Terça, 23 de Outubro de 2007 - 00:00

TATTI MORENO

“A renovação precisa ser feita. Mas, a manutenção de tudo que já foi feito não pode ser abandonada. Isso é um grande erro”.

 Por Daniel Pinto

Tatti, há quanto tempo você se dedica às artes plásticas e o que te levou a ser um artista?
Tatti Moreno –
A convivência com a arte vem desde criança. Minha mãe tinha a veia artística e sempre foi a principal incentivadora de toda a família. Minha mãe sempre tocou piano, lidou com artes plásticas e compôs poesias. Mas, por ciúmes, meu pai não deixou ela se profissionalizar. Pra você ter idéia, às vezes, ela acordava durante a madrugada para escrever. Imagina só! Naquela época a sociedade era muito paternalista. Em outros tempos, minha mãe seria uma grande artista.

Mas, ela se realizou através dos filhos?
TM –
Sim, claro. Ela nos incentivou e sempre se deliciava com nossas conquistas. Minha irmã foi uma grande pianista, meu irmão (Tuti Moreno) estudou música e já tocou com Caetano, Gal, Gil. Minha mãe morreu às vésperas da inauguração dos orixás do Dique do Tororó. Ele não participou do processo de concepção nem da montagem. Ela tinha o sonho de ver o resultado final. Terminou que ela não viu. No dia da inauguração eu estava triste, você pode ver nas entrevistas que dei. Coisas da vida! Na verdade, eu queria ser bailarino, mas, como já te disse, eram outros os tempos. Pensava-se que se um homem fosse bailarino ele tinha uma tendência para ser gay. Mesmo assim, fui aluno de Carlos Senna. Mas, não deu certo.

Seu pai foi o principal empecilho para sua carreira no balé?
TM –
Foi sim. Tanto meu pai quanto alguns tios. Depois da frustração do balé, eu queria aprender violino. Então, me deram um violão e um professor cego (risos). Meu professor de violão se chamava Sr. Ruphino, ele foi cangaceiro de Lampião. Mas, desde moleque eu brincava com arame, desmontava rádios, fazia pequenas peças. Lembro que quando minha prima Jacira Oswald e seu marido, Henrique Oswald, vieram lecionar na Escola de Belas Artes da UFBA. Eles ficaram morando na casa dos meus pais. Convivendo conosco eles perceberam a minha tendência para as artes plásticas. Acho que eu tinha 12 ou 13 anos quando eles tentaram me levar para fazer o curso livre com Mário Cravo, mas eu freqüentava o ginásio e queria mesmo era jogar futebol, me divertir com os amigos, freqüentar o Baiano de Tênis, não queria nada a sério. Acabei fazendo Contabilidade e fui bancário por algum tempo. Depois, acho que eu tinha 28 anos de idade quando fui acometido pela vontade de fazer arte novamente. Então, Jacira me encaminhou para um curso de colagem e pintura, mas eu já queria trabalhar com volume. Daí nasceu à necessidade da escultura.

E quando Mário Cravo entrou em sua vida?
TM –
Logo depois disso, fui à Escola de Belas Artes fazer o curso com ele. Nessa época eu não me considerava um artista. Eu trabalhava no banco e freqüentava as aulas três vezes por semana. Aí, Mário saiu da escola e me convidou para freqüentar o ateliê dele, que era no Rio Vermelho. Mário Cravo foi meu mestre. Graças a Deus eu tive a sorte de ter um professor competentíssimo, além de ser um ser humano maravilhoso.

Quais são seus materiais favoritos?
TM –
Eu trabalhei com quase todos os materiais: aço, madeira, latão, cobre, ferro, sucata, etc. Só não trabalhei com mármore. Além de ser um material muito duro e frio para modelar, ele requer um maquinário específico. Mas, eu utilizo mármore para fazer bases para minhas peças. O trabalho com sucata, por exemplo, é um processo de criação divina. Adoro trabalhar com sucata. O processo de assemblagem e montagem desse material requer uma criatividade fantástica. As coisas surgem naturalmente no meio daquele enorme quebra-cabeça. Nesse instante, há um estado de felicidade indescritível, como se fosse o gozo maior do mundo.

Mas, você trabalha com inspiração ou é daqueles artistas que não acreditam no entusiasmo criador?
TM –
É claro que a inspiração é fundamental. Já passei fazes sem produzir nada. No meu caso, a inspiração vem em forma de sonhos. Geralmente sonho com alguma forma e depois coloco no papel. Agora, quando você desenvolve um processo, uma rotina de trabalho, as coisas também fluem naturalmente. Mas, a inspiração também é fundamental.

Você viu a instalação feita na Gamboa, em que um artista incorporou um elemento (nesse caso um alçapão gigante) num painel de Bel Borba?
TM –
Não. Não vi esse alçapão, mas fiquei até curioso.

Como você vê a possibilidade de interação entre obras de artes e artistas diferentes?
TM –
Olha, essa é uma questão delicada. Depende de um consenso entre os artistas e também das características de cada obra. O flerte e a brincadeira são sempre válidos entre os artistas, mas uma intervenção que desconfigure uma obra não pode ser aceita. Imagine se um sacana colocasse duas vassouras nas mãos dos meus orixás?! (...) A intervenção não pode interferir na obra propriamente dita e também não pode ter uma conotação de mau gosto.

Como os orixás surgiram em sua vida?
TM –
Os orixás apareceram naturalmente em minha vida. Fiz as minhas primeiras peças quando ainda estava na Escola de Belas Artes com Mário Cravo. Depois eu passei a participar dos rituais de Candomblé e fiquei fascinado com a beleza, harmonia e espiritualidade da religião. Hoje, dos meus 35 anos de carreira, 24 foram dedicados aos orixás. 

Mas, você é iniciado no Candomblé?
TM –
Não. Mesmo assim, eu respeito, admiro e tenho o maior carinho pelo Candomblé.

Os orixás do Dique do Tororó são suas obras mais conhecidas? Como foi o processo de criação?
TM –
São sim. As peças do Dique do Tororó realmente ganharam uma dimensão inimaginável por mim. Mas, é bom destacar que sem apoio, sem patrocínio, é praticamente impossível executar qualquer obra pública. Quero deixar claro que o governo de ACM foi um dos que mais incentivaram a cultura da Bahia. A estrutura governamental montada por ele sempre apoiou as artes. Só pra você ter idéia, eu tinha o projeto dos orixás há mais de 16 anos. Procurei governador, prefeito, secretário e nada. Nessa época, o Dique do Tororó estava abandonado. Então, vi na TV que iam recuperá-lo. Falei, olha meu sonho aí. Procurei Sônia Fontes, que na época era presidente da Conder, e juntos fomos a Luiz Carrera, o secretário de Administração. Depois de muita negociação, o projeto foi aceito. Mas, eles não imaginavam a dimensão das peças. Aí, teve início uma luta e, por conta disso, o preço foi até reduzido. Mas, era algo que eu tinha que fazer. Passamos três anos trabalhando exclusivamente nisso. Mas, na hora da montagem eu sofri com a perseguição dos evangélicos. Lembro que eles até abraçaram o Dique num manifesto contra os Orixás.

Foi um ato explícito de intolerância.
TM –
Por aí passam a ignorância, a intolerância religiosa, o desrespeito, tudo de mal que existe no ser humano. Eles ameaçaram ir a Brasília falar com Fernando Henrique, você acredita nisso? Eles falavam que os orixás do Dique, além de uma feitura “maligna”, seria um desperdício de dinheiro público. Mas, eles esqueceram de falar que suas igrejas, templos e catedrais não pagam impostos; que eles recolhem o dízimo e que fazem da religião uma ferramenta política e econômica. Tudo isso me causou uma revolta muito grande, porque eu sofri o que não tinha direito de sofrer. A Constituição brasileira assegura o direito da livre escolha da religião, mas eles não respeitam. Agora, há pouco tempo, no Rio Grande do Sul, um bispo queimou duas estátuas do século XIV. Isso é uma barbaridade! Esse sujeito deveria ser processado. Aliás, ele deveria ser preso.

E então Tatti, como terminou a história do Dique?
TM –
Depois disso tudo que já contei, o Ibama veio e disse que eu só poderia colocar um Orixá porque as outras peças iriam ultrapassar as copas das árvores. As peças já estavam todas prontas. Foi então que ACM comprou a briga. Depois dessa confusão toda, ACM trouxe o presidente do Iphan aqui na Bahia e – depois de 24h – conseguimos a liberação para instalar todas as peças.

Os orixás do Tororó, além da experiência estética comum a qualquer obra de arte, também ganharam uma dimensão religiosa. É comum que os praticantes do candomblé façam oferendas e outras manifestações aos pés das estátuas. Você imaginava que esse conjunto de orixás ganhasse uma dimensão tão grande?
TM –
O Dique é a bacia sagrada de Oxum. É lá que os terreiros fazem o ritual sagrado das águas de Oxalá. Os Orixás não foram escolhidos por mim. As indicações vieram do jogo de búzios de mãe Creuza. Mesmo assim, eu não esperava que o conjunto de Orixás do Dique do Tororó ganhasse toda essa importância artística e religiosa. Eu tinha esperança que o conjunto ficasse bom, até porque era uma obra pública e nós dedicamos todas as nossas forças na execução dessas peças. Mas, não esperava que os Orixás se tornassem um ponto turístico. Foi um orgulho muito grande.

Mas, como é feita a manutenção dessas peças?
TM –
Às vezes, o mais importante não é ter ou fazer, mas sim, manter/conservar o que já foi feito. Nas grandes capitais do mundo – como Paris, New York, São Paulo – as peças públicas possuem uma verbas de manutenção reservada. Aqui na Bahia, o governo passado fazia isso. Olha, muitas vezes eu não gosto nem de falar isso, porque eu posso até ser mal interpretado. Mas, te falo de coração aberto, o governo Wagner precisa abrir os olhos e zelar pelo patrimônio artístico e cultural da Bahia. É mais barato pagar a manutenção do que recuperar uma peça por completo.

É verdade que existem umas peças suas abandonadas num galpão do governo em Porto Seguro?
TM –
Por incrível que pareça é verdade. É uma história longa. Conseguimos o apoio do BBV e dos Correios e fizemos uma exposição itinerante por seis capitais do Brasil. Eram oito peças semelhantes às do Dique. Apesar da mobilização dos evangélicos em algumas capitais, a exposição foi um sucesso. Mas, no meio da viagem o Bradesco comprou o BBV e fechou as portas pra nós. Os Correios queriam até me processar alegando quebra de contrato, mas banquei o resto da viagem com recursos próprios. Deus é testemunha da agonia e do sofrimento que passei nesse período. As peças eram transportadas em oito carretas. Eram montadas verdadeiras operações de guerra para desembarcar. A intenção era finalizar a exposição em Porto Seguro. Então, Paulo Gaudenzi e Heitor Reis (sabendo da minha dificuldade), intercederam junto ao governador para me ajudar. Depois disso, o governo da Bahia comprou seis peças em minha mão e colocou num galpão lá em Porto Seguro. As peças deveriam ser expostas, mas estão se acabando. 

Será que o novo governo tem conhecimento disso?
TM –
Procurei o governo e expus a situação, mas até agora não obtive resposta alguma. O ministro Gilberto Gil (Cultura) prometeu dá uma força para que as obras sejam recuperadas e, finalmente, sejam expostas. Mas, não tenho notícias. As peças estão abandonadas no Centro de Convenções de Porto Seguro.

Agora, como você avalia a gestão da cultura no Estado?
TM –
Infelizmente, as comparações são inevitáveis. O governo passado tratou com bastante carinho a Bahia, que é um pólo de grandes artistas e de grandes manifestações culturais. Olha, acredito com toda sinceridade que o governo ainda tem tempo.

Num comparativo aos outros gestores, você acredita que Márcio Meirelles desempenha um bom trabalho?
TM –
Não tenho nada contra ele. Meirelles começou a desenvolver uma política diferenciada. Pode ser uma experiência válida e que renda bons frutos no futuro. A renovação precisa ser feita. Mas, a manutenção de tudo que já foi feito não pode ser abandonada. Isso é um grande erro. A Casa de Jorge Amado não pode ser desprestigiada pelo governo. O Teatro XVIII também não. Aliás, nesse episódio me parece mais uma birra, uma pirraça. Se existe um problema, vamos resolver. Não adianta ficar falando, falando, falando, falando (...) algo prático precisa ser feito. 

Você acredita que a Bahia vive uma crise no setor cultural?
TM –
Não posso deixar de dizer que sim, mas acredito que se trata de algo reversível. Não vejo esse momento como um bicho de sete cabeças. Aproveito para pedir ao governador Jaques Wagner e à primeira-dama Fátima Mendonça, que por sinal tem uma sensibilidade muito grande para as artes, que criem um Conselho de Cultura que possa coordenar futuras ações e corrigir erros já cometidos.

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