Márcio Victor sobre artistas que dizem não querer a Música do Carnaval: ‘Estão mentindo’
Foto: Júnior Moreira / Bahia Notícias

“É a música do Carnaval”. Só de ouvir essa frase, quem acompanha a música baiana, já associa a Márcio Victor e, por tabela, ao Psirico. É um bordão. Alguns aclamam, outros mostram indignação, mas o artista faz questão de enaltecer seus versos cantados. “A gente vai criar um prêmio daqui a pouco: ‘Márcio Victor – Música do Carnaval’, (risos). É o futuro projeto para 2018. Faço isso porque me disseram que eu não podia, que não teria condições de ganhar. Então, falei: ‘Perae! Vamos estudar esse negócio e aprender como é’. Aprendemos e acho que tem dado sorte”, inicia em entrevista concedida ao Bahia Notícias direto de sua residência, em Salvador. E tem dado certo. Só este ano, a banda chega com duas apostas: “Elas Gostam (Popa da Bunda)”, em parceria com Attooxxa e a recente “No Groove”, que vem com a responsabilidade de representar Ivete Sangalo, ausente por conta da gravidez. “Na verdade, não tem uma fórmula pronta para sair e o povo gostar. Acho que não tem essa coisa do gênio da lâmpada dizer: ‘Isso aqui não vai funcionar’. Porém, entendo que existem caminhos. Seja com a letra fácil, falar da Bahia, pois nessa época o país inteiro quer ouvir os elementos da Bahia, os tambores, as danças que estão ocorrendo aqui. Acho que esse é o ponto”.  Com isso, seu bordão deverá ser entoado mais uma vez nos circuitos. Quanto ao rótulo de ser um cantor que se preocupa com isso, questionou: “Qual o artista não quer chegar no Carnaval com uma música forte? Pelo amor de Deus... quero chegar todos os anos (risos). Quero fazer parceria com Os Filhos de Gandy, quero fazer o Ilê Aiyê eletrônico, mas convencer o Vovô é difícil”. Contudo, para 2018, o grupo quer ser lembrado em outras épocas também. Para isso, lançará após a folia momesca um feat com Ferrugem e depois outro com MC Guimê.  Além disso, no papo, Márcio explicou como ocorreu o encontro com Queen Latifah. Confira entrevista completa.

 

Há alguns anos, o Psirico vem chegando com músicas fortes para o Carnaval. Qual o segredo?

Na verdade, não tem uma fórmula pronta para sair e o povo gostar. Acho que não tem essa coisa do gênio da lâmpada dizer: “Isso aqui não vai funcionar”. Porém, entendo que existem caminhos. Seja com a letra fácil, falar da Bahia, pois nessa época o país inteiro quer ouvir os elementos da Bahia, os tambores, as danças que estão ocorrendo aqui. Acho que esse é o ponto.  “No Groove”, por exemplo, é uma música que Ivete me chamou para fazer participação e foi uma diversão. Na verdade, a música era “No Grude”, só que do nada eu me atrapalhei e gravei “No Groove”. Ivete também cantou assim no show e ficou dessa forma.

 

Certo, mas como você escolhe essas músicas para apostar? Como foi o processo de “Elas Gostam (Popa da Bunda)”, por exemplo?

Não apostei para essa época específica. Essa música foi lançada há dois anos e meio. A minha vontade é de trazer mudanças de elementos rítmicos para a música da Bahia. Algumas coisas, acho, que a gente já cansou, outras estão chegando com disponibilidade de levadas e ritmos. Attooxxa é uma dessas influências, assim como Baiana [System]. A nossa parceria começou ainda na “Dança no Crau”. Essa coisa de trazer o eletrônico. O Attooxxa chegou com isso, o Baiana também. Então, como produzir junto com eles o “Playsom” e o Attooxxa estava ali também, acho que desmembrou e deu nisso. A música “Popa da Bunda” tem essa necessidade de ser futurista, de falar com o mundo inteiro.

 

 

Você é visto também como um dos artistas que focam nessa coisa de "Música do Carnaval". É um rótulo que te incomoda? Pergunto isso, pois alguns artistas não gostam de estar “nesse lugar”...

A gente vai criar um prêmio daqui a pouco: “Márcio Victor – Música do Carnaval”, (risos). É o futuro projeto para 2018. Faço isso porque me disseram que eu não podia, que não teria condições de ganhar. Então, falei: ‘Perae! Vamos estudar esse negócio e aprender como é’. Aprendemos e acho que tem dado sorte. Porém, este ano estamos pensando em não só fazer música para o Carnaval. Logo depois da festa, já sai um feat com Ferrugem, tem também com MC Guimé. Vai ser um ano com muita coisa. Outra coisa, os que estão falando isso estão mentindo. Qual o artista não quer chegar no Carnaval com uma música forte? Pelo amor de Deus... quero chegar todos os anos com a música forte sim (risos). Quero fazer parceria com Os Filhos de Gandy, quero fazer o Ilê Aiyê eletrônico, mas convencer o Vovô é difícil. Claro que respeito, acho lindo, mas penso que é uma possibilidade

 

Suas músicas buscam enaltecer a beleza do povo baiano. É intencional? O que isso tem a dizer enquanto discurso?

Às vezes, a gente passa por alguns preconceitos por ser baianos demais, sabe? Acho feio respeitarmos a cultura americana e na época do Saci Pererê acharmos que é feio, menor. Sou aquele cara que quero vestir a camisa da Bahia, defender meu time, comer minha água na Fonte Nova, comer meu amendoim. Defender o que é meu. Claro que não posso dizer que um dia não ascenderei para a cultura do próximo, porque ser artista é isso, mas sempre manteria minha tradição, minha raiz.

 

Por outro lado, vemos alguns artistas falando que a música tem falando só de "bunda" ultimamente e que isso estaria empobrecendo a cultura. O que acha disso? 

Primeiro que bunda é uma maravilha, não vem empobrecendo nada. Uma bunda bonita é linda demais. De repente quem falou isso não gosta (risos). Acho que o Brasil é visto lá fora dessa forma. Se não quiser ver bunda, vamos ter mudar os biquínis. Como não falar do bob para cabelo, por exemplo? Deveriam fazer uma música que fale do bob... ‘Não, mas é bonito falar de chapinha’..., sabe? Acho que é até um preconceito social. Tem as negonas, pessoal do gueto que gosta de falar daquilo. Faça o seu. Quem tá fazendo música boa, não tem tempo para ficar pensando nessas coisas. Só acho que a gente tem que falar politicamente correto, sem diminuir ninguém. Enquanto a música for limpa, acho massa.

 

Você é considerado um dos maiores percussionistas da Bahia e uma das finalistas do concurso Beleza Negra do Ilê era norte-americana, a Sheryland Neil. Ela veio pra cá após se encantar com a percussão. Isso é lindo de se pensar, né? Como a percussão daqui roda o mundo. Como você se sente enquanto representante?

Isso é maravilhoso. Michael Jackson fez isso quando gravou com Olodum. Estamos passando por um processo de recriar instrumentos. Trazer outras sonoridades. A nossa percussão continua ditando o que vai ser o futuro da música e isso atrai pessoas. Vi que o Snoop Dogg fez uma base usando spray de pichar. Ai você vê que tem influência do samba-reggae. O que acontece é que a gente não valoriza da forma como deveria ser aqui na Bahia. Acredito que os percussionistas das bandas deveriam ser que nem no Senegal com cargos políticos, sabe? A ordem dos músicos precisa ser reativada. Precisa de mais apoio. Tem projetos maravilhosos chegando, como o Quabales, porém é preciso os governantes chegar mais junto. A Bahia precisa de gente cuidando mais da cultura.

 

Ao longo da sua vida, várias matérias pontuam que você foi apadrinhado por muitos artistas. Qual a importância deles no seu sucesso hoje?

Apadrinhado não. Amigos. Ivete Sangalo é quem a gente pode chamar de madrinha, pois foi a primeira a acreditar no negócio. Ela é antenada para isso. Ivete abriu as portas do estúdio e disse: ‘grave’. A gente não tinha nada. Durval também. Eles investiram e acreditaram nisso. A Bahia precisa desses padrinhos ativos. Acredito que tive sorte. Fui ajudado por eles, mas essa coisa de “apadrinhar” ainda falta aqui. Não é como acontece no sertanejo, por exemplo.

 

Com tantas mudanças, qual é o público do Psirico hoje?

Vi um negócio no Face engraçado esses dias. Postei um vídeo cantando “’Eita’ Caralho, ‘eita disgrama’”. Fiz isso umas oito vezes no show. Uma menina foi e comentou: ‘Graças a Deus que a banda elitizada tá cantando música do gueto’ (risos). Por que eu virei elite, velho? Acho que é um público eclético. A gente tem atendido a todos, com um foco mais para o público jovem. A linguagem, sabe? Já fomos mais voltados para um lado mais social.

 

Vi seu post em inglês no Instagram agradecendo a Queen Latifah. Como foi esse encontro?

Achei que ela era minha tia, alguém de minha família. Parece aquelas baianas de acarajé. Você viu o texto em inglês? Broquei, pai! Mas não fui eu que fiz não (risos). A gente tem um grupo que é o “Procure Saber”, ela veio para cá e a gente sempre passa a virada de ano, 2 de fevereiro juntos. Estavam lá Seu Jorge, Ana Carolina, Criolo... uma galera. Comecei a tocar e ela queria saber mais de mim e tal. O DJ colocou “Popa da Bunda” e ela ficou louca, querendo improvisar. Nunca me vi com uma artista daquele tamanho, sabe? Pois a Queen sempre foi uma referência para mim. Lembro dos problemas que ela passou, de sua história como cantora, rapper. Uma das primeiras a fazer com homens. Ela tem muita importância. Quando Paulinha (Lavigne) falou que ela tava aqui, fui lá para conhecê-la.  

 

Por fim, quais os passos após o Carnaval?

Estamos nessa fase do feat. Vou lançar meu estúdio, que vai estar aberto para essa música nova dos jovens. Vai ser para todo mundo. Vamos entrar mais no lado social. Quero fazer um show do Psirico no Engenho Velho de Brotas. Estou louco para isso e, por fim, queremos gravar um DVD.

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