Município?
Existe sim. E deve ser cumprido. A não observação ao Protocolo de forma deliberada só é compreendida quando a autoridade promove gestos que denotem cordialidade e respeito ao outro, como aconteceu por exemplo, com o Príncipe Naruhito. Herdeiro da monarquia mais antiga do mundo, em recente visita ao Brasil, quebrou várias vezes o rígido protocolo japonês, cumprimentando com um aperto de mão as autoridades e em outra ocasião, pessoas que se encontravam do lado de fora do cordão de isolamento no Parque de Ibirapuera em São Paulo. Vale ressaltar que este tipo de cumprimento só é permitido na cultura japonesa nas relações comerciais e no trato com estrangeiros.
Em circunstâncias contrárias, pode ter consequências desastrosas. Protocolo é ordem. É hierarquia no âmbito de todos os poderes. Quando não se respeita às tradições e os costumes, entra-se em uma dinâmica que atenta contra pricípios básicos de civilidade e fere-se valores consolidados.
Mesmo em contextos menos formais, como nos municípios de menor porte, onde a interação com a coletividade faz parte do cotidiano é preciso que a atenção seja plena a gestos e posturas. Não são poucas as situações em que a primeira-dama precisa lidar com as normas do Protocolo e as regras da Etiqueta sem perder de vista que a ética, a discrição, a simplicidade, a empatia são as suas melhores aliadas.
O falecido senhor Denis Thatcher, esposo de Margaret, a famosa ex-primeira-ministra do Reino Unido, definiu sabiamente o papel do cônjuge de uma autoridade pública, afirmando que este(a) deve estar "always present, never there" ( sempre presente, nunca visível).
É impossível, neste momento, rever esta recomendação sem lembrar da ex-primeira-dama Dona Ruth Cardoso. Acadêmica, competente, de uma sobriedade inigualável a "mãe da Comunidade Solidária", como a definiu o senador Cristovam Buarque, quando aparecia ao lado do presidente Fernando Henrique passava a impressão de que ao mesmo tempo em que estava ali, tinha o seu espaço próprio, independente. Neste espaço, ela transitava com uma elegância, verdadeiramente desobrigada, uma característica de quem tem a exata dimensão da impermanência de funções na vida pública e até da impermanência da própria vida.
*Edvalda Bomfim é graduada em História, pós-graduada em Administração e Organização de Eventos Públicos e Privados e em Educação a Distância. Membro do Conselho Nacional de Cerimonial Público e da Associação Portuguesa de Estudos do Protocolo.
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