BEM FEITO

Isaac Marambaia
Soou patética a justificativa do senhor Nelson Jobim, para explicar o abandono da sua pretensão de disputar a presidência do Partido do Movimento Democrático Brasileiro - PMDB, na convenção do último dia 11.03.2007.
Segundo ele, sua candidatura naufragou por conta da decisão do presidente Lula de receber, em audiência, uma semana antes da data da convenção partidária, o seu adversário e deputado federal Michel Temer, atual presidente da legenda.
Para complicar mais ainda a situação do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal - STF, o seu amigo Lula convidou o também deputado federal Geddel Vieira Lima, para ocupar a pasta da Integração Nacional, na cota do PMDB, no bojo da reforma ministerial. Geddel Vieira Lima atuou, de forma clara, como escudeiro da candidatura de Temer à presidência do PMDB.
Com tal atitude, afirmou o senhor Nelson Jobim, o presidente Lula teria manifestado a preferência do Palácio do Planalto pela candidatura Temer.
É muito irônico ouvir de um ex-presidente da mais alta corte da Justiça Brasileira, que o presidente da República usou de expedientes nada recomendáveis para interferir no resultado de uma convenção de um partido do qual não é membro.
Se verdadeira a interpretação do ex-candidato Nelson Jobim, pode-se depreender que ele não tem a menor idéia de com quem se envolveu e não sabe diferenciar amigos de negociantes.
Em entrevista concedida ao articulista político Samuel Celestino, em 05 /03 /2007, o senhor Nelson Jobim emitiu alguns conceitos relacionados à disputa pela presidência do PMDB, os quais merecem ser lembrados para se aquilatar o nível do jogo pretendido pelo ex-ministro do STF.
Perguntado se ele era o candidato do presidente Lula, respondeu: "Quanto ao presidente Lula, que é meu amigo, ele é do PT e não costuma se envolver nas questões internas dos outros partidos".
Referindo-se à possibilidade do deputado Geddel Vieira Lima vir a ser convidado para ocupar um ministério no governo Lula, ele disse: "a questão do ministério, quem decide quem merece ou não ser ministro é o presidente da República”.
Ao ser instado sobre se ele estava procurando uma saída honrosa para renunciar a candidatura, diante de uma iminente derrota, foi enfático: "Isso não existe. Tenho trabalhado intensamente, falado com todos os convencionais e nossa perspectiva é vencer com uma margem de pelo menos cem votos. Se alguém está buscando saída honrosa, não sou eu".
Considerando suas respostas ao jornalista Samuel Celestino, o senhor Nelson Jobim certifica que o presidente Lula não interfere em questões internas de partido do qual não faça parte como membro filiado, que cabe ao presidente Lula definir quem merece ou não ser ministro do seu governo e que ele não estava em busca de uma saída honrosa, pois a eleição seria decidida em seu favor, com uma margem de pelo menos cem votos de vantagem.
Se eram mesmo verdadeiras suas declarações, ao jornalista Samuel Celestino, o senhor Nelson Jobim deve ter sido acometido de uma crise psico-depressiva, ao ponto de fazê-lo desprezar uma vitória já anunciada.
É bom lembrar que o senhor Nelson Jobim é credor do presidente Lula pelos extravagantes serviços prestados ao governo e ao Partido dos Trabalhadores, enquanto presidiu o STF. Sua inclinação para servir ao governo Lula foi tão escancarada que ensejou manifesto de advogados e magistrados, de várias partes do país, solicitando que o mesmo devolvesse a Toga ao lugar devido.
Por ser consciente do papel desempenhado contra os interesses coletivos, o senhor Nelson Jobim pleiteou para si, ainda presidente do STF e sem filiação partidária, o posto de vice-presidente na chapa da reeleição do "seu amigo Lula". A queda da verticalização impediu que Lula o premiasse como desejado.
Cogitou-se então fazê-lo ministro da Justiça, mas, diante das reações previsíveis, essa solução foi descartada. Sobrou a articulação para o governo guindá-lo a presidente do maior partido aliado, na pretensão de manietar por completo o PMDB. Era um projeto de terceirização da legenda. O senhor Nelson Jobim se encaixava como uma luva na pretensão do palácio do planalto, que contava, para alcançar esse objetivo, com a militância do grupo liderado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney.
Apesar do empenho do Planalto, o projeto fez água e obrigou o presidente Lula a realizar uma correção de rumo, para não ficar exposto ao risco de produzir fissuras na base parlamentar já construída.
É óbvio que o governo deve muito ao senhor Nelson Jobim e é também certo que o ex-ministro do STF quer o pagamento da fatura cujas mercadorias foram entregues por antecipação, no seu período como presidente da Suprema Corte da Justiça.
O problema agora, depois dessa desastrada tentativa, é saber onde colocar o bode sem que se reclame da inhaca.
Isaac Marambaia é economista, consultor, foi vice-prefeito de Camaçari e deputado estadual em três legislaturas. [email protected]