Tomate lança CD Alternativo Popular, diz que rock e arrocha são a mesma coisa e esclarece canção que remete à maconha
Tomate
“Ela passeia e vai do rock ao arrocha. E se você for ver, o rock e o arrocha são a mesma coisa”. Ao se referir desta forma à canção “Disco de Raul”, Tomate mostra um pouco da mistura proposta em seu novo CD, o Alternativo Popular. Sempre deixando claro que não há rótulo que enquadre este novo trabalho, o músico concedeu entrevista ao Bahia Notícias e falou sobre diversos temas envolvendo sua carreira. Questionado sobre uma possível preocupação com o fato de as pessoas pensarem que, com o novo CD, ele está se distanciando do axé, o artista foi enfático: “As pessoas pensam o que elas querem. Rapaz, se eu ligasse muito eu não faria um disco desses”. Quando o assunto foi o duplo sentido da música “Eva Danada”, que para alguns remete à erva (maconha), Tomate esclareceu: “Não, eu não uso drogas, eu não fumo maconha. (...) Mas é porque tem o lance do duplo sentido. Sou artista e estou aí pra fazer isso”. Confira a entrevista na íntegra abaixo:
 

Coluna Holofote: Vamos começar a entrevista falando do nome desse novo CD, o Alternativo Popular.
Tomate: Na verdade minha intenção com esse disco, não sei se é muita pretensão ou não, é fazer uma música sem rótulos, sabe? Colocar música como música. Esse disco não tem rótulo. É um momento interessante que eu acho que tem tudo a ver com o que a gente está vivendo hoje.

CH: Esse CD sai quanto tempo após o lançamento do anterior, o Atitude?
Tomate: Quatro anos após o trabalho anterior. Tentei aproveitar todos os momentos de felicidade para pontuar e depositar energia verdadeira no trabalho. Por isso demorou tanto. Eu também não tivesse pressa para entrar nos moldes do sistema de fazer um disco a cada ano. Foi tudo com uma tranquilidade muito grande. Momentos como acordar de manhã cedo, com a voz rouca, gravar e dizer: ‘Essa voz vai se encaixar com esse tipo de música’. Então eu ia, gravava só essa música e voltava pra casa. Até a questão da mixagem, eu tive a escolha de levar e mixar nos EUA. Usamos uma mesa de som que tem 30 anos que nunca desligou e que fica num estúdio muito bacana. Se tem o princípio de que tudo é energia, a gente projeta e depois realiza, materializa. Então, parto do princípio de que não existe nada tão rápido. A gente não pode fazer uma coisa esperando o retorno, tem que fazer porque gosta. O retorno virá por consequência.

CH: Mas a produtora precisa desse retorno rápido.
Tomate: A produtora? A produtora hoje sou eu, então...

CH: Você está sozinho?
Tomate: Eu nunca estou sozinho, sempre estou acompanhado de minha equipe. Se você está falando com relação à parte empresarial, eu ainda estou com a Penta, sim.

CH: Com contrato até esse ano?
Tomate: Sim. Só tive uma desavença com meu primo (Wilsinho Kraychette), que não deu certo e a gente separou. Mas a vida continua e bola pra frente. Era uma coisa pessoal, compromisso meu e dele mesmo.

CH: O que você espera desse trabalho?
Tomate: Eu não espero muito retorno disso, eu quero mais é materializar um pensamento meu, uma realização pessoal. Até porque hoje eu tenho uma posição financeira, de vida, muito bacana, e talvez eu não precise tanto. Por isso eu não espero tanto e não quero tanto. Só penso em fazer o que eu gosto e ser respeitado. É uma oportunidade boa de me encontrar e me aceitar.

CH: Você demorou pra chegar a essa conclusão, a esse despertar?
Tomate: Velho, eu não sei, pois tudo tem sua hora. Mas eu já vinha amadurecendo isso. Nunca peguei curvas. Sempre procurei olhar para os lados, mas seguindo uma linha reta. Caso contrário, a gente não evolui.

CH: Fala um pouco do repertório do Alternativo Popular.
Tomate: Na verdade, esse disco tem 14 faixas e algumas delas eu já vinha trabalhando, pois em quatro anos eu tinha que ter lançado alguma música nova e que não fizesse parte do CD antigo. A gente tem aí “Disco de Raul”, mas com uma roupagem diferente. No CD Atitude eu toquei ela e é bem curta e no formato acústico. Mas é uma música legal e critica social tão bacana que a gente fez um arranjo novo e vem com a cara do alternativo popular. Ela passeia e vai do rock ao arrocha.  E se você for ver, o rock e o arrocha são a mesma coisa. E é isso que eu quero mostrar no disco, que o alternativo e o popular, por mais que sejam caminhos opostos, no final das contas a gente está falando da mesma coisa, porque música é música. Da Vinci falava que tudo tem a ver com tudo. Não sei se a galera vai entender direito, mas realmente tudo tem a ver com tudo. Nesse disco tem também “Vou dar PT”, tem “Princesinha”, que eu trabalhei agora, e as outras são músicas inéditas.
 

CH: Pelo que estou vendo aqui no encarte, a maioria você que compôs.
Tomate: É, acho que 90%. Tem duas ou três músicas aí que eu não faço parte. São “Disco de Raul”, que é de Átila, “Pode Crer”, que também é de Átila, um amigo meu e ótimo compositor, e “Chove Lá Fora”.

CH: E como é esse processo de composição?
Tomate: Eu tenho encontro com amigos em casa e fora também. Tenho música com Adelmo Casé, que é meu amigo e vai lá em casa. Tenho música com Levi (Lima), além de outros grandes compositores. Eu fico com uma gama de músicas muito grande. O problema é você entrar em um processo de estar bem, começar a captar energia boa e escolher a música pra determinado projeto. Essas músicas fazem parte desse projeto, que é aleatório, sem padrão. As pessoas podem até questionar “cadê o axé?”, mas eu digo que é música. E é axé também, mas além disso é música e é isso que eu quero mostrar. Muita gente já tentou dar esse recado, mas talvez a forma foi errada ou então ainda não era hora de as pessoas entenderem. Pra mim a hora é agora, mas cada um tem seu momento de se encontrar e aceitar as coisas.

CH: Você não tem receio de as pessoas pensarem que fazer um disco intitulado Alternativo Popular, que você diz ser sem rótulos, é na verdade uma espécie de fuga do caminho do axé music?
Tomate: As pessoas pensam o que elas quiserem.

CH: E como você lida com as pessoas que pensam assim?
Tomate: Rapaz, se eu ligasse muito eu não faria um disco desses.

CH: Você abstrai totalmente?
Tomate: Total, total. Não tenho problema algum. Eu faço o que realmente me faz bem. Não me preocupo, não. A gente é um condutor de energia, né? No dia que você descobre seu papel aqui você tem que colocar essas coisas diferentes e novas, mas tudo tem que vir de você. Somos atores da vida e temos a missão de colocar as pessoas se perguntando o tempo todo.

CH: Como vai ser trabalhado e divulgado o CD?
Tomate: É um disco independente. Eu peguei meu dinheiro, fui para o melhor estúdio dos Estados Unidos e gastei meu dinheiro no meu desejo que é meu trabalho. Aqui não tem 1% que faz isso, porque vive para fazer dinheiro. A gente está indo a todos meios de comunicação. Até na forma de trabalhar é sem rótulos. Obviamente a gente faz questão de divulgar e falar do momento novo, porque faz parte e a gente precisa de vocês para que divulguem e chegue às pessoas. Pefiro deixar a vida levar. Mas esse negócio de fabricar o lançamento de um disco eu não sei. Na verdade isso é um show, e show a gente faz todos os dias. Então, esse lançamento sempre tem fins lucrativos e mercadológicos. Esse negócio de eu chegar aqui e você escrever o que eu estou falando vai tocar muito mais as pessoas. Eu sei que é meio filosofia, meio louco, mas aí o julgamento vai por parte das pessoas.

CH: Hoje você tem mais independência pra realizar um trabalho desses do que há cinco anos?
Tomate: Total. Mas faz parte do processo, senão eu estaria no Rapazolla até hoje. Aliás, estaria na minha primeira banda ainda. A vida é assim.

CH: Quantos anos de carreira?
Tomate: Tenho 12. De carreira solo estou indo pro sexto, já.

CH: Como as pessoas receberam seu novo trabalho?
Tomate: Os admiradores verdadeiros não estão só interessados na música. Eles enxergam um exemplo, veem uma fuga boa para se desligar de algum problema e achar um caminho legal. Alguns gostam da música e se sentem bem nos shows. Para o admirador de verdade, não vai ser só a música que vai fazer ele gostar de mim.

CH: Você participa de todos os processos da concretização de um CD?
Tomate: Sim. Mais ainda, na verdade. Sobre o repertório, eu não preparei nada específico. Eu peguei os papeis, joguei para cima, entrei num lance meio místico e fui pegando. Por incrível que pareça, a ordem do repertório era completamente o contrário do que eu pensava. O CD sai de uma música pra frente e depois vem pra uma lenta. Você não tem um estilo igual ao outro. Não vou dizer que todas são boas, mas pra mim todas as músicas são especiais.

CH: Você foi tido como um grande puxador de trios...
Tomate: Eu sou, continuo sendo.

CH: E isso pode ser identificado nesse Alternativo Popular?
Tomate: Tem, tem.

CH: A linha axé?
Tomate: Cara, eu não sei o que você espera do axé. É você que tem que me dizer.

CH: Música de trio...
Tomate: Todas, todas. Cara, eu apareci no mundo com “Coração”, música completamente fora dos moldes do que as pessoas pensam que é o axé. Isso foi uma coisa incrível. Não tem padrão. O mundo está mostrando pra a gente que não é necessário seguir isso. É claro que o movimento precisa. Aí mesmo (no CD) tem percussão. Talvez não uma percussão como as pessoas esperam, mas tem gente que espera menos, tem quem espera mais. Esse trabalho é minha arte, é o que eu sinto. É um momento novo da minha vida. Eu não vou largar. Ninguém tente julgar esse trabalho e falar que eu quero largar de cantar axé porque eu sou axé, sou axezeiro. Eu acho que de tudo o que eu faço o melhor é estar em cima do trio.

CH: Mas essa liberdade que você tem pra fazer um trabalho como esse não chegou depois da independência financeira?
Tomate: Não, eu só acumulei minha casa...
 

 

CH: Mas requer grande investimento fazer um trabalho desses.
Tomate: Você quer que eu te diga a verdade? A gente não tem nada. Vivemos apenas para alimentar nossos desejos.

CH: Então você acha que em início de carreira você conseguiria fazer um projeto desses?
Tomate: Jamais.

CH: Era disso que eu estava falando.
Tomate: Faz parte da evolução. Você vai subindo as escadas. Se você pular, acaba caindo. Quando a hora certa chega você não precisa abdicar de nada.

CH: O que mudou do CD Atitude para o Alternativo Popular?
Tomate: Talvez as pessoas não percebam hoje, porque não conseguimos aproveitar todas as mensagens que o universo nos manda, mas no começo do Atitude as pessoas falavam a mesma coisa, diziam que não era axé. E se tornou um disco em que todas as músicas as pessoas conhecem. Ali é axé, é o que as pessoas querem, é minha arte. As pessoas gostam e eu estou até hoje aqui dando entrevista num site popular. Então, deve ter algum motivo. As mudanças aconteceram e vão continuar sempre. Vou evoluir. Parado é que eu não vou ficar.

CH: A busca pelo sucesso, pelo reconhecimento e pelo lucro prejudica o processo criativo, a arte?
Tomate: Depende do que o cara quer. Eu jamais quero dizer o que é certo e o que é errado. Só quero fazer o meu.

CH: Então você não tem noção do certo e errado em relação a isso?
Tomate: Não. Eu tenho noção do que é certo na minha índole, do que eu não faria por nada, por dinheiro nenhum. Eu tenho noção do que eu faria e do que eu vou continuar fazendo porque eu sei que vai ser bom para mim, vai me deixar feliz. Aliás, tenho provas suficientes de que não é à toa. É muito difícil viver num mundo desses. Mas você tem que descobrir o segredo da vida.

CH: Fala um pouco de duas músicas cujas letras são consideradas polêmicas como “Vou dar PT” e “Eva Danada”.
Tomate: Aí, você falou duas coisas polêmicas. A questão gera discussão e chama a atenção das pessoas. As pessoas não querem ouvir falar daquela que eu falo “não vou fugir dos meus ideais, das minhas crenças e nada mais”.

CH: Sim, mas por que você acha que as pessoas não querem?
Tomate: Ah, cada um está no seu plano de evolução. Vai chegar uma hora que ela vai ver que aquilo é bom pra ela. O carnaval já mostra um pouco do que é, festa da carne, material. No carnaval eu não posso botar uma música como “Despertar”. Aliás, é o que eu penso hoje. É o padrão (risos). Na verdade eu posso fazer o que eu quiser, mas com bom senso e inteligência. As pessoas querem se distrair. Talvez nem seja a letra que chame atenção, e sim a batida.
 

CH: Mas sobre as músicas...
Tomate: “Vou dar PT” relembra a época de artistas como Cazuza, que faziam críticas de forma diferente e inteligente, metafórica. No meu caso eu faço uma critica popular mesmo, na cara, do cotidiano. Por exemplo, no trecho “Há dias que eu não faço com ninguém” é claro que tem um duplo sentido. Eu trabalho com isso, com a inteligência. A maldade vai por parte das pessoas. Eu brinco com as palavras pra que as pessoas saibam que elas que vão julgar a mensagem no final das contas, elas que vão interpretar. Em “Vou ar PT”, poderia ser o partido, mas não tem nada a ver. Pode ser Perda Total, Partido Tomate, etc. Como eu disse, a maldade está na cabeça das pessoas.

CH: E qual é sua Eva?
Tomate: A minha? Rapaz...

CH: Você fala “eu gosto mesmo é da Eva...”.
Tomate: Não, eu não uso drogas, eu não fumo maconha.

CH: Eu me refiro à Eva que você da música.
Tomate: É porque tem o lance do duplo sentido.

CH: Foi, percebi o duplo sentido ao escutar a música...
Tomate: Sim, mas eu sou artista e estou aí pra fazer isso. O Ultraje a Rigor fazia muito isso.

CH: Mas é que isso?
Tomate: Quem é a Eva? Eu peguei a Eva, a primeira mulher, o primeiro símbolo do pecado. É como eu falo, tem gente que vai ver o lado do duplo sentido da droga e outras que não vão ver.

CH: Mas quando você compõe ou grava uma canção dessas você tem a noção de que causa esse tipo de reação.
Tomate: Mas é o papel do artista, velho.

CH: Esse é seu objetivo ao compor?
Tomate: Meu objetivo é fazer arte, é fazer coisas inteligentes e não bestas. Eu acredito que o que você faz não representa tanto quanto o que você é. Caetano canta várias outras coisas ai. Mas tem o padrão da sociedade de não esperar que ele cante “Cole na Corda”. Eu esperei? Você esperou? Agora, o que vale é o conceito, o que ele passar com aquilo. Então, o lance da Eva Danada remete ao lance do pecado, que está em todos os lugares, em todas as pessoas. Eu queria até que você visse a forma de colocar isso, porque eu sei que muita gente talvez não entenda. Ou então coloque mesmo o que eu tô falando...

CH: Vai sair na entrevista as suas declarações.
Tomate: Pois é, o papel do artista é esse: provocar. Se ele não fizer isso ele não tá seguindo o caminho dele, mas sim o caminho dos desejos materiais.

CH: O que você tem preparado para o verão e o carnaval?
Tomate: Estamos com a música “O Segredo” para trabalhar agora no verão. Tentei colocar ela bem popular de uma forma que eu acredito que as pessoas vão entender. Tentei botar uma levada bem bacana; misturei Paralamas, música popular com muito artifício de alegria, com Chiclete com Banana. Colocamos nas rádios e seja o que Deus quiser. No carnaval eu estou quatro dias. Sexta a gente pegou a vaga do Alô Inter. Como eu já faço três dias de Inter na avenida, então ficou tudo Inter. Serão quatro dias de Inter.

CH: A sexta, no circuito Barra-Ondina, o bloco vai sair com o nome Inter mesmo?
Tomate: É Alô Inter, né? Mas como a gente tem o poder da logística, já que tenho parceria com os dois blocos, então a gente faz o que quiser. Vende junto, faz o que for. Não tem problema, pois o dono é o mesmo e o artista é o mesmo. Então, achei melhor unificar. No final dá tudo a mesma coisa.

CH: Você vê o carnaval de Salvador em processo evolutivo?
Tomate:
Acho que sim. Não tem nada que não seja evolutivo no mundo.


CH: Me refiro a uma evolução positiva.
Tomate: Sim, vejo. Por mais que o ser humano tente conduzir a coisa e à vezes saiam coisas erradas, o universo sempre coloca no lugar.

CH: Como você percebe a dinâmica das mudanças que estão acontecendo em Salvador?
Tomate: Rapaz, eu não tenho muito contato. E quem sou eu pra falar disso? Acho que o prefeito e o governador que têm que saber, já que assumiram isso. Mas posso dizer que vai ter que mudar, que transformar de qualquer jeito. As pessoas que agora estão no poder vão ter que trazer coisas novas. Isso gera críticas positivas e negativas, mas isso é parte do curso das coisas. Acho que muda para melhor, Salvador muda para melhor. Acredito que Neto vai conduzir de uma forma boa. Falo isso porque o conheço. Ele não conseguir resolver tudo, cara, mas pelo menos ele vai tentar. Se eu fosse presidente da República, que eu não quero ser, eu acharia que a educação é primordial. Quem tem educação tem alicerce. Não adianta mudar a cidade e a educação continuar como está.

Fotos: Cláudia Cardozo // Bahia Notícias

Histórico de Conteúdo