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BATE QUE ELA GOSTA!

 

 

 

Ernesto Marques

Engana-se quem pensa que a cobrança do estacionamento nos shoppings seja problema apenas da classe média. Não sei se estou vendo as coisas de maneira torta, mas, colocando cada parte em seu devido lugar, enxergo mais um desses absurdos de custo elevadíssimo, cuja conta, invariavelmente recai sobre os ombros da maioria da população. Estacionamento é necessidade de quem tem carro. Mas neste caso é, antes disso, necessidade de quem precisa atrair clientes/consumidores.

Um empreendimento como um shopping é importante por gerar empregos e dinamizar a economia. Mas, antes de oferecerem vantagens para a cidade, impõem uma série de necessidades que o poder público precisa se virar para atender. Estacionamento é apenas uma delas, mas neste caso, convenhamos, a necessidade dos shoppings é, no mínimo, equiparável à dos usuários. A questão de fundo e de maior relevância é a ocupação do espaço urbano, o planejamento dessa ocupação e quem se beneficia da forma como a cidade se desenvolve.

Até a década de 1960 o Município era detentor de pelo menos dois terços do território de Salvador. Hoje a Secretaria de Habitação da Prefeitura anuncia a inexistência de vazios urbanos para programas habitacionais, através dos quais o Estado cumpriria a sua obrigação constitucional de prover moradia digna. Por trás da mágica transferência de propriedade de tanta terra - nesse "bolo" estão inclusive alguns nacos altamente valorizados - o mesmo poder que opera em favor dos grandes grupos proprietários dos shoppings.

Não escrevo para defender os interesses de uma classe média incapaz de se posicionar criticamente diante de questões de interesse coletivo. Gente que, apesar de haver freqüentado escolas e poder consumir informação, ainda assim consegue passar uma hora na fila de uma lanchonete de grife. Quem topa esse tipo de programão deve achar normal pagar para entrar num lugar onde tudo custa naturalmente mais caro. Tenho muitos amigos que se enquadram nesse perfil: admitem pagar R$ 4,00 ou R$ 6,00 para estacionar, mais a bagatela de R$ 16,00 por um ingresso no cinema e, se quiserem cumprir todo o roteiro, mais R$ 10,00 pelo menor saco de pipoca vendida num Multiplex da vida.

Somos mais uma metrópole condenada ao caos urbano. Não apenas por ser naturalmente mais difícil administrar cidades grandes, mantendo o bom funcionamento dos serviços e as salutares relações de convivência onde enormes contingentes populacionais se concentram. Estamos condenados ao caos urbano porque até aqui a fina flor da sociedade soteropolitana só soube administrar muito bem os seus interesses patrimoniais. Falo de uma minoria ínfima, numericamente desprezível, mas econômica e politicamente poderosa, dona da maior parte do minguado PIB da nossa capital.

A cobrança pelo estacionamento nos shoppings é só mais uma pitada de escárnio, de desprezo, um fermento especial para o bolo solado servido de sol a sol para os habitantes de Soterópolis. É também mais um tapa na cara dessa classe média apática, acrítica, que irá feliz e satisfeita para as filas, pagando caro para entrar num estacionamento e ainda disputar vaga na unha. Mas não tem problema: bate que ela  essa tal classe média, medíocre  gosta.

Somos mais uma metrópole condenada ao caos urbano por termos desperdiçado talvez a melhor oportunidade de ordenar o crescimento da cidade, quando vimos o Plano Mário Leal Ferreira ser trocado pelo improviso oportunista de quem se fortaleceu semeando este caos urbano.

O tal "prefeito do século" jacta-se de ter aberto as avenidas de vale projetadas não por ele, mas pelo Escritório de Planejamento Urbano da Cidade do Salvador, entre as décadas de 1940 e 1950. Mas permitiu a ocupação desordenada das margens dessas avenidas, tomando o espaço projetado para o transporte de massa. Não lhe faltou poder para fazer melhor: quando quis, usou despudorada e violentamente as botas e cacetetes militares com os quais chegou à Prefeitura. Fez assim com a invasão do Marotinho, para citar um exemplo de barbárie distante no tempo e provocar a lembrança de tantos outros casos mais recentes. Foi justamente no reinado absoluto e absolutista do "prefeito do século" que as terras do Município mudaram de mãos, para o gozo de uns poucos e sofrimento de milhões.

Fosse ainda repórter, investiria algum tempo no afã de descobrir as relações entre empresários que exploram os estacionamentos da cidade e o poder público. A investigação talvez fornecesse elementos para entender, por exemplo, como uma dessas empresas foi escolhida sem licitação entre 2001 e 2002 para transformar o canteiro central da Avenida Paralela em estacionamento durante um Festival de Verão. O estrago no canteiro ficou para nós, os tolos, pagarmos a recuperação, já que 40% do faturamento (na época cobravam-se R$ 5,00 por carro) ficava para os benemerentes promotores do evento que, de quebra, recolhiam muito menos ISS do que deveriam.

A mesma classe média que não se incomodou em pagar "cinquinho" para passar por cima da grama plantada com nossos parcos recursos públicos, também não se indignou com a divulgação dessa divisão generosa entre parceiros. É a mesma classe média que vai reclamar um pouquinho, mas vai ajudar os donos dos shoppings a comerem mais caviar. Sinceramente, eu preferia ver a iguaria no prato do senador menestrel Juca Chaves. Pelo menos a gente poderia dar umas boas risadas. O que não tem a menor graça é ver a Tancredo Neves engarrafada como o Comércio de 30 anos atrás, ou o vexame do trem novinho em folha, feito sob encomenda, mas que não passa pelo túnel que continua com a mesma altura de quando foi construído, em priscas eras.

A tal classe média não anda no trem da Calçada porque não mora no subúrbio e só passa lá de vez em quando para comer uma moqueca enquanto Boca de Galinha permanecer na moda. Mas  apanha todo dia quando sai da tranqüilidade do lar e cai no caos urbano. Não tem problema, ela não reclama. Bate que ela, a classe média, gosta.

Ernesto Marques é radialista, jornalista e diretor da ABI