Quinta, 15 de Dezembro de 2016 - 11:00

‘A vida é feita de batalha. Estamos na luta’, diz Bambam King sobre carreira solo e novo CD

por Júnior Moreira / Bárbara Gomes

‘A vida é feita de batalha. Estamos na luta’, diz Bambam King sobre carreira solo e novo CD
Foto: Luiz Teixeira / Bahia Notícias
O cantor e compositor Bambam está investindo em sua carreira solo, após passar por diversas bandas, como Psirico, Swinguetto, Parangolé, Sam Hop e, a mais recente, A Bronkka. Agora, ele assume a sua assinatura Bambam King e aposta no sucesso de suas composições, lançando o CD “A Fera Está Solta”. Em entrevista ao Bahia Notícias, ele afirmou que esse é o momento de ter liberdade para criar. “Me desvinculei e estou bem, pois estou fazendo uma coisa minha. Foi a voz do espírito Santo que chegou em mim e disse ‘Faça você a sua coisa’”. Tendo como escola o Pelourinho e padrinhos de renomes nas artes plásticas, na literatura e na música, Bambam contou como começou sua carreira, o motivo de ter saído do Psirico e como está hoje sua relação com Márcio Victor e Igor Kannário. 

Você já passou por diversas bandas e começou a cantar cedo, como foi isso?  
Tudo começou em uma quadrilha junina chamada Ratimbum. Éramos os capemirins, competíamos no “Arraiá da Capitá” e Márcio Victor era o marcador... Melhor marcador! Na festa de comemoração da quadrilha rolou uma bandinha e uns amigos (Nego Jhonie que toca no Oz Bambaz, Esquerdinha também e o Du), armamos uma banda, na hora, e ficou aquela coisa de quem iria cantar. Disseram: ‘BamBam que é mais descolado’. Caiu essa responsabilidade pra mim de ser o cantor. Aí eu comecei. Aos 16 anos pra 17, e hoje eu estou com 34, começamos muito jovens, então comecei a me descobrir como cantor, mas já tocava percussão. Também teve o futebol que me perdeu pra música, a música me formou
 
Na infância você foi apadrinhado por Pierre Verger e Jorge Amado. Como assim? Explica pra gente... 
Veio do meu pai, Valter Bonfim, por ser artista plástico e conviver no Pelourinho. Eu pude viver essa cultura do Olodum, eu tive a oportunidade de viver com Neguinho do Samba, que Deus o tenha. Toquei no Olodum. Enfim, o Pelourinho me trouxe essa coisa maravilhosa que é o cumprimento da minha cultura, o que me forma como artista. Eu conheci Jorge Amado porque nos coquetéis de lançamento dos livros dele, eu juntava com uns amigos meus e a gente tomava conta dos carros. Por eu ter a experiência que o cabelo de chapa, que minha mãe fazia não podia molhar, então quando as pessoas chegavam debaixo de chuva, eu chegava com a sobrinha pra levar as esposas até o lugar da casa de Jorge Amado. Nessa coisa ele já me admirava e passou a me chamar de gordinho. Quando acabava a festa ele me chamava e me dava doces, salgados. Então eu passei a ser um adotado pelos funcionários da Fundação Casa de Jorge Amado. Na época de escola ele me dava os materiais, a farda. Depois, em uma certa fase, eu virei artista plástico e estava desenhando o Pelourinho na Fundação Pierre Verger e chegou um grupo de franceses, que piraram em mim, ao ponto de duas delas quererem me levar pra França como filho delas, elas me levaram pra viver dentro da Fundação. Viraram minha madrinha. Me pegavam no final de semana pra ficar na casa delas, pra viajar, me levava pra passear em fast food, nisso eu estava com Pierre Verger.

Você criou a banda Luzes do Repente, que depois foi batizada de Psirico. De onde veio esse nome? 
Começou com a banda Luz do Repente, quando conhecemos Caetano e Daniela através de Márcio Victor, porque ele já tocava com eles, aí veio a oportunidade de mudar o nome pra Psirico, influência de Caetano. Pois nessa época, Márcio estava tocando com ele, também com Glória Estefan, toda essas coisas surtiram efeitos positivos pra nossa banda que era Luz do Repente que veio do título de uma música de uma sambista, Jovelina Pérola Negra, que é de uma música muito forte dela. Esse título veio dessa música, nessa época conhecemos Arlindo Cruz que nos deu um disco com dedicatória especial. Quando eu conheci Daniela, ela teve a ideia do nome Psirico, como Caetano também. Ele colocou isso na cabeça de Márcio, e também, Psirico era uma música que ganhamos o concurso da 104 FM.
 
Então, você é um dos fundadores da banda? Ainda é sócio?  
Sou sócio Fundador da banda, mas abri mão de tudo. Na época tivemos problemas, por negócios, divergências, alguns problemas afetaram a nossa irmandade. E eu não quis essa coisa de problema com eles, com a Penta. Se bem que na música baiana, não funciona assim, esse negócio de colocar na Justiça. Entreguei a Deus, a benção dele.
 
Como está sua relação com Márcio Victor? Ainda são próximos? 
Não é a mesma coisa, já conversamos. Na época a minha questão de direitos trabalhistas e de imagem já estava em R$ 5 milhões, eu abri mão de tudo. Não me arrependo, o dinheiro não falou mais alto, não queria o sucesso desse jeito. Eu abri mão, preferir ganhar dinheiro cantando.
 
Você agora parte para carreira solo. Como surgiu essa vontade? 
Eu tinha quatro anos de contrato com a Show Mix, com a banda “A Bronkka”, mas acabou e eu já tava recebendo proposta de outras bandas de Salvador e de fora. Então eu resolvi não trabalhar pros outros e ficar preso a ideias de terceiros. Vou fazer meu som que sempre me agregou e chegou no meu povo. Me desvinculei e estou bem, pois estou fazendo uma coisa minha. Foi a voz do espírito Santo que chegou em mim que disse ‘Faça você a sua coisa’, Bambam King. Criei maturidade de meu nome está na frente. As pessoas sempre tiveram o pé atrás, de que eu entro nas bandas, elas estouram e eu saio. Parangolé, Psirico...
 
O que vai trazer da experiência de bandas para a carreira solo? 
Uma bagagem com tudo isso, principalmente maturidade e experiência. Nos traz pé no chão, um certo aprendizado.
 
Qual é o seu diferencial?  
Eu acho que hoje, principalmente desse disco novo, eu mostro que a diferença está no musical, nas ideias, no meu jeito de ser, na minha voz, no meu timbre, no meu canto, no lamento. A vontade.. As pessoas sentem vibrações, o espirito Santo, o poder da voz. Fora o canto, a inteligência, as coisas que eu faço são diferentes, a minha batida, a levada, melodia, letra, enredo, repertório. Meu disco é direcionado, sabendo o alvo. Graças a Deus tenho recebido a resposta,
 
E o seu novo CD como repercutiu? 
O disco tomou uma proporção que não estávamos esperando, lançamos numa quarta e no outro dia já tinha mais de 15 mil downloads. Uma resposta imediata. Com isso, na sexta já estava divulgando na TV, representando o dia da favela. Tudo em prol do trabalho, com originalidade. Tá tudo acontecendo, estamos nos preparando pro verão. A gente se prepara pra tocar um ou dois dias no Carnaval, na pipoca. Vamos cumprir agenda de outras cidades e estados. E ainda vamos fazer o coquetel de lançamento, convidar o povo, a imprensa, os artistas... E pé na Estrada.
 
Quais suas referências para essa nova etapa da carreira artística? 
Caldeirão total! Esses últimos tempos, eu ouvi muita coisa. É constante. Tomei uma injeção de Mariah Carey, relembrei Whitney Houston, Toni Black - gosto da galera Americana pela melodia. Também ouvi muito samba do Rio, São Paulo, como Imaginasamba, Tá na Mente, Nosso Sentimento. Também dos amigos nosso que estão bombando no sertanejo. Os amigos do funk. Absorvi muita coisa pra parar e fazer esse disco.
 
De todas as bandas que você já fez parte, onde você obteve o maior sucesso e reconhecimento? 
Psirico, pois conseguimos atingir o sucesso nacional, banda do Carnaval, troféu Dodô e Osmar. Também Ivete como madrinha, Daniela Mercury e Caetano como padrinho. O Parangolé também, porque foi devastador o sucesso, tipo uma doença, no bom sentido. E agora, vou buscar realmente este lugar ao sol.
 
Como enxerga o atual cenário do pagode baiano? Quais são as falhas? E os acertos? 
Destaco a representação do companheiro Léo Santana na da arte, Xanddy do Harmonia do Samba e meu irmão, Márcio Victor. Já as outras bandas, de conceito… Eu considero que, musicalmente falando, é uma das piores fases, banalizou. Todo mundo virou cantor, artista, músico. E na verdade não é. Vem brincando com a música, como quem diz, a nossa música é música de verdade, a gente fala o que vivemos. Tem gente que fala da favela e nunca foi na favela. E quando a gente tem a favela no nosso coração, a gente sai dela, mas ela nunca sai de nós. Com isso banalizou, fizeram o pagode como a coisa mais fácil, aí ficou mais fácil a letra também. E como crítico, como um cara apreciador de boas músicas e letras, sou compositor também. Pra mim, atravessa, não só o pagode, mas a música em geral, está numa fase colada, conjugada à atual situação que passa o nosso país. A música é descartável, banda de três meses, quarto meses, mas não consegue atingir, falando de cultura, de conceito. Você não entende aonde quer chegar. Pra mim, isso desvaloriza.
 
Apesar de criticar esse novo pagode, você substituiu Kannário na Bronka, uma banda com músicas diferentes do seu lema. Como foi isso?  
Foi uma experiência por que tenho um conceito de cultura, do que eu canto, da minha letra. Eu nunca pensei que um dia iria cantar em uma banda chamada a Bronka, com o conceito que a banda tinha e história de letra, a forma de cantar, era uma proposta que não tinha nada a ver com Bambam. Durante esse tempo fiquei um pouco preso, por ser contratado, quando eles me deram a oportunidade de fazer eu tentei levar meu jeito pra lá. A banda tem essa ideia de só vai o povão, é malandro, discriminado, é morte. Na época de Igor tinha muito isso e tive que mudar essa imagem. Fora que eu já tinha uma imagem de problema, de chegar na banda, estourar e sair. Não me arrependo de ter entrado na banda, mas se fosse hoje não entraria.
 
Você acompanha o trabalho de Kannário? Nessa nova fase dele...  
Ele é um parceiro, a gente joga video game, sai juntos, conversa. Não só Igor, como Robyssão e Magary. Eu sou uma cara que as pessoas gostam de estar na minha casa, gosto de cozinhar… Eu gosto de Igor, torci por ele na política e estou ansioso pelo novo disco dele, pela proposta musical, letra, melodia. Tô curioso como fã e expectador.
 
Na carreira, recomeçar é difícil? Considera um recomeço? 
A vida é feita de batalha. Estamos na luta. Meu nome é uma marca, eu sobrevivo. Não tem diferença se estou com banda ou não. Então não senti isso de recomeço. As coisas estão acontecendo precoce, mas de praxe é o mesmo caminho. Lançar disco novo, tá brocado na internet, mas não levamos pro Mercado. As agendas também, que começam agora dia 18. Eu tenho a proposta de voltar a fazer ensaio na rua, como Brown nos ensinou, que eu sempre fiz com Márcio, no Engenho Velho. Vou voltar a fazer, nem que seja de 15 em 15.  
 
Por fim, como você se define artisticamente? 
Eu considero que meu som pode ser respeitado como world music, música de verdade pro mundo. A gente tem dentro do disco música pra todos os estilos. Até pra adorador do senhor. Na verdade eu gravei um louvor de Tales, agradecendo a Deus por tudo que vem acontecendo em minha vida. Muito mágico, muito forte. Foi a única forma que eu tinha de agradecer.

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