Governo engaveta pesquisa sobre drogas da Fiocruz e ministro diz não confiar na entidade
Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

Embora a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) seja vista como referência, seu 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira foi proibido de ser divulgado. A entidade ganhou o edital para fazer o estudo em 2014 e concluiu em 2017, mas a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), que é ligada ao Ministério da Justiça, vetou a publicação sob a justificativa de que a Fiocruz não cumpriu exigências do edital.

 

O órgão, por sua vez, afirma que o motivo é outro: segundo informações do jornal O Globo, pesquisadores e especialistas da área afirmam que o estudo contraria o ministro da Cidadania, Osmar Terra, já que conclui que não existe uma epidemia de drogas no país. Procurado pelo jornal, ele reforçou essa versão ao dizer que não acredita na entidade.

 

"Eu não confio nas pesquisas da Fiocruz", ressaltou. "Se tu falares para as mães desses meninos drogados pelo Brasil que a Fiocruz diz que não tem uma epidemia de drogas , elas vão dar risada. É óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências", defendeu.

 

De acordo com a publicação, o ministro tem tomado à frente de assuntos que se referem à política de drogas no governo de Jair Bolsonaro (PSL). Com isso, ele usa a Senad para dizer que o estudo “não tem validade científica”. Terra minimizou ainda o prestígio internacional da Fiocruz. "É prestigiada para fazer vacina, para fazer pesquisa de medicamento. Agora, para droga, ela tem um viés ideológico de liberação das drogas", criticou.

 

A fim de resolver esse impasse, a Fiocruz acionou a Advocacia Geral da União (AGU), que convocou sua câmara de conciliação para intermediar a situação. É o grupo que vai decidir se a pesquisa será divulgada ou rejeitada. Se a segunda opção vigorar, a Fiocruz pode ter que refazer o estudo ou devolver os R$ 7 milhões investidos.

 

O Globo pontua que a metodologia utilizada nessa pesquisa foi aprovada para o Joint Statistical Meeting de 2018, uma das maiores e mais importantes conferências sobre métodos estatísticos no mundo. Já o coordenador do levantamento, Francisco Inácio Bastos, foi designado "core member" do grupo consultor da ONU em uso de drogas injetáveis e Aids e é professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos. Na instituição, ele recebeu o prêmio de "Outstanding Reviewer", que é um "revisor de qualidade excepcional" do College on Problems of Drug Dependence (CPDD).

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