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Bengalas Podcast debate humanização e desafios da institucionalização de pessoas idosas
Podcast Bengalas debate Medicina do Estilo de Vida com endocrinologista Olivia Bomfim
Podcast Bengalas aborda saúde auditiva e seus impactos na longevidade em novo episódio
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Precisamos construir uma vida para além da carreira profissional
Por Carlane Machado
Muito se fala sobre burnout, sobrecarga profissional e adoecimento mental relacionado ao trabalho. Os números crescentes de afastamentos por questões emocionais têm despertado debates importantes sobre a responsabilidade das empresas na promoção da saúde mental dos trabalhadores. Mas existe uma reflexão que, talvez, ainda esteja recebendo pouca atenção: será que estamos construindo uma vida para além do trabalho?
A discussão sobre saúde mental costuma ganhar força quando o sofrimento já está instalado. Quando surgem sintomas como ansiedade, exaustão, insônia, irritabilidade ou falta de motivação. No entanto, a prevenção começa muito antes disso. Ela está presente na forma como distribuímos nosso tempo, nossas prioridades e nossas fontes de realização.
Na prática clínica, tenho observado um fenômeno cada vez mais frequente. Muitas pessoas passaram a concentrar grande parte de suas expectativas, reconhecimento e senso de valor pessoal na carreira. O trabalho deixou de ser apenas uma atividade profissional e passou a ocupar um lugar central na identidade de muitos indivíduos.
Não há problema em buscar crescimento profissional, estabilidade financeira ou reconhecimento. O trabalho é uma parte importante da vida e pode, inclusive, ser uma fonte legítima de satisfação. A questão é quando ele se torna a única fonte.
Quando toda a realização se concentra no ambiente profissional, qualquer frustração ganha proporções maiores. Uma crítica, um erro, uma meta não alcançada ou a falta de reconhecimento podem ser interpretados não apenas como desafios do trabalho, mas como uma ameaça ao próprio valor pessoal.
É nesse contexto que muitas pessoas começam, sem perceber, a abrir mão de outras áreas fundamentais da vida. O lazer é adiado. Os encontros com amigos tornam-se raros. O tempo em família diminui. Os hobbies desaparecem. A atividade física deixa de ser prioridade. O descanso passa a ser visto como perda de tempo.
Aos poucos, a rotina se resume ao trabalho.
E é justamente aí que mora um dos grandes riscos. Quando deixamos de cultivar outras fontes de prazer, pertencimento e significado, ficamos emocionalmente mais vulneráveis. Afinal, toda a nossa satisfação passa a depender de um único lugar: o trabalho.
Os sinais desse desequilíbrio costumam aparecer antes mesmo de um adoecimento mais grave. Dificuldade para desligar a mente, sensação constante de cansaço, culpa ao descansar, ansiedade, tensão muscular e a impressão de que nunca se faz o suficiente são alguns dos alertas mais comuns.
Ao mesmo tempo, é importante destacar que essa reflexão não retira a responsabilidade das empresas. As organizações têm papel fundamental na construção de ambientes saudáveis, na prevenção do adoecimento emocional e na promoção de relações de trabalho mais equilibradas.
No entanto, também existe uma responsabilidade individual na construção de limites e no cuidado com a própria vida. Nenhuma carreira, por mais bem-sucedida que seja, consegue suprir sozinha todas as necessidades emocionais de uma pessoa.
A saúde mental também se constrói em experiências simples e cotidianas. Em uma caminhada ao ar livre. Em uma conversa com alguém querido. Em um hobby. Em um momento de lazer. Em um almoço em família. Em uma pausa sem culpa.
Talvez a grande pergunta que precisamos fazer não seja apenas por que estamos adoecendo no trabalho. Talvez seja também: o que estamos deixando de viver fora dele?
Porque o nosso valor não está apenas naquilo que produzimos. E uma vida saudável é aquela que encontra espaço para o trabalho, mas também para tudo aquilo que nos lembra que somos muito mais do que nossa profissão.
*Carlane Machado é psicóloga da Hapvida
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Com a chegada do Dia dos Namorados, somos cercados por vitrines temáticas, campanhas publicitárias, jantares especiais e declarações românticas que ocupam espaço nas ruas, nas telas e no imaginário coletivo. Para muitos casais, a data representa um momento de celebração. Mas para quem está solteiro, esse período pode despertar sentimentos como ansiedade, tristeza, comparação e até uma sensação de inadequação.
Ao longo da minha atuação como psicóloga, percebo que o impacto emocional dessa data vai muito além da condição de estar ou não em um relacionamento. O que costuma gerar sofrimento é o significado que a sociedade atribui ao amor romântico e à vida a dois. Existe uma narrativa bastante difundida de que estar acompanhado é sinônimo de realização afetiva, felicidade e sucesso pessoal. Quando alguém não se percebe dentro desse contexto, pode surgir a impressão de que está ficando para trás ou de que há algo faltando em sua vida.
Esse sentimento tende a se intensificar em tempos de redes sociais, onde somos constantemente expostos a recortes cuidadosamente selecionados da vida dos outros. Fotografias, homenagens e demonstrações públicas de afeto podem reforçar comparações que nem sempre são justas ou reais. Afinal, raramente enxergamos a complexidade das relações por trás das imagens que consumimos diariamente.
Além disso, datas simbólicas costumam carregar emoções silenciosas. Para alguns, o Dia dos Namorados celebra encontros. Para outros, desperta ausências, saudades, frustrações ou questionamentos. Términos recentes, lutos afetivos, decepções amorosas e inseguranças podem ganhar mais força nesse período. E tudo bem. Nem toda data precisa ser vivida da mesma forma.
É importante compreender que sentir tristeza, solidão ou desconforto diante dessa data não significa fraqueza nem incapacidade de ser feliz. Significa apenas que determinadas emoções encontraram espaço para se manifestar. O problema não está em sentir, mas em acreditar que esses sentimentos definem quem somos ou o valor que temos.
Talvez o convite mais importante deste período seja ampliar a nossa compreensão sobre o amor. O amor não se limita aos relacionamentos românticos. Ele também está presente nas amizades, nos vínculos familiares, no cuidado com os filhos, nos encontros sinceros, nos projetos de vida e, principalmente, na relação que construímos com nós mesmos.
Mais do que corresponder a expectativas sociais, acredito que o essencial é compreender o próprio momento, acolher os sentimentos que surgem e respeitar a própria história. Cada trajetória afetiva possui seu ritmo, seus aprendizados e seus significados.
Em uma época marcada pela hiperexposição e pela comparação constante, olhar para si com mais gentileza e menos exigência pode ser um exercício valioso. Afinal, a felicidade não precisa caber em uma data específica nem seguir um modelo pré-estabelecido para ser legítima.
*Niliane Brito é psicóloga (CRP03/12433)
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
O sonho da maternidade não acaba com um diagnóstico de câncer de mama
Por Juliana Orrico
Receber o diagnóstico de câncer de mama costuma provocar uma avalanche de sentimentos. Entre as preocupações com o tratamento e a recuperação, muitas mulheres, especialmente as mais jovens, também enfrentam um medo profundo e silencioso: o de perder a possibilidade de ser mãe.
Durante muito tempo, o câncer foi visto como um ponto final para diversos projetos de vida, inclusive a maternidade. Felizmente, a medicina evoluiu e hoje sabemos que esse sonho pode continuar sendo possível em muitos casos.
Cada vez mais, o cuidado com a fertilidade faz parte da abordagem inicial do tratamento oncológico. Isso significa que, logo após o diagnóstico, muitas pacientes já podem ser encaminhadas para avaliação especializada com foco na preservação da fertilidade, antes mesmo do início da quimioterapia.
Esse planejamento precoce é fundamental. Alguns tratamentos podem impactar a função ovariana, mas atualmente existem estratégias seguras e eficazes, como o congelamento de óvulos ou embriões, que permitem preservar a possibilidade de uma gestação futura.
Mais do que combater a doença, nosso papel enquanto médicos é olhar para a mulher de forma integral. Estamos falando de pacientes que continuam tendo sonhos, planos, desejos e projetos de vida que merecem ser respeitados e acolhidos durante todo o processo de tratamento.
Os avanços científicos também trouxeram mais segurança em relação à gestação após o câncer de mama. Hoje, já sabemos que, em muitos casos, engravidar após o tratamento pode ser seguro, desde que exista acompanhamento multidisciplinar e uma avaliação individualizada de cada paciente.
É importante reforçar que não existe uma fórmula única. Cada caso precisa ser analisado de maneira cuidadosa, considerando o tipo do tumor, o estágio da doença, a idade da paciente, o tratamento realizado e o momento ideal para uma possível gestação.
Nesse contexto, a atuação integrada entre mastologista, oncologista e especialista em reprodução humana se torna essencial. O objetivo é equilibrar segurança oncológica e qualidade de vida, sem que a mulher precise abrir mão de sonhar.
Receber um diagnóstico de câncer de mama é, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis na vida de qualquer mulher. Mas é importante que elas saibam que esse diagnóstico não precisa significar o fim da maternidade.
Hoje, mais do que tratar tumores, tratamos histórias. E preservar a possibilidade de ser mãe também faz parte desse cuidado.
*Juliana Orrico é mastologia (RQE 12346) e especialista reconstrução mamária.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Menstruação saudável começa com informação de qualidade
Por Mariana Viza
A menstruação faz parte da vida de cerca de 1,8 bilhão de pessoas todos os meses no mundo, segundo dados do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Ainda assim, o assunto segue cercado por tabus, constrangimentos e desinformação: uma pesquisa do UNICEF e do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) mostrou que mais de 60% das jovens já deixaram de frequentar a escola ou espaços públicos por estarem menstruadas. Esse cenário revela que, apesar dos avanços no debate sobre saúde feminina, ainda há um longo caminho para transformar informação em acolhimento, autonomia e cuidado.
Por um lado, temos as redes sociais e os ambientes digitais, ampliando as fontes de informação sobre saúde, especialmente entre mulheres mais novas; do outro, conteúdos sem embasamento científico que também ganham espaço e aumentam o risco de normalizarmos sintomas que merecem atenção médica ou perpetuarmos crenças ultrapassadas sobre o corpo feminino.
No consultório, ainda é comum ouvir relatos de mulheres que convivem há anos com dores intensas, sangramentos excessivos ou alterações menstruais sem procurar ajuda, porque aprenderam que “é normal sofrer” durante o período menstrual – o que não é verdade.
Cólicas leves podem acontecer, mas dores incapacitantes, que impedem atividades cotidianas, precisam ser investigadas. Sangramentos muito intensos, prolongados ou que afetam a qualidade de vida também são sinais de alerta para condições como endometriose e sangramento uterino anormal. Nessas situações, o diagnóstico precoce faz diferença no tratamento e na qualidade de vida das pacientes, que têm o cotidiano impactado pelo mal-estar físico, emocional e, muitas vezes, social.
Outro ponto importante é entender que histórico familiar não deve servir como justificativa para naturalizar sintomas. Muitas mulheres acreditam que, se a mãe ou outros familiares sempre tiveram fluxo intenso ou dor, isso faz parte da genética e deve ser aceito, mas alterações menstruais merecem avaliação individualizada. Hoje, existem diversas opções terapêuticas seguras e eficazes, como pílulas hormonais e dispositivos intrauterinos (DIUs) hormonais, que ajudam no controle do fluxo, alívio dos sintomas e melhora do bem-estar, sempre com orientação médica.
Também é fundamental conversamos sobre esses temas para combatermos mitos antigos que ainda persistem, como as histórias de que lavar o cabelo durante a menstruação faz mal e de usar absorventes internos, coletores menstruais ou DIUs podem afetar a “virgindade” (um conceito social complexo que não pode ser reduzido à presença ou ausência do hímen). Da mesma forma, embora a ausência de menstruação seja um dos principais sinais de gravidez, é importante que as mulheres saibam que sangramentos podem ocorrer durante a gestação e que conhecer o próprio fluxo é o primeiro passo para buscar acompanhamento médico diante de qualquer alteração.
Por outro lado, existem hábitos e ferramentas que devem ser incentivados: alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e atenção à saúde emocional podem aliviar sintomas e melhorar o bem-estar ao longo do ciclo. Além disso, aplicativos de monitoramento menstrual podem auxiliar na identificação de padrões e alterações importantes, contribuindo para diagnósticos mais precoces.
Com hábitos como esses e conversas abertas, caminhamos para abandonar a ideia de que sofrimento menstrual é algo que deve ser suportado em silêncio.
O ciclo menstrual é uma realidade enfrentada por todas e não deve ser tratado com estigmas. E quanto mais cedo entendermos isso, mais cedo poderemos garantir dignidade, cuidado, acolhimento e acesso a diagnósticos e tratamentos corretos para milhões de pessoas.
*Mariana Viza é ginecologista fundadora da Casa Irene
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
O exame esquecido: por que ainda diagnosticamos tarde a doença renal crônica?
Por José A. Moura Neto
Há exames que se tornaram parte da cultura médica e da expectativa do paciente. O colesterol é um deles. Basta uma consulta de rotina para que sua ausência na solicitação cause estranhamento. Com a creatinina, isso não acontece.
Entretanto; creatinina alta, normalmente, é pior do que colesterol alto. A invisibilidade é tamanha que, em uma campanha recente, cogitou-se o slogan “Creatinina para Todos”. A ideia foi abandonada – e ajustamos os dizeres para “Exame de Creatinina para Todos” - em razão do alto risco da confusão com o ilustre parônimo. O suplemento creatina, que veio bem depois, tornou-se mais popular do que o exame que pode diagnosticar a doença renal antes do aparecimento dos sintomas.
A doença renal crônica é, talvez, uma das condições mais subdiagnosticadas da prática clínica contemporânea. Não por ser rara ou de difícil identificação - ao contrário. Trata-se de uma condição frequente, silenciosa e progressiva, cujo diagnóstico, na maioria dos casos, depende de dois exames simples: a dosagem de creatinina no sangue e um exame de urina. Ainda assim, milhões de brasileiros convivem com algum grau de comprometimento renal sem saber.
O problema não está na ausência de tecnologia. Está na ausência de sistematização. Não incorporamos, de forma consistente, o rastreamento da doença renal crônica à consulta médica de rotina, inclusive na atenção primária - justamente o espaço onde o diagnóstico deveria acontecer. O resultado é conhecido: pacientes que chegam tardiamente ao sistema, muitas vezes já em estágios avançados, quando as possibilidades de intervenção são mais limitadas e mais custosas — para o indivíduo e para o próprio sistema de saúde.
É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. Falhamos enquanto sistema ao não priorizar o diagnóstico precoce de uma condição cuja identificação é simples e cujo impacto é profundo. Mas há também razões para um olhar construtivo.
Nos últimos anos, a nefrologia brasileira tem buscado enfrentar esse desafio de forma mais estruturada. A Sociedade Brasileira de Nefrologia vem investindo em iniciativas voltadas à ampliação do diagnóstico precoce, com destaque para o projeto Epi-DRC, além de ações contínuas de capacitação de profissionais da atenção primária - um passo importante para transformar conhecimento em prática.
Em 2025, o projeto avaliou 8.374 pessoas em 40 cidades brasileiras. Cerca de 3.370 apresentaram alterações na creatinina e foram encaminhadas para confirmação diagnóstica e tratamento - indivíduos que, até então, desconheciam sua condição. Duas em cada três das pessoas avaliadas sequer sabiam quais seriam os fatores de risco para doença renal crônica. Em 2026, o projeto foi ampliado para 12 mil testes, com acompanhamento dos casos identificados. Trata-se de um esforço relevante e, sob muitos aspectos, inédito no mundo. Mas é preciso reconhecer: iniciativas pontuais, por mais robustas que sejam, não substituem política pública estruturada.
O Brasil dispõe de uma das maiores redes de atenção primária do mundo, com cerca de 40 mil Unidades Básicas de Saúde. É nesse nível de atenção que o diagnóstico precoce deve ser incorporado de forma sistemática, especialmente em grupos de risco como pacientes com hipertensão, diabetes, obesidade e idosos. Transformar essa realidade exige mais do que evidência científica. Exige coordenação, financiamento, protocolos claros e, sobretudo, constância.
Constância das instituições, constância dos profissionais de saúde, constância das políticas públicas. E exige também engajamento. Da comunidade médica, ao incorporar de forma rotineira exames simples que fazem diferença. Do sistema de saúde, ao priorizar o que é custo-efetivo. E da sociedade, ao compreender que prevenção não é acessório - é estratégia.
Enquanto falamos de performance e ganhos rápidos, a creatina ganhou espaço na prateleira. Ganhou popularidade. A creatinina, não. E, no entanto, é ela que, muitas vezes, separa dois caminhos: o da descoberta precoce e o da surpresa tardia. Talvez o desafio não seja apenas técnico. Talvez seja cultural. A doença renal crônica não precisa ser uma descoberta tardia. Os exames estão disponíveis - inclusive no Sistema Único de Saúde. Falta transformar o óbvio em rotina.
Não se trata de tecnologia sofisticada ou de soluções complexas. Às vezes, tudo começa com um exame que ninguém pediu. Ou que ninguém lembrou: a creatinina.
*José A. Moura Neto é Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Neste 29 de maio, quando celebramos o Dia Mundial da Saúde Digestiva, somos convidados a refletir sobre a relação entre alimentação, digestão e qualidade de vida.
Nas últimas décadas, o Brasil vem passando por uma mudança importante nos hábitos alimentares. Alimentos tradicionais da nossa cultura, como aipim, inhame, couve e arroz vermelho, vêm sendo substituídos por produtos ultraprocessados, impulsionados pela publicidade e pela praticidade do consumo.
Essa mudança tem impacto direto na saúde digestiva. A alimentação tradicional brasileira sempre foi rica em fibras, vitaminas e minerais. As fibras presentes em frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais ajudam no equilíbrio da microbiota intestinal, contribuem para o bom funcionamento do intestino e auxiliam na prevenção da prisão de ventre e de processos inflamatórios digestivos.
Por outro lado, uma dieta baseada em produtos ultraprocessados favorece inflamações, alterações intestinais e dificuldades digestivas. O excesso de açúcar, conservantes e aditivos químicos também aumenta os riscos de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial.
Outro aspecto preocupante é a introdução precoce desses alimentos na rotina infantil. É cada vez mais comum crianças consumirem biscoitos recheados, refrigerantes e bebidas artificiais desde cedo. Essa exposição contínua a sabores intensos e artificiais dificulta, posteriormente, a aceitação de alimentos naturais.
Por isso, a mudança precisa começar dentro de casa. O exemplo dos adultos é fundamental na formação dos hábitos alimentares das crianças. Ter frutas da estação disponíveis, substituir refrigerantes por sucos naturais preparados na hora e valorizar alimentos tradicionais são atitudes simples, mas importantes para a saúde.
A naturopatia defende justamente uma alimentação mais natural, baseada em frutas, legumes, verduras, feijões, cereais integrais, ovos e laticínios, preferencialmente frescos e minimamente processados. Além disso, utiliza recursos terapêuticos complementares, como hidroterapia, geoterapia e chás digestivos preparados com plantas conhecidas popularmente, como erva-cidreira, erva-doce, alumã e orégano.
Também é importante compreender que saúde digestiva não depende apenas da alimentação. Emoções, pensamentos e estilo de vida influenciam diretamente o funcionamento do organismo.
A antiga frase “somos aquilo que comemos” continua extremamente atual. Cuidar da alimentação é cuidar da saúde e da qualidade de vida.
*Aureo Augusto é Médico e Naturopata
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Quem cuida da saúde de quem gera e sustenta a vida
Por Beatrice Facundo Garcia Carneiro
Como obstetra, tenho o privilégio de acompanhar o início de uma das jornadas mais profundas da experiência humana: a maternidade. No consultório, durante o pré-natal, o foco é integralmente dividido entre a gestante e o bebê. No entanto, com o nascimento, testemunho uma mudança sutil e quase imediata de comportamento.
A mulher, antes tão atenta aos próprios exames e sintomas, gradualmente se coloca em segundo plano. O olhar, compreensivelmente, volta-se por inteiro para o recém-nascido, dando início a um ciclo de autonegligência que muitas vezes se estende por anos.
O Dia das Mães é um momento de celebração, mas também nos convida a uma reflexão clínica e social sobre o preço invisível desse cuidado constante. A rotina materna é frequentemente marcada pelo acúmulo de funções, onde o gerenciamento do lar, a carreira e a criação dos filhos consomem a totalidade das horas diárias.
Nessa matemática implacável, a primeira atividade cancelada costuma ser a consulta preventiva, a prática de exercícios ou a noite de sono reparadora. O sacrifício pessoal é socialmente romantizado, mas a medicina nos mostra que o cansaço crônico e o estresse prolongado cobram uma fatura alta na saúde física e mental da mulher.
Do ponto de vista médico, a negligência com exames de rotina, a alimentação desequilibrada e o sedentarismo pavimentam o caminho para o surgimento de problemas cardiovasculares, distúrbios hormonais e exaustão extrema. É preciso desmistificar a ideia de que o autocuidado é um ato de egoísmo.
Pelo contrário, a saúde da mãe é o alicerce de toda a estrutura familiar. Uma mulher sobrecarregada e doente terá mais dificuldades para exercer o cuidado que tanto deseja oferecer. Cuidar de si mesma é, em última análise, um ato de responsabilidade com as pessoas que dependem dela.
O maior presente que uma mãe pode receber, e se dar, é o resgate de sua própria individualidade e saúde. Isso começa com pequenas concessões diárias, como delegar tarefas, aceitar redes de apoio e priorizar as consultas médicas anuais. Afinal, a maternidade deve ser vivida com plenitude e vitalidade, não como um processo de anulação pessoal.
Que esta data sirva como um lembrete de que, para sustentar o bem-estar de quem amamos, precisamos primeiro garantir que o nosso próprio coração e corpo estejam fortes e acolhidos.
*Beatrice Facundo Garcia Carneiro é Médica Ginecologista e Obstetra da Clínica SiM
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Infertilidade, excesso de informação e solidão silenciosa: o que não se vê por trás do desejo de ser mãe
Por Wendy Delmondes
Maio costuma ser um mês de celebração. Mas, dentro dos consultórios, ele também revela uma camada menos visível da maternidade: a das mulheres que desejam engravidar, mas encontram no caminho um tempo que não responde, um corpo que não acompanha e uma expectativa que começa a pesar.
A infertilidade, definida clinicamente como a dificuldade de engravidar após 12 meses de tentativas, ou seis meses em mulheres acima de 35 anos, já não pode mais ser tratada como exceção. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 17,5% da população adulta global enfrenta essa condição em algum momento da vida, o que representa aproximadamente uma em cada seis pessoas. No Brasil, estimativas da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida apontam que cerca de 8 milhões de pessoas convivem com dificuldades para engravidar.
Ainda assim, o tema segue cercado por silêncio, atraso no diagnóstico e, muitas vezes, interpretações simplificadas. A fertilidade não é um evento isolado, nem um resultado imediato. Ela é construída a partir de múltiplos fatores biológicos, hormonais, comportamentais e sociais. Reduzir esse processo a uma tentativa que não deu certo significa perder a oportunidade de investigar de forma estratégica.
Na prática clínica, observa-se que muitas pacientes chegam após longos períodos de tentativa sem orientação adequada. Parte disso se deve a uma percepção cultural ainda muito presente: a ideia de que engravidar é um processo natural, automático e, portanto, apenas uma questão de tempo. Não é.
A idade segue como um dos fatores mais determinantes. A fertilidade feminina começa a declinar de forma mais acentuada após os 35 anos, com redução progressiva da quantidade e da qualidade dos óvulos, um processo biologicamente esperado, mas frequentemente negligenciado no planejamento reprodutivo contemporâneo. Paralelamente, condições como endometriose, síndrome dos ovários policísticos, alterações hormonais e baixa reserva ovariana podem atuar de forma silenciosa por anos.
A isso se somam fatores comportamentais cada vez mais presentes, como estresse crônico, privação de sono, alimentação desregulada, consumo de álcool, tabagismo e sedentarismo. Nenhum deles, isoladamente, determina a infertilidade, mas, em conjunto, contribuem para um cenário menos favorável à concepção. Vive-se hoje uma contradição importante: as mulheres têm mais autonomia para decidir quando querem ser mães, o que é um avanço inegável, mas o corpo reprodutivo ainda responde a um tempo biológico que não mudou. Esse desalinhamento precisa ser discutido com mais clareza.
Nesse contexto, cresce também a busca por apoio fora do ambiente médico. As redes sociais se tornaram espaços de troca, acolhimento e identificação entre mulheres que vivem o mesmo processo. Relatos pessoais, jornadas de tratamento e experiências compartilhadas ajudam a reduzir a sensação de isolamento, o que tem valor. No entanto, há um movimento paralelo que merece atenção.
Estudos recentes publicados em periódicos científicos mostram que conteúdos sobre fertilidade nas redes sociais frequentemente apresentam desinformação e baixa participação de profissionais qualificados. Além disso, revisões em saúde digital indicam que a exposição contínua a narrativas idealizadas ou a soluções simplificadas pode aumentar níveis de ansiedade e estresse em pacientes em tentativa de engravidar.
Trata-se de um ambiente ambíguo. Ao mesmo tempo em que acolhe, também pode confundir. Promessas de cura natural, tratamentos sem evidência científica e protocolos replicados sem individualização são mais comuns do que deveriam, o que pode atrasar decisões importantes. Outro ponto sensível é a cultura da comparação. Diferente do que acontece no consultório, onde cada caso é interpretado de forma individualizada, nas redes sociais as histórias são consumidas de forma fragmentada e frequentemente fora de contexto, gerando uma percepção distorcida de tempo, prognóstico e expectativa.
Enquanto isso, o impacto emocional da infertilidade é real e mensurável. Mulheres em tratamento podem apresentar níveis de estresse comparáveis aos de pacientes com doenças crônicas graves. Ansiedade, frustração, sensação de perda de controle e isolamento são recorrentes e muitas vezes invisíveis.
A infertilidade não é apenas uma condição física. Ela atravessa o emocional, os relacionamentos e a forma como a mulher se enxerga. Por isso, o cuidado precisa ser ampliado, não apenas técnico, mas também humano.
Neste Mês das Mães, ampliar a conversa sobre maternidade também significa incluir quem ainda está no caminho. Significa reconhecer que, para muitas mulheres, o desejo de ser mãe não vem acompanhado de respostas rápidas e que isso não deve ser tratado com culpa, urgência ou soluções simplistas. Nem sempre o tempo da vida coincide com o tempo biológico. E é justamente por isso que informação de qualidade, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado fazem tanta diferença. Fertilidade não é sobre promessa. É sobre estratégia, ciência e, principalmente, cuidado.
*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)
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A tecnologia como aliada fundamental da resolutividade na saúde moderna
Por Claudia Velasco
A modernização dos serviços de saúde no Brasil é um reflexo direto de uma sociedade que busca eficiência sem abdicar da segurança clínica. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Telemedicina e Saúde Digital, (ABTms), o volume de atendimentos médicos remotos no país cresceu mais de 300% desde 2020. Esse avanço resultou em mais de 7,5 milhões de consultas realizadas apenas em 2024, consolidando o ambiente digital como uma via preferencial e confiável de cuidado. O que antes era uma alternativa emergencial tornou-se um pilar estratégico da medicina contemporânea, garantindo que o cuidado chegue ao paciente de forma ágil.
Esse cenário de inovação tem sustentação jurídica, especialmente após a regulamentação trazida pela Lei 14.510 de 2022. Esta legislação transformou a telessaúde em uma prática permanente no Brasil, oferecendo as garantias necessárias para que profissionais e pacientes explorem o máximo potencial das ferramentas tecnológicas. A transição para o modelo de telemedicina ampliada representa o passo seguinte dessa evolução, permitindo que a distância física seja superada por uma capacidade diagnóstica cada vez mais completa e precisa.
O grande diferencial dessa modalidade reside na capacidade de coletar evidências clínicas detalhadas antes mesmo do início da conversa com o especialista. Por meio de dispositivos conectados ao sistema através da internet das coisas, tecnologia conhecida como internet of things, é possível aferir dados vitais com precisão técnica superior. Esse ambiente permite a realização de exames como pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura e oximetria, além de auscultas cardíaca e pulmonar. A tecnologia possibilita ainda a prática de oroscopia, exame clínico da cavidade oral e orofaringe, otoscopia, exame físico para avaliar as estruturas do ouvido, e a captura de imagens de pele para análise.
O monitoramento clínico ganha profundidade analítica com a medição de glicemia e a realização de bioimpedância, que detalha informações sobre peso, índice de massa corporal, gordura corporal, massa óssea, proteína, massa muscular, gordura visceral, metabolismo basal e água corporal total. O resultado dessa integração tecnológica é uma assistência muito mais assertiva e embasada em dados reais acessados simultaneamente. Estes são sinais de como a modernidade, mais uma vez, tem facilitado a rotina dos pacientes ao reduzir deslocamentos e atenuar o tempo de espera, mantendo o rigor técnico que a medicina exige. Isso legitima um cenário onde a saúde digital avança para um patamar onde a qualidade do atendimento é ditada pela precisão da informação e pela facilidade de acesso ao cuidado especializado.
*Claudia Velasco é Diretora Médica da Clínica SiM
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Lei amplia acesso à reconstrução mamária, mas informação ainda é desafio
Por Larissa Bitencourt e Marinalva Medina
A ampliação do acesso à reconstrução mamária no Brasil representa um avanço importante no cuidado às mulheres com câncer de mama. Ainda assim, a falta de informação continua sendo um dos principais obstáculos para que esse direito seja plenamente exercido.
Ao longo do tratamento, uma decisão fundamental nem sempre é apresentada de forma clara às pacientes: a possibilidade da reconstrução mamária. Embora garantida por lei e reconhecida como parte integrante do tratamento oncológico, essa etapa ainda é frequentemente percebida como opcional ou restrita à estética, o que contribui para que muitas mulheres não tenham acesso a todas as alternativas disponíveis.
Nos últimos anos, a legislação brasileira avançou ao ampliar a oferta da reconstrução mamária pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando não apenas casos oncológicos, mas também outras situações que envolvem a retirada da mama. Essa ampliação reforça o entendimento de que o procedimento deve ser encarado como parte do cuidado integral à saúde da mulher.
Apesar disso, persiste uma percepção limitada sobre o tema. A reconstrução mamária vai além da aparência: ela tem impacto direto na autoestima, na identidade e na recuperação emocional das pacientes. Mais do que uma questão estética, a reconstrução mamária faz parte do tratamento. Ela influencia diretamente na forma como a paciente se reconhece após a cirurgia e contribui para a recuperação emocional ao longo de todo o processo.
Por esse motivo, quando indicada, a reconstrução deve ser discutida desde o momento do diagnóstico. Essa abordagem permite que a paciente participe ativamente das decisões sobre seu tratamento, compreendendo possibilidades e limites de cada opção. A cirurgia pode ser realizada de forma imediata — no mesmo tempo da retirada da mama — ou tardia, até anos após a conclusão do tratamento. A escolha do momento ideal depende de uma avaliação clínica individualizada.
Entre os fatores considerados estão o tipo e o estágio do tumor, as condições gerais de saúde da paciente e o planejamento terapêutico. As técnicas também variam, podendo incluir o uso de próteses de silicone ou a reconstrução com tecidos do próprio corpo, sempre com indicação personalizada.
Uma das dúvidas mais frequentes diz respeito à segurança da reconstrução imediata. Quando bem indicada, essa abordagem é considerada segura do ponto de vista oncológico. Estudos e diretrizes internacionais mostram que a reconstrução imediata não aumenta o risco de recidiva nem compromete a sobrevida. No entanto, essa decisão não é automática: depende da extensão da doença, das condições clínicas da paciente e da experiência da equipe envolvida.
Quando esses critérios são respeitados, a reconstrução imediata pode trazer benefícios importantes, como a redução do número de cirurgias e melhores resultados estéticos, sem prejuízo ao tratamento do câncer. Mais do que a reconstituição física, o procedimento contribui para que a paciente se reconecte com o próprio corpo, retome sua identidade e enfrente o processo com mais segurança e bem-estar.
Diante desse cenário, a principal orientação para mulheres que passam pela retirada da mama é buscar informação qualificada e acompanhamento especializado. A retirada da mama não significa, necessariamente, uma perda definitiva. Em muitos casos, é possível reconstruir na mesma cirurgia e, mesmo quando isso não é indicado naquele momento, ainda existe a possibilidade de reconstrução posteriormente. O mais importante é que a paciente entenda que a reconstrução não é um detalhe estético, mas parte do tratamento, e precisa ser discutida com uma equipe preparada.
Garantir o acesso à informação é fundamental para que esse direito seja efetivamente exercido. O acompanhamento multidisciplinar possibilita que cada paciente compreenda suas opções e participe de forma ativa e consciente de toda a sua jornada de cuidado.
*Larissa Bitencourt (CRM 24.958/BA | RQE 14.465 / 14.464) e Marinalva Medina (CRM 23.234/BA | RQE 15148 - | RQE 15.149) são mastologistas.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias