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"Eu não enxergava que a música era para mim": Diggo abre o jogo sobre transição para os vocais
Por Ana Beatriz Soares
De compositor de bastidores a uma das novas promessas do pagode baiano, Diggo, nome artístico de Rodrigo Martins, vive um momento de virada único em sua carreira. Após passar cinco anos investindo no pagotrap, o artista teve uma reviravolta com o sucesso do projeto “Pagodiggo”. Começando como um evento pequeno para apenas 250 pessoas, a empreitada cresceu de forma exponencial, em apenas um ano, levando um público de 2.500 pessoas na última edição. Agora, o artista se prepara para mais uma edição do projeto, que tem se provado frutífero, no dia 19 de dezembro, além de uma turnê internacional ainda este ano.
CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:
Diggo, que começou como compositor de músicas que se tornaram grandes hits nas vozes de outros artistas, passa por um momento de transição. Entre suas criações de sucesso estão músicas como "Contatinho", gravada por Léo Santana e Anitta, e "Dengo", hit de João Gomes que nasceu de maneira inusitada no banheiro em Petrolina, após um bloqueio de inspiração criativa. Ele também é o nome por trás do refrão de "Cachorrinhas", sucesso de Luísa Sonza que deu ao baiano o seu primeiro "Top 1" nas plataformas de áudio. Diggo, que antes estudava a linguagem dos outros artistas para escrever para eles, hoje já consegue separar o que cabe no seu próprio repertório.
Mesmo estando na posição que ocupa hoje, Diggo admite que nunca se viu nesse lugar sob a luz dos holofotes. "Eu comecei compondo, mas eu sempre cantei [...] e antigamente eu não enxergava que a música era para mim. Sempre fazia música para as pessoas mesmo", revela o artista. Essa percepção mudou à medida que ele compreendeu sua própria identidade e aprendeu a decifrar o destino natural de suas criações: "Hoje em dia, até quando eu escrevo um samba, um pagode, eu já consigo falar: 'Hum, isso aqui acho que cabe para mim'". Para o cantor, o processo de composição é quase intuitivo e as faixas parecem escolher seus próprios intérpretes desde o primeiro acorde: "Acho que a música já vem... ela já tem um caminho, sabe? Você já consegue imaginar o lugar dela”. Vivenciando o reconhecimento de seu trabalho como intérprete, o cantor se prepara agora para novos passos internacionais, com show marcado em Luanda, na Angola, em outubro.
Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, Diggo fala sobre essa transição de carreira, novos projetos e relembra momentos inusitados e engraçados que passou compondo alguns dos seus maiores sucessos.
Eu queria começar pedindo para você se apresentar para quem ainda não te conhece, quem ainda não ouviu sua música.
Gente, eu sou Diggo. Cantor, compositor, agora mais cantor do que compositor. E eu passei esses tempos a cantar pagode, samba-pagode, né? A gente tem um ano de projeto e a gente começou a viralizar depois da música de “Hipnotiza” junto com o Léo Santana e alguns projetos também!
Já que você falou da música, eu queria começar falando de "Hipnotiza", que foi um grande hit nesse carnaval. Como surgiu essa parceria com Léo? E como vocês fizeram ela acontecer?
Na verdade, essa música eu canto desde 2018. Eu fazia parte de um grupo de samba daqui de Salvador. Essa música é de Nego Thor, de Kaleo [Europa] e de Heron Black. E, quando eu voltei para cantar pagode, eu lembrei dessa música. Eu falei: "Pô, queria regravar ‘Hiptoniza".
E aí falei com o Léo, falei: "Pô, Léo, tô com a música aqui, queria que você entrasse na música, gravasse comigo, porque acho que é sua vibe, acho que ia ficar legal nós dois. A energia da música”. E aí, Leo aceitou. A gente gravou lá no Bar do Leo, lá na Saúde. E aí foi incrível. O resultado está aí, né? O sucesso que a música fez. Graças a Deus e graças à minha equipe também.
Como foi compor hits como “Contatinho” e “Dengo” e como você separa uma música que vai para outra artista e uma música que é para você?
Eu, antigamente, não tinha isso, né? Porque eu comecei compondo, eu sempre cantei e, antigamente, eu não enxergava que a música era para mim. Sempre fazia música para as pessoas. Entendia o artista, para Leo mesmo, estudava o artista, estudava o que ele estava gostando no momento, o que ele curtia cantar, o que o povo estava precisando, o que o povo estava querendo ouvir, a linguagem que estava sendo falada.
E aí passou um tempo em que eu entendi o que eu gostava de cantar, como eu gostava de cantar. E é muito diferente, pô, é muito particular. Escrever para mim e escrever para outro artista. Para outro artista eu já sabia, para mim, eu aprendi depois.
E por que você achou que [cantar] não era para você?
Porque eu não me via como cantor. Ser compositor era meu trabalho de frente. Então, quando eu escrevia a música, eu já imaginava outro artista, não me imaginava cantando. Hoje em dia, quando eu escrevo um samba, um pagode, eu já consigo falar: "Hum, isso aqui acho que cabe para mim" ou “isso aqui não, cabe para Dilsinho, ou Sorriso Maroto, ou Ferrugem, ou Menos É Mais.
Quando você escreve a música, ela já tem um caminho. Você já consegue imaginar o lugar dela. Claro que há imprevistos. Na época de “Contatinho”, antes de mandar para Léo, eu tinha mandado para Márcio. Quem ia gravar era Psirico. Aí Márcio não conseguiu gravar, foi fazer outras coisas, aí quando eu mandei para Leo, eu não imaginava. Aí Leo gravou, sendo que, no começo, quando eu fiz a música, eu tinha feito para Anitta.
“Jurei não me apaixonar” é totalmente diferente do seu último projeto, Como foi para você sair desse estilo para entrar em um novo e como foi construir essa “persona”?
E essa música foi a única que eu não consegui botar no pagode, velho. Como eu te disse, eu canto há um tempo. Meu primeiro projeto em que eu cantei foi um que era samba. E já era diferente, que eu cantava MPB no samba. Eu saí dessa banda, fui para outra, já cantei pagodão, já fui para vários lugares. Entre 2017 e 2018, eu entrei em uma banda que se chamava “Demorou”, que era uma banda de samba daqui.
Eu comecei a gostar de cantar aquilo. Eu me sentia confortável em falar de amor, no palco também. E essa banda foi onde eu aprendi essas coisas de palco. Onde eu comecei a entender que eu me sentia bem sendo cantor. E, quando eu saí dessa banda, eu conheci Rafinha RSQ. Eu queria fazer um samba com trap, uma mistura. Nesse samba com trap, acabou que virou pagodão. E aí, pagodão com trap virou pagotrap. Tinha uma galera começando ali, eu lembro que Melly também estava começando na mesma época, Duquesa. Estava todo mundo na mesma vibe. E aí eu fiquei 5 anos nessa onda do pagotrap. Só que eu comecei a sentir falta de como era a minha entrega e a resposta do povo no samba, no samba-pagode. E aí eu tentei um último EP meu, que era “Verão Preto”, um EP com seis músicas, e eu falei assim: "Rapaz, isso aqui é minha última cartada no pagode trap. Vou tentar isso aqui. Se não der certo, eu vou segurar, vou parar de cantar”. Aí fiz o EP, gastei um dinheiro e não deu certo.
Eu falei: "Rapaz, eu vou segurar, eu vou ficar só compondo mesmo, vou cantar esporadicamente”. E aí muita gente me pedia para eu cantar o samba, falavam: "Rapaz, mas grava um negócio da época do ‘Demorou’, grava um samba, grava um pagode, volte a cantar isso”. Aí falei: "Rapaz, vou fazer um projeto só para minha realização pessoal". E aí chamei os meninos para fazer, chamei Mateus, que hoje é meu sócio, falei: "Mateus, eu quero fazer um evento só para eu gravar, e o nome vai ser ‘Pagodiggo’". E aí a gente fez o “Pagodiggo” no Clube do Samba, lá no Pelourinho, para 250 pessoas. Isso tem um ano. Foi em 7 de julho.
E lembro que eu falei assim: "É, eu não vou pegar nenhum ingresso não, como são 250 pessoas, é pequeno, vamos convidar a galera e beleza, porque vai ser segunda-feira, acho que ninguém vai comprar”. Só que ele quis abrir as vendas, vendeu 80 ingressos num dia só. Aí eu falei: "Tem alguma coisa aí!"
E aí que se tornou o “Pagodiggo”, que hoje a gente acabou de fazer o “Pagodiggo” na Casa Pia para 2500 pessoas. A gente vai para Candyall agora, o próximo, no dia 19 de dezembro, que é para 3.500. Então, a gente tá crescendo, vivendo o processo, sabe? Crescendo devagarinho, mas muito surpreso também. Em um ano só, a gente tá galgando e chegando em vários lugares que nem imaginava.
Aqui na Bahia, você pensa em pagodão, axé, e você canta pagode, canta samba. Como você se sente sendo um dos maiores expoentes do ritmo dentro do estado?
Ave Maria, eu fico lisonjeado. Mas sabendo que tem Noelson do Cavaco também, que já saiu de Salvador há muito tempo, que a galera curte muito ele lá no Rio de Janeiro e São Paulo. Mas eu fico muito feliz de verdade. Eu não consigo levar nesse caminho, porque eu acho que é uma responsabilidade grande.
Mas é um caminho que você pretende continuar? Por exemplo, o “Pagodiggo”. Você vai continuar por muitos anos ou você acha que é um projeto que terá um fim?
Não tem. A gente vai, nesse ano que vem, começar a sair para outras cidades. Levar o “Pagodiggo”, o evento, não só o artista. Então, eu quero “Pagodiggo” para sempre. Que chegue a lugares incríveis que eu nem imagino. A gente planeja, mas tem coisas que acontecem, que nem passam pela nossa cabeça.
Você lançou recentemente o seu audiovisual, o “Diggo: a Cara do Brasil”. Como foi a concepção desse projeto?
Na verdade, a ideia foi de Matheus, meu sócio. Ele falou: "Vamos fazer um pagode do Hexa". Eu falei: "Vamos, mano". Ele falou: “Vamos botar várias coisas que são a cara do Brasil”. Eu falei: "Rapaz, e se o nome do audiovisual fosse ‘A cara do Brasil’?". Que a gente saísse desse negócio da Copa. Mas só que botou camisa do Brasil, já foi. O povo não quer nem olhar para não lembrar, né? Mas foi massa, deu foi uma resposta incrível para a gente também. A gente regravou, hipnotizou.
As músicas crescem até hoje, com mais de 100.000 vídeos no TikTok. Então esse projeto foi muito importante também para a gente contar a história. Saindo dali do Pelourinho e chegando nesse momento que é da minha carreira.
Falando em momentos especiais da sua carreira. Esse ano tem sido muito especial para você, em vários aspectos, e um deles foi conseguir submeter o seu trabalho no Grammy Latino. E, quando você compartilhou com os fãs, você disse que só de ser considerado já é uma grande vitória. Eu queria saber como isso realmente chega para você.
É inimaginável, eu nunca imaginei isso aí. O Grammy. Nunca imaginei chegar naquele lugar. O Grammy é uma onda mais conceitual. Então, se eu chegar com o pagode, sei lá, não tem nem palavras para mim, real. Loucura. Doideira.
Você faz parte dessa nova geração de artistas que vem surgindo aqui, principalmente na Bahia. A Bahia sempre foi um polo cultural. A gente citou aqui, Melly, tem vários artistas que têm surgido aí. E como você avalia essa nova safra de artistas e em que você acha que essa geração talvez se diferencie das outras, das anteriores?
E eu acho que essa geração tem algo mais independente. Eu acho que todos os artistas que saíram daqui, essa safra que você está falando, todos foram independentes, todos sabiam o que estavam fazendo, todos sabiam o caminho que eles queriam. Todos, acredito eu, são sócios da própria carreira.
Então, eles estão lúcidos com a carreira. E acho que o que muda é que, antigamente, o artista não tinha muita força com a sua própria carreira. Acho que autonomia, perdão. Ele não tinha muita autonomia da carreira dele. Acho que os empresários acabaram deixando a música baiana nesse lugar. Tomando muito aquele espaço deles. Acho que os artistas hoje estão mais independentes.
Falando um pouquinho sobre a parte da composição, eu queria saber algumas coisinhas de você. Primeiro, qual foi a composição que você fez mais rápido?
Rápida. Pai, não lembro. Acho que “Contatinho” foi rápido. “Baile do VJ” eu fiz, acho que em 10 minutos. Porque tem música que flui, né? Que chega, vai rápido, depois a gente produz, óbvio. Demora mais um pouquinho para mandar para o artista.
E acontece muito com você isso? Chega rápido e você só escreve e vai.
Na verdade, depende dos parceiros também. Mas estava falando de “Baile do VJ” que é uma música recente e está viralizando com o Eduardinho dos teclados. essa música foi rápida mesmo, essa música foi uns 10 minutos.
E qual que é que você, né, ao contrário da mais rápida, qual que foi a que você mais demorou para concluir? Você consegue pensar em alguma?
Meu Deus, não consigo lembrar.
E “Dengo” de João Gomes?
Não, “Dengo” não demorou, não. “Dengo”, eu tive a ideia no banheiro. Eu não conhecia João, aí fui para Petrolina e aí fui compor com um sócio dele, com o Dan Mendes. Eu falei: "Preciso fazer alguma coisa muito incrível para esse artista".
Fiquei forçando, forçando. Cheguei no banheiro, comecei a tomar banho, aí veio. Nem veio o “dengo”, veio: "Estou precisando de amor, dá para ver. Não estou nem aí para rolê, não estou nem aí para rolê, só estou querendo você." Aí, no meio da história, a gente mudou. [Falamos]: “Não, vamos botar um negócio diferente, um dengo, um negócio, xodó”, e aí veio dengo.
E qual foi uma música que te surpreendeu pelo alcance, que chegou em lugares que você não imaginou que poderia chegar?
Rapaz. “Cachorrinhas”. Porque me chamaram para compor essa. A música já estava pronta, eu estava no camp dela, e aí eu estava passando, indo embora. A galera falou: "Tá faltando terminar o refrão aqui, vamos fazer". Eu falei: "Vamos nessa". E aí, na hora, ela pirou na música, mas eu não imaginava o alcance. Acho que foi minha primeira música que foi top 1. “Dengo” não foi top 1.
Era uma coisa muito particular dela. A gente fala das cadelas dela. A vibe é pop, muito pop. Quando a gente terminou, eu falei: "É uma vibe de filme”. E foi isso, a música de artista pop, a música é muito visual.
E falando aqui sobre uma que não foi tão conhecida, mas que você acha que deveria ter sido mais.
Ah, eu tenho várias. Tem umas músicas com “Filhos de Jorge”. Tem uma música chamada “Do Nada”, queria que essa música estourasse assim, meu Deus do céu. Eu tenho uma de “Filhos de Jorge” também que é “Xuxu”. “Coração no Direct” foi a música que João gravou, mas não rolou, não era a vibe dele. A música é bem safadinha; acho que a vibe dele é mais de família assim. Comigo, eu acho que vai funcionar. Tem mais a vibe.
Para fechar aqui, o que os fãs podem esperar de novidade nesses próximos meses? Tem algum feat? Vai ter uma turnê internacional, não é?
Na verdade, a gente toca lá em Luanda em outubro. Eu estou muito ansioso para ir, tá perto. Para voltar às minhas origens! Eu tô ansioso para saber como é, como vai ser, como a galera vai receber a gente. Mas eu vou gravar um DVD. Contando, na verdade, uma história desde o começo.
De como foi o meu começo até o momento em que a gente está agora. Em um lugar muito importante de Salvador. É isso, eu não vou falar muito! Eu vou trazer várias participações que conectam com essa história, com o momento, com tudo.
"O Axé abriu as portas do mundo para mim": Osmar Marrom celebra nova etapa da carreira e estreia no Bahia Notícias
Por Bianca Andrade
Se, em 1985, alguém perguntasse a Osmar Martins como ele imaginava a vida daqui a 40 anos, o jovem que dava os primeiros passos no jornalismo não diria que se tornar a maior referência do estado quando se trata de música baiana estava nos seus planos.
Muito menos que Alcione — sim, uma das maiores estrelas do samba — daria a ele o apelido pelo qual é chamado em todos os trios dos principais circuitos da folia em Salvador: Marrom.
Mas quarenta anos se passaram e essa é a realidade de Osmar "Marrom" Martins. Sua história se mistura com a do Axé, e não é à toa. O jornalista foi um dos principais entusiastas do movimento que marcou a folia baiana e afirma: "O Axé abriu as portas do mundo para mim."
Em uma nova fase da carreira, o jornalista retorna à ativa após um período sabático, de casa nova como o novo colunista do Bahia Notícias, no Blog do Marrom, e com muita história para contar.
Em entrevista ao Bahia Notícias, Marrom relembrou alguns dos momentos mais marcantes da carreira e conversou sobre o cenário do jornalismo baiano. Confira a entrevista:
São 40 anos de carreira jornalística e 40 anos sendo referência em uma área que é 100% nossa: a música baiana. Queria saber se você tinha a dimensão de onde iria chegar com a sua carreira.
MARROM: Nenhuma. Se eu falasse [que sim], seria mentira, e se tem uma coisa que eu não sou é mentiroso. Foi muito engraçado, porque meu nome começou a aparecer justamente quando o Axé surgiu, já que bate 41 anos de Axé agora. Antigamente, eu tinha uma coluna chamada MPB, de Música Popular Brasileira. Na verdade, a minha formação é roqueira — ouço rock até hoje —, mas o Axé surgiu na minha vida assim: todo dia eles iam lá no jornal me entregar material e eu nunca discriminei, fosse famoso ou iniciante. Comecei a perceber: "Isso vai dar um borogodó." Porque antes da palavra "Axé" já tinha Chiclete com Banana, Luiz Caldas... E eu era o único que cobria isso. Tinha um certo preconceito do pessoal de cultura, mas eu não posso escrever só sobre o meu gosto pessoal. Fui acompanhando e crescendo. Sinceramente, sou uma das pessoas que mais incentivam o Axé. Primeiro porque criou um mercado que não existia no Brasil — um mercado fantástico que empregou, além de músicos, profissionais de som, empresários, produtores e até nós, jornalistas. O Axé vai viver para sempre, pra mim é muito importante!
Marrom, você mencionou algo bem curioso: começou como uma pessoa do rock e hoje abraça todos os estilos. Diante disso, qual foi a sua maior descoberta musical?
MARROM: Veja só, a minha festa preferida é o São João. Eu amo São João, mas no Carnaval tô eu lá dançando, porque, claro, você tem que se incorporar à festa, né? Então eu acho o seguinte: todo tipo de música tem seus defeitos, tem música boa, música ruim, tem de tudo, mas você não pode negar que Carnaval é Axé. Tentaram numa época botar sertanejo e não deu certo. O Axé tem muita coisa de qualidade. Temos bons músicos, bons compositores... Você vai negar um Carlinhos Brown, uma Ivete Sangalo, Sarajane, Daniela Mercury, Claudia Leitte, Ricardo Chaves, Durval Lelys, Bell Marques? Você pode até não ser, eu não sou o axezeiro número 1, mas Carnaval, Micareta, Lavagem, vou estar eu lá dançando. Sou como um camaleão, me adapto.
Você viu o Axé crescer e cresceu junto com ele. Qual momento você elencaria como marcante no desabrochar desse movimento? O que mais te chamou a atenção?
MARROM: Olha, o que me chamou a atenção foi o Carnaval de antigamente. Porque o Carnaval era só domingo, segunda e terça. Aí passou a começar na quinta, hoje acho que começa até na terça-feira. O que mais me marcou é que o Carnaval antes era Novos Baianos, Dodô e Osmar, Moraes Moreira... Quando vi pela primeira vez o Luiz Caldas estourando — lembro que fui ver a saída dele na Barra —, isso marcou muito o Carnaval. Quando o Luiz Caldas cantou pela primeira vez, pensei: "Poxa, agora nós temos uma música própria mesmo, uma música nossa, né? Sem depender de ninguém."
Ao longo desse tempo, você também acompanhou a transformação da música baiana, a paixão nacional em que se tornou o Axé, e o surgimento de outros estilos e movimentos. Como você avalia isso?
MARROM: Ah, vou contar uma história aqui. Quando voltei para o Correio, em uma dessas voltas, cobri o primeiro festival de arrocha no Parque de Exposições. Fui cobrir e [a rua] parecia um deserto. Menina, quando entro no parque, tinha 80 mil pessoas lá dentro! No início, [o arrocha] era uma bateria, um teclado e cada um levava seu sax. Essa era a base: Nara Costa, Asas Livres com Pablo... Aguentei 10 horas de arrocha que ninguém queria cobrir. Hoje o arrocha virou um fenômeno. Isso me impressionou muito.
A sua carreira permitiu cobrir a música e também se tornar parceiro de vários artistas. É assim mesmo que acontece?
MARROM: Vou dizer uma coisa séria: eu não sou uma pessoa invasiva. Respeito muito a individualidade e não entro na intimidade do artista. Não sou daqueles jornalistas que querem se mostrar íntimos; tenho pouquíssimos telefones de artistas, muito poucos, porque o que me interessa no artista é o que ele faz no palco. A vida pessoal do artista não me interessa, assim como a minha não interessa a ninguém. A não ser que cometa um crime ou algo absurdo que não dá para deixar de noticiar. Nunca fui à casa de um artista sem ser convidado, nunca.

Você já falou em outra entrevista que não tinha talento para ser fofoqueiro. Como é conciliar a curiosidade do público com o seu trabalho?
MARROM: Não tenho mesmo. Não tô dizendo que sou puritano, mas não tenho talento para fofoca. Não tenho. Mas quem não gosta de fofoca? Vamos ser sinceros, quem não gosta? Já me propuseram: "Ah, mas você vai ser o Leão Lobo da Bahia." Nem pensar! Eu sou o Marrom. Agora todo trabalho bem feito, se tem público... não está aí por acaso. Claro que tem os exageros também.
Com todo esse tempo de carreira, você viu as transformações no jornalismo. O que você sente falta no mercado e o que acha que a nova geração está tirando de letra?
MARROM: Quando eu estava na redação e algum estagiário pedia conselho, eu falava: "Leia! Jornalista tem que ler." Porque veja só: um advogado ou um médico pode até cometer um erro de concordância ou de português, mas a gente não pode errar. O que sinto também é que, quando veio a internet, muito jornalista bom não acompanhou. Eu disse: "Gente, os tempos mudaram, tem que se adaptar." Eu gosto de escrever, sou das pessoas que gostam de ler jornal, mas me adaptei. A notícia hoje é dinâmica, você tem que acompanhar; ou me adapto ou vou ficar para trás.
Muita gente criou um carinho e uma admiração gigantesca por você. Qual considera o seu maior momento no jornalismo?
MARROM: Quando o U2 veio para o Carnaval de última hora — e aqui agradeço muito a Flora Gil —, ao lado de Mônica Bergamo, fomos os únicos jornalistas convidados para almoçar com eles. Isso causou uma confusão, mas fomos como amigos da família, não como jornalistas. Teve uma hora em que fui pegar um papel e o assessor disse: "Não pode." Fiz uma matéria descrevendo o que via, porque não podia nada. Estavam Gil, Ivete, Daniela, Margareth, Durval... todo mundo lá apresentando a eles a comida baiana. Não sei se foi Dadá que fez a comida, ou Ana Célia. E Gil explicando o que era vatapá. O baterista do U2 amou a caipirinha de seriguela, tomou várias. Isso me marcou muito. U2, que parou o Brasil, deu sold out, veio pra Salvador, aquela loucura, e eu estava presente no almoço. Imagine, só eu e Monica Bergamo. Quem sou eu perto de Monica Bergamo, coitado? Uma poeirinha no meio das estrelas.
Também foi marcante algo que o axé me proporcionou: quando fui pela primeira vez ao exterior, a convite da Banda Mel. Entrei por Bruxelas e de lá fomos para Paris. Eles se apresentavam em um galpão e, ao lado, vi um tumulto: era a Madonna desfilando para Jean Paul Gaultier. Quando eu estava estudando em Londres, a Banda Eva me chamou, e eu expliquei que já estava na Inglaterra. Mas eles pagaram a multa da passagem e fiquei 15 dias viajando com eles. E teve a inauguração do estádio do Porto, no jogo Porto contra Barcelona. Foi o primeiro jogo do Messi, ninguém sabia quem ele era. Fui saber anos depois que aquela era a estreia dele.
Já fui a vários Rock in Rio Lisboa com Ivete, Suíça, Nova York no Brazilian Day... [...] Muita cobertura internacional. Posso dizer isto: o Axé abriu as portas do mundo para mim.
Um momento marcante da sua trajetória recente foi a cobertura da morte de Moraes Moreira, quando a veracidade da informação chegou a ser questionada no Twitter. Como foi isso para você?
MARROM: Foi o seguinte: o Paulinho Boca é muito meu amigo, e eu acordo muito cedo e vejo as redes sociais. Quando entrei no Facebook, vi uma nota assim: "Perdemos nosso querido Moraes." Fiz como todos faziam no Jornal do Brasil, Globo, Folha de S.Paulo... Senti que a fonte tinha firmeza, então liguei para o Paulinho. Quando ele atendeu, já estava chorando e falou que era verdade. Aí botei a nota. O povo procurou em outros lugares, não achou e foi para o Twitter revoltado perguntando: "Quem é esse Marrom?." Depois, a própria jornalista do UOL me pediu desculpas. Eu não ligo para isso, mas as pessoas têm que parar com essa mania. Com a internet, você pode estar no Afeganistão e descobrir algo de outro lugar. Mas foi difícil, apanhei mais do que mala velha.

Você já teve algum momento em que pensou: "Acho que isso não deveria seguir por esse caminho"? Ou é sempre muito seguro do que faz?
MARROM: Nunca tive. Eu não especulo nada, checo bastante. Não sou santo, mas ninguém pode me acusar de ser irresponsável ou criador de fake news. Aprendi no jornalismo que não se dá furo pelo furo. Prefiro tomar o furo a dar a nota de qualquer jeito.
Como fã de rock e de música em geral, como avalia a recente movimentação de grandes shows internacionais em Salvador, como Guns N' Roses e Maroon 5? Imaginava esse retorno?
MARROM: Demorou muito. No do Guns eu não fui porque me atrapalhei, você acredita? Mas acho bacana. Maroon 5 não é da minha geração, mas acho ótimo vir, como outros grupos. Quanto mais shows aqui, melhor. Salvador comporta. Temos um bom estádio; aliás, a Fonte Nova é muito bem localizada e tem estrutura.
Para encerrar nosso papo: há uma frase recorrente a todo Carnaval de que "o Axé morreu." O que você acha dessa declaração e onde percebe que o movimento sobrevive?
MARROM: Enquanto houver Carnaval, micareta e festa jovem, não tem jeito, o Axé sobrevive. Foi comprovado. Como disse antes, tentaram botar bloco de sertanejo, mas não é música para Carnaval. Tive uma experiência maravilhosa no Fortal: Bruno & Marrone num trio top, sertanejo, lotado; atrás vinha um trio de quinta categoria com o É o Tchan, e o povo enlouquecido, misturado, tudo de bom, todo mundo se divertindo. É claro que o Axé não é mais o mesmo, porque toda música tem seu momento e o Axé teve o seu auge, mas ele não vai morrer nunca.
A "Nova Bahia" de Sofia Pitta: Promessa do pop baiano aposta em personalidade e na mistura de ritmos para deixar sua marca
Por Ana Beatriz Soares
A nova promessa do pop baiano tem nome e sobrenome: Sofia Pitta. A artista, que lançará seu álbum de estreia ainda esse ano, passa por um momento de amadurecimento musical e artístico e se estabelece com o seu próximo lançamento, previsto para esse mês. Mesmo com poucas canções lançadas, a artista já apresenta estilo e sonoridades próprias, com referências bem claras, entre elas Marina Sena e Maria Bethânia.
Com raízes profundas na MPB e na Tropicália, Sofia cresceu ouvindo os clássicos sob influência do pai, mas viu sua sonoridade se expandir naturalmente para o samba e o forró ao começar a compor. Essa transição para o pop baiano ganhou força durante a construção do seu primeiro EP, "Molho", que a levou a explorar beats modernos e até a estrear nos trios elétricos do Carnaval de Salvador com o Bailinho de Quinta, uma experiência que, apesar de inesperada, transformou sua visão sobre a própria potência no palco.
Para o seu aguardado álbum de estreia, produzido por Pedro Breeder, a cantora traz nove faixas e interlúdios que se conectam intuitivamente através do elemento da água. O projeto promete consolidar o que ela define como uma sonoridade "Nova Bahia total", misturando o groove solar de "Bagunçar" com uma estética maximalista e retrô que utiliza como forma de contracultura. Tudo isso é construído na base da "cara e da coragem", enquanto Sofia concilia a rotina de artista independente com a conclusão da sua faculdade de Psicologia.
Em entrevista para o Bahia Notícias, a artista fala sobre suas origens, suas influências e principalmente sobre os caminhos que trilhará a partir de agora, além de suas expectativas para seu álbum de estreia.
Eu quero começar falando sobre as suas referências. De onde você vem, o que você ouvia... O seu pai é artista, né? Você teve essa influência. De onde vem essa sonoridade que você faz hoje? De onde veio o seu gosto pela música?
O meu gosto pela música veio muito do meu pai, porque ele cantava muito e tocava violão desde que eu nasci. Mas a minha família sempre consumiu muito, então eu tinha a parte da família que gostava muito de forró, tinha a parte que era mais eclética, que consumia pop, sertanejo, absolutamente tudo, muita música internacional também. Eu diria que minha referência vem da MPB, dentro de casa, com meu pai, com minha avó, eu sempre escutei muito MPB. As coisas clássicas mesmo: Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Djavan. Minhas referências são dessa galera da Tropicália, são as pessoas que eu mais escutei. Eu também fui me apaixonando por Clara Nunes, por Elza Soares, mas eu sempre escutei muito a galera da antiga. Eu gosto muito.
Tem umas músicas suas que são mais para o forró, outras que são mais para o MPB. Você tem algumas músicas já lançadas, tem o EP “Molho”. E, desde a primeira música até os últimos lançamentos, a gente percebe uma evolução enquanto artista. Como foi esse processo para você? Você sente isso? E o que a gente pode aguardar também dos seus próximos passos?
Como eu disse, minhas raízes são muito de MPB. Antes eu não achava que eu seria cantora, mas, a partir do momento em que eu vi que eu seria, que eu tentaria ser, e decidi seguir isso… Eu achava que eu só cantaria MPB, “MPBzada”, dessas antigas que eu tô falando. Só que, quando eu comecei a compor, eu só conseguia compor samba, forró, pagode, e eu achei extremamente estranho, porque achava que eu ia fazer só MPB, no máximo Bossa Nova. E, compondo, naturalmente, vinham esses ritmos da Bahia, e era difícil compor outra coisa. A primeira música que eu lancei foi “Baiana Baianinha”, que era um sambinha, tinha uma coisa de Bossa Nova, mas virava um samba, e eu tive que estudar como eu ia cantar, porque eu não tinha nem costume de cantar samba. Então eu tive que entender e estudar tudo para gravar essa música.
Um pouco antes de lançar “Baiana Baianinha”, eu conheci Rafinha, RSQ. Ele propôs que eu pensasse em algo que eu pudesse fazer que fosse mais pop, e para mim foi a pergunta mais estranha do mundo, porque eu não pensava nisso, não pensava que eu seria uma artista pop, porque era um gênero que eu consumia muito quando eu era mais nova, mas depois que eu me tornei adolescente, eu parei um pouco de consumir. Eu ouvia tudo: rock, forró, rap, MPB, internacional, tudo, mas o pop mesmo eu não consumia muito. Ele me veio com essa provocação porque a gente estava com a ideia de fazer o EP “Molho”. Eu fiquei pensando, pensando, pensando... Eu comecei a perceber que eu tinha muitas coisas do pop e eu não pensava nisso, não considerava. E nisso, a gente compôs juntos e foi produzindo o EP, entendendo um pouco esse lugar do pop. Tanto que é um EP bem baiano, mas é bem pop também, tem diversos ritmos, tem muito beat, tem uma estética bem específica.
De “Bainana Baianinha” para “Molho” tem uma diferença absurda de um lançamento para o outro, porque fui entendendo que não era só Bossa Nova, tinha outras coisas que eu também gostava e eu realmente não pensava nisso. Tanto que eu cantei no Carnaval pela primeira vez, no Trio Elétrico do Bailinho de Quinta. Eu não achava que ia me identificar com o Carnaval de jeito nenhum; achava que meu rolê era apenas voz, violão e barzinho, algo assim. E, quando eu cantei no Carnaval pela primeira vez, eu amei. Foi um mundo tão diferente, mas eu ficava: "Eu quero carregar o trio, eu quero agitar, eu quero fazer", e eu não esperava que eu fosse gostar tanto. Então a música foi me pegando muito de surpresa. Eu achava que iria para um lugar e naturalmente foi indo para outro.
Aí eu lancei o forró. Que é muito referência para mim dentro da minha família. A gente sempre pulou muito São João no interior, então sempre escutei muito forró, da parte de Luiz Gonzaga, esse tipo de forró. E aí, eu fui também dentro desse tempo tentando entender como essa minha raiz da MPB ficaria, como se encaixaria também dentro dessa estética pop, que, por exemplo, dentro do EP “Molho”, tem músicas que não têm a ver com MPB. Por exemplo, “Balança”, uma música pop, não tem a ver com MPB. Mas “Cor de Mel” tem. Mas eu fui começando a tentar entender, né? E aí eu fui para o Rio. Eu tinha lançado "Soltinha", que foi pop também, aquela coisa, roupa de cigana, tudo vermelho, unhas de fogo, aquela coisa assim bem puxando, sabe? Já para uma referência de Shakira, uma coisa mais assim?
Eu fui conhecer Pedro Breeder, que é um produtor muito bom lá do Rio, e aí fizemos “Bagunçar”. "Bagunçar" já entra um pouco nesse universo de entender onde é que a gente vai pisar. Tem pagodão? tem. É pop? É, mas é MPB. Tem outras coisas, é Brasil. Tô na construção do meu primeiro disco com Pedro Breeder, inclusive. A gente não tinha esse plano, mas acho que “Bagunçar” foi o pontapé para entender esse caminho.
Você falou muito sobre estética. É uma questão muito importante como você se posiciona, o que você usa e tudo mais. Eu sinto que você consegue expressar, talvez, na forma como você se veste, o que você está querendo dizer na música. Então eu queria entender um pouquinho mais sobre isso, como que é a estética para você?
Eu estou num processo de descobrir. Minha carreira tem muito pouco tempo, na verdade. Eu comecei a lançar no final de 2024. Eu acho que me pega muito o fato de as tendências serem muito minimalistas hoje em dia. Tem toda uma questão política de as roupas serem sempre cores neutras, as casas serem todas com cores neutras, as arquiteturas da cidade serem neutras... tudo ser extremamente moderno, extremamente certinho, e eu acho que existe um movimento hoje também de contracultura, de querer resgatar essa coisa do vintage, do retrô. Pensar nessa cultura latina, que é extremamente rica. Foi uma coisa que aconteceu muito naturalmente, tanto que essa coisa do colorido é uma coisa que eu venho assumindo mais a cada tempo que passa.
Eu gosto que o meu trabalho respire uma coisa de diversão, uma coisa solar. Eu gosto inclusive de estar associada a uma coisa divertida para também falar de coisas que não são divertidas. Porque não sei, eu não gosto de que seja uma coisa só. Vou falar muito sobre coisas complicadas ao longo da minha vida, e eu não quero que seja só isso, nem que a vida seja só isso, sabe? Até porque a gente é diversa, né? A gente pode falar sobre muitas coisas diferentes.
Você impulsiona muito sua carreira por meio das redes sociais. E eu queria saber como isso acontece para você. Você tem uma estratégia ou você só vai postando? Como é sua relação com as redes sociais? Pensando nesse lado mais artístico?
A maior parte é aleatória porque eu não tenho tempo nenhum para planejar. Eu tenho a vida muito corrida porque estou me formando em Psicologia, eu faço estágio. Então eu tenho uma vida muito atribulada. Eu não consigo. Eu até gostaria de ter mais tempo para planejar as redes sociais, mas hoje eu não tenho e eu faço sozinha. No geral, minhas redes sociais eu cuido tudo só. Então vai muito aleatório, mas eu não sei, eu sou muito antenada desde nova.
Eu já sou de uma geração que vem das redes sociais também, o que facilita. Quando eu tinha 13 anos de idade, eu era blogueira, naquela época em que começavam as blogueiras no Brasil. Eu fui blogueirinha ali com 13 anos, aí eu parei, saí das redes. Durou ali um ano de blogueiragem, mas eu já venho nisso. Quando eu era criança, tinha um aplicativo na época que era VideoStar. Era meu hobby de criança ficar ali editando vídeos no VideoStar, sabe? Eu vim muito desse universo de gostar de audiovisual que a gente mesmo produz. Então, é uma coisa que acontece de forma muito espontânea, no geral. Às vezes o engajamento melhora, às vezes não tanto, porque é uma coisa realmente fluida assim. A gente vai testando; se uma coisa dá certo, a gente repete. Às vezes dá, às vezes não dá.
Você é uma artista independente. Como é essa estrada de um artista independente hoje em Salvador, que, mesmo sendo um polo cultural, a gente sabe que não é um lugar que recebe tanto investimento como outras cidades?
Sempre que me perguntam isso, eu falo que eu não me considero exatamente um parâmetro, porque eu acho que eu tive muita sorte. Eu comecei no final de 2024, vai fazer dois anos ainda. Eu não vinha de uma família que tinha contato, não tinha nenhum dinheiro para investir. Então, eu vim assim do nada, não tinha nenhum conhecimento sobre como entrar no mercado. Mas eu tive muita sorte porque eu já tinha destaque nas redes sociais, já produzia conteúdo, já falava sobre música. As pessoas, muitas pessoas muito interessantes, foram se aproximando de mim, e eu tive acesso a produtores muito bons, eu tive acesso a pessoas muito legais e eu fui fazendo amizades. Contato é muito importante.
Mas, ainda assim, claramente a cena não tem muito investimento. Eu faço muita coisa na cara e na coragem. O “Swing e Maresia” é um show que eu faço na casa, é um show independente, não tem patrocínio, não tem investidor. A gente abre, vende os ingressos, bota gente dentro da casa, contrata a banda, paga tudo e faz o show. Não tem ninguém investindo e dando alguma coisa. É muito na cara e na coragem, mas eu acho que eu tive muita sorte de conhecer pessoas que foram me ajudando, uma mão lavando a outra. Fui fazendo amizade nesse meio, mas não é um meio que incentiva.
Eu queria falar um pouquinho mais especificamente sobre o álbum. Tem data de lançamento? Ele já está completo? Como está esse processo?
Não tenho certeza ainda sobre a data, mas tenho certeza de que vai sair em agosto. Falta pouco, agosto é praticamente amanhã. Antes ia lançar em maio, então a gente adiou o lançamento e me deu muito mais tranquilidade, e dessa vez, pela primeira vez, eu tô com um pouco mais de equipe. Então, eu me sinto bem menos sobrecarregada, porque antes eu fazia tudo sozinha, principalmente audiovisual. Pensava em tudo, fazia direção criativa de clipe, sem nenhuma experiência em direção criativa, sem nem saber o que era direção criativa. Fazia styling, sem ter a mínima noção, mas você vê que, a partir daí, eu tive que desenvolver alguma coisa por conta própria. Mas eu tô mais tranquila porque agora tem pessoas me ajudando, tem um pouco mais de gente. E eu tô super animada. A gente está nesse processo de construção. A gente já sabe quais são as músicas, já está encaminhado, só que a gente está terminando ainda.
Esse álbum seria talvez o ponto de partida? O primeiro momento em que você fala: É isso que eu quero fazer, é isso que eu quero que seja minha carreira, é esse estilo que eu quero seguir...?
Sim, eu acho. Nesse sentido, quando a gente pensa no álbum, tem uma responsabilidade bem diferente de você entregar um projeto que conte uma história. Muito diferente dos singles. Como é o meu primeiro álbum, eu vejo muito esse impacto de algo maior, de ter uma narrativa, sabe? De que faça algum sentido, que as faixas se conectem, porque eu tenho várias composições.
Foi escolhido. O que está ali foi escolhido para estar ali porque fazia sentido dentro daquilo ali, que, na minha cabeça, intuitivamente, o que fazia sentido era que todas tinham a ver com água, mesmo que ninguém concorde, mas para mim todas têm a ver com água. E eu acho que conta uma história, tem uma narrativa. Acho que quem escutar vai entender quem eu sou artisticamente a partir dali também. Esse álbum conta uma história, a minha história. São coisas muito pessoais, porque, quando eu estava no Rio, escolhendo quais seriam as músicas, eu saí aos prantos. Foi o meu choque de "meu Deus, eu não acredito que eu vou expor coisas tão pessoais assim".
E falando um pouco mais sobre a produção no geral, você compõe as músicas que você lança? Você participa também um pouco mais da produção ou fica mais nessa parte da composição?
Todas as músicas que eu lancei, eu estou na composição. Eu participo dessa composição, faço muita questão. Não tenho absolutamente nada contra gravar músicas de outros compositores, mas eu gosto muito de contar essa história com as minhas palavras. Eu acho que tem um peso muito específico e acaba sendo muito especial. Acho que todo compositor tem um pouco esse sonho, né, de cantar sua música. Porque tem algo de muito pessoal ali, tem uma palavra que você usa por alguma razão, enfim. É uma forma de contar as coisas.
Eu participo muito dessa composição; já na produção, eu sou bem tranquila de trabalhar. No geral, eu gosto dos produtores com quem eu trabalho e eu gosto do que eles fazem. E aí eu faço alterações poucas ali. Geralmente eu não sei explicar a minha ideia, então eu fico falando: "E se essa batida tivesse mais a ver com o mar?", aí a pessoa que se vire para entender o que eu quero dizer. Como é o álbum, acho que eu até fico um pouco mais chata, porque faço mais questão de que tenha muito a ver comigo.
Sobre esse processo do álbum, você sente que tem aprendido muito? Você tem se conhecido mais nesse processo?
Filha, pelo amor de Deus! Sério. Muito, muito, muito, muito mesmo! Esse álbum está sendo uma jornada. Eu tenho a impressão de que todo lançamento que eu faço é uma jornada. Coincidentemente ou não, todo lançamento cria uma atmosfera que eu começo a viver aquilo ali intensamente. A vibe da música se torna a vibe da minha vida por um tempo, e eu acabo aprendendo muito dentro daquilo. E o álbum está sendo isso de uma forma estratosférica. É um álbum muito sentimental, com muita simbologia, com muitas reflexões. É um álbum que fala muito sobre amor. Então, Ave Maria. Está sendo incrível. É o que descreve: Ave Maria. Com certeza eu tenho aprendido muito com o álbum.
De "Tapa Tapa" a "Se Eu Morasse Aqui Pertinho", Guga Meyra celebra 13 anos de carreira e nova fase no pagode
Por Ana Beatriz Soares
Com apenas 26 anos, mas carregando a bagagem de um "novo velho", Guga Meyra tem consolidado seu nome na cena baiana. De compositor requisitado por estrelas como Anitta e Léo Santana a intérprete de hits que dominam as redes sociais, o artista revela como a herança familiar e o trabalho duro pavimentaram seu caminho no pagode.
Nascido em um ambiente musical, Guga viu de perto a rotina de grandes ídolos do Axé por meio do trabalho de seu pai, que é preparador físico de artistas, e, aos 13 anos, decidiu que seu lugar também era nos palcos. Após um período de imersão na composição durante a pandemia, em que emplacou hits nacionais, ele agora colhe os frutos de parcerias de peso e momentos virais no Carnaval de Salvador.
No bate-papo com o Bahia Notícias, Guga relembrou o início precoce, a importância de mentores como Alexandre Peixe e a emoção de ver seu trabalho ganhar o mundo.
Me fala sobre o seu começo enquanto artista. Você já falou que começou bem novo, com 13 anos. Você já cantava profissionalmente?
Na realidade, eu costumo dizer que a música está comigo desde que eu nasci, né? Porque eu venho de uma família em que meu avô era músico, meus tios eram músicos. Então, o lance do canto, dos instrumentos, já vem comigo realmente desde quando eu nasci. Mas, profissionalmente, eu comecei aos 13 anos. Falei para meu pai: "Pai, meu negócio é cantar, é a música. Eu quero isso para minha vida”. Meu pai sempre me apoiou muito.
E de lá para cá foi quando eu comecei a cantar na noite e tudo mais, a compor para outros artistas... A trabalhar com a música de uma maneira mais ampla, até não só cantando, mas compondo. Passei por muitos lugares, tive muitas experiências que marcaram minha carreira. Acho que a relação com a música é um dom que vem com a gente quando a gente nasce. Então, não me vejo fazendo outra coisa a não ser cantar. Sou muito feliz, muito realizado.
E a nossa terra, ela puxa muito isso também, né? A gente vem de um lugar onde as pessoas já nascem batucando, batendo palma, fazendo samba na rua. O meu começo foi muito novo e acho que isso conseguiu me trazer, de certa forma, algumas experiências que hoje me ajudam muito. Meu sócio, meu empresário, fala que eu sou um "novo velho". Que, apesar de eu ter 26 anos, eu já tenho aí 13 anos de carreira. Então, praticamente é metade da minha vida trabalhando. E eu tenho muito orgulho disso.
E você falou sobre seu pai. Ele é preparador físico de cantores para trio elétrico, para o carnaval. Então você viveu esse Carnaval desde pequeno?
Na realidade, na época do axé em alta, meu pai preparava muitos artistas. Meu pai foi preparador de Ivete Sangalo, de Tatau, de Tuca Fernandes, de Margareth Menezes. E, como nessa época os shows eram micaretas, que eram verdadeiras maratonas para os cantores — porque fazer um trio elétrico... às vezes o trio quebra no meio do caminho, aí o cara fica lá cantando não sei quantas horas —, isso exige um preparo físico realmente diferenciado para as pessoas e para os artistas. Até os músicos também procuravam muito o meu pai, percussionista, baterista, porque, para você segurar a onda ali no trio, ainda mais aquela pulsação do axé durante 6, 8 horas, não é para qualquer um.
Então a galera procurava muito ele para treinar, e o ciclo de amizade dele girou muito em torno disso. E eu ficava inserido nesse meio. Ele sempre me levava para as confraternizações, e a galera tocava e me incentivava a cantar.
Jorge Zarat, que é um grande compositor da música baiana, foi um dos caras que me deu régua e compasso. Tenison Del Rey, o próprio Alexandre Peixe, eram pessoas que estavam sempre presentes nessas resenhas, e eu ficava assim, de espectador, mas sonhando em estar ali e aprendendo um pouquinho. Então eles me davam violão, me davam cavaquinho: "aprende aí, faz assim, faz assado”. E nessa eu fui me desenvolvendo, fui aprendendo e acho que isso incentivou muito a minha vontade em querer trabalhar com isso.
Esse background, então, ajudou bastante, moldou o seu caminho. E eu queria falar um pouco também sobre a sua carreira como compositor, porque você, antes de ser muito conhecido como cantor, fazia muitas composições: para Léo Santana, para Anitta, para Xand Avião... Como funcionava seu método de fazer essas músicas?
Eu sempre gostei muito de compor, mas inicialmente eu não compunha de uma maneira comercial, para vender para outros artistas. Eu compunha mais para mim, para o meu projeto. Quando eu queria gravar um álbum, CD ou alguma música, eu sentava para escrever. E, quando as coisas fecharam junto com a pandemia, que deu aquele lockdown, a gente não podia fazer show. Então, isso restringiu muito a forma dos artistas, de uma maneira geral, de conseguirem ganhar uma grana para realmente sobreviver. E foi aí que eu pensei: "Caramba, eu vou me dedicar mais à composição para que isso vire para mim uma fonte de renda”.
Foi num momento muito especial, porque eu tinha acabado de ser gravado por Léo [Santana]. Foi o primeiro artista grande que me gravou. Eu ainda era muito novo, tinha 18 anos e percebi que os compositores que já estavam “macaco velho” no mercado não me davam muita moral, o que é normal. Era muito difícil conseguir furar as bolhas das rodas de composição. Essa música foi o meu primeiro passaporte para conseguir acessar alguns compositores que me ajudaram muito, e o principal deles foi Alexandre Peixe, que já conhecia ali de pequeno. De vez em quando a gente se encontra e acha algumas fotos minhas, com 10 anos de idade, indo ao ensaio dele. Assistia ao ensaio, ficava vidrado. E Peixe hoje é um amigo, irmão, e foi um cara que me botou debaixo do braço e falou assim: "Bora compor comigo". Passamos a pandemia inteira praticamente compondo diariamente, diariamente mesmo. A gente se encontrava de segunda a sexta, 5, 6, 7, 8 horas por dia, às vezes até mais. A gente viajava para compor com outros compositores e, de certa forma, como ele é um cara que já tem muitos hits, me ajudava muito, porque, em qualquer roda que a gente chegasse, ele já era muito respeitado e eu estava com ele. Trazia junto a galera do meio, que me respeitava porque ele me dava essa credibilidade. Foi aí que começaram a entrar alguns repertórios. Léo gravou a gente em mais algumas músicas, Xand Avião gravou uma música na pandemia que caminhou bastante...
E aí eu comecei a conhecer outras pessoas também, outros compositores. Comecei a viajar, aí às vezes Peixe falava: "Gugu, essa viagem eu não vou não, vá sozinho". E eu comecei a desenvolver esse relacionamento e fazer mais músicas com outras pessoas. Outros artistas também começaram a me gravar. Foi aí que Ludmila me gravou com Menos É Mais, uma música chamada "Destilando", e Anitta me gravou em um feat (parceria) com MC Livinho.
Foi aí que o meu lado compositor foi se desenvolvendo. Eu acho que, para o artista seguir uma carreira de líder de uma banda, de cantor, enfim, é muito importante que ele tenha essa bagagem de composição, sabe, de criação. E culminou no meu melhor momento enquanto compositor, em que minha carreira também caminhou mais. Porque eu acho que eu comecei até a gravar coisas melhores para mim mesmo e as pessoas começaram a gostar mais das minhas coisas, provavelmente porque eu estava amadurecendo enquanto compositor. Acho que é o processo natural. A nossa música está começando a chegar em outros lugares, muito por conta das redes sociais também. Termina ajudando bastante na divulgação. A rede social e o trabalho duro é o nosso lema.
Você falou bastante sobre Léo Santana. Vocês lançaram “Se eu morasse aqui pertinho”. Conta um pouco sobre esse processo de gravação.
Léo é um cara com o qual já temos uma relação de amizade, mas de quem eu sempre fui muito fã, sempre admirei muito. Não tem como não ser também. Espelhei muito o meu trabalho até hoje em coisas que ele faz, é uma referência. E é um cara que me ajudou muito na música. Essa é a segunda música que a gente grava junto. Um artista como Léo Santana, que grava com a galera nacional, tirar um tempo para gravar comigo, para um menino que estava começando... Ele é um cara diferenciado, muito generoso. A gente já estava tentando gravar algumas coisas juntos. Eu mandava algumas músicas para ele, só que não tinha batido ainda. E “Se eu morasse aqui pertinho” foi uma música que a gente já tinha gravado há um ano, mas de dezembro para cá ela começou a crescer muito nas aulas de dança, nas redes sociais, nos nossos shows. Eu falei: "Caramba, a oportunidade é essa”. Então, eu mandei para ele, ele topou de primeira, ficou super feliz, empolgado. Estamos colhendo os bons frutos aí com essa música.
É engraçado porque eu não estou acostumado, mas a gente passa aqui em Salvador em alguns lugares. E em algumas academias, a gente vê o pessoal na aula de Fitdance tocando nossa música. Eu confesso que não consigo normalizar, não estou acostumado. Algumas pessoas na rua já estão me reconhecendo. Quando você, sei lá, está na academia e alguma pessoa te aborda para parabenizar o seu trabalho, falar que te conhece, que te viu num show, te viu numa rede social… Eu acho que é aquela resposta de que o nosso trabalho está alcançando o que a gente espera.
Eu queria falar também sobre outra música que acho que foi muito marcante para sua carreira, "Tapa Tapa", sua parceria com o Lincoln Senna. Eu já vi você falando que ela nasceu de uma forma muito despretensiosa. Como foi esse processo e como você enxerga a importância dessa música para sua carreira?
Rapaz, posso falar até que talvez tenha sido a música mais importante na minha carreira. Porque ela foi realmente a primeira música que me levou para lugares que eu nunca tinha ido. A maior vitória foi ter gravado com Lincoln, que é um irmão da vida, assim, para muito além da música. Ele é um cara que mora no meu coração. A gente tem algumas coincidências nas nossas vidas. Lincoln foi líder da banda Duas Medidas durante muitos anos. Eu cantei na Duas Medidas depois que ele saiu.
Foi um cara que não emprestou a voz para mim numa música. Ele realmente disse: “irmão, essa música é nossa, nós vamos trabalhar nela juntos”. Ele abraçou o projeto. O cara está à frente de uma banda que é Parangolé, é uma lenda para nossa música. Para a música do Brasil, tem um legado gigantesco. Eu sou um cara que está chegando ainda. Foi realmente um divisor de águas.
Você falou sobre ter cantado no Duas Medidas. Como foi essa experiência?
Foi uma experiência muito marcante para mim, porque eu acompanhava Duas Medidas enquanto fã. Eu ficava olhando os caras naquele momento, tipo: “caramba”, querendo começar a tocar, e eles eram a banda que já estava despontando aqui na Bahia. Sempre tive aquela imagem de espectador. O convite para entrar na banda veio em um momento muito marcante da minha carreira. Todo mundo tem um momento na vida em que começa a se questionar. Eu estava me questionando sobre faculdade, música, composição. Eu estava tentando entender para onde eu queria realmente direcionar minha vida. E aí esse convite veio nesse momento e eu agarrei.
A gente conseguiu fazer um trabalho massa, ainda que curto. Mas rodamos em muitas cidades, isso também levou o meu nome a ser conhecido por pessoas que não me conheciam ainda. Então foi muito, muito importante para mim. Eu não acredito em coincidências. Eu acho que, na nossa vida, tudo tem um propósito. Então, quando eu olho para trás, eu fico pensando: "Caramba, aquilo ali aconteceu por causa disso, né?". Normalmente, tudo que acontece na nossa vida tem algo de bom para você tirar.
E você falou que não sabia se seguia na música ou na faculdade, mas você entrou na faculdade, não é?
Eu tô lá até hoje. Eu não tô muito presente, mas assim, eu tô lá até hoje. Preciso até organizar isso na minha vida, ainda bem que você me lembrou. Mas, na verdade, eu entrei na faculdade de Direito da UFBA. É uma área que eu gosto muito, principalmente no que diz respeito ao direito autoral. Existem algumas formações que ajudam a pessoa, independentemente da área que ela vai fazer, e Direito é uma delas. Hoje a minha carreira já toma muito do meu tempo e eu confesso que estou ausente na faculdade, não porque eu gostaria, porque realmente é muito difícil de conciliar. Em algum momento da minha vida, eu pretendo terminar.
Você já trabalhou com muitos artistas grandes. A gente já citou aqui Anitta, Ludmila, Léo Santana… E eu queria saber se tem algum artista, alguma banda com quem você nunca trabalhou, mas gostaria muito.
Tem alguns. Imagina. Principalmente aqui da Bahia. Eu nunca gravei nada com Ivete. Ela é a referência total, a número um. Já tive muitos contatos com ela, mas de gravar uma música junto ainda não aconteceu. Tô jogando aqui para profetizar! Tem alguns artistas também de fora da Bahia, que são de outros gêneros, de quem sempre fui muito fã e acho que, se algum dia eu conseguir gravar alguma música com eles, vai ser uma vitória: Jorge e Mateus, Luan Santana, Henrique e Juliano. Esses caras são gigantes. Eu gosto muito da música sertaneja. Tem muitos nomes, né? Eu poderia citar aqui milhares.
Eu queria falar também um pouco sobre o carnaval, porque você, no início desse ano, viralizou. Acho que ficou muito marcado aquele momento do trio em que você encontrou sua namorada no camarote...
Para quem não está entendendo… Porque assim, a gente tem uma sensação de que viralizou, mas muitas pessoas não viram, né? Eu saí de chorão ainda, rapaz. Na realidade, minha família é muito presente no meu trabalho. E todo o carnaval é um momento muito intenso para a gente, porque a gente trabalha muito, se prepara para chegar nesse momento. Desgasta-se muito nesse processo, tanto física quanto emocionalmente. São muitas viagens, muitos shows, muitas noites de sono perdidas. É realmente a nossa Copa do Mundo. Minha família sempre faz questão de estar comigo.
Esse ano minha namorada, Maria, não pôde estar comigo no Carnaval. Ela estava trabalhando e foram muitas coisas, até pessoais, que aconteceram nesse período que a gente superou, foi um momento bem difícil. Quando eu estava passando pelo camarote, foi quando eu a vi da varanda do camarote. A gente estava com um trio super bonito, pipoca cheia, ela vendo aquela vitória, porque ela está dentro de casa comigo, acompanhou o processo de “Tapa Tapa”. Chegar ao Carnaval com uma música concorrendo à música do Carnaval nos principais prêmios… Ela viu aquilo ali acontecendo de fato e se emocionou para caramba. Basta eu ver alguém chorando que eu choro junto, ainda mais com tudo o que estava acontecendo. Aí eu me emocionei. O pessoal gosta de uma fofoca e aí viralizou.
Eu não costumo expor muito minha vida pessoal, eu sou um cara bem reservado, mas não teve como segurar a emoção. E acho que, se puder viralizar e aparecer de uma maneira como essa aqui, trabalhando, celebrando conquistas com sua família, com as pessoas que você ama, com sua namorada... Eu prefiro.
A gente passa muito tempo fora, muito tempo viajando, principalmente no que diz respeito a um relacionamento. Tem a questão do assédio em show, a gente está ali cumprindo um papel de um personagem. Eu faço questão de me posicionar: eu tô namorando, realmente tô namorando, valorizo isso, valorizo essa união genuína, de você querer construir algo. Foi assim que eu fui criado e é assim que eu pretendo seguir minha vida.
Um homem apaixonado! E falando um pouquinho sobre essa preparação para o carnaval, você que tem um pai que trabalhou como preparador físico. Como funciona sua rotina? Ele te dá muitas dicas? Você tem rituais?
Ele fica no meu pé diariamente. Vai treinar todo dia, é religioso. Isso quando ele não vai comigo para a academia. Mas eu gosto muito de ter esse lifestyle mais saudável. Minha empresária é nutricionista, a esposa dele é nutricionista também. O nosso camarim é engraçado, porque tem alguns camarins, alguns contratantes que olham a lista e falam assim: "Só refrigerante zero, água, cadê o whisky, cadê a bebida?"
Eu gosto de beber também, mas não costumo beber no trabalho. A gente tenta manter essa rotina, porque o nosso trabalho já coloca a gente em situações em que é muito difícil a gente segurar a onda. A gente às vezes precisa se alimentar na estrada, não consegue fazer aquela dieta realmente organizada, come o que tem. E afeta a voz também. Perde muito a noite e o principal remédio para a voz é o sono. Então, se a gente não fizer nossa parte, uma hora ou outra [a conta] vai chegar.
"O forró é uma das espinhas dorsais da música brasileira", afirma Léo Estakazero ao celebrar 30 anos de carreira
Por Bianca Andrade
“Não sei de nada, sou um eterno aprendiz…” Após anos de história, essa é a frase que ainda define a vida de Léo Estakazero. O artista completa 30 anos de trajetória musical em 2026 e acredita que ainda tem muito a aprender em um gênero que luta por preservação: o forró.
Se a história de Léo com a música fosse um casamento, neste ano o artista estaria celebrando Bodas de Pérolas, joia que, no matrimônio, simboliza uma relação que passou por adversidades e se tornou firme, resistente e encantadora, algo que traduz a trajetória do artista na música.
Seguro de sua escolha, Léo soube ainda no início da carreira que a música era a sua certeza na vida. Foi botando o pé na estrada com a Colher de Pau que o artista entendeu que nasceu para o "forró com reggae", se tornando um símbolo do forró em Salvador e representante de um estilo na Bahia.
“Uma geração de adolescentes, muitas pessoas aprenderam a gostar de forró com a Estakazero. Hoje eu tenho um sanfoneiro, Nino, que cresceu ouvindo a Estakazero em Cruz das Almas. O elogio que eu mais gosto de receber, sem dúvida alguma, é esse: ‘Poxa, eu aprendi a gostar de forró com a Estakazero’. A gente tem um forró com uma linguagem lúdica, as crianças sempre gostaram.”
Em 2026, o sonho de Léo é um: após 30 anos de história na música, o desejo é emplacar um novo CD como o Lua Minha, de 2005, considerado um dos clássicos do forró baiano. “Eu trabalho e busco a cada ano, quem sabe, realizar um novo sucesso. Poder contribuir mais ainda com o forró”.
No bate-papo com o Bahia Notícias, o artista ainda relembrou momentos marcantes da carreira e avaliou a cena atual do gênero. Confira a entrevista completa com Léo Estakazero:
Léo, você fala que não foi você que escolheu o forró, que o ritmo te escolheu. Como foi esse momento de perceber que o forró era o seu caminho?
Olha, aquela história: às vezes o ambiente, né? Às vezes o meio influencia, né? O meio nos influencia demais. Então, assim, foi durante o São João que eu percebi a minha importância, por isso que eu falo que o forró me escolheu. Aqui na Bahia, nós temos esse movimento muito sazonal, muito forte. Quando passa o Carnaval, que é muito forte em Salvador, existe aquele clima onde as pessoas se preparam para o São João. Então, a gente começa a respirar o forró e, em meio a isso tudo, eu estava começando a tocar com meus amigos e primos; tinha uma banda que não era uma coisa muito profissional, que era a banda Colher de Pau. E a gente fez um repertório só de forró, e eu acertei nesse repertório de tal maneira que a gente foi eleita a banda revelação em 97, em Amargosa. Aquilo foi muito forte, aquilo me impactou demais. Eu larguei faculdade, emprego que eu tinha e me dediquei à música.
Você falou da Colher de Pau e eu lembrei que na porta da minha casa tinha um adesivo da banda. Percebo que o gosto pelo forró é uma tradição que cresce em família. Como você percebe essa transmissão de raízes?
Isso é fantástico, né? Isso aí é a maior riqueza que nós temos, né? Ser influenciados pelas nossas raízes. E o forró tem muito isso. O forró é um estilo de música. Quando eu abracei o forró, eu fiz isso com a consciência muito tranquila, porque eu cresci ouvindo Luiz Gonzaga, meu pai, meus avós, né? Dominguinhos, o próprio Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, que foi o artista com quem aprendi a tocar violão. Então, eu me senti em casa e realmente me identifiquei muito, sempre me identifiquei muito com esse movimento musical; e meu pai também sempre me ensinou a valorizar a música brasileira. Sempre foi um bairrista nesse aspecto de gostar de música brasileira, de MPB, e o forró está dentro desse contexto.
Qual foi a maior dificuldade que você encontrou ao largar a profissão e a faculdade para se dedicar inteiramente à música?
Essa pergunta até é uma pergunta difícil. Sinceramente, assim, eu não tive dificuldade. A música sempre esteve presente na minha vida, né? Fazer música é diferente de viver de música. Então, eu sempre fiz música desde criança. Tive a sorte incrível de ter uma mãe professora. Ela dava aula de iniciação musical e aula de piano. Então, eu tive uma educação musical, vamos dizer assim, desde casa; eu comecei a tocar instrumentos, aprender ritmos, aprender as melodias, solfejar, aprender a teoria musical. Desde pequeno, frequentava a escola de música ainda jovem. Só que, engraçado, eu nunca projetei que iria viver de música. Eu tinha aquilo como uma coisa natural, como uma coisa de dentro de casa. E quando eu comecei no mercado de trabalho, trabalhei em bancos, servi ao Exército, eu percebi que tinha dificuldades nas outras coisas. Quando eu comecei a banda, que a banda começou a despontar, logo percebi que aquele era o meu lugar. Meu lugar era o palco, eram as festas, era estar no meio das pessoas. Eu me sentia bem fazendo isso. Eu sentia que, assim, provavelmente eu não daria mais certo em nada. Seja tocando num barzinho, voz e violão, animando uma festa de aniversário, ou seja num palco, numa praça tocando para 50.000 pessoas, 100.000 pessoas, eu me sinto em casa ali. Me sinto bem, me sinto seguro.
Qual foi o momento mais marcante para você nesses 30 anos de carreira?
Provavelmente o mais marcante foi o momento em Amargosa, quando fomos eleitos banda revelação. Aquilo foi o ponto de decisão para pautar minha vida pela música, mesmo sem ter planejado ou almejado o sucesso. Hoje, muitos jovens e crianças sonham com o sucesso, influenciados pelos pais, mas eu acho que você precisa primeiro gostar de fazer música. O sucesso é consequência.
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Você comemora esses 30 anos em um palco especial: os seus tradicionais ensaios de São João. Como foi consolidar essa festa que virou memória afetiva em Salvador?
Olha, é uma realização também, né? E, aqui na Bahia, eu tive muito exemplo, né? Eu aprendi muito com os artistas que faziam os ensaios. É uma tradição; eu cresci na juventude indo para os ensaios. Era do GeraSamba, depois foi do É O Tchan. Ao longo desses muitos anos, as coisas vão evoluindo, vão mudando. Fazer evento hoje é muito mais difícil do que era no passado. Existe uma série de situações, mas o ensaio é, assim, uma realização. Como você disse, eu tive a honra e o prazer de cantar com Elba Ramalho, com Geraldo Azevedo e Alceu Valença, fora os artistas da Bahia. Toda a galera do forró, eu pude prestigiar: Adelmário, nosso saudoso Zelito, Carlos Pita, Renato Fechine. Toda a galera do forró: Del Feliz, Jó Miranda, Cangaia de Jegue... Nosso ensaio teve uma projeção nacional; foi um momento de muita consolidação da carreira da banda Estakazero.
Muitas pessoas tratam o forró como algo sazonal, mas quem é da cena sabe que ele acontece o ano inteiro. Como é manter essa constância?
Dentro do universo do forró, você tem as suas, vamos dizer assim, tendências. O forró, ao longo desses 30 anos, eu assisti: o forró pé de serra, o universitário, depois o forró tradicional fazer mais sucesso, depois o forró das bandas, o forró vaneirão... ele passa por processos de transformações. Isso vai de acordo também com os jovens que vão chegando, a maneira como eles se comunicam. O forró é uma das espinhas dorsais da música brasileira, assim como o samba; influencia todos esses outros estilos. E aqui na Bahia existe esse caldeirão. Então, eu me sinto assim: eu faço parte disso e, durante o ano inteiro, esses movimentos estão presentes nas festas. A gente percebe mais isso na capital, né? Essa coisa da sazonalidade está mais dentro da capital, por ter muita influência também da música baiana, do reggae, do pagode e tal. Mas o interior, ele ainda mantém muito acesa a questão do forró nos seus eventos, sem dúvida alguma.
Eu acompanho a cena dos festivais e é bonito ver que o ritmo não para após o São João.
Os festivais são importantíssimos, eles fazem questão de manter a tradição. O festival, ele mantém ali a essência do forró, para que não se perca. Quem gosta de forró na sua essência tem nos festivais ali o ano inteiro.
Quem canta forró tem obrigatoriamente que saber dançar?
Olha, eu particularmente sei um pouco (Risos). Não faço feio não, né? Gosto muito de dançar, adoro. E sempre que eu posso eu vou lá no Forró Talco dar uma uma dançadinha.
A dança do forró é um ambiente acolhedor? Você recomenda para quem nunca foi?
Sem dúvidas. A dança é uma excelente manifestação. Dançar é terapêutico, movimentar o corpo, conhecer pessoas. Quantas pessoas já me disseram: "Olha, casei, tenho filhos, conheci minha mulher, meu primeiro beijo foi dançando ao som de 'Encosta N'eu', ao som de 'Lua Minha'". Já ouvi muito isso, já fiz show em casamentos, já casei muita gente. Então assim, sem dúvida alguma é a programação excelente.
Léo, eu conversei com Del Feliz para poder falar justamente sobre essa essa esse processo de reconhecimento do forró como patrimônio material da humanidade. E quando eu conversei com ele, ele tocou em um ponto importante, a questão da descaracterização de São João. A gente sabe que é um pedido muito forte para políticas públicas em relação ao São João, ao forró, mas eu queria saber do outro lado. O que é que o público pode fazer para manter essa tradição de São João, né?
Em primeiro lugar, o público precisa entender, né? E saber o que quer. Ter a consciência do significado do São João. Ao mesmo tempo em que o São João cresceu muito, a gente não pode generalizar; tem cidades que fazem festas lindíssimas de São João, mas tem cidades em que realmente descaracterizou, porque o São João é uma festa do interior. Ela é a festa que enaltece a essência do nordestino. É a festa da cultura nordestina, cheia de assunto: comida, roupa, dança, tradições. Assunto esse que vem se perdendo; quanto mais ela cresce, mais ele perde a característica. E você vê artistas, muitas vezes, sem vínculo nenhum com o próprio São João, porém, essa coisa toda acontece, como você mesmo falou, para agradar ao público. O que acontece é que, nas festas hoje, o forró não é o centro das atenções. O forró deixou de ser o protagonista.
Depois desses 30 anos de carreira, você tem algum sonho ainda como artista, como cantor, que você ainda quer realizar?
Olha, a gente sempre almeja. Eu gostaria de mais músicas. Seria maravilhoso poder ter um outro disco, como eu tive, os meus dois primeiros discos foram os que mais fizeram sucesso, os que mais emplacaram músicas. Eu trabalho, eu busco a cada ano, quem sabe, realizar um novo sucesso. Poder contribuir mais ainda com o forró. Ver o forró sendo mais valorizado. Tudo isso faz parte, tudo isso é meu sonho.
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Para encerrar, Léo, 30 anos de carreira para 2026: o que a gente vai ter além, é claro, dos ensaios de São João?
Olha, a gente lançou agora um EP com seis músicas. Estamos planejando fazer um audiovisual ainda este ano. Tudo em planejamento, tudo isso aí a gente está trabalhando. O ensaio de São João, ele é fundamental, né, para que as coisas andem; e fazer um São João maravilhoso, um São João onde eu possa homenagear as pessoas que estiveram envolvidas nesses 30 anos, relembrar esses momentos, né? Fazer um show muito especial.
Produtor de sucessos de Anitta, Léo Santana, Pedro Sampaio, Rafinha RSQ fala sobre mercado no verão: “Todo artista quer acontecer”
Por Bianca Andrade
Desde que o mundo é mundo e a música faz parte dele, existe um som para a temporada. Para quem vive no interior, por exemplo, o período junino tem som de fogo crepitando, nos mais agitados, alguma bomba de mil. Já na primavera, é comum ouvir os pássaros com mais frequência, quase como se fosse num desenho da Disney.
Mas desde que o mundo é mundo e o Carnaval de Salvador passou a existir, a trilha do verão na capital baiana não tem som de ambiente e sim a MÚSICA DO VERÃO. O conceito, que existe com força em todo o país, tem uma proporção ainda maior na cidade onde se é realizado o maior Carnaval de rua do mundo, afinal, a música do verão precisa estar, não só na ponta da língua, mas também, na ponta do pé, se o intuito é conquistar o público.
E nos últimos anos, o debate sobre a música do verão e a música do Carnaval se tornou ainda mais intenso com a “guerra” entre a popularidade nas ruas e a popularidade nos charts de streaming. Mais uma vez, o Bahia Notícias foi atrás de quem entende para entender o fazer musical na estação mais desejada e também mais disputada do ano.

Produtor musical e compositor, mente pensante por trás de canções como ‘Santinha’, de Léo Santana, ‘Loka’, de Simone e Simaria com Anitta, ‘Poc Poc’, de Pedro Sampaio e mais uma série de hits, sucessos no verão e em outras temporadas do ano, o carioca, e também cidadão soteropolitano, Rafinha RSQ, conversou com o site sobre o processo de produção musical, e deu a própria visão sobre o mercado.
Para o artista, o pagodão ainda tem a força popular durante o período do Carnaval, apesar das pontuações (válidas) da velha guarda, porém, a cada ano que passa, fica ainda mais difícil conseguir definir qual será a trilha dos 4km do Circuito Osmar (Campo Grande), ou 4.5km no Dodô (Barra-Ondina), sem contar os carnavais de bairro.
“O que eu tenho percebido é que o pagodão, ele vem passando ainda preconceitos e barreiras na rede social, na estrada e na rua também, por questões de linguagem, mas que vem furando muita bolha também porque tem muito jovem que gosta de ouvir, sim, a putaria. Muitas pessoas são contra, muitas pessoas são a favor, mas ouvem também. Então eu tô vendo que ultimamente tá mais aleatório em relação à música de verão, as coisas acabam acontecendo de uma forma natural.”
Confira a entrevista completa:
Existe uma pressão, você como produtor musical e compositor, para se ter um hit do verão?
Cara, existe muita pressão pra ter o hit do verão, porque, na verdade, todo artista quer acontecer. Todo artista quer resultado, independente de só ‘Ah, eu quero sentir a vibe da música, deixar fluir’. Não, tem aquela pressão de querer que a música realmente reverbere na rua, que a música aconteça. Eu tento não trazer essa pressão para minha criação, porque eu acho que a pressão acaba que atrapalha a criatividade. Todo o processo criativo depende do estado de espírito da gente, alma boa, coração bom, energia boa, então acho que toda pressão causa agonia, causa ansiedade que é como os artistas já veem, a maioria já vem com essa ansiedade ‘Velho, cadê aquele ritmo do verão? Eu preciso produzir o hit do verão’. Tem que acontecer, eu quero também como produtor, mas eu tento mais ficar tranquilo para deixar fluir, mas tem muita pressão.
Desde quando você começou a produzir mais voltado mesmo para música baiana, já foram alguns hits do verão. Alguns ganharam o título de música do Carnaval, outros não, mas como você percebe que o público elege o hit do verão?
Eu acho que é a música que realmente se populariza. Você vê todo mundo cantando, você passa nos bairros, você vê os carros tocando a música também. Hoje em dia, na internet, a gente vê muita publicação de conteúdo. Então você vê a galera postando vídeo para caramba, TikTok, reels no Instagram. Então assim, eu acho que a música quando ela tá bem popular e acontecendo no povo, você sente a naturalidade de que é um hit mesmo, sabe? Refrão bom, que pegue, tem solo, tem letra boa. Eu acho que é unânime você perceber que essa música é do verão. Essa música tem um potencial para ser uma das músicas do verão, entendeu? É aquela parada do coletivo tá falando da música, ouvindo a música nas periferias e em qualquer lugar, entendeu? Eu acho que é isso.
Recentemente, conversei com o Escandurras e ele falou uma coisa muito interessante, que a música do verão ela não tem uma fórmula fechada. Em alguns anos, os artistas trabalham com o estilo da pessoa, em outros anos, fala mais sobre o clima. Para 2026, o que você está sentindo do público?
Cara, na verdade, fora o momento do verão, ultimamente assim, eu acho que tem sido muito aleatório em relação a ter gêneros específicos que estourem no verão, né! Em vários verões já tiveram músicas do pop, funk, arrocha como teve J. Eskine, então assim, não tem mais aquela coisa de, ‘Ah, é o verão, é só a Bahia que estoura música para o Brasil’, antes eu acho que a Bahia tinha mais uma característica de ter músicas que aconteciam no verão, hoje eu acho que tá mais aleatório, de todo mundo acontecer com músicas de qualquer maneira, de qualquer gênero, em qualquer tipo de artista. Só que a minha análise, eu acho que especificamente muito artista que tem uma coisa voltada para o verão, realmente acende mais no verão. E a Bahia tem isso. O que eu tenho percebido é que o pagodão, ele vem passando ainda preconceitos e barreiras na rede social, na estrada e na rua também, por questões de linguagem, mas que vem furando muita bolha também porque tem muito jovem que gosta de ouvir, sim, a putaria. Muitas pessoas são contra, muitas pessoas são a favor, mas ouvem também. Então eu tô vendo que ultimamente tá mais aleatório em relação à música de verão, as coisas acabam acontecendo de uma forma natural.
Rafinha, você pontuou que agora a gente não tem mais um estilo definido para o verão, a música do verão ela pode ser de qualquer estilo e você é um produtor que já trabalhou com vários artistas de vários estilos. Eu quero saber uma curiosidade de você, qual foi o estilo mais aleatório que você nunca imaginou produzir e qual é o que, para você, é o “tô em casa, esse aqui para mim é super tranquilo de fazer”?
Não tem como não falar que o pagodão é o que eu mais me sinto em casa, porque eu cresci no pagodão. O pagodão foi minha base estrutural para minha concepção musical, mas assim, eu vejo que o pop foi um trabalho que eu fiz inclusive, com a música chamada ‘Modo Turbo’, que foi Luisa Sonza, Pablo Vittar e Anitta, foi uma produção bem assim diferente para mim, inclusive teve influência do Axé nessa produção, porque eu coloquei Afrobeat, tem pop, tem um pouco de K-pop, tem um pouco de trap e assim, essa mistura para mim foi a mais que eu nunca achei que talvez eu faria com os artistas que eu fiz. E outro trabalho que eu fiz foi com a Thalia, não foi música de verão no Brasil, foi música de verão para ela no México que foi um reggaeton uma música chamada ‘O Cancelado’ e eu falei, cara, eu nunca imaginei que eu ia estar produzindo um reggaeton eu sendo do Brasil, estruturando a música em espanhol e produzindo a música em espanhol.
Eu queria saber um pouco também de como funciona essa mente criativa. Eu nunca vou esquecer de um vídeo que você fez que está no seu Instagram, que era você fazendo uma música de uma maquininha de pegar bichinho no shopping. Então, eu queria saber como é que funciona essa cabeça.
Cara, na verdade, é muito doido, velho, falar a verdade, assim, a gente que trabalha com música é uma parada que não tem, a gente não consegue ter uma explicação concreta, porém, assim, na minha visão particular, eu creio que a mente criativa é uma parada divina. Eu acho que Deus abençoa também certas cabeças assim e manda luz assim, mas eu acho que é uma luz assim que é surreal porque assim eu não tenho como viver de inspiração do dia. Eu chego aqui no estúdio e eu transpiro, eu respiro, eu me inspiro o tempo todo. Então, assim, eu chego aqui, quero fazer um beat agora aqui latino com pagode, com funk, com tra. Eu começo a fazer e a as pessoas ficam ‘Mas como que pode, como que chega do nada aqui e vai fazer isso agora’. Eu não consigo ter explicação. Eu acho que é muito coração. Ser muito apaixonado. E também assim, se eu fosse falar de técnica, eu acho que buscar referência, você entender cada coisinha assim, com as referências do que você está fazendo, ajuda muito. Ouvir muita coisa, estudar muitas coisas, estudar quem deu certo, quem não deu certo, para você também não dar no mesmo caminho.
Rafinha, quais pontos você deixaria de atenção para o seu público em 2026? Qual artista, qual estilo vale acompanhar?
Para eu não falar de artistas e acabar sendo injusto com alguns, eu vou falar de movimentos. Eu acho que tem se gerado movimentos muito legais, assim, na música brasileira, de música alternativa, daquela música que era mais ouvida, assim, por um nicho, assim, inclusive o pop baiano, o trap, o pagotrap também. O MPB baiano também, de muitos lugares, de artistas que já concorreram ao Grammy. Tem vários movimentos que não é só o que tá na internet, parem de buscar só o que tá no hype, vai ver o que tá realmente, o que a rua tá consumindo, o que as pessoas tão ouvindo, que às vezes não tão nas top 10 das playlists do Brasil, porque não são pagas, mas tão sendo pagas no coração de quem ama. Eu acho que o movimento alternativo, que não tem muita voz e que hoje tá tendo, na música pop brasileira no geral.
E para encerrar nosso papo, se você pudesse citar três músicas, sendo a mais injustiçada, a mais aleatória e o seu maior sucesso, quais seriam?
A música injustiçada que eu tive na minha carreira, que teve um bom resultado, foi com Sorriso Maroto ‘Eu Já Te Quis Um Dia’. A que me empurrou como compositor, não vou falar como produtor, foi ‘Loka’, porque louca foi a que mudou minha vida realmente assim, que me deu uma abertura de mercado para Brasil e mudou minha vida financeiramente, ajudou minha filha. E a mais aleatória foi ‘Poc Poc’, quando eu escrevi eu falei, ‘Cara, será?’. Eu juro que eu fui para casa assim, e de repente, em um mês, tava no top 1 em Brasil, top 1 em Portugal foi a que eu, tipo assim, não criei tanta expectativa, mas que aconteceu.
Mr. Dan escolhe Salvador para 2ª edição do "No Ar" e celebra Independência da Bahia com pagode
Por Eduarda Pinto
O trio Mr. Dan escolheu a capital baiana para expandir o seu projeto audiovisual “Mr. Dan no Ar” pelo Brasil. A segunda edição do projeto, iniciado em São Paulo em abril do ano passado, será gravada nesta quarta-feira (2) no Museu de Arte Moderna da Bahia. A festa acontece em meio as celebrações históricas da Independência do Brasil na Bahia, no 2 de julho.
Aproveitando o pôr do sol de Salvador, o Mr. Dan no Ar é uma experiência musical ao ar livre, com clima intimista e repertório que mescla sucessos da carreira com seis faixas inéditas. Daniel, o vocalista do grupo, conta que a escolha pela capital baiana foi “natural”.
“Quando a gente lançou, uns 8 anos atrás, um álbum que a gente já estava acreditando demais [Projeto Experi], em São Paulo já tinha acontecido, mas depois de São Paulo, [Salvador] foi o lugar que mais recebeu assim rapidamente”, destaca. “E quando a gente falou de fazer o projeto em qualquer outro estado, porque esse projeto a gente só fez em São Paulo, o primeiro lugar que a gente pensou foi Salvador, foi a Bahia, foi o lugar que nos acolheu diretamente assim, não podia ser em outro lugar”, completa.
Com grandes shows como o “Tardezinha” de Thiaguinho, “Numanice” da Ludmilla, e a própria turnê “Legado”, que envolve a banda, em parceria com Rodriguinho e Gaab, irmão e sobrinho de Gabriel, o grupo define ainda que vem surfando em uma “boa maré” do mercado do pagode em todo o Brasil.
Para o baterista e co-vocalista da banda, Bruno Estevez, “eu sinto que hoje a gente tá vivendo um grande momento no samba e no pagode, onde tem os maiores eventos em função de pagode, muitos artistas novos. Os artistas são muito fortes.”
É neste cenário que o Mr. Dan no Ar surge com uma proposta totalmente nova: “Faltava esse show de dia, faltava essa experiência que a gente pudesse compartilhar uma tarde. A gente fazia muito show em casa noturna, grandes eventos, mas é tudo na madrugada, na noite. E esse ‘No Ar’, a gente traz totalmente ao contrário, já pensando nisso”, conclui Daniel.

Vocalista da banda MR. Dan, Daniel Silva. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Ao Bahia Notícias, os artistas, Daniel Silva, Bruno Estevez e Fábio Souza deram mais detalhes do projeto e da evolução do trabalho nestes 20 anos de carreira. Confira a entrevista completa:
Quais as principais referências artísticas para o Mr. Dan no Ar e como vocês avaliaram a receptividade do público pagodeiro nesse último ano de trabalho?
Daniel: Eu acho que as coisas estão mudando muito. As pessoas estão se cuidando mais, a gente sente que, nas casas noturnas, as pessoas pensam duas vezes para sair numa noite. Elas querem viver bem o dia. Foi por isso que a gente propôs essa opção, porque a gente percebeu com os nossos fãs, que já tem filhos até, querem levar para ver a gente cantar, fazer um show.
Faltava esse show de dia, faltava essa experiência que a gente pudesse compartilhar uma tarde. A gente fazia muito show em casa noturna, grandes eventos, mas é tudo na madrugada, na noite. E esse ‘No Ar’, a gente traz totalmente ao contrário, já pensando nisso, em fazer com que mais pessoas que querem ter outro estilo de vida possam curtir também nosso som. É o que a gente vê atualmente no público.
Como foi a escolha da cidade para receber a segunda edição desse projeto audiovisual? Vocês têm alguma memória simbólica ou afetiva com Salvador?
Daniel: Foi muito natural. Quando a gente lançou, uns 8 anos atrás, um álbum que a gente já estava acreditando demais [Projeto Experi], em São Paulo, já tinha acontecido, mas depois de São Paulo, [Salvador] foi o lugar que mais recebeu assim rapidamente.
Eu lembro que, logo na sequência, a gente veio, tinha passado uns três meses só de lançamento e todo o repertório tava na boca da galera. Isso a gente fez a gente ficar muito surpreso, porque era um start, era um início de um trabalho onde a gente ia ter que conquistar muita coisa e aqui a gente percebeu que já foi muito aceito.
E quando a gente falou de fazer o projeto em qualquer outro estado, porque esse projeto a gente só fez em São Paulo, o primeiro lugar que a gente pensou foi Salvador, foi a Bahia, foi o lugar que nos acolheu diretamente assim, não podia ser em outro lugar.
Vocês divulgaram que a 2° edição do Mr. Dan no Ar terá seis músicas inéditas, como foi o processo criativo atualmente em meio aos diferentes shows? O que o público pode esperar desse show?
Daniel: Sempre a gente traz elementos novos de instrumentação. No primeiro [projeto] a gente tinha duas backing vocals, nesse segundo a gente tem metais, com mais guitarra. A gente sempre tenta modificar o nosso som com algumas coisas que a gente coloca de instrumentação.
Nesse lance da gente fazer a criação, a gente está fazendo um show todo final de semana e aí tem que fazer o trabalho. A gente se programa muito para estar aqui hoje. Estamos aqui trabalhando há três meses, em cima desse projeto. Para nós é bastante [complicado], porque a gente tem a nossa rotina diária normal de shows, então, a gente tem que se dividir. Eu costumo dizer que esses três últimos meses foi o que fez a gente estar muito mais “full-time”, em tudo que a gente tem feito.
A gente começa primeiramente a escrever, a compor as músicas, porque é um trabalho todo autoral e com bastante referência dos convidados que a gente traz. Não posso revelar mas a própria cidade influenciou a gente nisso. A gente quis trazer os metais, coisas que a gente sabe que tem identidade, tem identificação com Salvador. Os convidados também direcionam muito a gente.
São dois convidados da Bahia e um de São Paulo, que a gente não pode revelar. Mas é totalmente inspirado nesse conceito da gente, das pessoas que se envolvem. Então, cada coisa que a gente vai colocando, com certeza modifica muito o nosso resultado final.
No que diz respeito ao tempo de carreira, muito fãs envelhecem com a banda, outros chegam durante a carreira. Como vocês fazem para se conectar com esses diferentes públicos?
Daniel: Eu acho que o que mudou é a velocidade das coisas. Eu acho que as pessoas, antigamente a gente fazia um disco e colocava ele na praça, poderia ser gravado daqui a dois anos talvez. Hoje em dia a gente não tem mais esse ‘timming’, ou a gente tá fazendo coisas corriqueiras e rápidas e ali entregando cada vez mais, porque as pessoas estão cada vez mais conectadas. A gente entendeu muito isso.
Nesse projeto, a gente tenta, toda vez que a gente faz uma edição [projeto musical] depois da gravação. A gente já fez vários outros shows chamado “Mister Dan no Ar”, e toda vez a gente já grava um conteúdo. Isso faz com que as pessoas se tornem cada vez mais conectadas.
O pagode é um gênero o qual, lógico, é do Brasil e está sempre aí, sempre esteve, mas existem as nuances.

Baterista/percussionista e co-vocalista, Bruno Estevez. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Bruno: Mas eu sinto que hoje a gente tá vivendo um grande momento no samba e no pagode, onde tem os maiores eventos em função de pagode, muitos artistas novos. Os artistas são muito fortes. Espaço para as mulheres.
Eu acho que a gente tá num grande momento do pagode, eu acho que justamente por isso até da gente tá conseguindo tá surfando até numa maré bem boa para nós.
A banda Mr. Dan já tem mais de 20 anos de carreira, mas para vocês define o estilo e a musicalidade da banda e o que já mudou, evoluiu, desde a sua estreia?
Daniel: Essa é a resposta mais difícil que a gente responde, porque realmente a gente vem de uma origem da black music, eles tocavam na igreja, música do gospel, a gente gosta muito. Os Travessos [banda em que Daniel era back vocal] já traz influências outras, uma mistura. Nunca foi um grupo só simplesmente de pagode, já fazia swing. Então, a gente tem umas coisas muito mais abrangentes e diversas. Eu diria assim que o Mister Dan é muito uma mistura de som.
Bruno: A nossa formação, se você parar para analisar, é bateria, piano e baixo. Já é uma formação que não é convencional. Se você for ver, não tem os elementos do samba e pagode.
Daniel: Porém, eu sempre escrevi para o pagode, então eu tenho uma linguagem. Nem sei se eu escrevi para o pagode, ou eles gravam porque gostam, porque é outra coisa, que é diferente. Às vezes eu busco o novo, mas isso faz com que a gente crie uma sonoridade só nossa. E eu acho que o lance também da Bahia receber esse trampo muito e aceitar muito bem, é porque é muito rico em cultura aqui.
Quantos milhões de artistas não tem aqui que são gigantes? Então, mais do que muitos outros estados que são grandes também, eu acho que a Bahia também recebe a nossa musicalidade vendo por esse lado, assim, de que tem uma coisa diferente. A gente ainda tá encontrando.
E sobre a escolha da data, no 2 de julho, foi intencional?
Daniel: Foi escolhido exatamente esse dia, a gente queria uma data onde as pessoas pudessem estar na rua, onde iam ficar tranquilas. E um amigo falou: "Meu, é 2 de julho, Independência da Bahia”, e a gente disse: "Nossa, que forte, né?". Hoje a gente descobriu que foi porque depois de um ano, foi declarada a Independência da Bahia.
Bruno: Exato. Então assim, foi escolhido mesmo essa data por a gente saber a importância. E a gente estar aqui, para nós é uma honra, nesse dia tão importante. E assim, já está tudo vendido praticamente, então a gente já está muito feliz por saber que as pessoas se propuseram a estar com a gente nesse dia também.
A banda Mr. Dan também está envolvida em um projeto com Gaab e Rodriguinho. O que muda entre uma personalidade artística e outra? Como as propostas de ambos os grupos se diferem?
Daniel: O legado é até mais fácil de lidar porque a gente junta três pessoas, três gêneros, teoricamente. Então a gente entra, nós três [da Mr. Dan] com um lado musical, o Rodrigo traz um outro lado musical, Gaab também traz um lado musical. E realmente a gente reúne as três bandas. É a mistura. E quando a gente tá em cima do palco, fica um som muito louco.
E estar com os meus, minha família, meu irmão, meu sobrinho, é muito fácil porque a gente se conhece. Então não tem mistério e as pessoas sentem muito isso no show. Elas falam: "Caramba, eu parecia muito natural. Parecia que conheço vocês há anos”, porque vê três pessoas ali se dando muito bem.
Foi uma galera mais jovem que o Gaab carrega muito bem. O Rodrigo, por ter tido uma carreira de muito tempo, traz uma galera mais velha. A gente traz uma galera mais que gosta de muita música assim. O legal é que vem a galera desses outros trabalhos, e é soma para todo mundo. Uma galera que não me conhecia, que começou a conhecer através do Legado, muita gente veio através do legado. Tem pessoas que nem sabiam que nós éramos família.

Baixista e co-vocalista do Mr. Dan, Fábio Souza. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
A Bahia é um celeiro musical muito importante, tem algum artista baiano no qual vocês se inspiram?
Daniel: Eu gosto muito da Ivete, eu acho que ela é um fenômeno. Sempre achei. Eu acho que eu vou continuar achando por muito tempo. Ela com uma voz maravilhosa, de potência e o carisma que ela consegue transmitir em cima do palco. Eu acho surreal, assim, eu tenho muito apreço por ela.
Bruno: Já eu gosto muito do Carlinhos Brown, pela representatividade e pelo meu instrumento, que eu sou baterista e percussionista. Então, eu admiro muito a história dele, o que ele fez para a cidade. Ele exporta o som da Bahia para fora.
Fábio: Então, seria a Ivete também. Gosto muito. Não tem como fugir. Ela inspira bastante.
Flavinho, do Pagod'art, comenta sobre novos artistas do pagodão: “Todo mundo com o mesmo swing”
Por Laiane Apresentação
Quando a carreta passa, na Bahia, é sinal de que, acompanhado dela, vem o ritmo contagiante e cheio de swing da banda Pagod’art. Há 25 anos na estrada, os amantes do pagode baiano reconhecem ao longe o bit irreconhecível do cavaquinho do grupo, liderado por Flavinho.
Com um retorno estrondoso à banda em 2021, após carreira solo, a união de Flavinho e a carreta explodiu - no bom sentido da palavra - neste último Carnaval soteropolitano. Duas músicas na boca do povo, projeto audiovisual em andamento, cinco dias de trios nos principais circuitos da cidade… Este é considerado pelo cantor como o recomeço da banda.
“Tudo que eu vivi antes é uma experiência, nunca vivi aquilo ali [Carnaval 2025]. Todo ano é: você começa o carnaval e você [pensa] será que eu consigo? Será que eu não consigo? [No] Primeiro ano que eu fiquei rouco, eu não consegui cantar, entrei em desespero… Tudo é aprendizado. Então, tudo isso, esse ano, foi uma volta”, explicou ao Bahia Notícias.
Com 23 anos de carreira junto a banda, o cantor acumula grandes hits do imaginário baiano como “Uisminoufay”, “Ovo de Avestruz”, “Se Você Quer Tome”, “Respeite Carandirú” e “A Soma”. Com o longo repertório, vem uma longa conexão com o público junto ao ritmo considerado irreconhecível por Flavinho. “Eu tenho o meu swing. A galera vai escutar para de longe o cavaquinho do Pagod’art”.
Possuindo tanto tempo na estrada e tão familiar a sua própria identidade, Flavinho explicou em entrevista a falta de uma diferenciação entre os novos artistas do pagode baiano. “A galera nova, com swing novo, tá todo mundo massa, mas é contado a dedo quem tá criando uma identidade. Todo mundo com o mesmo swing. Se você escutar uma batida aí, você não sabe quem é. ‘Pô, meu Deus, será que é tal banda, tal banda, tal banda?’ E a voz todo mundo parecida”, pontuou.
Ao Bahia Notícias, o cantor conversou sobre sua trajetória na banda, o sucesso no Carnaval soteropolitano de 2025 e opinou sobre os novos artistas do gênero baiano. Confira a entrevista completa:
Como foi para você todo esse período [do Carnaval de 2025] e como é você está se sentindo agora que passou?
A gente vem dando aquele passinho de formiga, né, formiguinha. Já tem um bom tempo que a gente não perde a nossa raiz, nosso estilo de música. Uns falam: "Ah, tá ultrapassado", etc, mas quis mostrar a galera que nunca é tarde, é se dedicar sempre. Independente de qualquer ciclo de musicalidade, você tem que estar sempre se dedicando. Não se acomodar, quando a gente fala se acomodar assim [é] não deixar de cantar suas músicas, não deixar de ensaiar e o carnaval não foi diferente.
A gente conseguiu esse marco para a gente assim de estar podendo tocar praticamente cinco dias. Não é que a gente não fazia Carnaval, a gente toca no Carnaval, saía para esse mundão todo e fazia aqui em Salvador uma vez só ou duas. E quando a gente teve essa missão de estar tocando cinco dias aqui em Salvador foi tenso até para a gente, né? “Será que a gente consegue?” Porque a gente não está mais acostumado com o percurso de trio de 5 horas de relógio, 6 horas. “Vamos contar com o engarrafamento? Vamos contar com um trio de alguém quebrando na frente? Será que a gente está com esse repertório aí?”
Repertório a gente sabia que tinha, não sabia se o povo ia aderir aquelas músicas que a gente já tinha para tocar. Então, a gente focou bastante nesse trabalho e quando chegou no dia correto, né, todo mundo tenso, mas quando você chega aqui que vê o público, que você vê o trio organizado, todo o primeiro passo ali, você vai tenso, mas quando você começa a cantar a primeira música, você já tá solto, tá vindo pro meu mundo e quando você vê o povo abraçando, gostando daquilo ali, aí é válido todo o esforço que você fez.
E esse Carnaval aí a gente deu o máximo, deu cambalhota… “Como é que você conseguiu ficar do lado de fora do trio? Aí eu digo: ‘Ó, irmão, acho que aquilo ali foi do nada’. Foi uma galera embaixo que eu perguntei: ‘Posso fazer uma quebradeira? Se eu fizer uma quebradeira, vocês gritam aí?’.” Então foi assim, tô indo aí. Graças a Deus, deu certo. A gente teve um [bastante] ensaio, uma programação muito organizado.
De todos os carnavais que eu passei na minha vida, era mesmo assim: vai para casa, volta aí. O pessoal da produtora me colocou assim em um lugar legal, com que eu estivesse tranquilo, com a mente tranquila. Eu já vim de uma temporadazinha meio turbulenta, muito turbulenta. E para fazer o carnaval eu tinha que estar no mínimo com a mente um pouco tranquila, né, para poder fazer.
E graças a Deus, a gente conseguiu passar por aquilo ali, a gente fez um Carnaval, eu digo para todo mundo lá da banda, para a gente foi esplêndido. A gente ficou muito um olhando para o outro, “Como é que a gente conseguiu?”, “Como é que foi isso?”, “Como é que foi aquilo?”, só em saber também que a música da gente concorreu [à Música do Carnaval 2025], os caras [falaram] “vamos fazer enquete”, Não precisa fazer enquete nenhuma não. Tá lindo aí, a gente já é campeão, quando eu falei “campeão”, não era por ganhar a Música do Carnaval, era só entrar naquele roteiro ali.
Eu tenho o quê? 25 anos de carreira e eu nunca fui, nunca teve uma música nossa assim concorrendo ao Carnaval. Então aquilo ali para a gente assim foi muito importante mesmo. Já tem uma assinatura, eu tenho isso aqui, já ganhei. Quando eu falo a todo mundo: “A gente já ganhou aqui já, pô. Mas a gente ganhou uma música, não pô, a gente já ganhou, a gente nunca foi selecionado para essa parada aqui”.
A gente já está sendo selecionado, isso aqui para a gente já é muito. Agora é só entregar na mão de Deus. Eu fiquei muito feliz com o Carnaval da gente, a gente programou isso também. É bem, tem que dizer isso também para a galera, porque é muito ensaio. E olha que eu sou ruim de ensaio, que eu não gosto de ensaiar. Aí a Kardec ensaiando, Franco, os meninos me passando as coisas.
E aí, graças a Deus, os nossos amigos, a nossa parceria, os fãs também entenderam que acho que não precisava mudar de estilo, né? Não precisava tirar o cavaquinho e tal. E tanto é que uma música nossa virou o “Bit do Cavaquinho”. Revolucionou muitos músicos que tocam o cavaquinho e falam assim: "Rapaz, a gente estava frio. Esse bicho do cavaquinho aí do Pagod’art renovou a gente também. Até músico meio que estava triste tocando".
Como é para você se manter assim nas graças do público, mesmo depois de tanto tempo?
Eu acho que é mais o jeito mesmo da galera, né? O respeito que eu tenho com Folião, nos lugares que eu passo, eu me sinto bem e a galera assim… tem um momento ali de “hoje eu vou fazer por esse cara”, então fizeram por mim. Eu só tenho a agradecer a Deus, abaixo de Deus, os anjos de guarda, os orixás, porque é surreal. Sem entender assim, “ah Flavinho você é estourar não, não sou mais para mim, para minha família é um você renascer das cinzas.
Eu tenho 45 anos, a galera imagina “pô, quando chegar 40 esse bicho não vai dançar mais”, é isso: é querer. Então eu escutava isso no tempo pagode antigo, “véi, daqui a pouco você vai fazer 40 anos, você não vai ficar mais dançando de velho”. Rapaz, eu tô começando minha carreira com 45. Então, isso aí para mim nunca é tarde, eu gosto de dança, gosto de me movimentar bastante. Então eu sei que além de cantar, dançar é uma alegria para mim. Quando eu não consigo fazer um show dançando eu fico incomodado.
“Irmão, seu show foi legal”, eu digo: “não velho, não consegui dançar o que eu queria”. Então, eu fico feliz em poder ver assim que a galera tá curtindo o som, tá indo atrás do trio, dançando. Aí a gente vai lembrando, né… No meu tempo mesmo de você ir para um show, você [ia] ver uma galera dançando, mulher dançando, o cara… No meu tempo você [ia] para o pagode para ver uma gatinha dançando, os caras vão meter a coreografia da gente para as meninas olharem a gente dançando, vai se apaixonar por alguém, vai gostar da dança, ou vai ser amigo, mas o importante era que a gente queria fazer o nosso ciclo ali e tudo pela dança.
Então eu sigo isso até hoje, isso até hoje. Eu falo até com o Ninho, o produtor de Rodriguinho, ele hoje [é] Ninho Cardoso. É de lá de Barra Grande, da Ilha, ele é nativo mesmo da ilha. Eu não sou nativo, minha família é de lá, mas nativo mesmo eu não sou. E a gente tinha o grupo da gente, né? Eu, meu irmão, Marcelo, meu primo, Ninho. Ele com o Rodriguinho hoje, eu falei: "Ah, era você era dançarino, viu, velho? Fique na sua". Aí ele: "Porra, Cabeça você não esquece, não”. Como é que vai esquecer, pô?
A gente se empolgava. Ó, 9 horas da noite todo mundo lá na frente da praça, viu? Vai rolar o paredão lá e a gente vai meter dança. Então isso aí, quando eu vejo hoje a galera fazendo dança, eu fico olhando alegre. Eu fico muito grato e feliz em poder ver a galera também voltando a dançar, né? Não só curtir a música, mas voltar a dançar tanto o homem, como mulher, sem receio de nada, né? Uma dança bonita, quem tem molejo, quem tem swing, é que se solte, velho. Vá porque é bom.
E você sente assim alguma diferença ao passar dos anos de um carnaval para o outro? Tem algum momento assim que ficou marcado para você?
Como eu falei para você aqui agora, eu tenho 45 anos hoje. Hoje para mim foi o recomeço, não é o começo para mim. Tudo que eu vivi antes é uma experiência, nunca vivi aquilo ali. Todo ano é: você começa o carnaval e você [pensa] “será que eu consigo, será que eu não consigo?”
Primeiro ano, eu fiquei rouco, eu não consegui cantar, entrei em desespero, tudo é aprendizado. Então, tudo isso, esse ano, foi uma volta assim que eu tinha toda a programação, tinha uma estrutura que cuidava de mim hoje, né? Com fono [fonoaudiólogo], passei no médico antes, eu tinha feito meu check-up geral antes, tudo que você vai vindo com a idade, você vai aprendendo. Então, esse ano, graças a Deus, só não tinha como dar errado, por conta assim, eu fiz a programação correta.
O errado é assim, o empecilho do dia a dia, é aquele é o que a gente não sabe do tempo, né? Ao mesmo tempo, para meteorologia, tá dizendo que tá dando sol, daqui a pouco vem uma nuvem e a chuva. Então, a gente tem uma base do que é, mas pode vir e acontecer. Então, eu me cuidei.
Gosto de tomar uma cerveja mesmo, gosto de tomar uma gelada e para esse tempo aí foi difícil para mim. Que eu gosto mesmo, né? Meus amigos sabem. Fez assim, tem 10 dias aqui já, eu sei tomar uma. Aí é, eu vou assim. Quem anda comigo todos os dias sabe. Eu comecei o foco, treino. Aí já parei de jogar bola, só jogava uma altinha, pegava um futmesa, um futvôlei. Então, as minhas coisas que eu gosto 100%, eu não tirei 100%. A única coisa que eu tirei 100% foi o gelado [cerveja]. E aí e graças a Deus deu certo, né? E empolgadíssimo.
Você sentiu alguma dificuldade assim se readaptar com o seu público, de se reaproximar dele de novo, ou foi uma coisa muito natural?
Não, assim, é porque a gente tem aqueles fãs raiz, né? Com essa galera a gente não sentiu dificuldade nenhuma. Quem é fã Pagod’art, “carreteiro”, “ah, eu sou do Pagod’art”, mas eu sou Flavinho. Então esses aí a gente não teve dificuldade nenhuma. Por incrível que pareça, eles davam até palpite, falei: “calma, vocês não tem que dar esse palpite, não. É com tempo”. Porque eles comparavam outras bandas, a pessoa que é fã apaixonada: “não porque não sei quem está fazendo isso”, velho, calma, não é o nosso momento!
Tem altos e baixos da vida de todo mundo. Vocês têm que “porque eu estou escutando esse”, calma, o que você escuta, eu escuto também, mas eu tenho que absorver que o momento agora é de tal pessoa, não é meu. É, o triste para mim que eu fiquei assim, é difícil sentir um pouco por conta de não estar assim num holofote legal, a música para ir na rádio era uma dificuldade, a gente para estar numa TV tinha uma dificuldade maior. Aí era, aí eu fiquei um pouco triste, assim, né? “Como será, meu Deus, que eu não estou cantando mais?” Aí você começa a imaginar mil coisas, né?
E, mas só que a gente estava sempre tocando, tocando fora, viajando muito. Não tinha uns holofotes, mas o berço de tudo é Salvador. Se você tá bem aqui em Salvador, você [tem] as portas abertas pro mundão, né? Então, quando você fala assim, “você é da onde? sou soteropolitano, você é soteropolitano?”. Aí eles já entendem que aqui a gente tem uma raiz fortíssima. Então, pra gente voltar ao ciclo, a gente precisou ter um trabalho muito forte aqui em Salvador de novo, para aí a 100% eu entender a gente.
Então, para isso não adiantava eu ter 100% da marca sozinho. E aí, a gente teve que ter uma reunião, disse “o sol tem que brilhar para todos. Preciso de um sócio que me ajude. Eu preciso de um número disso aqui”. Então não adianta só eu “ah eu tenho Pagod’art sozinho 100%”. Não, até porque quando a marca Pagod’art ficou aberta de novo, eu descobri por um fã.
O fã falou: "Se eu tivesse 250.000 eu comprava a marca do Pagod’art e dava”. Então isso para mim é uma parada muito gratificante isso para mim, uma pessoa tá com esse pensamento, aí eu tava conversando hoje, a galera falou: "Não, a Flavinho merece isso, merece aquilo". Então eu sou muito grato a tudo isso aí. É, mas eu sofri um pouco assim, fiquei triste, ficava pensando, a minha vantagem era que sempre tive uma galera boa, né?
De família, de amigos. Eu também nunca fui essa pessoa de tá em holofote, briga, polêmica. No meu momento muito baixo, assim, na minha carreira, teve situações para ter polêmica, eu me escondi. “Ah, que é que você acha?” Eu digo: "Não acho nada, tô fora". A minha linha para eu crescer na vida tem que ser com música, não é com polêmica. Então, quem tem seus táticos, eu respeito, mas eu eh esperei o momento, né? Vamos ter paciência, que é desse jeito, a gente não pode passar por cima de ninguém. Aí eu tô vivendo.
E vive nesse momento, né? Que é um momento que a gente é feliz em algum lado e ao momento quando você tá sozinho, você tem suas tristezas, do lance da minha carreira hoje. Tem pessoas que precisavam tá curtindo isso, não tá curtindo hoje.
Que viveu a vida toda comigo, hoje é um primeiro passo, de a gente dar um de alavancada, que a gente não sabe o que vai acontecer amanhã, mas hoje a gente entende que o projeto que a gente fez: é que a gente tá dando um passo à frente. Uhum. Entendeu? Então, exemplo assim, a gente aí tem pessoa, tem uma pessoa que precisava estar, né? E é assim, a gente entende a vida e vamos trabalhar para a gente, saber que no interno tá com a gente.
A conexão com o público ajuda demais a equilibrar esses dois lados?
A energia, a gente vive muito sobre. Eu vivo, particularmente, sobre a energia positiva boa, né? Eu vivo muito isso. Tava conversando com as meninas mais cedo. Pô, o ambiente da gente aqui, eu estou conversando com vocês melhor, eu tô pensando em tal lugar que a gente vai para Feira [Feira de Santana], “E aí, como é que vocês vão fazer isso, é?”, “Pera aí que eu tô pensando”.
Eu vou aí então pela energia delas, as meninas que tão me acompanhando são boas de trabalho e boas de energia. Então o fã quando tem essa energia comigo, me conecta bastante, até no dia que eu tô estressado. Roda para lá, “Pera aí, pera aí, você quer o que mesmo, rapaz? Me diga aí. Posso te ajudar como? Sabe por quê? Porque olha, eu tô com um problema também que tava aqui e esse meu problema você não pode me ajudar agora”. Aí você vai assim, eu consigo me conectar legal com a galera.
Como que você faz assim para ser atualizado e manter essa conexão nas redes sociais para você poder divulgar o seu trabalho também e alcançar novos fãs?
No meu tempo não não tinha essa conexão. [No] Meu tempo é: ou você bota uma música boa e bota na rádio, você tem que ter um empresário e ter um dinheiro ou só música que tem que ser aquela música estourada que vá tocando ali. Eu hoje, entendo a realidade da vida mesmo. A gente tem uma facilidade hoje de rede social bem melhor para o que era antigamente, mas eu entendo também que a gente tem que ter um profissionalismo. Eu não dou conta disso aqui sozinho. Eu já tive vontade de dizer: "Não, eu resolvo”, mas [é] impossível.
A gente tem que ter um grupo, a gente tem que ter uma equipe. Hoje sozinho não dá. Ah, mas você é o melhor cantor de pagode do mundo. Eu digo: "Mas eu sozinho não sou, pô". Então, eu tenho que ter uma equipe, eu tenho que ter essa parte aqui, “ó, alguém tem que me acordar”, eu tenho meu dia de calundu do mundo, eu tenho que ir alguém, tem que, você tem que ter um grupo com você. “Bora, levanta aí agora”. “Cadê você?” “Tô injuriado, não quero”, mas vai. Tem que sempre tem que ter aquele amigo seu ou amiga chato mesmo que vai dizer: "Levante agora".
Aí vai alguém, sempre tem um que filho e meu inimigo, mas hoje você vai, amanhã a gente conversa. Pau quebra ali, então você tem que ter um grupo. E sobre essa sequência aí hoje, eu agradeço muito a Deus a rede social, porque foi daí que eu passei a sobreviver, a trabalhar, a tocar, porque eu não estava assim nos holofotes de TV, de rádio, de nada. Então tudo que a gente ia gravando, a gente vai metendo uma conexão aqui para um, conexão para ajuda aí, vamos fazendo.
De qualquer forma, para sua chegada nos lugares, o que não chegava antigamente, você tinha que ter um cara, um contratante que pegasse seu CD para sair de carro entregando a todas as rádios. O meu tempo é desse. Então quando eu chego hoje, o menino chega só com um cavaquinho, começa a cantar e viraliza na rede social, o cara já está estourado, já tem uma banda montada para ele. A gente não, a gente tem que montar uma banda, ver o instrumento de não sei quem. “Será que alguém tem instrumento? Pede um expressar de não sei quem”.
Então, tudo isso aí, eu hoje eu agradeço a equipe que a gente tem, né? Entendi que precisava dessa equipe. É você dar um passo para trás no momento correto. Eu não sou o sabichão da onda, eu tenho que “Ó, essa aqui, essa área não é minha. Quem é que é dessa área?” Me ajuda aí. Vamos aqui. Ó, isso aí você merece ganhar bem. Você fez bem isso. É, ó, vamos fazer. A gente tem uma reunião, digo: “pô, se liga aí, velho. Qual o número da gente?” Pô, isso aqui merece. Vamos lá, vamos fazer por justo também.
Então, “ó, se subir nosso cachê lá, sobe um pouquinho de não sei quem também”. Aí eu vou assim, né? Os cara: "Pô, você é uma mãe". Eu digo: "Mas não é, irmão. É o que eu quero para mim, entendeu?" É o que eu quero para mim. Vamos pegar uma estrada, digo: "Vai parar para almoçar para um melhor restaurante aí". “Pô, mas tá dando R$ 400, a minha irmã”. “R$ 400, velho. Paga mais aí, vamos comer bem, vamos pegar terra”. Aí então são coisas que a gente passou lá no tempo atrás que hoje eu não quero para mim, eu não quero para ninguém que trabalha comigo. Empecilhos da estrada vai acontecer.
A gente pegou um agora, há pouco tempo, aí que a volta do feriado é engarrafamento. Você para num posto desse de alimentação, acabou a comida. Aí você tem que comer… eu mesmo, 200 anos que eu não como pastel, eu tive que comer dois pastéis porque eu estava morrendo de fome. Botei ali, catchup com maionese, vamos se embora e vou ali aqui e vamos embora. Então tem momentos assim que a gente entende que tem que acontecer, mas sempre procurando o melhor.
Como foi para você ver a sua música tocando lá no estádio de Beyoncé?
Eu, na verdade, eu fiquei azoado, né? De madrugada, eu boto meu celular no modo avião, aí ultimamente aí como os meninos assim. Sai, vai para, a faculdade termina tarde, chega tarde, Flavinho tá no treino, Felipe Souza chega no trabalho, eu digo: "Não vou botar mais em modo avião não, qualquer momento esses meninos me ligarem". Aí eu esqueci, já não, não boto mais em modo avião, mas quando chegou de madrugada que eu virei, eu digo: "Que tanta mensagem é essa"? Aí o povo falando: "Você já viu? Eu já vi". Eu digo: "Rapaz…” Aí a equipe, né?
Essa equipe aí já ligeira, quando eu digo: "Rapaz, aconteceu isso, aconteceu aquilo”, como é que você ligou: "Aonde, rapaz"? "Não, velho, o DJ de Beyoncé". Eu digo: "Como é isso, rapaz? Me explique direito aí". Aí eu já acordei hoje, digo: "O que é você dormir"? Eu tava tava numa resenha com os amigos, a segunda-feira pra gente é um domingo, né? Aí fui pra casa de Renanzinho da CBX, – a gente reúne agora toda a segunda-feira. Eu vou arrastando meus amigos tudo pra lá. Vamos morar na linha verde. Ah, vamos morar na linha verde. Vamos arrastando todo mundo.
Aí quando chegou, eu digo: "Meu Deus do céu, o que é que tá acontecendo aí? Aí, eu acordei hoje, entendi a realidade, né?” É aquele lance que eu falei a você mais cedo. Eh, só em ter um exemplo, a música sendo é, na lista de concorrer para o Carnaval, eu já estou, já fiquei eleito, então do nada uma música que tem mais de 20 anos é um hino para gente.
Entendeu? Vem gerações e gerações, quando falam não sei o que, pô esse menino fala: "Porra, isso aqui, velho, não tem para o meu pai, minha mãe, eu cresci com isso aqui, olha meu". Então quando você vai vendo aqui, por isso que eu digo, nunca é tarde. A gente não sabe o dia de amanhã. Aí está o cara lá com a música falando aquilo, eu não entendia nada do que ele disse, eu só sei que tava [toque de Uisminoufay]. Então eu fiquei felizão, fiquei de vei com uma mulher dessa chega do lado de cá. Aí diz: "Cadê aquela banda tal? Ave Maria".
Ainda brinquei com as meninas lá. “Se um dia acontecer um negócio desse vou sair correndo na Paralela de sunga”. Mas aí eu fiquei muito feliz com esse com essa situação. Tá caindo a ficha ainda aí. É, para muita gente pode ser besteira, para a gente é de uma grandeza imensa, pelo fato de tudo que a gente vem passando, né? De degrau em degrau, passinho em passinho.
E para a galera que está trabalhando, está entendendo que assim… velho, as coisas estão acontecendo natural. Então é importante a gente abraçar esse momento, né? Aí estou feliz, estou felizão.
Só em pensar na gente já deu lindo demais, já deu lindo. É sinal que eles lá, o automático você vê, que o automático deles pode rodar o que for. Fala do Brasil a vida toda, a música do Brasil, a música da Bahia, principalmente, que os mano faz daqui, da gente.
É essa música para a gente assim, que é uma música temporal que ela tem 20 anos essa música aí. Se você perguntar a galera, a música é de uma forma que ninguém entende a música ainda. Aí falo: "Velho, vocês cantam a música sem entender a música". Na verdade não sou eu cantando para vocês, é vocês cantando para mim. A música só comemora, só faz a onda de festa. Entendeu? “Rapaz, não quero saber não, não sei nem que o cara tá falando, só sei que eu vou”. “Não sei. O cara falou que você é do Japão, Coreia ou do Paraguai.” O cara não sabe, só sei que eu tô ali.
A música fala de dois amigos começando indo para festa. Então, é muito surreal.
Como é para você se manter com a swingueira original?
É saber se respeitar. Eu por eu não é que eu não gosto do bloquinho, ou da swingueira, eu gosto, mas só que é o estilo da galera, não é o meu estilo. Eu tenho seguidores de amigos, de fãs, de familiares que se espelham na minha matéria, na minha pessoa, na banda. Pô, esse som que eu gosto, como é que eu vou mudar? Eu vou acabar com o sonho dessa pessoa também. Então, eu vivo dessa forma. Eu sou… o meu projeto aqui é raiz. Para eu continuar fazendo isso, eu sofri em um certo momento. É o que a gente comentou aqui.
Saí do holofote, tinha outras pessoas no holofote, eu entendi que aquilo ali era um momento de cada um. Eu não entendi que “ah eu não presto”. Eu fiquei… você sente… mas pô, não é um momento de não sei quem, deixa seguir. Mas onde batia um pouco para gente era saber assim: "Ah, mas os caras são ultrapassados, só isso é que não". Velho, nosso swing não é ultrapassado, a gente tem swing. Se você disser que eu tô cantando uma música antiga, eu até entendo, mas o swing da gente não é ultrapassado.
O swing da gente é um swing raiz que é para o resto da vida. O swing que a gente tem é para o resto da vida. O swing que veio novo agora, massa, vai ser para o resto da vida quem tiver uma carreira com essa linha, que seja que nem a do É o Tchan, a do Xanddy com a Harmonia, você vê… Tony Sales, cada um tem seu swing. Eu tenho o meu swing. A galera vai escutar de longe, escutar o cavaquinho Pagod’art.
Então, corria a mim ter paciência, entender, músicos, amigos. Tem que mudar, tem que fazer isso aí de igual. Se você não tá conseguindo acompanhar a nossa linha aqui, aí eu não posso mudar nada diferente, eu não posso imitar ninguém. A minha linha aqui já, se eu tivesse começando a carreira, eu podia estar imitando alguém para depois dali…
Mas, pô, aí já tem uma carreira sólida aqui, velho. Como é que eu vou mudar? Como é que eu vou botar duas guitarras para tirar o cavaquinho, porque não sei quem tá colocando da moda. Massa, a moda dos caras, massa, parabéns. Mas a gente não pode, a gente já tem uma marca aqui, “mas é Beto Jamaica e o compadre Washington”.
Como é que eles vão mudar aquela linha do É o Tchan, a escola que ele fez para a gente? Com bandoleirinho chorando lá, tocando. Eles não podem mudar, se eles mudarem aí, acaba. A gente que tem aquela… vendo aquela história. Então, olha eles até hoje fazendo isso, eles não param. Então aquilo ali, com todo respeito, é o que eu quero para a minha vida. Entendeu? Deixar um legado bom, deixar uma escolaridade musical boa e de uma pessoa boa.
Flavinho não entra em polêmica, Flavinho é um cara massa, um cara tranquilo. A importância de você estar na música É para isso aí também.
Tem alguma dica para esses artistasrecém-chegados no gênero para criar uma marca?
Porque é como você falou, né? Quando a gente escuta o Pagod’art, a gente sabe que é Pagod’art, sabe que é a carreta. E a galera é assim: é o vou começar assim pelo Gueto, né? O gueto, ele em si ele absorve muito do que está rolando do dia a dia. Do que a galera convive.
E, é terror, é barril o dia a dia no Gueto. Só que você chega ali no Gueto que nem eu, no meu tempo, eu cantei música de duplo sentido. Então, a gente cantava, a gente fazia uma história da música, que nessa época ainda… por isso que a gente começou a colocar as Uisminoufay, pôr músicas de brincadeira, de personagem.
Só que essa letra, você quer o duplo sentido da gente, a gente não, dava história. “Já descobri, não precisa me dizer. Não é dor, pois esse grito é de prazer”. Dizer: "Quando grita, você deixa doida, seu homem. Você pediu, eu vou te dar tome. Você quer tome?” Era isso aí, um duplo sentido.
Então, tem situações hoje aqui no gueto tá sentido direto. Então, tá assim... A galera, naquele momento, o gueto necessita daquilo, que eles vivem aquilo ali. O cara que tá no gueto, que monta uma banda, que quer cantar uma música linha correta, o gueto exclui ele dali.
Ele fez: "Pô, eu quero cantar minha música. Montei meu EP aqui, velho. Tudo certinho, uma linha padrão, tudo organizada. Que vai expandir para o mundo”. O gueto não abraçou ele? Ele não vai para lugar nenhum. Até o pessoal do baile, ele tem que cantar primeiramente tudo aquilo ali. Nada contra, mas depois que ele deu o primeiro passo… “Velho, eu não quero tocar só no gueto. Eu quero agora tocar em outros lugares, eu quero ir viajar, eu quero tocar em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo”.
Para você tocar nesses lugares, você já tem que ter uma mudança. Você não pode 100% fazer a mesma coisa que você fazia lá no gueto. Aí você vai pegando o respaldo. Tem gente que vem assim. E tem gente que não quer fazer isso. Tem gente que quer continuar desse jeito que tá aí. É uma das coisas. A galera nova, com swing novo, tá todo mundo massa aí.
Mas assim, é contado a dedo quem tá criando uma identidade. Todo mundo com mesmo swing. Se você escutar uma batida aí, você não sabe quem é. “Pô, meu Deus, será que é tal banda, tal banda, tal banda?” E a voz [de] todo mundo parecida. Eu digo: "Meu Deus, quem é que tá com a identidade agora aí?" Aí você tá vendo assim [surgindo] aos poucos… Eu tenho um exemplo para falar de uma galera assim, eu falo de Bruno Magnata. Começo do La Fúria foi atribulado, foi forte, guetão. Chegou um momento que eles começaram a viajar, começaram a entender que nada contra, com uma festa que eu vou no gueto, vocês que necessitam disso, eu vou tocar.
Mas quando o Bruno começou a viajar, entendeu? Ó, o artista que é Bruno hoje. Cara bem-sucedido na música, com família, organizado. Então, a galera do gueto tem que ir, uma vez, eu tô assim, e vir nessa base “Comecei de tal forma, todo dia para mim aprendizado, eu quero fazer isso e aquilo”.
Porque, às vezes, no começo, eles não vão ter essa oportunidade, entendeu? Então, ele tem que cantar de qualquer jeito. Mas depois que pegou uma estrutura, tem alguém querendo ajudar e eles não quiserem mudar, aí já é um pouco difícil, né? É que cada um tem que saber o que quer mesmo.
Vamos falar agora sobre o audiovisual de 25 anos. Já teve lançamento com “Bit do Cavaquinho”, “Mexer, mexer”, teve “Alongadinha” com Xanddy Harmonia, que foi agora recente. O que o público pode esperar mais sobre esse projeto?
A gente também tá esperando; Fica todo mundo ansioso, né? Porque, na verdade, a gente queria soltar tudo de vez. Aí, graças a Deus, por isso que eu tô dizendo que tem que ter uma equipe, né? Porque se fosse por mim, eu já tinha largado tudo de vez, eu quero ver tudo. E aí, o tático do pessoal da Penta [Entretenimento], da assessoria, foi assim: "Não, vamos fazer uma cotazinha de todo mundo, vamos ver como é que vai ser o primeiro passo”. E, graças a Deus, o primeiro passo assim foi surreal!
Com o “Bit do Cavaquinho”, com “Mexer mexer”, que é a parceria com o Léo [Santana] e com o Xanddy [foi] “Alongadinha”. “Alongadinha” é uma música que eu gosto muito, que eu gosto de coreografia. Só que o que tem o que vem depois daí é muito forte também, porque [o que] Igor Kannário fez nessa gravação, não tá no Gibi. Igor sacudiu aquela casa. Então, tudo isso a gente tem que ver. Lincoln sacudiu aquela casa lá.
Beto Jamaica, a gente tava na gravação, daqui a pouco [a produção] falou: "Flavinho, eu tenho que parar a gravação". Eu olhei para Beto: "E aí, paizão?”, ele: “Posso cantar mais uma aqui?” Há vontade de querer fazer aquilo ali. Sacudiu a casa, então todos fizeram isso, né? Mas eu falo assim, o momento que a gente viveu ali, o que eu vivi ali, eu quero tô querendo que apareça logo para o povo ver isso aí, entendeu? Que a vontade de Rubinho, de Márcio, de Tony, dos meninos fazerem aquele negócio acontecer.
E eles me deram um passo surreal, né? Tá com uma seleção daquela ali, só os cabeça, Ave Maria, fiquei eleito, eleito. Eu chego hoje nos lugares, a criança que eu tinha um tempo assim que quando olhava para mim, eu ficava e digo: "Será que sou eu mesmo que tá imaginando que sou eu"? Aí falou: "Ah, Flavinho, eu vou te ver, ó". Aí botava assim o passeio e digo: "Meu Deus do céu, a criançada voltou, graças a Deus, obrigado".
É, criança, é idoso, você vai nos shows. O importante do show da gente também é [que] você tem uma facilidade de levar criança, cadeirante, você levar um idoso, você levar e a galera conseguir curtir o show, não tem uma bagunça. A importância de você ir num lugar e zero B.O. é incrível, então é eu tô felizão, eu tô felizão na condição mesmo. Já tem data para o lançamento desse projeto? As meninas já tão na condição ali, mas tem uma datazinha aí que já pode falar mesmo aí.
Dia 2 [de maio], né? Sexta-feira, dia 2, já tem o que vai sair agora três. Tô abençoado, é. Só agradecer, mãe. Vai ser bom.
Vai demorar muito pro público encontrar é conhecer a parte dois, que é com os outros artistas que você comentou?
Não, foi só o começo, né? O começo que teve essa demora para dar uma expectativa, a gente viu a qual seria a sessão das músicas e agora a gente já entendeu que a gente já tá num pedaço que a gente não pode demorar muito também, né? Porque a galera quer ver, um exemplo assim: o fã de Rubinho quer ver a situação dele comigo. Fã de Bruno, fã de Igor, a galera: "Cadê, mutiacho? Só tá falando, já lançou, vai lançar [quando] Rubinho e Bruno?". Aí o fã de Kannário faz: "E de Kannário? Não vai lançar, então"? É esse pedido também é bom para a gente. Então cada detalhezinho desse é um marketing para gente, um nowhow. É o que eu não tinha antigamente, que a gente está tendo uma equipe programando isso, é?
Mais uma vez eu digo, eu estou felizão.
Qual a importância desse projeto para você? De reunir tantos artistas, nomes do pagode baiano em um projeto tão especial que é de 25 anos?
É, começar do zero. É um filho de novo aí, um filho. Você recomeçar sua carreira com 45 anos, fazer um filho desse aí que é um audiovisual esplêndido, porque só tem os melhores daqui. A gente sabe que faltou mais gente porque não tinha mais música para a gente gravar. E os amigos mesmo falaram: "Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou". Então, a minha parada aqui é surreal, a gente fica feliz porque todos que vieram deram o máximo. O Xanddy mesmo tava no navio, fez assim. Pô, aí eu digo, quase que não dava nem para Xanddy, nem para Beto. Aí o tempo fez, vou chover.
Aí a gente adiou, foi para a semana da gravação do [audiovisual] de Rubinho também, que deu tempo de vir todo mundo. Aí foi só bem, só aí é um filho para gente isso aí. Não só para mim, como para meus sócios, né? Flávio, Eduardo, eles tão assim, felizes com o projeto, né? Projeto caríssimo, que a gente se virou, é.
Vai de arrancar a cueca, mas a gente foi arriscou, a gente precisava desse investimento. A gente tá aí se virando, vamos pagando, que tudo tem um custo. A galera acha: "Pô, tá lindo aquilo ali, agora vocês não…” Gente, não tem dinheiro ainda nisso aí. O dinheiro só foi pago pra gente montar essa estrutura, montar tudo. E aí, a gente tem que botar o pé no chão em cima disso. Então, fazer show agora para pagar as contas e assim, a gente arriscou uma coisa sem saber se ia dar certo.
A gente tinha uma base, acreditava, mas agora a gente pede show, a gente faz shows para ir amenizando. Agora vamos pagar parcelado isso aí, então, e cada detalhe assim, se a gente faz uma planilha, o valor é tanto. Quando você chega perto do show, de tudo, se era… vou botar um exemplo assim: se era R$ 5, já passou a R$ 8. Você tá aqui, “poxa, já ia comprar só um picolé, pô, já comprou cinco”.
Então, eu tô dando só uma base que se o valor era R$ 4, R$ 4.000, já passou para R$ 8.000, já passou daqui a pouco para R$ 10.000, aí a gente vai assim. Aqueles valores de audiovisual que a galera que é do meio entende o que eu tô falando. E a importância agora é, a importância é de pagar parcelado, né?Vamos se embora, trabalhar e vamos trabalhar e vamos trabalhar e pagando e agradecer porque deu certo o projeto, né?
Tá bonito em si, sobre tocar, se vai pagar, tá pagando. Vamos se virando, mas o projeto em si quem vai assistir vai dizer “pô, a luta deles aí prevaleceu, é, eu tô aqui, tô curtindo, vou divulgar também”. Então, é porque ela tá vendo o carinho, o amor. A boniteza que é aquele projeto. A roupa azul combinando com o céu, sem nuvem, sem nada. Todo mundo que para, que vê aquele visual, todo mundo fica assim feliz.
Então, é um filho para gente aquilo ali.
"Tem muita gente muito boa precisando de um suporte", afirma Rachel Reis sobre cena musical independente na Bahia
Por Bianca Andrade
In·de·pen·den·te. Adjetivo que revela quem age com autonomia, mantém-se livre de qualquer influência. Na arte, descreve o artista que não tem vínculo com uma grande gravadora, ou editora. No bom e simplificado português: quem, aos trancos e barrancos, caminha com as próprias pernas.
É assim desde o começo para Rachel Reis, de 27 anos. Natural de Feira de Santana, revelação da música baiana com reconhecimento internacional através do Grammy Latino que se tornou paixão nacional com sucessos como 'Maresia', 'Ventilador', 'Motinha', 'Desatei', 'Pelo' e tantas outras canções de uma carreira "recém" iniciada, em 2020, mas que já rende bons frutos.
“Eu fico feliz, eu realmente me emociono quando paro para analisar as coisas. Eu fiz barzinho durante dois anos, de 2016 a 2018. Cheguei, enchi o saco da música, falei que eu não ia mais cantar, queria estudar, queria fazer minha faculdade, hoje eu estou terminando ela. Eu sinto que as coisas se movimentaram, foram acontecendo. É um processo que acontece pedrinha por pedrinha, sabe? Um dia após o outro. Eu tenho essa sensação de que foi pedrinha por pedrinha, mas uma construção sólida que tem me permitido caminhar com passos onde eu consiga entender o que eu quero."
Independente por não ter vinculo com instituições, mas não por ter feito o caminho inteiramente sozinha, apesar de ser uma artista solo.
Ao longo da trajetória rumo ao estrelato, Rachel faz questão de mencionar aqueles que a auxiliaram nessa caminhada, desde os amigos que imploraram para a artista deixar a timidez de lado e se soltar nos palcos, aos músicos que acompanham a cantora nos shows ao redor do país. São eles Cuper, Zamba, Tomaz Loureiro, Beatriz Sena, Tainã Troccoli e o público, que soma mais de 680 mil ouvintes mensais no Spotify e enchem os shows, vide o Canto da Sereiona, realizado nesta sexta-feira (20) em Salvador, que teve os ingressos esgotados e já tem segunda edição confirmada para 2025.
Independente por ser sozinha, mas caminhando junto, Rachel Reis celebra a caminhada não só dela, mas de toda cena independente baiana. "Eu me sinto muito feliz e orgulhosa de fazer parte disso, acho que a cena está muito bonita, tem gente de todos os lugares, de todos os estilos, de todos os ritmos. Eu gosto desse laço que se construiu por um motivo, porque a gente é fã do outro, porque a gente gosta de trabalho um do outro e não porque é bonito, porque vai sair bem na fita".
Rachel Reis foi a convidada do BN Entrevista de dezembro e bateu um papo sobre carreira, cena musical independente na Bahia, vida fora dos palcos e quais serão os próximos passos na carreira. Confira a entrevista completa:
Rachel, você lançou o primeiro single dessa sua nova era, que é o ‘Ensolarada’, e eu quero saber como tem sido para você trabalhar essa nova Rachel Reis?
Tem sido uma experiência muito interessante de ser vivida essa construção desse álbum. Eu acho que todo artista tem essa coisa do, esse próximo é o que eu mais amo, é porque não tem jeito. Eu estou muito feliz com a construção dele, desde o início, por ser o último projeto que venho trabalhando nos últimos tempos, que naturalmente acontece com um pouco mais de maturidade, um pouco mais de empenho, um pouco mais de visão. Uma visão mais madura, então, ele tem sido ali do jeitinho como eu quero que ele seja. É um álbum onde eu continuo batendo ali sobre o amor romântico, uma das linguagens que eu gosto de trabalhar e que permeia tudo. Eu vou vir trabalhando um pouco mais sobre mim, sobre meus sentimentos. Ele já tá para sair, já estamos ali nos 99% do projeto pronto e estou doida para jogar no mundo.
Raquel, você falou que não tem esse problema em relação a fazer muitos feats, e percebo também que você busca fazer esses feats com artistas da cena independente. Teve com o Filho de Jorge, você já colaborou também com o Yan Cloud e eu quero saber de você, isso da cena independente. Eu vejo que tem uma força muito ali entre os próprios artistas de estarem se apoiando, de estarem um colaborando com o outro, um dando essa força ao outro? Como você analisa a cena atualmente?
Eu acho que tem uma cena muito bonita. Sou uma pessoa de Feira de Santana, eu gosto de bater nessa tecla de que existe arte, existe movimento também nesses lugares. Fico feliz de estar aqui, de morar em Salvador e de poder ser pertencente e abraçada pela cena daqui também. Eu sinto orgulho de permear, de conseguir ter parceria com o Yan, de trabalhar com Filhos de Jorge, Murilo Chester, e vejo esse movimento dessa galera crescendo muito, da gente ver a música chegando em outros lugares. A gente vê uma cena composta muito por pessoas pretas alcançando novos lugares, e eu me sinto muito feliz e orgulhosa de fazer parte disso, acho que a cena está muito bonita, tem gente de todos os lugares, de todos os estilos, de todos os ritmos.
Só em Feira de Santana tem eu, Duquesa, Russo Passapulso. Aqui tem uma galera incrível, gente que eu conheço e que sou fã. Então, eu acho que tem se formado uma cena muito bonita, que está sendo abraçada. E essa união é totalmente natural. Eu gosto dessa coisa de tipo, esse laço se construiu por um motivo, porque a gente é fã do outro, porque a gente gosta de trabalho um do outro e não porque é bonito, porque vai sair bem na fita.
Uma outra coisa também, e aí eu acho que é uma opinião minha, como uma pessoa que consome música e que admira a música baiana, eu vejo muitos artistas da cena independente conquistando o Brasil, não com uma certa facilidade, mas a gente percebe, por exemplo, que o eixo Rio-São Paulo consome bastante os artistas daqui, e a gente percebe vocês na line-up de festivais grandes, como Coala, como Rock the Mountain. Queria saber de você, como uma pessoa que gosta de música, o que você acha que falta para a gente ter eventos aqui em Salvador, a eventos aqui na Bahia, com esse tamanho de colocar a cena independente no holofote total?
É um negócio para se pensar realmente. Essa festa tem sido construída toda do zero, e aqui pela gente, a nossa força de vontade, a construção da nossa equipe, de fazer o rolê acontecer, da minha equipe. Eu fico vendo essas movimentações também, a Bahia é super falada, super consumida. A gente tem que ter esse cuidado de observar como é que acontece, né? Porque às vezes acontece muito de consumirem muito a gente, estigmatizarem a gente. Então, isso é um movimento que a gente tem feito por si só, de levantar as nossas próprias festas, de correr atrás, de conseguir ser aceito dentro dessas festas e desses espaços. Mas eu acho que você como consumidora e eu como artista também tenho essa visão de que as coisas precisam ser um pouco melhores observadas.
O que está rolando? O que essas pessoas precisam? Como é que a gente faz para juntar essa galera toda num só lugar e para deixar essa voz bem mais forte? Eu acho que isso é um senso geral. Tem muita gente muito boa fazendo tudo do zero, precisando de um suporte. Reclamam muito às vezes comigo,’Ah, porque você não faz X, não faz Y, porque você não tá não sei aonde’. Porque tem que me chamar, a galera tem que me chamar, entendeu? A gente não pode chegar na praça e bater panela, entendeu. A gente tem que levar uma banda, a gente tem que levar suporte. Eu tô sempre aberta a participar dos eventos, eu tô sempre aberta a participar de tudo, só que a gente sozinha, não pode fazer. Então, eu acho que tem que rolar esse olhar com mais cautela, com mais cuidado, porque está se formando, porque está sendo construído. Tem muita gente boa. Eu fico besta com a forma como a cena baiana cresce e se destaca. E muitas vezes ali, sozinha, por uma força da gente, uma força dos artistas, uma vontade de fazer o negócio acontecer. Eu acho que falta esse olhar mais cauteloso.
Você já falou em entrevistas que tem pouco tempo de carreira para o público, que vem de uma família de música e sempre fala da sua mãe. Com o pouco tempo de música para o público geral, você já tem essa notoriedade, é reconhecida pela crítica, já foi indicada ao Grammy, já teve música em novela, em seriado. Eu quero saber como você se sente, tendo tão pouco tempo e conquistando tantas coisas, e com tanto ainda por vir.
Eu fico feliz, eu realmente me emociono quando paro para analisar as coisas. Eu fiz barzinho durante dois anos, de 2016 a 2018. Cheguei, enchi o saco da música, falei que eu não ia mais cantar, queria estudar, queria fazer minha faculdade, hoje eu estou terminando ela. E quando eu tive esse start de gravar as minhas primeiras músicas, além de 2020, foi só esse primeiro estalo de juntar o dinheiro, gravar e me jogar nisso, eu sinto que as coisas se movimentaram, foram acontecendo. É um processo que acontece pedrinha por pedrinha, sabe? Um dia após o outro. Eu tenho essa sensação de que foi pedrinha por pedrinha, mas uma construção sólida que tem me permitido caminhar com passos onde eu consiga entender o que eu quero, entender o que eu não quero, entender as minhas movimentações ali de uma forma muito tranquila. Então, eu fico muito feliz quando eu faço esse panorama de tudo que aconteceu. Eu tenho conseguido viver da minha música, viver das minhas composições, trabalhar com as pessoas que eu gosto, trazer para junto pessoas que eu gosto para poder trabalhar comigo também, dar suporte para as pessoas que eu amo.

Foto: Divulgação
Rachel, surgiu uma dúvida na redação de uma pessoa que te ouve, mas não sabe qual gênero musical você se encaixa. Tem muito de artista não querer colocar, se encaixar em um gênero, ter um rótulo. Eu quero saber, qual gênero musical Rachel Reis se encaixa atualmente.
Olha, eu não tenho nada contra o gênero alternativo, inclusive eu adoro. Eu uso muita música alternativa. Eu acho que isso ficou um pouco aberto. Hoje a gente tá na era do streaming, tudo é muita coisa. Falta o significado, ao mesmo tempo, tem muito significado. Hoje eu me considero uma pessoa sem um rótulo. Não me considero uma pessoa com gênero específico, inclusive eu acho que é uma das coisas que faz com que muita gente, todo tipo de gente consome a minha música. Eu acho muito engraçado quando eu abro os stories que eu vejo a marcação, eu vejo emo, eu vejo roqueiro, eu vejo pagodeiro, eu vejo de tudo, idoso, criança, tudo consumindo minha música, eu acho isso muito interessante. Acho que hoje se junta o fator da gente viver nessa época do streaming, onde tudo chega para gente muito rápido, muita informação, ao mesmo tempo, em que eu sempre tive, sempre fui atenta, sempre gostei e tive curiosidade em escutar de tudo, em pesquisar de tudo.
Você falou sobre ouvir um pouco de tudo quando era criança, disse que consumia muito trilha sonora de novela e eu quero saber qual foi a sensação que você teve quando ouviu sua primeira música na novela.
Quando rolou da primeira música entrar em trilha sonora, eu chorei. Quando eu vi passando, eu estava viajando, fazendo show, e aí estava no hotel e passou a chamada assim. Aí eu e o Fernando, meu produtor, com a boca deste tamanho, chorando. Porque é isso, a gente cresce assistindo novela, nossa família, nossos parentes, nossos amigos, meu pai, no horário certinho, ele ia bater o ponto dele, enquanto essa música não tocou, no capítulo, este homem não teve paz, ele não teve saúde, todo dia ele me mandava mensagem, é hoje que vai tocar, dona Rachel?
E a primeira vez que você ouviu sua música na rádio?
Eu acho que eu estava num Uber e aí tocou ‘Ventilador’, [eu falei] sou eu aí moço, sou eu que estou tocando. Filmei na hora, foi um sentimento único ouvir a música tocando na rádio pela primeira vez. Não acostuma vez ou outra, eu tô em carro e tá tocando e eu quero dizer a ele que sou eu, mas me seguro. A gente vai aprendendo a se conter, vai aprendendo a lidar, né? Mas não acostuma.
Além dessa questão do rádio, tem a questão dos palcos também. Você começou a carreira em um momento que a gente não estava tendo show por causa da pandemia, então acredito que teve aquele tempo de adaptação e de se apresentar no palco. Hoje ainda é toda aquela pressão. Como você faz para controlar?
Eu fazia o barzinho [no começo da carreira], a galera não se importava, todo mundo bebendo, comendo, então a responsabilidade era um pouco menor. Quando eu comecei a lançar o meu autoral, que começaram a rolar os shows, os festivais, eu não tinha nenhuma noção do que eu estava fazendo, eu sabia que um povo ali gosta da minha música, então, eu ia ali cantar e entoar sons. Eu não sabia que tinha que ter uma comunicação com a galera, que eu precisava dar um suporte. Eu ia lá, pegava o microfone, literalmente só cantar, e não queria falar nada com ninguém, bom dia, boa noite, tchau, e ir embora. Eu fui pegando essa noção de que tá, eu estou indo fazer show, é palco, as pessoas estão lá, elas esperam uma interação minha, elas esperam algo de mim, elas querem me conhecer, preciso entregar isso para elas, aos poucos. Hoje em dia eu adoro estar no palco, eu adoro trocar com eles, eu adoro ver eles cantando as músicas, adoro brincar, adoro interagir. Mas foi um processo muito lento, porque de cara eu já caí em grandes palcos.
Para quem te acompanha realmente dá para notar que você desabrochou ali no palco. Você tava falando que sempre foi muito tímida e que você faz o possível também para poder manter a sua vida pessoal fora dos palcos, como você está tratando com isso?
Eu sempre me considerei uma pessoa reservada, de 2016 para cá, eu fui ficando bem low-profile no meu Instagram, quase não postava muita coisa. Tenho começado a postar mais, a interagir mais, porque a galera cobra, e eu sinto que eles estão certos, tipo, eu sou fã de Jorja Smith, por exemplo, ela não posta nada, eu fico adoecida, porque eu não sei o que ela faz, eu não sei onde é que ela anda, eu não sei. Soube até que parece que ela teve filho, ninguém sabia, eu não sabia disso. Eu fiquei chateada, então eu consigo entender que eles fiquem, "cadê?", "apareça mais". Vez ou outra, eu gostava ali de brincar no Twitter, né? Brincalhona, tuiteira, geração tuiteira, eu sou dessa geração. E aí as pessoas começaram a falar ‘Ah não, você é uma estrela. Não pode brincar. Uma estrela’. E eu, poxa gente, mas eu sou dessa geração também, eu sou twitteira. Eu parei um pouco mais de brincar. Eu também comecei a ficar sem tempo, comecei a ficar sem paciência. Mas cada vez mais eu tenho entendido uma forma de me comunicar, de mostrar para as pessoas que me acompanham, que gostam de mim, quem eu sou, ao mesmo tempo que eu reservo esse espaço que é meu, que é pessoal.

Foto: Jasf Andrade
Rachel, você se apresenta no Carnaval, mas se apresenta em palcos, e as suas apresentações sempre são muito esperadas. Queria saber se você tem essa vontade de puxar um trio elétrico, mas assim, um circuito inteiro também.
Olha, eu tenho essa vontade, eu sou uma pessoa que admirei muito os trios passarem, sempre achei isso incrível e acho que isso influência hoje nesse rolê de ser essa pessoa que consome de tudo. Eu acho incrível a galera que consegue ter esse pique de fazer esse projeto. Vejo Baiana System fazendo isso de uma forma espetacular, eu admiro muito Daniela, Ivete, eu acho isso incrível, eu gostaria de fazer, eu não sei se eu vou ter o pique.
Vou pegar uma resposta que você deu para poder fazer essa pergunta. Você falou que você quer estar em muitos lugares, mas que sozinha você não pode. Que é um pouco impossível para quem é artista independente conseguir se colocar em qualquer lugar. Mas eu queria saber se você sente falta de espaços aqui em Salvador e também na Bahia, porque a gente não pode falar só de Salvador, para poder se apresentar e para poder receber essa galera da cena independente.
Eu sinto falta. Eu fico olhando muito ali pelo meu visor de quando eu comecei. Os espaços que eu encontro aqui são feitos de uma forma muito independente. Eu sinto que eu tenho um pouco de sorte também, de alegria. De, por exemplo, no Carnaval, eu tenho que olhar onde é que eu vou cantar. Eu tenho tido a sorte de encontrar espaços onde eu possa me encaixar, mas eu sinto que rola o vazio. Eu conheço muitos artistas muito talentosos, extremamente talentosos, são pessoas encantadoras, e que eu sinto que poderiam fazer mais coisa, estar em outros movimentos, então eu acredito que isso role muito. Muitas pessoas me questionam porque você não vem fazer coisa aqui, porque você não está por aqui, isso é uma coisa que foge do nosso alcance. A gente precisa de uma estrutura, a gente precisa de uma banda, a gente precisa pagar uma banda, a gente precisa pagar a equipe que está inteira ali atrás da gente voltada para que essas coisas aconteçam. Então, isso acaba que fica um pouco fora do nosso alcance. Eu acho que rola mesmo um certo distanciamento ali que atrapalha e que a galera se movimente.

Foto: Luan Martins
Raquel, para finalizar, você já teve música e novela, você já foi indicada ao Grammy, você tem várias parcerias, mas eu queria saber, no sonho de Rachel Reis, qual é a parceria que você sonha que ainda não está no seu catálogo e qual espaço você também gostaria de estar?
Eu adoraria ter uma parceria com Jorge Ben. Tem muita gente que eu queria fazer, mas nessas horas me dá um branco sabe na hora. Tem muitos palcos que eu gostaria de fazer ainda. Eu tenho uma vontade de rodar tudo, assim, sabe? Pelo Brasil. Tive a experiência de fazer a minha primeira turnê esse ano, que foi muito especial também, mas voltei com mais vontade ainda de fazer mais coisas pelo Brasil. Tem muitos lugares que eu posso chegar, que minha música pode chegar, de gente que não faz ideia que eu existo, então eu tenho essa vontade de rodar muito. Quero fazer muitas parcerias ainda amo Jorge, Vanessa da Mata, Caetano, Gil.
E hoje a gente tem uma Raquel realizada, a Raquel artista que começou no meio de uma pandemia e hoje já conquistou o Brasil. Você se considera realizada quanto artista e também quanto pessoal?
Eu me considero muito realizada. Acho que as coisas acontecem da forma como elas têm que acontecer. Sinto que tudo se encaminha para o jeito como tem que ser. E eu fico muito feliz quando eu vejo minha caminhada, quando eu vejo as coisas que eu tenho projetado e tudo que já aconteceu. Eu acho que cada vez mais eu tenho esse sentimento de que é uma coisa após a outra, né? De modo geral, na vida pessoal, na carreira, eu me sinto muito tranquila.
"Eu não preciso de rótulos, eu quero falar minha verdade", afirma Vina Calmon em desafio na carreira solo
Por Bianca Andrade
Por dez anos, o cheiro que ficou no ar para Vina Calmon foi o de amor. A pernambucana, nascida em Santa Maria da Boa Vista, assumiu o compromisso de estar a frente de uma das maiores bandas da Axé Music, a Cheiro de Amor, que fez com que a artista realizasse um dos maiores sonhos da vida, além de ficar conhecida nacionalmente pela música, impactar positivamente pessoas com a própria arte.
Em 2024, Vina decidiu mudar a fórmula do perfume e escolheu um novo cheiro para chamar de seu, o perfume próprio. Ao fim do Carnaval, a cantora anunciou o fim da parceria com o Cheiro e anunciou a carreira solo, como integrante do casting da Salvador Produções.
A saída, marcada por mistérios por um fim quase inconclusivo para os fãs, sem a sonhada despedida, deu a força necessária para que a "pernambaiana" investisse ainda mais na própria carreira afim de deixar a própria marca, que mistura um pouco de toda trajetória da artista na música.
Ao Bahia Notícias, Vina Calmon abriu o coração durante a entrevista para falar sobre a nova fase da carreira, as dificuldades como uma mulher na música, a saída do Cheiro, os maiores sonhos da carreira solo, e não conteve a emoção ao falar sobre a família, porto seguro da artista e principais fãs. Confira a entrevista completa:
Foram 10 anos de Cheiro de Amor e fica aquela dúvida, qual, para você, foi o momento da virada de chave para decidir seguir na carreira solo?
Aconteceu com muita naturalidade, né? Eu passei 10 anos à frente do Cheiro e com o passar do tempo comecei a idealizar algo sobre minha carreira solo. Uma sementinha foi plantada em algum momento ali, começou a me despertar a vontade de criar essas asas e daí foi acontecendo mesmo. Eu percebi que eu estava num momento de dar mais um passo na minha carreira.
Vina, você não é baiana, mas a gente já disse que você tem essa alma baiana. Além de cantar o Axé, você também teve um período no forró, eu quero que você fale um pouco sobre essas suas influências na música até construir a Vina Calmon que hoje se apresenta como artista solo.
Eu vim para Bahia muito novinha, vim morar aqui há cinco anos de idade. Então eu já tenho essa baianidade de alma também até porque a Bahia me acolheu de braços abertos. Eu vim cantar aqui e já vim para cantar na Banda Xerife, e depois que eu fui pro Cheiro, então já tenho já tem uns aninhos a aí sendo acolhida pela Bahia e já me considero sem sombra de dúvidas baiana.
Você fala que você tem esse é esse esse apego, esse carinho pelo Axé há muito tempo, mas também tem o forró, que se apresenta em algumas das suas novas faixas. Então me fala um pouco sobre essa construção de artista.
Eu comecei a cantar muito nova, com 10 anos de idade. Então a ali foi onde tudo começou em Sobradinho. Inclusive, eu comecei a cantar num grupo do meu ex-padrasto e ele é me deu uma oportunidade de começar a cantar lá pelo por incentivo de minha mãe, minha mãe sempre acreditou desde quando eu era cantora de banheiro. Eu comecei a ouvir e eu ouvia muito forró, e posterior à isso eu fui cantora de MPB, cantora de barzinho que canta de tudo, era uma banda baile onde eu pude aprender muito sobre o que é música, tive grandes referências, como Marisa Monte, Caetano Veloso, mas também amo Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cheiro de Amor, Banda Beijo. Eu sempre tive isso comigo sempre quis vir pra Salvador, inclusive cresci ouvindo 'essa menina tem que ir para Salvador', mas eu não tinha expectativa de vir para cá porque minha família não tinha condições de me bancar, eu tive realmente que meter as caras.
Vina, eu queria saber se você teve algum medo quando você foi dar esse passo, do tipo 'Ah, passei tanto tempo dentro dessa caixa e agora eu vou me permitir cantar outras coisas cantar o que eu gosto'.
Dá aquele frio na barriga, mas eu sempre tive a certeza de que eu, fazendo a minha verdade, não tem como dar erro. E é sobre isso sem paranoias, eu acho que não precisa de paranoias, até porque com muita lucidez eu posso dizer que vão existir pessoas que não vão gostar, mas é independente de estilo e tá tudo bem também, mas eu sei também que vão existir pessoas que vão gostar. Eu sei que vão existir pessoas que vão gostar muito isso para mim importa.
E agora na carreira solo você acha que essa mistura que você sempre ouviu é meio uma definição do que você canta?
Eu gosto de cantar, isso é um fato [...] Eu acho que a música é sem fronteiras, não precisa de um DDD para ter um estilo musical porque nós temos a internet, a velocidade da internet a nosso favor, então a gente alcança o mundo inteiro. Eu não preciso de rótulos, eu quero falar minha verdade.
Nessa sua nova jornada com carreira solo, uma coisa me chamou atenção nas duas músicas que você lançou, 'Beija Eu' e 'Sinasi', é que a letra vem falando sobre relacionamento. Eu queria saber se nessa nova fase você vai seguir a linha Conselheira Amorosa, se também vem um pouco, de como o pessoal diz, de fuleragem nas letras.
A priori, nessas músicas eu venho falando sobre é a potência da mulher e as suas vulnerabilidades. A gente precisa entender que a gente tem sim as vulnerabilidades, enxergá-las, mas também busca superá-las e começar a se enxergar de dentro para fora, a mulher potente que existe ali em nós porque. Eu quero falar disso para a mulherada, mas também vem a fuleragenzinha, óbvio, quem não gosta de uma sacanagenzinha não é? É a dancinha, a diversão, a alegria. Eu quero, de coração, que a minha música chega até você de uma forma positiva, de uma forma alegre.
Você está recomeçando uma carreira, agora como artista solo. Eu quero saber quais foram as dificuldades que você encontrou nesse primeiro momento.
Não é fácil, é um momento é essa construção começada praticamente do zero, porque eu trago comigo a experiência de tantos anos aí na estrada, porém, eu tenho que começar do zero, quer queira ou não. Requer muita paciência, mexe muito com o nosso emocional, mexe com psicológico, mas eu entendo que isso aqui é a minha vida, não é à toa que eu canto desde os meus 10 anos de idade. Quando eu tô muito aperriada eu começo a pensar eu olho um pouquinho para trás e eu olho e faço uma reflexão sobre como foi a minha história lá atrás e onde eu estou agora. Então, apesar das adversidades, eu tô aqui. Isso é além do sonho porque eu tenho o meu sonho, todo artista quer estourar, mas eu lhe digo com muita propriedade que para mim isso aqui vai além e independente de qualquer coisa eu vou continuar trabalhando.
Vina, uma coisa que eu acho que é importante deixar claro, é que sempre que acontece esse movimento de saída de banda, o pessoal começa a especular se houve alguma intriga, mas eu acho justo e acho válido até para você também deixar claro, mais uma vez, como foi que aconteceu essa sua saída do Cheiro e esclarecer se houve alguma briga.
Está tudo na paz. O processo de mudança, obviamente não foi fácil, mas não tive nenhum problema de briga. Eu fui a primeira a falar 'não vou brigar com ninguém, não adianta que eu não vou brigar' e assim eu fiz. Não fui instigada a isso. Quando eu comuniquei com meus antigos empresários, eu chamei para que pudéssemos trazer eles para a sociedade também, convidamos, mas a negociação não progrediu. Foi a escolha deles também, porque de alguma forma não seria bom para eles. Mas não fui maltratada em momento algum.
Você passou anos em cima do trio, fez a estreia da carreira solo no Fortal, eu queria saber se você já faz planos para o Carnaval de Salvador e se vai voltar para a festa
Abandonar o Carnaval de Salvador, jamais! Porque quem bebe dessa água não esquece. É incrível, né? Que momento mágico que coisa linda e só quem tá ali consegue sentir aquela energia. Vamos continuar trabalhando para estar sim no Carnaval de Salvador, com certeza. Meu Carnaval, já está bem encaminhado, graças a Deus.
Vina, para finalizar, eu quero saber de você ao longo de todos esses anos de carreira, quais foram os momentos mais marcantes para você.
Minha filha o meu primeiro palco foi um palanque, era no carro do lixo lá na cidade. Eu nunca esqueci, eu sonhava tanto em ser cantora, eu não queria saber de dinheiro, na época, quando eu ganhava era R$ 5, mas eu lá queria saber do dinheiro, eu queria era cantar. O show era eu, um senhor que era o tecladista, e outro cantor. Eu era tão tímida, que eu só cantava. Eu morrendo de vergonha com uma sainha branca emprestada, eu nunca esqueci desse dia.
O segundo momento, para mim, foi a gravação do DVD no Dique. Foi um momento lindo emocionante, porque além de eu estar à frente, assumindo uma banda tão renomada eu estava também com minha família toda ali pela primeira vez no meu show. Eu pude ver a minha avó lá. Ela não saía de casa para nada, tive meus tios do Rio de Janeiro, de São Paulo, pessoal do interior veio todo. Vovó sempre foi bestinha comigo, ela tinha uma camisa que tinha minha foto de uma das bandas que eu cantei quando eu era do forró, e até os últimos dias dela de vida eu vi minha avó vestida na minha camisa.
Então, eu vou seguir trabalhando, eu sei que existem as adversidades, mas eu vou seguir porque não é fácil, não foi de paraquedas que eu cheguei até aqui foi com muito trabalho e eu vou continuar firme.
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