Segunda, 05 de Dezembro de 2016 - 10:05

Luis Ganem: O ensaio da Timbalada é uma caricatura de si mesmo

por Luis Ganem

Luis Ganem: O ensaio da Timbalada é uma caricatura de si mesmo
Foto: Divulgação
Fui e sou instado por e-mails quase sempre a me pronunciar a respeito das movimentações que estão ocorrendo do nosso meio musical. Aliás, a bem da verdade, sou instado há muito tempo a falar a respeito das mudanças que o mercado musical baiano sofre há alguns anos, em princípio decorrente de tentativas de trazer o novo, o inusitado, e eu disse em princípio, pois se formos parar pra ver de perto, o que temos atualmente como fundo é um monte de barraco por dinheiro ou poder, sejam em brigas de ex-amigos ou familiares.

Mas uma leva desses e-mails que recebi, me perguntava sobre a nova cantora da Timbalada que foi apresentada oficialmente aos baianos em uma coletiva de imprensa. O que me deixou surpreso nos mails, foi a rapidez em pedir para fazer comentários sobre essa nova cantora, haja vista que a mesma tinha acabado de chegar em terras baianas. 

Acho engraçado essa história do novo na música, principalmente na baiana. Depois que tudo fica ruim, que poucos e bravos sobreviventes resistem, é que resolvem fazer algo paliativo, e isso é comemorado de forma única, como se fosse um grande acontecimento. E uma dessas vendas do novo, ou como grande novidade da nossa música é justamente a nova cantora da Timbalada. 

Daí fiquei me perguntando: o que falar dessa moça que além de ser bonita, fez alguns reality e deu canja com Ivete e Saulo e aparentemente é só isso. já que ia falar da moça a melhor coisa que fazia é ir vê-la cantar no ensaio da banda.

E lá fui eu ver Milla Hora, esse é o nome da nova cantora a estrear em terras baianas. Exaltado na expectativa, sou meio que anestesiado com a primeira coisa que vi quando cheguei ao espaço. A grande muvuca que ficava na porta não existia mais. O local não estava tão muvucado (muvuca = gente bebendo na porta do evento, sem conseguir entrar, mas que fica na entrada ouvindo o som do show) como antes. Lembro bem que os ingressos da timbalada, eram vendidos a peso de ouro, e acabaram em muitas vezes, três horas depois de abertas as vendas. Soube depois, o ensaio vendeu, mas as vendas se fecharam apenas na bilheteria do espaço, e não antecipadamente como dito antes. 

Pois bem, no recinto, percebi que a cantora e a banda já estavam no palco. Para minha sorte e observação, Milla Hora estava cantando. Antes de parar para “entender” sua voz, resolvi “ouvir” também a voz das pessoas que ali estavam, curiosas com a novidade. Engraçado é que logo de cara me veio à cabeça a estreia de Ivete Sangalo a frente da banda Eva. Lembro bem da Ivete meio bolota (risos) sendo apresentada a mim pelo menos, na micareta de Jequié as duas e meia da manhã, em cima do um trio, com um chapéu colorido imenso na cabeça, e as pessoas dizendo que nunca daria certo aquela cantora de voz grossa, pois voz feminina tinha que ser fina ou delicada. Pensava isso, meio a me justificar caso não gostasse de algo que fosse ver.

Olha, ouvi um quase de tudo sobre a nova cantora da Timbalada. Que cantava com sotaque carregado, que não tinha jinga, malemolência, que não acompanhava o entendimento rítmico das músicas baianas e que cantava parecendo que estava em um karaokê - de forma de cantar retilínea, sem emoção, meio que lendo a letra- que desafinava – o que pode ser minimizado pelo nervosismo – e mais um monte de coisa.

O negócio é que depois de passar duas horas ouvindo e vendo o produto, seja olhando para o palco ou para um telão colocado à disposição, posso dizer o seguinte: No primeiro momento - pra não dizer primeira hora, o que seria um trocadilho infame – vi como quase todo mundo viu, que ela vai passar um perrengue dobrado. Os primeiros seis meses – se ela conseguir chegar - serão os piores, pois como é oriunda de outra seara, até pegar o “jeito da coisa” vai acabar entrando no erro das novatas, em que cantar é a arte de gritar cantando ou cantar gritando ou mandar o povo tirar o pé do chão. Passada essa fase, possa ser que a coisa fique menos pior. Do que vi até o momento, creio que seja preciso fazer um pouco mais de esforço pra ficar bacana. Lógico, é preciso dar uma chance, até pelo nervosismo da estreia, que se não é fácil pra uma cantora da terra, imagine a uma que vem de fora. 

Confesso que sai do espaço com algumas frustrações. Uma foi perceber que a voz da cantora era apenas mediana -o que espero tenha sido um problema de som - e a outra foi ver que a banda Timbalada é hoje apenas uma caricatura mal feita do que foi um dia. Não consigo entender e admitir, que com o nome Timbalada (que remete ao conjunto de timbaus) tenhamos hoje apenas três ou quatro no palco e que o uso da tecnologia (sampler) faça o complemento do volume. Sou da fase do timbaleiros no palco, das performances de Mestre Pintado e seu grande Timbau, de Augusto Conceição nos trompetes, dos timbaleiros vindos a frente tocar. Sou da fase que o timbau vibrava, que os músicos vibravam, que o povo vibrava, que os ensaios eram verdadeiras prévias do carnaval e que a ideia de se ver aos domingos era esperar o que mestre Brown iria trazer de novo. É triste perceber que a genialidade da timbalada ficou restrita a algumas mudanças nos arranjos e só. É triste ver que os músicos da banda são apenas complemento do palco, e não mais partes de um conjunto.

Bom seria que alguém pudesse acordar e tentar resgatar a essência da banda, trazer de volta o espírito dos primórdios, quando tocar era um ato de alegria, e não apenas um conceito comercial de se ganhar dinheiro. 

Quanto a Milla Hora e sua estreia, por hora - olha o trocadilho infame de novo (risos) - é o que tenho a dizer. Já as pessoas presentes no primeiro ensaio preferiram até mesmo vaiar a ela e à banda em determinado momento do show. Coube a Denny o papel de bombeiro para esfriar os ânimos, quando a caricatura da Timbalada de outrora atingiu o ápice.

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