Sábado, 06 de Dezembro de 2014 - 00:00

'O risco é muito grande de termos epidemia de chikungunya no verão', afirma Jesuína Castro

por Bruna Castelo Branco / Tarsilla Alvarindo

'O risco é muito grande de termos epidemia de chikungunya no verão', afirma Jesuína Castro
Foto:Acervo pessoal - Jesuína Castro
Neste sábado (6) de dezembro será o dia D de combate a chikungunya e dengue, em alerta à população sobre os cuidados para evitar a proliferação do vírus no estado que já apresenta epidemia na cidade de Feira de Santana. Embora o número de casos de chikungunya, tenha apresentando uma leve diminuição, de acordo com o último boletim divulgado pela secretaria estadual de saúde. A situação ainda é muito preocupante e o risco de uma epidemia de dengue e chikungunya é real. Até o último dia 29 de novembro, foram registrados 1.346 casos suspeitos de chikungunya, 718 casos foram confirmados, 148 foram descartados e 480 permanecem em investigação. Em entrevista ao Bahia Notícias, a médica sanitarista, mestre em epidemiologia e coordenadora da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), Jesuína Castro, falou sobre os riscos de a epidemia se espalhar não só na Bahia, mas também em outros estados, devido ao grande fluxo de pessoas que se descolam de um local para outra nesta época do ano. “A taxa de ataque da doença varia de uma forma, que se ocorre num município com um número grande de pessoas, e vale lembrar que todas as pessoas são suscetíveis, a gente pode ter um problema muito sério, com relação à transmissão da doença. Porque a velocidade de adoecimento é muito maior do que na dengue”, alertou. Jesuína também pontuou as ações que estão sendo desenvolvidas, tanto na prevenção, quanto no combate à doença que pegou a todos de surpresa e necessitou de desenvolvimento de medidas de emergência. Leia abaixo a entrevista na íntegra. 
 
Antes do caso de Feira de Santana, já era esperado que na Bahia tivessem muitos casos?
A gente não estava achando que ia começar esse problema do jeito que começou no estado, nem o Brasil esperava isso. Na verdade, essa doença vem se aproximando do Brasil, na medida em que começou a atingir em 2013 países na America do Sul, como Argentina, e da America Central, na região do Caribe. Aqui não temos óbitos registrados, nem de casos importados nem de casos autóctones. Autóctones, só temos casos confirmados no estado da Bahia em Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, Salvador, Alagoinhas, Cachoeira e Amélia Rodrigues. Esses quatro últimos que estão no nosso boletim, todos possuem vínculo com Feira de Santana. 
 
Existe algum risco de haver alguma epidemia de chikungunya e dengue, nesse período de verão que aumenta o volume chuva em algumas cidades?
O risco é muito grande de termos epidemia de chikungunya no verão, então é preciso que a gente se antecipe, como nós pudermos, por que já fomos pegos, com uma epidemia no município de Feira se Santana, em setembro. Embora o boletim de controle da doença apresente uma tendência de queda, não nos tranquiliza. A gente sabe que a taxa de ataque da doença varia de uma forma, que se ocorre num município com um número grande de pessoas, e vale lembrar que todas são suscetíveis, a gente pode ter um problema muito sério, com relação à transmissão da doença. Porque a velocidade de adoecimento é muito maior do que na dengue. De 38 a 63% da população de um território, pode ser atingida pela doença durante o primeiro mês de ocorrência. Então se a gente pensar, que aqui em salvador 1 milhão de pessoas pode adoecer no verão, é muito avassalador,e não vai ter serviço de saúde que dê conta. Então a gente tá tentando evitar isso ao máximo. A gente ainda tem um risco de epidemia de dengue pelo vírus 1 que está voltando a circular, e é um vírus que dá muito mais forma grave da doença do que o vírus 4, que é o que está circulando em maior quantidade entre 2013 e 2014. 
 
Quais as medidas da Sesab para evitar que isso aconteça?
A Divep (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) junto com todas as coordenações da área de doenças transmissíveis da diretoria - são cinco coordenações técnicas - estão numa ação ampliada de buscativa, junto às 31 regiões de saúde do estado da Bahia e aos 417 municípios, porque temos setenta municípios já com alguma notificação, porém temos uma preocupação muito grande porque a maioria só tem um caso notificado. E isso não corresponde às características de transmissão da doença, a chikungunya não se comporta dessa forma, então pra ampliar a capacidade de visualização, nós estamos nos empenhando nessa ação. Vai ser feita a partir de uma consulta semanal as 31 regionais que vão por sua vez, nos passar informações de buscativa dos 417 municípios, naquele período de uma semana, para que nós possamos fazer as intervenções de controle de forma oportuna. Estamos realizando capacitação de profissionais, nós temos reunião semanal aqui no estado da Bahia, na diretoria de vigilância epidemiológica, para discutir as intervenções da resposta estadual e validá-las, isso envolve vários setores da secretaria e não só a vigilância epidemiológica, é uma resposta coordenada da Sesab. Recomendamos a todos os municípios atingidos, principalmente os mais afetados como Salvador, Feira de Santana e Riachão do Jacuípe que tenham respostas coordenadas semanais também, e tenham seus planos de contingência, no nosso (que é o plano estadual) já foram aprovadas as estratégias e a execução do plano está em curso. 
 
Já existe algum mapeamento das cidades mais vulneráveis a uma possível epidemia? 
Sim, nós temos 14 municípios no estado que são vulneráveis pra epidemias de dengue, logo, esses municípios também são vulneráveis pra o vírus chikungunya. Inhambupe, Jacobina, Lauro de Freitas, Salvador, Simões Filho, Andaraí, Cachoeira, Catu, Dias D’Ávila, Itaparica, Madre de Deus, Santo Amaro, Terra Nova e Valença são os que correm mais risco. Nessa lista tem municípios pequenos, mas também tem grandes municípios. Porém nós temos 417 municípios infestados com o mosquito no estado da Bahia, e temos quase 100% dessa população suscetível para contrair o vírus se for picado por um mosquito infectado e como a taxa de ataque varia de 38 a 63%, perceba a gravidade disso. Aqui em Salvador seriam 1 milhão de pessoas, praticamente toda a população é suscetível, nós já temos casos suspeitos de chikungunya em todos os distritos sanitários, pelo menos 1 em cada distrito de Salvador e com isso nós já fizemos bloqueio desses casos.
 
Como é medido esse risco? 
A vulnerabilidade é analisada em relação ao número de casos de dengue notificados, nas duas últimas semanas epidemiológicas, as amostras enviadas para exame de dengue, o número de amostras positivas pra exame de dengue, as ocorrências de casos de dengue grave e a solicitação de leito de internação pra dengue.  Esses são os parâmetros daqui do estado da Bahia. Em salvador são 12 distritos sanitários, na verdade esses distritos sanitários de Salvador são como municípios com mais 200 mil habitantes, temos distritos com mais de 400 mil habitantes, é uma situação que preocupa muito mesmo.
 
Como serão realizadas as ações de controle? 
Independente de ter casos registrados, nós vamos começar a partir desse mês de dezembro, a buscativa de outros casos, por conta do silêncio, digamos assim, do restante do estado em relação a transmissão. Isso está nos preocupando muito, e em função disso, nós implantamos e já foi passado para as 31 regionais. Na última segunda-feira, fizemos uma reunião para definir a operacionalização dessa ação. Como o bloqueio de casos, por exemplo, no caso da dengue, só fazemos no local de residência, já no caso de chikungunya é feito no local de residência , no local de trabalho e no local que a pessoa estuda, é uma intervenção ampliada. Mas nós queremos mais, precisamos saber mais, por isso que a gente vai fazer esse monitoramento, através de buscativa semanal, inclusive com informação negativa. Por exemplo, se não teve notificação, nós vamos exigir que os municípios digam: “não teve notificação de chikungunya” e assine embaixo. Isso significa que não é só verbal, ele tem que ter ido conferir se não tem, porque a gente precisa pra tentar eliminar e o único prazo que nós temos são esses primeiros meses antes do verão, precisamos aproveitar o fato de não termos ainda um número grande de pessoas de outros lugares, o que pode levar o problema para outros locais. Então por isso a nossa preocupação de agilizar essa resposta estadual com relação à transmissão da doença. 
 
Como é feito o bloqueio de caso? 
O bloqueio de caso tem várias atividades, uma delas é a borrifação com a máquina costal de UBV, chamada UBV leve porque é feita com a máquina nas costas, portátil. Simultâneo, em algumas situações, acontece o bloqueio com o carro de UBV o fumacê. Fora isso, tem as atividades de varredura da área onde tem notificação de caso, com busca de foco, com mutirão de limpeza, com buscativa de outros casos suspeitos para que se amplie ou mantenha o bloqueio naquela proporção que está recomendado, que é um raio de 50 metros, diferente do da dengue que é um raio de 30 metros. Todas as casas que estão dentro desse raio, são borrifadas, independente de terem ou não registro. Se o profissional acha mais casos suspeitos, ele tem que ampliar aqueles 50 metros.
 
Como foram definidas essas ações? 
Pela nossa equipe, não existe nada desenhado formalmente para a vigilância, e por isso nós tivemos que de alguma forma adaptar e cria, além de definir algumas coisas aqui no estado da Bahia, porque nós somos o único estado que já tem uma epidemia de casos autóctones. Por isso nós fomos desafiados, digamos assim, e tivemos que agir de uma forma muito oportuna, muito pronta e muito ampliada. O desafio na verdade é esse. Além disso, tem toda a ação que está prevista para o controle do Aedes aegypti, e pra vigilância da chikungunya a principal é você fazer o isolamento solidário dos casos que já estão confirmados.
 
Como funciona esse isolamento solidário? 
Todo indivíduo com febre de início súbito maior que trinta e oito e meio, e dor intensa nas articulações também de início agudo, acompanhada ou não de edemas (que são os inchaços) não explicados por outras condições, ou seja, uma dor articular que não tem outra causa cogitada, e se tiver, tem que descartar no processo de investigação, tanto clínica quanto no processo da vigilância epidemiológica. É preciso verificar se essa pessoa se deslocou para uma área que possui casos confirmados ou que já tenha casos suspeitos nas últimas duas semanas, é preciso fazer isso de forma ampliada, justamente para ter uma segurança maior de que vamos passar o verão sem ter epidemias em outros municípios, além de Feira de Santana, que tem exportado tanto para outras cidades da Bahia quanto para outros estados. 
 
Então esse grande fluxo de pessoas viajando pode ajudar a espalhar? 
Pode, não só espalhar, trazendo de outros estados do Brasil que tenham casos confirmados, como por exemplo, Amapá, quanto pode levar daqui pra outros lugares também. Às vezes as pessoas estão no período de encubação levando ou trazendo a doença. 
 
Qual seria a recomendação para quem vai viajar?
Quem está com febre precisa verificar se não é nenhuma doença transmissível, na verdade quem tá com febre o ideal é não viajar. Porque, primeiro, precisa saber se está bem pra viajar, segundo, porque se for uma doença como chikungunya, se a pessoa adoecer durante uma viagem, não vai aproveitar nada, porque a doença realmente incapacita, é difícil até pra dormir, então quem dirás pra fazer as atividades cotidianas como escovar os dentes, pentear os cabelos, enfim... É uma doença que compromete a autonomia das pessoas na fase aguda e se ela perdura esse comprometimento pode durar um pouco mais de tempo.
 
Os sintomas da chikungunya são piores que os da dengue?
São sim, a pessoa fica incapacitada de trabalhar por pelo menos 15 dias, e a depender da evolução da doença, isso pode se estender para 30, 60, 90 dias. O médico tem que ir acompanhando, para ir colocando o doente a par da situação conforme ela se apresenta.
 
Então qual seria a recomendação para quem já está infectado? 
Evitar contato com o mosquito quando estiver no período febril porque pode transmitir pra outras pessoas da casa. O ideal é usar repelente, dormir em baixo de cortinado. O recomendado é não ir trabalhar, porque a pessoa fica incapacitada, tem gente que vai mesmo assim. Mas não deve ir, porque o repouso é importante, faz melhorar e melhora o prognóstico e evolução da doença, nesses primeiros dias o repouso tem que ser absoluto, pelo menos nos 10 primeiros dias, isso ajuda a melhora futura, usar compressas frias, e o isolamento é solidário nesse sentido, de evitar que outros casos ocorram a partir de você. 
 
Então, em caso de suspeita o que a pessoa deve fazer? 
Procurar o atendimento médico, não se automedicar, não usar anti-inflamatório nem nenhuma automedicação porque pode ser dengue junto com chikungunya, inclusive. Porque é possível ter as duas doenças ao mesmo tempo. Em Feira de Santana foram registrados alguns casos nessa condição. Usar medicamento sem orientação médica pode agravar um caso de dengue, pois se a pessoa toma analgésico ou anti-inflamatório pode provocar sangramento por exemplo. A chikungunya não provoca sangramento, mas a dengue pode dar, se a pessoa tomar algum medicamento com ácido acetilsalicílico, pode precipitar ou fazer surgir manifestação hemorrágica. E, no caso da chikungunya, os antiinflamatórios não estão recomendados nesse primeiro período, só o analgésico a base de  paracetamol e dipirona não injetável, que pode ser utilizada mas com restrição por conta de ter efeitos adversos. Então tem que evitar automedicação, é preciso ter um primeiro atendimento, geralmente a primeira consulta demora porque o médico tem que fazer um exame físico sistemático completo do paciente, como deve ser, e uma história epidemiológica e clínica que vá afastando outras coisas que se confundem, como malária, leptospirose,  meningite...Principalmente a depender da situação da época do ano tem que pensar quais são as doenças que fazem exclusão com chikungunya, mas essas quatro que eu citei são as principais, a dengue, malária, leptospirose, e a meningite. 
 
Já está havendo alguma capacitação dos médicos? 

Sim, várias, aqui no estado da Bahia. Temos vídeo aula disponível, no dia 13 e 14 de outubro nós tivemos uma capacitação, teórico prática no município de Feira de Santana, com médicos e fisioterapeutas de outros estados. Foi uma parceria entre o Ministério da Saúde, a Sesab, a secretaria de Saúde de Feira de Santana e o Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Essa foi a mais recente, mas a nossa primeira capacitação aconteceu aqui no dia 24 de setembro, com o Dr. Cleber Luz, que veio nos dar um apoio, ele é um médico de referência do Ministério da Saúde. De lá pra cá nós já fizemos diversas. Eu mesma já gravei um vídeo aula, na Fundação Estatal de Saúde da Família, nós estamos com uma agenda de sensibilização das urgências e emergências e prontos atendimentos aqui do município de Salvador, que são da rede própria.
 
Para prevenção são os mesmo cuidados que já temos com a dengue? 
Sem o vetor a doença não existiria, para prevenção da infestação é necessário eliminar o criadouro, se o morador não puder eliminar sozinho, ou se a visita do controle epidemiológico do município só for acontecer daqui a dois meses por exemplo, ele deve fazer contato com o órgão e chamar alguém. Essas visitas tem que acontecer, não vem acontecendo já para a dengue, e com a chikungunya a situação fica muito mais difícil.

E nos casos em que a visita não acontece com a frequência necessária, o que a população pode fazer?
A população tem o direito de requisitar isso ao município, que tem o dever de garantir a visita. Porque essa atividade continua no programa de controle da dengue, com seis visitas ao ano uma a cada dois meses, a depender do município tem uma prioridade em termo de população que está fazendo essas visitas, mas que tem que ser feitas tem, pelo menos em 80% dos imóveis dos residentes no município. 

Como a população pode ter acesso às informações sobre a doença e sobre as ações de combate e prevenção desenvolvidas pela Secretaria de Saúde? 
Tem um site da Secretaria Estadual de Saúde, onde publicamos toda quarta-feira o boletim atualizado com informações sobre a transmissão de chikungunya e dengue, lá tem registros do total de casos notificados, confirmados e dos óbitos. Lá também tem todos os municípios que tiveram mais de um caso notificado.

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