Segunda, 30 de Junho de 2014 - 14:00

Eduardo Vasconcelos

por Evilásio Júnior | Fotos: Cláudia Cardozo

Eduardo Vasconcelos
Figura conhecida no sudoeste baiano e quase anônima no restante do estado, o ex-prefeito de Brumado e candidato a vice-governador, Eduardo Vasconcelos (PSB), disse que pretende agregar a bandeira do municipalismo na chapa liderada por Lídice da Mata. "Nós vivemos em um país onde o exercício do mandato de prefeito, hoje, tem oito ou nove entes que o fiscalizam [...]. Às vezes isso é usado de forma positiva, com o que se busca mesmo na fiscalização, e às vezes é usado de forma abusiva, por um denuncismo que emperra a administração. O exemplo mais prático dessa burocracia é que você vai comprar um botão de uma camisa e acaba gastando três vezes mais pela papelada que você gera, na busca de legitimar o seu ato e evitar processos na Justiça", critica. Como apesar dos 75 anos de idade, o engenheiro civil, advindo da iniciativa privada, só iniciou na política em 2000, ele avalia a sua coligação como "o novo" na eleição deste ano, na comparação com Rui Costa (PT) e Paulo Souto (DEM). "Eu acho que o contraponto maior é analisar o presente, que está na mesmice, e outra coisa é o retorno ao passado, diria que nem tanto a figura do doutor Paulo Souto, mas tanto até por um grupo já desgastado, que vai fazer o mesmo. Ninguém muda. A natureza não dá salto, então as coisas vão ser como sempre foram. Se o caminho é o mesmo, Lídice representa uma maneira diferente de caminhar", avalia.

Bahia Notícias – O senhor é ex-prefeito de Brumado. Como foi o processo de escolha para ser vice na chapa de Lídice da Mata?  Contou muito a sua popularidade na região sudoeste do estado?

Eduardo Vasconcelos –
Sim, sim. Ingressei na política em 2000, com uma idade um pouco mais avançada, em função do exercício da cidadania, na busca do interesse público pelo abastecimento de água do nosso município. Na minha profissão eu sou engenheiro civil da iniciativa privada e tenho 42 anos de prática. Como se diz no ditado, a gente entra na política por causa dos amigos e acaba saindo por causa dos adversários. Fui eleito em 2004, reeleito em 2008 e, nesses oito anos de mandato, a gente vivenciou uma prática na administração pública do país bastante preocupante com relação ao total abandono das bandeiras do municipalismo. Nós vivemos em um país onde o exercício do mandato de prefeito, hoje, tem oito ou nove entes que o fiscalizam, entre Ministério Público, Câmara de Vereadores, tribunais de Contas e a própria imprensa, que é um dos bons fiscais que nós temos hoje. Às vezes isso é usado de forma positiva, com o que se busca mesmo na fiscalização, e às vezes é usado de forma abusiva, por um denuncismo que emperra a administração. O exemplo mais prático dessa burocracia é que você vai comprar um botão de uma camisa e acaba gastando três vezes mais pela papelada que você gera, na busca de legitimar o seu ato e evitar processos na Justiça. Quando você deixar o mandato, como é que vai ser? Como é que vai fazer face a essas despesas? O prefeito não tem férias, não tem décimo-terceiro, não tem plano de saúde, não tem cheque corporativo, ele não tem nada. Só tem um salário e tem que pagar não só pelos seus erros, mas pelos erros de todos os seus funcionários, mesmo de terceiro ou quarto escalão. Você ainda fica refém de funcionários concursados, que são intocáveis. Verdadeiras vacas-sagradas. Isso é uma forma de conduzir necessariamente à corrupção. Como eu cheguei na política com idade mais avançada, com uma ideia absolutamente formada e com caráter totalmente consolidado, eu tentei fazer diferente. Uma política de mãos limpas e, teimosamente, ficar oito anos no poder sem criar caixa dois. Isso fez uma administração diferenciada que chamou a atenção. Eu poderia lançar uma candidatura a deputado federal, mas não tinha recursos para enfrentar uma campanha, e aí veio o convite da senadora, o que deixou muito envaidecido, pois Lídice e Eliana Calmon são pessoas de mãos limpas, como eu, e nós queremos construir uma nova Bahia.

BN – Pela sua fala, já deu para perceber que a sua bandeira é mais municipalista, mas essas reformas têm que partir do Congresso. Como é que o senhor pretende, na condição de vice-governador, contribuir para que os municípios não tenham tanto travamento legal que é imposto aos prefeitos?

EV –
Eu entendo que, enquanto vice-governador, e evidentemente podendo ter um pouco de voz em um governo que eu entendo que será bastante democrático, como é o caso do pensamento e da trajetória de vida da senadora, a gente vai poder contribuir. A bancada baiana poderá ser, no bom sentido, cooptada a essas ideias. A outra forma é um outro trato com o municipalismo do Estado. Nós temos 417 municípios, onde a gente vê a necessidade da busca da supremacia do interesse público. O interesse público tem que se sobrepor aos interesses privados, partidários e tudo mais. Nessa busca, a gente poderia derrubar diversos entraves à boa administração municipal. Um exemplo: hoje um prefeito da Bahia, do interior do estado, tem que dar 10, 20 viagens a Salvador porque uma Embasa da vida, por uma conta de R$ 9 que se perdeu em uma escola de um rincão da cidade, negativa o município, que fica impedido de assinar um convênio. Você é o último a saber. Quando um cidadão comum é negativado pela Serasa é o primeiro a ser informado. Algumas pessoas pensam que o prefeito quer estar na capital, mas na verdade muitos querem estar trabalhando em seu município. Lá tem muito o que fazer, mas você tem que estar aqui todos os dias, quer seja para reuniões, para bater palma, para fazer palanque, até resolver problemas desse tipo.

BN – Dentro dessa bandeira, aquela que seria uma grande aliada, a prefeita de Cardeal da Silva Maria Quitéria, presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), que é do PSB, anunciou apoio à candidatura de Rui Costa (PT). Como o senhor avalia essa situação?

EV –
Encaro com plena normalidade, dentro do que se pode dizer da vida pública no Nordeste, na Bahia sobretudo. Essas cooptações acontecem e é difícil quem está de fora julgar, porque quem já passou pela cadeira de um prefeito, na busca de fazer o que é correto, sabe que às vezes você tem que se comportar de forma um pouco vaga em termos de ideais. Às vezes um prefeito tem um partido, está convicto de porque ingressou na fileira, mas as ações nem sempre republicanas com as quais o prefeito vai buscar o interesse do seu município, o interesse das pessoas que confiaram nele, ocasiona uma divergência partidária, que quase sempre os convém. A coisa é tão 'republicana' que é assim que as coisas acontecem e então você é obrigado a se aliar assim ou assado. De sã consciência, eu não quero jogar pedra em ninguém. Eu não posso jogar pedra em um prefeito que tomou uma atitude e sofreu uma cooptação na busca do interesse público do seu município. Infelizmente as coisas levam a esse tipo de situação.

BN – Em relação às bandeiras que têm que ser levadas ao Congresso, o senhor como vice-governador não vai ter como efetivamente fazer nenhuma mudança na legislação, a candidata ao Senado da sua chapa, Eliana Calmon, fez algum tipo de pacto ou compromisso com o senhor de levar essa briga a Brasília, caso seja eleita?

EV –
Nós estamos concluindo, já está praticamente pronto, o nosso programa de governo e tudo isso tem sido colocado. Eu duvido que outras candidaturas tenham sido tão ciosas da importância que há na composição de um programa de governo. Nós tivemos seis seminários multiestaduais, fora alguns federais, pelo PSB, inclusive um deles aconteceu aqui na Bahia. Envolvemos discussões acerca de temas como educação, que é a bandeira mais importante do nosso grupo, passando pela segurança pública, infraestrutura e essa parte de municipalismo, que é uma bandeira bastante pessoal minha. Tudo isso está sendo fechado no programa de governo que vai ser entregue e compartilhado pela nossa senadora e pelos deputados que estiverem conosco.

BN – Muita gente apostava, na pré-campanha, que a candidatura de Lídice da Mata era meramente figurativa, pois haveria uma composição dela com Rui Costa em um eventual segundo turno. Como é que o senhor, integrante da coligação, vê a candidatura? Ela tem robustez para competir ou é uma aventura utópica?

EV –
Não. É uma candidatura séria. Pelo perfil e pela história da senadora, ela jamais entraria em uma aventura apenas para composição. Da minha parte, eu digo o mesmo. Evidentemente que, como diria Tancredo Neves, política é como nuvens: você olha está assim, você olha está assado. Noventa dias ainda é muito tempo. Eu acredito na capacidade de argumentação dela, quando houver um debate. Eu aposto muito mais na nossa senadora, futura governadora da Bahia.

BN – Então, tem chance de ganhar?

EV –
Eu acredito que sim. São três candidatos [São seis – Lídice (PSB); Rui Costa (PT); Paulo Souto (DEM); Marcos Mendes (PSOL); Renata Mallet (PSTU) e Da Luz (PRTB)]. Se fossem só dois, poderia haver até a possibilidade de primeiro turno, mas com três candidaturas nós vamos levar necessariamente ao segundo turno. E, no segundo turno, eu tenho certeza que a senadora vai somar em torno de si esforços que vão conduzi-la à vitória.

BN – São seis candidatos, mas entre os três principais, como o senhor avalia os seus outros dois adversários: João Leão (PP), vice de Rui Costa (PT), e Joaci Góes (PSDB), vice de Paulo Souto (DEM)?

EV –
Eu não encaro como adversários, porque é uma palavra forte. Somos concorrentes e  eu respeito cada um. Um tem experiência de deputado, o outro eu não sei exatamente a carreira política...

BN – Foi deputado constituinte...

EV –
...foi deputado também, é verdade, e é empresário na área de educação, até onde eu saiba. Eu acredito até que há possibilidade de a gente ter uma conversa, um entendimento, e de um debate. Estamos em condição de dialogar com eles, mostrara para a Bahia o que é que a gente pensa e, inclusive, colocar na mesa o pensamento de cada um. Eu respeito todos eles, sobretudo os candidatos majoritários. Doutor Paulo Souto é uma pessoa que nós sabemos que é um homem digno. O Rui Costa, não tenho tanta aproximação, mas também é uma pessoa de bem. Mas nesse momento o que está sendo colocado é o futuro da Bahia e eu aposto na senadora, na medida em que ela é realmente a esperança do novo.

BN – Em termos de estratégia eleitoral, foi estudado algum tipo de contraponto em relação aos demais candidatos?

EV –
Eu acho que o contraponto maior é analisar o presente, que está na mesmice, e outra coisa é o retorno ao passado, diria que nem tanto a figura do doutor Paulo Souto, mas tanto até por um grupo já desgastado, que vai fazer o mesmo. Ninguém muda. A natureza não dá salto, então as coisas vão ser como sempre foram. Se o caminho é o mesmo, Lídice representa uma maneira diferente de caminhar.

BN – O senhor disse acreditar na vitória, que entra para vencer, mas caso Lídice não se habilite para o segundo turno, o senhor, pessoalmente, estaria mais inclinado a apoiar Rui Costa ou Paulo Souto?

EV –
Eu acho que ainda é cedo. Se você fizesse a pergunta daqui a três meses, quem sabe eu poderia responder (risos)...

Histórico de Conteúdo