Terça, 05 de Setembro de 2017 - 11:00

Mancini explica mudança de postura do Vitória e afirma: 'Nosso time é ofensivo'

por Glauber Guerra

Mancini explica mudança de postura do Vitória e afirma: 'Nosso time é ofensivo'
Foto: Glauber Guerra / Bahia Notícias

O Vitória mudou radicalmente sua postura desde que Vagner Mancini assumiu o time em julho. Antes do treinador ser contratado, o Rubro-negro tinha apenas 12 pontos em 16 partidas no Campeonato Brasileiro. Com Mancini, a equipe conquistou 13 pontos dos 18 que disputou. O comandante explicou esse aumento significativo de desempenho do Leão. “Foi um misto de coisas. Eu não posso dizer que foi especificamente uma coisa. Organizamos a equipe dentro de campo. Escolhemos o esquema tático e as peças que poderiam executar isso e foi mudado o departamento de futebol”, afirmou. O treinador falou do estilo de jogo que implantou no time. “Vou te falar que o Vitória é ofensivo. Existem maneiras e maneiras de você analisar um time de futebol. Onde você faz sua marcação, onde você começa a fazer a sua marcação, é visto por quem comenta futebol como se seu time fosse ofensivo ou defensivo. Então como o Vitória passa da linha da bola e marca em seu campo e joga no contra-ataque, todo mundo acha que o Vitória é um time defensivo porque parou de tomar gol. Mas na verdade o futebol moderno exige isso. Nosso time é ofensivo”, destacou.

 

Você foi desligado do Vitória em setembro em 2016 e deixou a equipe na 18ª posição. E agora voltou com a missão de salvar o time da degola. Como você encara essas reviravoltas do mundo da bola? 

São dois momentos distintos. Naquela oportunidade a gente tinha subido de Divisão em 2015. Iniciamos o ano de 2016 e ganhamos o Estadual. E quando tivemos uma dificuldade no Brasileiro fui desligado e retorno ao clube dez meses depois em uma situação pior. Felizmente agora as coisas estão dando certo. Não tem como falar que o futebol te mostra muita coisa e ao mesmo tempo as coisas se repetem. Você é desligado porque o time está na zona de rebaixamento e depois voltar para tirar o time da zona de rebaixamento, parece um pouco complexo... Naquela oportunidade saí porque o desempenho acabou sendo um pouquinho pior no início do Brasileiro do vinha sendo. Fui desligado em função da queda de rendimento da equipe. E acabei voltando porque sou o Vagner Mancini, que subiu de Divisão em 2015, que ganhou dois títulos Baianos, que conhece o elenco, o treinador que mais dirigiu o clube... Então tem algumas coisas fortes que acabam pesando nesta hora.

 


Foto: Maurícia da Matta/ Vitória

 

O Vitória mudou completamente a sua postura desde sua chegada. Qual foi o segredo para essa mudança?
Foi um misto de coisas. Eu não posso dizer que foi especificamente uma coisa. Organizamos a equipe dentro de campo. Escolhemos o esquema tático e as peças que poderiam executar isso e foi mudado o departamento de futebol. Acho que o grande segredo foi no meu acerto com o clube. Naquela oportunidade na primeira vez que o Vitória veio atrás de mim, a diretoria me disse que tinham algumas coisas que precisavam ser resolvidas. Aí eu disse para resolver primeiro e depois a gente a gente senta e conversa. E quando a gente sentou para conversar já existia naquele momento uma possibilidade que eu blindasse o departamento de futebol para que essa diretoria que entrou cuidasse da parte política do clube. O que eu escutava, pois eu não estava no Vitória, é que existia muita interferência no departamento de futebol. Então acho que o grande segredo é que a diretoria entendeu que eu e todos aqueles que estão no departamento de futebol conseguiríamos dar para o time dentro de campo o respaldo necessário. Aí entra o aspecto emocional, o aspecto mental, de você passar para os atletas o que está acontecendo e o que pode acontecer nas partidas diante de muitos treinos. E que o jogador olhe para nós e que enxergue que não há interferência, que não tem ninguém entrando no vestiário depois de vitórias. Então o vestiário foi blindado e isso fez com que a relação entre jogadores e comissão seja muito franca.

 

Você já falou que mudou um pouco o seu estilo por uma necessidade do Vitória. Mas acha que tem tempo de voltar a armar um time ainda mais ofensivo como você gosta?

Vou te falar que o Vitória é ofensivo. Existem maneiras e maneiras de você analisar um time de futebol. Onde você faz sua marcação, onde você começa a fazer a sua marcação, é visto por quem comenta futebol como se seu time fosse ofensivo ou defensivo. Então como o Vitória passa da linha da bola e marca em seu campo e joga no contra-ataque, todo mundo acha que o Vitória é um time defensivo porque parou de tomar gol. Mas na verdade o futebol moderno exige isso. Nosso time é ofensivo. Quando eu falo que sou um técnico ofensivo, digo que quero que o meu time tenha ganância em fazer gol, mas que ele marque, que ele seja aguerrido e se entregue. Por quê? Porque não posso desassociar do que a torcida quer ver em campo. A torcida quer ver um time que honre a camisa. E o técnico quer ver um time que faça gols. Quando você consegue juntar as coisas é quando você tem exatamente êxito no trabalho. Toda vez que venho para o Vitória tento montar times que sejam a cara do clube. Com velocidade e força. O Vitória não é um time de posse de bola... Nunca foi na sua história. É um time de intensidade e que dentro de casa sufocava os adversários. Então pela necessidade e a situação que estava o time, foi preciso que a gente marcasse um pouco mais atrás, que tirasse um pouco o espaço do adversário, mas sem jamais perder a volúpia de atacar, chutar a gol e fazer gols.

 

Muita gente diz que taticamente as equipes jogam de forma semelhante no mundo inteiro. Você concorda?
Sim. Taticamente hoje o mundo inteiro joga mais ou menos igual. Duas linhas de quatro... Houve um tempo no futebol onde você pedia para que o adversário jogasse pelo lado de campo. Você aglomerava o maior número de atletas no centro de campo para que ele tivesse uma saída de bolas pelas laterais. Hoje ninguém faz mais isso, porque você consegue atingir a parte ofensiva muito rápido pelos lados. Então todos os times marcam pelo lado e forçam o adversário a jogar pelo meio onde se você roubar a bola, consegue contra-atacar. Essa é uma coisa que o futebol de uma maneira geral mudou. Outra mudança tática que eu vejo nas últimas décadas é que, antigamente, você usava o maior espaço possível do campo e hoje você reduz o espaço para que o adversário tenha que passar, por exemplo, por uma barreira de 11 jogadores em 25 metros.


Foto: Maurícia da Matta/ Vitória

 

Quais as principais diferenças que você vê entre o futebol brasileiro e o europeu?
Uma coisa interessante de se dizer é a intensidade. Está aí a diferença no futebol. Já viajei várias vezes para a Europa, em que todo mundo diz que é um centro mais avançado do mundo, porque tem dinheiro e porque contrata os melhores jogadores. E a diferença dos jogos da Europa para os jogos no Brasil é a intensidade com que o atleta treina. É por isso eu exijo que os meus jogadores treinem em alta intensidade. Não consigo fazer que um jogador corra a 200km por hora no campo, se eu não fizer um treinamento a 200km por hora. Muita gente acha que vai resolver no jogo ou correr mais sem treinar. Não consegue correr... O futebol te dá mostras que está cada dia mais veloz. As reações são mais rápidas. Talvez minha metodologia seja diante de tudo aquilo que estudei nos últimos anos e por isso, nos clubes que vou, a intensidade dos treinamentos são times de transições rápidas.

 

Como você avalia a importância dos analistas de desempenho?
Muito importante. Os analistas de desempenho vieram para te desmembrar uma partida de futebol. Hoje tem métodos que você pega qualquer jogo de futebol e consegue desmembrar de uma forma que eu consigo montar meus treinos em cima de um desmembramento desses. De parte ofensiva, de parte de finalizações, de posse de bola, enfim. Então tenho uma gama de informações que me ajudam, através de vídeos, a ver o que eu faço nos treinamentos e o que eles executam nos jogos.

 

O Vitória tem tido um comportamento bipolar no Campeonato Brasileiro. É o quarto melhor visitante, porém é o pior mandante. O que fazer para mudar esse panorama dentro de casa?
Se eu for analisar os dois jogos sob o meu comando em casa, em termos de volume já readquirimos. No jogo contra a Ponte Preta fomos bem e vencemos [3 a 1]. Contra o Avaí [revés por 1 a 0] a intensidade foi a mesma. Nós tivemos um pênalti e perdemos o pênalti. Perdemos dois gols no primeiro tempo e que poderia ser a mesma história do jogo contra a Ponte. Então não me preocupou muito, porque vi uma equipe que jogou com intensidade, tanto é que a torcida só se manifestou depois que terminou o jogo.  A expectativa para os jogos contra o Fluminense e São Paulo é de que o Vitória possa fazer dentro de casa aquilo que tem feito fora de casa, que é jogar com intensidade, martelar bem o adversário e aqui dentro a gente tem o fator torcida que ajuda muito. E até difícil falar, porque todas as vezes que passei, jogar no Barradão era uma alegria para a gente, pois o adversário sofria. E nós queremos resgatar uma das coisas mais fortes que o clube sempre teve.

 


Foto: Glauber Guerra/ Bahia Notícias

 

No término de todos os treinos, você costuma fazer atividades recreativas. Qual a importância disso?
Isso é uma norma que adotei, desde 2008 eu faço esses babas. Eu sempre faço porque isso aproxima as pessoas. O futebol tem o dom de aproximar muito as pessoas. E quando eu voltei ao clube, eu sabia que um das coisas que eu teria que mudar era o ambiente. E nada melhor que através de um baba fazer essa aproximação. E aí no baba participam os atletas, os integrantes do departamento médico, os porteiros, os pintores, o pessoal da administração, a turma da comissão técnica, os massagistas... A gente brinca, joga e no término dos babas a gente fica mais próximo do que antes. Isso tem sido uma tônica aqui no clube, porque todo mundo está muito feliz, de como o Vitória está e de como um ambiente melhorou. 

 

A janela de transferências está próxima de fechar. O Vitória vai contratar reforços?
Se o Vitória encontrar alguém no mercado que possa vir para contribuir decisivamente para a nossa equipe, virá. Caso contrário, não virá ninguém. Esse grupo já me deu resposta que pode ir até o final do Campeonato Brasileiro. Tenho alguns atletas que não estão jogando que estão passando por um processo de readaptação de metodologia de treinos e outros que estão no DM. Se nesse período até o fechamento das inscrições aparecer algum atleta que vai me dar um ganho técnico, um ganho tático dentro de campo, faremos esforço para contratá-lo. Não estamos desesperadamente atrás de reforços. Porque quando você vai desesperadamente, você erra. E a gente não quer errar. Nós sabemos o quanto está sendo difícil reconduzir o time, que já esteve em uma situação muito ruim, aí passou a ser ruim e hoje nós estamos em uma situação em que começamos a respirar. Ainda falta muita coisa e estamos pisando bem no chão.

 

O Vitória saiu do Z-4 após a sua chegada. Como manter essa pegada para escapar definitivamente da degola?
É ter tranquilidade. Tem muita coisa ainda e faltam pelo menos 20 pontos para não cairmos de Divisão. É um momento especial. Tiramos a diferença em pouco tempo e a gente sabe o que isso representa. Vamos bater o pé até o final do Campeonato Brasileiro para que o mais rápido possível o Vitória esteja em uma situação mais confortável.

 

A sua saída da Chapecoense foi inesperada. Você guarda mágoa da diretoria do clube catarinense?
Não guardo mágoa, até porque não sou um ser humano de levar esse tipo de energia negativa. Mas lógico que fiquei surpreso. Tinha um trabalho sendo desenvolvido, era um trabalho em que falava-se de uma reconstrução de um clube. Não foi fácil o início do trabalho. A gente teve que viver intensamente o clube para que as coisas voltassem para o lugar certo. E depois de alguns meses eles acharam melhor fazer a troca de comando. Saí e estou muito bem no Vitória hoje. Sei que fui importante nesta reconstrução, mas estou voltado para tudo que for vivido no Vitória.

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