Bolsonaro erra ao minimizar 'idiotas úteis', que podem reviver mobilizações de 2013
Foto: Ailma Teixeira/ Bahia Notícias

Os “idiotas úteis” parecem estar em um bom número. Ao menos foi o que pareceu nas ruas nesta quarta-feira (15), quando dezenas de milhares de pessoas, das mais diversas matrizes políticas, foram às ruas para tentar defender o resquício de dignidade do ensino público no Brasil. Em Salvador, as perspectivas otimistas dos organizadores chegaram a 24 mil pessoas. É um número relevante, mesmo que seja exagerado. E, acredito eu, os manifestantes não fazem parte de “massa de manobra”, como fez crer o presidente Jair Bolsonaro. Diferente disso, inclusive, talvez tenha nascido uma semente para um novo junho de 2013, ainda que mais tímido.

 

A principal diferença entre o movimento de cinco anos atrás e o de agora talvez seja certa uniformidade nos protestos. No passado, tudo foi difuso – e confuso. Em 2019, a bandeira da educação parece, de alguma forma, unificar diversos atores que dificilmente se mobilizariam para ir às ruas. Em um primeiro momento, era possível prever a adesão de pessoas ligadas a universidades e institutos federais, principais atingidos pelos cortes de orçamento impostos pelo governo Bolsonaro. O que se viu foi a participação massiva até mesmo de integrantes da rede privada de ensino, algo pouco comum até então.

 

Caso se mantenha esse nível de coesão, é possível que a pauta gere muito mais resultados práticos do que as mobilizações pré-eleições de 2014, marco para a instabilidade política ainda não superada no país. Admito se tratar de uma perspectiva otimista, porém volta e meia consigo extrair otimismo em meio ao caos, tal qual fiz em junho de 2013. Porém, para que isso aconteça, é preciso que emerja algum tipo de unidade – algo que não aconteceu naquele ano. E aí o alerta acende. Os movimentos sociais seguem sem organização suficiente para encabeçar qualquer tipo de pressão contra o Estado – em todos os níveis de poder.

 

Para a sorte desses potenciais manifestantes, o presidente da República, Jair Bolsonaro, não sabe lidar com críticas. Em resposta às mobilizações, o chefe do Executivo federal preferiu minimizar os presentes, a quem chamou de “idiotas úteis”, “que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil”. Ou seja, ao atacar ao invés de responder, Bolsonaro contradiz uma máxima que ele próprio defende: um governante deve ouvir o povo. Aí reside a possibilidade de unificação de um movimento que naturalmente tende a ser diverso.

 

Posso até estar enganado. No entanto não serei surpreendido se, deste 15 de maio, nascer algum tipo de movimento que provoque uma discussão mais séria sobre o papel do Estado brasileiro na garantia da educação. A primeira semente, plantada em 2013, parece ter morrido sem a repercussão almejada. Talvez o maio de 2019 seja um terreno mais fértil para que a primavera brasileira finalmente aconteça.

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (16) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.

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