Quinta, 01 de Maio de 2014 - 09:00

Coluna A Tarde: Os fantasmas de Dilma

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Os fantasmas de Dilma
Os fantasmas que rondam a pré-candidatura da presidente Dilma Rousseff são mesmo de incomodar o sono. Não se trata apenas da forte queda de prestígio demonstrada na divulgação da pesquisa realizada sob o patrocínio da CNT – Confederação Nacional dos Transportes - em torno de 6,7%, mas certamente o que mais toca à presidente é o revigoramento da campanha “Volta Lula”. Em Portugal, na estranha entrevista a uma tevê lusa, o ex-presidente deixou as coisas mais confusas. Em primeiro, disse que não pretende se candidatar, mas, em seguida, afirmou que “em política não existe a palavra não”. Entenda-o como quiser.

O resultado é que a campanha voltou forte na mídia do sul, somando-se a isso a dúbia rebelião no PR,  a partir de um documento em defesa da candidatura de Luiz Inácio, ao tempo em que ratificava apoio à presidente, como partido da sua base de sustentação. A dubiedade leva à interpretações ambíguas. O PR acertou, ao mesmo tempo, no prego e na ferradura, para ficar bem com os dois lados, o que demonstra a sua situação de partido que não sabe bem o que pretende.

Talvez pior para a presidente não tenha sido o resultado da pesquisa, mas a sombra do seu criador, na medida em que está viva a campanha que se espraia por partidos da sua base de apoio e divide o próprio PT. Uma conseqüência das dificuldades políticas de Dilma Rousseff, somadas às suas dificuldades de gestão e ao crescimento dos seus adversários, especialmente Aécio Neves. Foi o senador mineiro que lançou – e ganhou no STF – a CPI que Renan Calheiros, presidente do Senado, recusou-se a instalar, para investigar as complicações que envolvem a Petrobras. Recusou-se, mas voltou atrás, justo porque o governo não pretende polemizar com o Supremo.

Essa foi outra pedra no caminho da presidente. Falar em Petrobras, no entendimento da população, é falar em Brasil. A compreensão é imediata. Neste caso, Dilma não pode se queixar porque foi ela que acendeu a tocha embebida de gasolina e óleo, ao divulgar uma nota por ela mesmo escrita, imaginando se blindar em relação à refinaria de Pasadena, na época em que presidiu o Conselho Deliberativo da petroleira. Foi um tiro no pé, como se apressou a dizer Luiz Inácio Lula da Silva. Assim e portanto, quanto mais procura se desvencilhar dos problemas a presidente se enreda neles.

Ademais, ninguém sabe o que vem por aí, mas o clima não sinaliza para fatos que a beneficiem. É de supor que como aconteceu em junho do ano passado na Copa das Confederações, as manifestações de rua retornam no período da Copa do Mundo, antes e no desenrolar dos jogos. Se, na época, ela que estava liderando nas pesquisas, desabou para 31%, imagina-se o que pode acontecer agora quando ela está ladeira abaixo. Mais: a situação da economia neste ano de 2014 está pior do que no ano passado e as crises na base partidária são todas contra ela. Sua imagem, neste setor político, não é das melhores. Pelo contrário.

Há, ainda, outros problemas. Aqui Na Bahia, numa tentativa de melhorar a sua imagem, algum “sábio” resolveu convencer, possivelmente o governo baiano, a arranjar uma fórmula de coroá-la   “Rainha dos Pobres”. Ora, estamos longe desses tempos de bajulação, utilizando conceitos na suposição de que serão utilizados pelos mais necessitados. Não puseram “Mãe dos Pobres” porque essa homenagem foi feita a Irmã Dulce. Então foram além, mais além,  e tascaram “Rainha dos Pobres”. Ora, ora, ora. Pensar assim é pensar baixo e estabelecer constrangimentos para os nordestinos em relação ao Sul-Sudeste. A presidente está aí para melhorar a situação da população de maneira geral e não para ser chamada de “Rainha”. Outro tiro no pé e este não partiu de Dilma.

Mais ainda. A presidente disse que os nordestinos não estão sofrendo com a possibilidade de um apagão (que se acontecer chegará aqui, certamente) porque os governadores da região souberam tratar dos recursos hídricos. Qual o quê! Ela, por acaso, já assinou e deu partida à construção do eixo-sul de sorte a trazer água do São Francisco para o semiárido baiano? Todo o Nordeste, principalmente a Bahia, passou dois anos e um pouco mais enfrentando uma seca desesperadora que só no nosso estado matou um milhão de bovinos. Foi uma fase de terror, de pobreza, com os velhos carros pipas atendendo às regiões flageladas. Entendo que cometeu ainda outro disparate ao criticar os governadores do Sudeste, especialmente de São Paulo, pela seca da barragem de Cantareira que lança uma sombra pesada, se houver apagão, sobre a população e sobre o setor industrial do País, que se localiza basicamente em S.Paulo. Eleitoralmente não fez bem.

Ademais, há possibilidade forte de que haja uma crise energética. De tal sorte que os baianos já foram penalizados com um aumento de 16% na conta da luz. Dilma, antes de ser chefe da Casa Civil do governo Lula, foi ministra das Minas e Energia. Por que não tratou do problema? E como presidente, por que não expandiu o setor de modo a evitar que um País, com tantas vantagens hídricas e eólicas não ficasse em sobressalto? Por que não cuidou de preparar o Brasil para o desenvolvimento oferecendo energia até com abundância? Se o Brasil apagar, quem será o culpado? O padre? O Nordeste enfrentou a seca silenciosamente, rezando e esperando as chuvas voltarem, enfrentando uma calamidade, como sempre, de cabeça baixa. É a sina do nordestino.

Bem, o que tiver de ser, será. Agora passa a ser “Rainha dos Pobres”? Tenham santa paciência. O que aconteceu de bom para a base da pirâmide necessitada, ocorreu com a política social implantada no governo Lula. Ou não?

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