Domingo, 22 de Janeiro de 2012 - 09:37

Coluna A Tarde: Oposições desencontradas

Coluna A Tarde: Oposições desencontradas
Espera-se muito mais da oposição brasileira – e baiana - neste ano que se inicia, rompendo a apatia que marcou a condução dos partidos, especialmente do agrupamento oposicionistas no Congresso Nacional. Praticamente, o governo Dilma não teve contraponto no ano que passou. O confronto de posições partidárias costuma compor o núcleo do sistema democrático. Em 2011, a única voz ouvida no Congresso, assim mesmo para cumprir ordens do Executivo, foi a dos integrantes da base governista, da coalizão construída em torno da presidente.
 
Muitas legendas da base governista, porém, espernearam. Participaram de bandalheiras e viram seus ministros decapitados a partir de indícios, ou provas, de corrupção. De resto, foram “vacas de presépio,” a balançar a cabeça em aprovação aos interesses do Palácio do Planalto, tal como procedia a velha Arena, bisavó do DEM, no sufocante período da ditadura militar. Os oposicionistas se esqueceram do que fosse ou do significado da tribuna parlamentar, espaço do Legislativo para denunciar, tanto na Câmara como no Senado. Ao mesmo tempo, os partidos de oposição não se entenderam. Nem internamente, nem no conjunto do grupo que deveria agir combatendo o que discordavam no governo Dilma.
 
Também aconteceu nos Estados, salvo exceções. Um exemplo próximo e exemplar foi o comportamento oposicionista na Bahia. Simplesmente um grande vazio de idéias e de vontade. Não houve. Aconteceu, sim, uma corrida adesista em direção à sombra oferecida pelo governo Jaques Wagner. O governador, provavelmente, reuniu mais poderes do que Antônio Carlos Magalhães nos seus melhores momentos no poder. A diferença ficou no trato democrático. E, de certa forma, na pouca importância dedicada pelo governo petista aos seus aliados de ocasião, que podem debandar na primeira oportunidade que entenderem que já não precisam da sombra governista para garantir a intocabilidade dos seus redutos eleitorais. Especialmente no interior. O governo não recebeu combate na Assembléia Legislativa, a não ser através de vozes isoladas. Vez por outra, sem força e sem repercussão.
 
Dentre os partidos oposicionistas, o PSDB se volta para o seu útero, São Paulo. Já o PMDB está perdido na sua geléia geral.  O PSDB é a geléia geral de sempre, a caça de cargos. O DEM idealiza seu enterro e tem pesadelos com ele. Também na Bahia. Mas a prova dos nove das legendas, aqui, será a eleição municipal, tanto em Salvador como no interior. Ou o petismo esmaga de vez as oposições, somado com a força dos seus adesistas, ou dá-se o contrário e se abre (o que parece difícil) um novo cenário que demarcará os movimentos políticos de 2014, ano de sucessão geral. Por ora, os oposicionistas estão dispersos.
 
Cada partido enxerga apenas o seu próprio umbigo, segundo o estrilo produzido pelo pré-candidato Mário Kertész. O comunicador disse que se assim querem ACM Neto e Antônio Imbassahy, que lancem suas candidaturas, dêem a vitória o PT, que ele assistirá de arquibancada, fora do processo, distante da campanha. Isso tem, de fato se registrado. Em todas as ocasiões possíveis os políticos citados falam sobre projetos para a prefeitura de Salvador. Estranha estratégia. Se desejam construir um arco de partidos oposicionistas para enfrentar a força petista não parece que esse seja o caminho mais adequado. Estão a perder tempo.
 
De certo modo Mário tem razão. Querem ser candidatos, mas estão cercado de dúvidas internas. Numa análise que parece lógica: se Kertész for o candidato e perder, ele soma para o PMDB, seu candidato, para os partidos que apoiarem, e volta tranqüilo para continuar seu trabalho na Metrópole. Inteiro. Se um expoente do DEM ou do PSDB for candidato, ou se ambos os partidos lançarem candidatos, uma derrota significa a definição antecipada do pleito de 2014.
 
Lembrando um tempo de poderio carlista na Bahia, o então governador em segundo mandato, no início dos anos 80, disse que teria força política para eleger um poste. Wagner, também se quiser, a partir da dispersão das oposições, poderá dizer, já este ano, que elege em 2014 um poste, uma passarela enigmática que não existe nos arredores do estádio de Pituaçu, enfim, até João Henrique.
 
Na verdade, ainda resta nessas bandas baianas, como se observa na citação acima, o fantasma de ACM. Já não mais assusta, porque o DEM minguou. Já não é mais também, numa lembrança shakespeariana, um fantasma do rei Hamlet que assombra os arredores do castelo de Elsinore para pedir ao príncipe, seu filho, que vingue a sua morte, assassinado pelo próprio irmão, Claudius.
 
Assim posto, teremos uma eleição este ano marcada por trevas que tenderão a se dissipar no desenvolvimento da campanha eleitoral. O que acontecer eleitoralmente neste 2012 projetará reflexos sobre 2014. Isso não há a menor dúvida. O cenário futuro não será ditado exclusivamente pela paisagem baiana, mas, também, pelos acontecimentos nacionais, do governo e, principalmente sobre o comportamento que as oposições exibirão.
 
O momento pode ser, observado de outra ótica, mera fotografia sazonal. Mas a vantagem é toda governista. Não custa, no entanto, levar em consideração a indecifrável tradição de Salvador que costuma, “só prá chatear’ votar na oposição na suposição de que a capital terá uma gestão melhor. Do que a atual, não significa muito ou qualquer  vantagem. Qualquer síndico teria desempenho melhor. O problema é outro: reconstruir uma Salvador desfigurada que mais projeta uma imagem de cidade bombardeada. Não se trata de refundar, como pensa Nelson Pelegrino, no seu sonho de encarnar o fundador Thomé de Souza, mas sim reconstruí-la.

*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde deste domingo (22)

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