Terça, 25 de Junho de 2013 - 07:34

Publicado no Jornal A Tarde, em 8 de dezembro de 1992 - Fora do Muro

por Samuel Celestino

Se a prefeita Lídice da Mata acreditava que, a partir da influência do ministro do Bem-Estar Social, Jutahy Magalhães Jr., iria conseguir recursos para tocar a sua administração, contornando as dificuldades que espera ter com o governador Antônio Carlos Magalhães, agora tem melhores motivos para contar com o reforço. Seu partido, o PSDB, tomou uma decisão inusitada.

Os tucanos pularam do muro e definiram apoio ao governo Itamar Franco, a partir da sua posse como presidente definitivo, provavelmente no dia 23, ou 24, conforme o julgamento de Fernando Collor no Senado. Para o presidente da República, a decisão dos tucanos, tomada na madrugada de sábado, é de inestimável valor. Itamar Franco não estava sabendo com que efetivamente contava no Congresso como aliados, nem, também, os opositores que tem.
 
Tome-se, no último caso, a posição do governador da Bahia como exemplo. Antônio Carlos Magalhães, mesmo antes do afastamento de Collor pela Câmara, anunciou que assumiria uma postura oposicionista. De fato, sempre que pode tem feito críticas ao presidente, principalmente à sua política econômica, ou melhor, a não-política econômica porque, até aqui, o programa de Itamar não foi anunciado. Mas não é uma ação oposicionista cerrada que se ACM quisesse faria, no seu estilo. O problema é que o presidente administra uma interinidade que não considera governo e, assim, a República atravessa um período atípico, e nessa atipicidade praticamente inexiste oposição, como também não há uma aglutinação governista.
 
O PSDB se rotula, agora, governo. E de tal sorte é que o presidente da legenda, Tasso Jereissati, já avança falando como se estivesse instalado no Palácio do Planalto. Sobre a heterogeneidade da equipe constituída por Itamar, disse ele que “será resolvido a partir do dia 22, com alguma mudanças no Ministério e um pronunciamento de Itamar Franco sobre o seu programa de governo”. Na semana passada, quando vazou a informação segundo a qual o ministro Gustavo Krause estaria costurando uma renúncia coletiva do Ministério para facilitar a formação de um novo governo a partir do “impeachment”, o presidente apressou-se em desmentir e assegurou que não pretendia mudar ninguém. Vê-se que há um choque com o seu novo aliado Jereissati, que garante a mudança.
 
O governo deve dividir o PMDB para ter o apoio do partido que o seu presidente, Orestes Quércia, não quer dar, e, certamente, contará com boa parte do PFL e de outras agremiações que se situam numa linha conservadora.

No que pese a constituição do bloco parlamentar que está sendo articulado e que pretende ser um contraponto ao governo, desconfia-se que este “blocão” entre em fase minguante após a escolha do futuro presidente da Câmara, hoje um dos melhores cargos da República por ser o substituto legal de Itamar. Enfim, Itamar já tem um partido para ancorar. Acaba virando, também, tucano.

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