Quarta, 02 de Março de 2016 - 11:00

Secretário de Saúde acredita que sociedade criou um convívio ‘burocrático’ com o Aedes

por Renata Farias /Estela Marques / Marcos Maia | Fotos: Luiz Fernando Teixeira / BN

Secretário de Saúde acredita que sociedade criou um convívio ‘burocrático’ com o Aedes
Fotos: Luiz Fernando Teixeira / Bahia Notícias
Para o atual secretário de Saúde do Estado da Bahia, Fabio Vilas-Boas, a sociedade desenvolveu um convívio burocrático com o mosquito Aedes aegypti, principal vetor da Dengue, Zika, Chikungunya e Síndrome de Guillain-Barré, que está sendo posto à prova. “As ações vinham sendo feitas de forma burocrática: mesmo recurso, mesmo modelo de tratamento. Acontece que isso vem saindo do controle. A partir de agora, todas as estruturas de governo (federal, estadual e municipal) estão mobilizadas para colocar recursos e conscientizar a população”, opinou. Em entrevista ao Bahia Notícias, Vilas-Boas recapitulou o histórico das doenças associadas ao mosquito nos últimos anos no estado e enumerou as estratégias de enfrentamento do governo diante da questão. O secretário de Saúde também comentou a matéria exibida na última edição do Fantástico, da Rede Globo, sobre a saúde na capital baiana (entenda), e rebateu comentários sobre ser um secretário que “promete e pouco faz”.
 
Os casos de Zika começaram a ser notificados em Camaçari, em meados de março do ano passado. Quase um ano depois, como o senhor vê a evolução do problema, principalmente em relação aos desafios de tentar frear a doença? Quando a doença surgiu não se sabia exatamente do que se tratava e hoje a Zika já é um problema em outros países do continente americano.
Em setembro de 2014, nós tivemos a segunda virose transmitida pelo Aedes aegypti introduzida no Brasil, que foi o Chikungunya, em Feira de Santana. E quando eu assumi a secretaria, convidei o professor Roberto José da Silva Badaró para ser subsecretário e pedi para ele um plano de enfrentamento que basicamente envolve duas ações: combater o vetor e combater as consequências da doença. Construímos um plano, em parceria como o Centro de Controle de Doenças Americanas e tentamos colocar em ação no começo de 2015, mas esse plano possuía componentes que confrontavam o Plano Nacional da Dengue. O ministério entendeu que não era adequado o plano que nós havíamos desenvolvido para o enfrentamento da Chikungunya. Em abril, começou a ter o aparecimento de uma febre exantemática que ninguém sabia bem o que era. Começou a aparecer pessoas com a pele vermelha, se caçando e com febre. Em junho, começaram a surgir casos de Guillain-Barré, e a partir dali se percebeu que era uma coisa grave, que até então ninguém sabia o que era Zika. Com o aparecimento de casos de Guillain-Barré, aqui na Bahia, os pesquisadores da Universidade Federal descobriram que era Zika. A gente passou a saber que era o vírus da Zika que estava causando esses episódios de Guillain-Barré, que foram mais de 160 casos.  Em setembro tivemos os primeiros casos de microcefalia sendo notificados, e aí o Brasil e o mundo tiveram a verdadeira proporção do problema. Logo que o ministro Marcelo assumiu, eu trouxe ele aqui em Salvador, junto com os secretários de saúde de todo o Nordeste para poder fazermos um plano de enfrentamento para os casos de Zika e microcefalia. E o ministro, aqui em salvador, declarou o Aedes inimigo número um da saúde pública do brasil. Então, nesse período de 2015 nós temos duas fases muito claras: Antes de setembro, quando se achava que essa doença era relativamente benigna e o segundo momento quando entra a microcefalia. As autoridades passam a ver que a situação é muito grave, inclusive com o decreto pelo ministro de estado de emergência de saúde pública no Brasil, e na sequência com o decreto pela organização mundial de saúde (OMS) de estado de emergência e sanitária mundial. Hoje a humanidade está aprendendo como é essa doença. A gente não tem fisiopatologia, a gente não sabe como é que acontece a infecção. As evidencias de que o vírus é o causador são fortes, mas factuais. Todo o conhecimento sobre essa doença está sendo construído pela humanidade agora. Nós não sabemos se e quando outros vírus viram transmitidos por esse mesmo mosquito.

E diante desse cenário, qual é a prioridade da secretaria hoje, no sentido de prevenir?
Como todas essas viroses são transmitidas pelo mosquito, a estratégia que se deve fazer mais rápida é reduzir a população de mosquitos. Ninguém sonha mais em eliminar o mosquito. É necessário reduzir para um número que seja considerado aceitável para fins de controle de endemia. O segundo pilar é o combate às doenças transmitidas pelo mosquito. No caso de uma pessoa que teve o Chikungunya, ela terá de ter o acompanhamento com um reumatologista, pois é comum que pacientes sintam dor articular por meses; criar uma rede de assistência para as pessoas que tem microcefalia. Nós estamos agora, voltando a ter casos de Guillain-Barré. Na semana passada tivemos três. Eu já pedi ao ministério mil ampolas de imunoglobulina, que é a substancia para tratar o Guillain-Barré. Reativamos o nosso plano de descentralização do atendimento para que as pessoas não tenham que ir para salvador, para se internar.  Em alguns casos é necessário a terapia intensiva, então criamos centro de referência regionais. Mandamos a imunoglobulina para lá, reservamos leitos nos hospitais para que esses pacientes possam ser internados caso daqui pra frente aumentem os casos de Guillain-Barré. Estamos criando estruturas de apoio as crianças, para estimulação precoce, do estado da Bahia. Serão cinco estruturas associadas aos Núcleos de Apoio da Saúde da Família (Nasf), e mais três que eu priorizei que fossem criados no interior do estado de forma descentralizada. E estamos trabalhando com inovação, buscando incorporar tecnologia para que a gente possa fazer diferente, em vez de fazer a mesma coisa que a gente faz a 100 anos, que é acabar com o reservatório de água parada para o mosquito não nascer.


O senhor pode dizer alguma dessas estratégias que a secretaria vem mirando?
Há várias. Tem a estratégia com os mosquitos modificados, sejam eles transgênicos ou irradiados (estéreis). Tem uma estratégia que você infecta um mosquito com uma bactéria chamada Wolbachia e ele perde a capacidade de transmitir o vírus. Nós estamos junto com o Senai Cimatec desenvolvendo o protótipo de uma armadilha que foi desenhada por um técnico da Sesab. Nossa ideia é fazer com que essas armadilhas sejam produzidas na Bahia a um custo bem barato, e a gente distribua gratuitamente para as famílias. Você coloca a armadilha lá, captura o ovo do mosquito, o mosquito nasce, não consegue sair de lá de dentro e morre. Se cada casa tiver uma armadilha, você despenca o número de mosquitos. Na semana passada foi feita uma reunião com os maiores especialistas no mosquito do mundo, no Brasil, só para trazer ideias diferentes.

Uma das estratégias adotadas pela Sesab foi o lançamento, no final do ano passado, do aplicativo "Caça Mosquito". Já existem dados referentes à eficiência do projeto?
Não há como medir a eficiência disso. O aplicativo consiste em você identificar um foco em determinada região e transmite essa foto que é georreferenciada para nosso servidor.

Sim, e a partir daí o foco é encontrado. Mas existe algum tipo de estatística ou intenção de verificar quantos focos são encontrados a partir das informações coletadas através do aplicativo?
Isso são informações absolutas que não dizem nada. Eu recebo a informação, passo para o município, o município vai lá e rapidamente elimina aquele foco. A ideia do aplicativo é essa. Medir a eficácia dessa estratégia no campo é virtualmente impossível. Nosso objetivo é trabalhar com um volume de downloads e de usuários ativos mandando informações o mais rápido possível para que exista uma interação entre a sociedade e o governo.

No final de 2015, foi apresentada ao ministério da saúde uma série de nove projetos. Alguns deles já estão em andamento, quais?
Nós temos o repelente com nanotecnologia em fase final de importação. A gente mistura com a tinta e as pessoas podem pintar suas casas, que fica quatro anos sem entrar mosquitos. A gente vai distribuir junto com o governo, para gestantes, um repelente de longa duração, com efeito por seis horas. Nós estamos trabalhando com a produção de testes rápidos para diagnósticos de Zika. Esta semana a Bahiafarma peticionou na Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o primeiro teste de Zika de uma farmacêutica pública. Na semana retrasada houve uma publicação de uma empresa do Canadá que havia entrado com o pedido de registro. O nosso foi peticionado hoje. Já temos um teste rápido desses de furar o dedinho, você pinga a gota de sangue e tem em vinte minutos o resultado se é Zika ou não. Isso vai ser distribuído para toda a rede pública da Bahia e do Brasil. Vamos vender para o ministério teste rápido para Zika feito na Bahia.

Essas medidas, a maioria delas, são de médio e longo prazo. Em curto prazo existe algo que possa ser feito?
Esse é exatamente o grande problema. Como ao longo dos anos a sociedade se acostumou com o mosquito, e com a dengue, se deixou de pesquisar. As pessoas ficaram fazendo a mesma coisa que sempre se fez a vida inteira. Como se sabe que a epidemia vai de dezembro até abril, criou-se uma forma burocrática de viver com o mosquito e deixou-se de buscar inovação. Para inovar é necessário pensar, ter uma ideia e testar a eficácia dessa ideia e nós estamos nessa fase para que no próximo ano, quando tiver novamente uma epidemia, a gente já possa ter ferramentas mais eficazes. No caso do mosquito transgênico, o governo autorizou que nós transferíssemos para a fábrica um galpão que seria utilizado para ser uma fábrica de palma, de cactos. Agora já temos um prédio pronto e vai ser uma fábrica de larvas. Nós vamos usar isso, mas não para agora, para essa epidemia. Vai ser para a do ano que vem. Vamos testar em Jacobina, nos bairros, e a gente vai testar a eficácia populacional do mosquito transgênico. E várias outras ideias, sugestões, inovações que a gente está transformando em projetos e colocando em prática. O ministério deverá apoiar todos esses nossos projetos, foi a palavra que eu recebi do ministro Marcio Castro, e teremos financiamento para testar isso e, no ano que vem, ter uma resposta.
Enquanto isso não chega, você tem que combater o mosquito, e o mais importante é saber que não adianta ter agente comunitário, ou agente de endemia, em maior número possível: Nunca vai ser suficiente para encontrar todos os focos porque o mosquito está na casa das pessoas. Se cada um cuidar do seu quadrado, o mosquito desaparece. Se a sociedade se conscientizar disso, a população de mosquitos cai.

De acordo com a própria Sesab, além do orçamento anual da vigilância epidemiológica, o ministério da saúde repassou R$ 5,7 milhões em 2013 e R$ 12 milhões em 2015 para combate ao Aedes aegypti. Em 2014, não houve repasse específico para essa ação. O senhor acredita que o continuado levaria a um quadro mais positivo neste momento?
Eu diria que a sociedade se acostumou com a dengue. Em trinta anos de dengue no Brasil, as pessoas não vão mais procurar o médico. Houve uma acomodação da sociedade como um todo, e as pessoas deixaram de se preocupar. Já se sabe como funciona a doença e como ela é tratada. Portanto, deixou-se de fazer investimentos maiores, é sempre o mesmo investimentozinho todo o ano, quando na verdade, no meu modo de ver, deveria se ter puxado desde o começo uma mobilização muito maior da sociedade para reduzir a população do mosquito. As ações vinham sendo feitas de forma burocrática: mesmo recurso, mesmo modelo de tratamento. Acontece que isso vem saindo do controle. A partir de agora, todas as estruturas de governo (federal, estadual e municipal) estão mobilizadas para colocar recursos e conscientizar a população.

Agora vamos para um assunto mais recente. De acordo com a matéria exibida pelo Fantástico do último domingo (28), Salvador é a capital que menos investe em saúde. O secretário municipal, José Antônio Rodrigues Alves, falou que 85% das verbas para Rede Cegonha e Rede de Urgência e Emergência ficam com o estado (leia). O prefeito criticou a questão do repasse, afirmando que ele não tem existido (saiba mais). Como está essa situação do governo federal para o governo estadual, e do estadual para a capital?

Não existe repasse do governo federal para o estadual, e do estadual para o município. Salvador tem um negócio chamado gestão plena. Em um município com gestão plena o benefício não passa na mão do estado, vai do fundo nacional de saúde para o fundo municipal de saúde. Por que a Rede Cegonha ficou com o estado da Bahia? Porque simplesmente Salvador não tem maternidade nenhuma. Quando se pactuou lá atrás com quem ia ficar o recurso da Rede Cegonha, você ia entregar o recurso pra Salvador fazer o que, se Salvador não tem maternidade? Todas são do estado da Bahia. Então, ele não pode ficar com o recurso de parto se ele não faz parto. Mesma coisa com a rede de urgência e emergência: Quais são os hospitais que são de urgência e emergência de salvador? 100% são do estado da Bahia. Não tem um hospital municipal de Salvador. Então, é óbvio que quando você recebe o recurso de urgência e emergência, Salvador tem que transferir para o estado da Bahia os recursos para o estado poder prover assistência hospitalar para o município. Nós não temos nenhuma dificuldade em transferir parte desses recursos para o município desde que ele tenha leitos para poder utilizar. E o recurso é transferido proporcionalmente ao número de leitos. Então, se o município construir um hospital, nós vamos rever parte desse recurso que fica com o estado para que ele ofereça esse serviço. Só que esse recurso, só corresponde a um terço do que a gente gasta. Se eu tenho lá um hospital que custa 20 milhões de reais como é o caso lá do Hospital Roberto Santos, desses 20 milhões, menos da metade, quase um terço, é dinheiro do ministério. O resto vem do bolso do estado da Bahia. Na hora que salvador tiver um hospital próprio, ele vai receber o recurso de urgência e emergência referente àqueles leitos que ele tem, mas vai ter que colocar mais do que o dobro do bolso dele para poder fazer o hospital funcionar.


Para finalizar, existe um burburinho na classe médica de que o senhor é um secretário que promete e pouco faz. O senhor já ouviu essa história, como o senhor reage a esse tipo de comentário?
Eu nunca ouvi essa história. Como podem dizer que eu pouco faço se eu estou há um ano na secretaria, e o primeiro ano não é o ano das entregas? Para mim, isso é novidade, nunca tinha ouvido isso. Muito pelo contrário. Todos os compromissos que eu assumi com entidades médicas, eu cumpri. Eu tenho reunião mensal com Sindimed (Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia), Cremeb (Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia), ABM (Associação Baiana de Medicina) e tratamos todas as pautas relacionadas às classes médicas em todas as primeiras quartas-feiras de cada mês. O nosso compromisso de aumento de eficiência e gestão, de fazer com que a máquina pública se torne mais ágil, gaste menos e entregue mais estão sendo plenamente cumpridos. Nós temos reuniões de gestão mensais com todos os gestores, temos acompanhado os rumos de todos os hospitais. Isso resultou em uma maior eficiência por menor custeio e uma maior produção de todos os nossos hospitais do estado da Bahia. São números palpáveis. Abrimos leitos de hospitais que estavam eternamente fechados por conta de obras ou reformas, contratamos cerca de 400 profissionais, entre enfermeiros e técnicos, para atender esses leitos, entregamos novas unidades de UTI. Essa afirmação é totalmente infundada. Entregamos o serviço de neurocirurgia hoje, e eu determinei que os nossos hospitais sejam 100% resolutivos. Os hospitais do interior do estado não podem mais receber um paciente e transferir. Eles vão ter que trabalhar para resolver 100% do que chegar lá. Se chegar um paciente com necessidade de fazer uma neurocirurgia ou com traumatismo craniano hoje em Alagoinhas, ele não é mais transferido. Hoje, tem uma equipe de neurocirurgia completa e todos os equipamentos de UTI lá em Alagoinhas. Vou instalar uma máquina de cateterismo cardíaco lá para infartado não precisar vir pra Salvador. A mesma coisa eu fiz em Porto Seguro, Guanambi, Barreiras, Juazeiro. A meta para 2016 é 100% de resolutividade na nossa rede. Para fazer isso é necessário aumentar a eficiência da gestão porque não há mais dinheiro. Há um claro subfinanciamento da saúde. Os hospitais precisam aprender a apertar o cinto, buscar reduzir seus custos e redirecionar para ampliar os serviços sem poder ampliar as despesas. Nós encontramos uma Bahiafarma inoperante, sem produzir. Hoje a Bahiafarma é uma das principais farmacêuticas estatais do país, com contratos de centenas de milhões de dólares. Agora em abril, nós vamos inaugurar a primeira linha de produção de comprimidos da Bahiafarma. A Bahiafarma vai produzir teste de diagnostico para Zika, vai produzir prótese de ortopedia, seringas descartáveis. A Bahiafarma vai representar para a Bahia uma importante indústria para a receita de arrecadação do estado.

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