Terça, 31 de Maio de 2016 - 11:00

Ramon Saavedra, coordenador do Programa Estadual de Imunização

por Marcos Maia

Ramon Saavedra, coordenador do Programa Estadual de Imunização
Foto: Reprodução / Sesab
Mesmo sem a análise dos números individuais de vacinação por município, já é seguro afirmar que o Estado da Bahia alcançou 84% de cobertura vacinal na última campanha de combate ao vírus H1N1. “A cobertura vacinal da Bahia, como um todo, hoje é de 84%. Ou seja, nós já passamos a meta [proposta pelo Ministério da Saúde], inclusive acima dos anos anteriores”, afirma Ramon Saavedra, coordenador do Programa Estadual de Imunização. Em entrevista ao Bahia notícias, Saavedra fez um balanço da campanha de imunização que chegou ao fim no último dia 20 de maio, destacando os desafios do processo e analisando os dados já registrados no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações.

A vacinação contra a gripe H1N1 chegou ao fim no último dia 20, e a Bahia alcançou 80,14% do público-alvo. Em conversa anterior com o Bahia Notícias o senhor chegou a admitir que a campanha foi "atípica". Como o senhor a avalia a vacinação no estado de uma maneira geral?
Bom, por que classificamos essa campanha como atípica? Pela mobilização que a população teve esse ano para tomar a vacina. Todas as outras campanhas, dos anos anteriores, nós dificilmente atingíamos a meta de vacinar 80% da vacinação dentro do prazo estipulado inicialmente. O que acontecia? Nós prorrogávamos, adiávamos, o término da campanha por uma, às vezes até duas semanas, para conseguir atingir a meta. Todos os anos nós atingíamos a meta, mas sempre atingindo pouco além dos 80%. Esse ano já estamos com 84%, e ainda falta atualizar o sistema, que só será encerrado no próximo dia 10 de junho. Então, o que caracterizou essa mobilização da população? Primeiro, um alerta epidemiológico que foi emitido e que se justificou porque os casos de influenza começaram a ser confirmados aqui na Bahia em fevereiro de 2016, e isso é totalmente atípico tendo em vista que a Influenza é uma doença sazonal relacionada ao período de inverno. Então, o esperado é que os casos comecem a surgir no final de maio, e a partir daí, comecem a aumentar o número de casos, pois esse é um vírus com potencial de disseminação muito grande. Além disso, nós estamos monitorando e acompanhando a situação em outras regiões do Brasil, sobretudo na região do estado de São Paulo, onde aconteceu uma situação de epidemia relacionada a doença. Por conta disso, o estado tomou a decisão de antecipar o início da campanha. Essa campanha aconteceu de 18 de abril a 20 de maio, pouco mais de um mês. Normalmente, a campanha de Influenza é pré-agendada para um período de 15 dias.
 
Nesse período, quais foram os maiores desafios, as maiores dificuldades em relação aos municípios do estado? O senhor poderia comentar a respeito da homogeneidade dos números em relação ao que já foi registrado no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações?
Primeiramente, foi importante nós fazermos um trabalho de divulgação intenso, explicando detalhadamente quem são os públicos-alvo que têm a disponibilidade da vacina na rede pública, porque o objetivo da campanha é, primordialmente, é evitar complicações, internações e óbitos por influenza. E qual o público mais vulnerável a partir do momento que é infectado pelo vírus ter uma complicação? Justamente o público-alvo da campanha: crianças de seis meses até antes de completar um ano de vida, idosos a partir dos 60 anos, pessoas com doenças pré-existentes, profissionais de saúde, as supuras (mulheres que tiveram filhos recentemente), população indígena e as pessoas privadas de liberdade por viver em situação de confinamento. Então esse era o público-alvo da vacina na rede pública. Como no início da campanha, nacionalmente, a mídia publicizou bastante a situação em outros estados, em outras regiões que não a da Bahia, que não estava em situação tão crítica, a população se mobilizou de uma maneira um pouco mais intensa. Começou-se uma correria desenfreada as unidades de saúde, de forma que todos os dias estavam sendo um Dia D de mobilização da doença. O que é o Dia D de mobilização de uma doença? É uma estratégia para vacinar mais pessoas em menos tempos. Dessa vez, pela primeira vez, não tivemos o famoso sábado de vacinação durante a campanha, porque a vacinação diária, de segunda à sexta, estava ocorrendo de uma maneira tão intensa que não estava dando tempo de garantir a vacina para o dia da campanha.
 
O público-alvo da vacinação na rede pública encarou filas intensas, entre outras dificuldades, durante a campanha desse ano. Como o governo e as secretarias municipais procuraram amenizar esses transtornos?
É importante nós deixarmos claro a logística nacional para distribuição da vacina. Quem adquire o imunobiológico é o Ministério da Saúde, quem compra a vacina e distribui para os estados. A partir do momento que o estado recebe a vacina, ele garante a distribuição para os demais municípios. Como acontece isso? A vacina nunca vem de uma forma única, não é possível receber 100% das doses da vacina de uma única vez. As vacinas sempre vem em lotes, em remessas. No caso dessa campanha, nós recebemos cinco lotes da vacina, só que a procura estava tão intensa por parte da população que não dava tempo do lote seguinte chegar antes do lote anterior acabar. Então, por isso ficou essa sensação de que houve uma falta de vacina. Mas, por que não podemos dizer que houve uma falta de vacina? Porque antes da campanha, foi feito um planejamento, e houve uma estimativa do  Ministério da Saúde de quantitativamente verificar quantas seriam as pessoas inclusas nesse público-alvo. Nós tínhamos uma perspectiva de cada categoria desse público alvo. Somando tudo, daria cerca de três milhões duzentos e sessenta e quatro mil pessoas. Então, o ministério garantiu que o estado da Bahia receberia, como de fato recebeu, essas doses da vacina. Posteriormente, já na última semana, recebemos ainda um lote residual com uma quantidade pequena para reduzir aquelas crianças consideradas primovacinadas. O que é isso? São as crianças na faixa etária para tomar a vacina, e que estavam tomando pela primeira vez na vida. Então, essa criança com 30 dias tem que tomar uma segunda dose, e é fundamental que as unidades de saúde garantam essa segunda dose para essas crianças porque se não tomar o esquema com as duas doses não vai conferir a proteção.
 
Ainda à respeito da disponibilidade de lotes, o Ministério da Saúde dá autonomia para que cada município continue vacinando depois de alcançar a meta estipulada, caso ainda tenham estoque do imunobiológico. Como anda a situação dos municípios baianos nesse sentido? Existe estoque para dar seguimento a vacinação com pessoas fora do grupo de risco, por exemplo?
Como sabemos que houve uma procura atípica, e voltarei a frisar porque é um dado até curioso, nas outras campanhas nós ficávamos, falando de uma maneira bastante coloquial, procurando gente para vacinar, e todos os anos sobravam vacina. A campanha passava, nós alcançávamos a meta no limite de 80%, 81%, e sobrava vacina. A população achava que não havia necessidade de se vacinar. Esse ano, por conta dessa situação, a orientação foi de vacinar exclusivamente o público-alvo. Uma questão importante é que uma parcela importante da população que aumentou bastante, do ano passado para cá, é o daquelas pessoas com doenças crônicas que já tem uma doença pré-existente. Elas precisariam comprovar com um relatório médico que ela é portadora de uma condição crônica que requer tomar a vacina. Só que esse ano, aumentou bastante essa parcela. Ou seja, muita gente que antes não procurava tomar a vacina, se mobilizou para conseguir o relatório médico para se vacinar. Se estivesse dentro dos critérios seria de direito da pessoa tomar a vacina na rede pública. Os municípios foram orientados a divulgar bastante isso, e na última semana da campanha priorizar as categorias do público-alvo que ainda não tinham atingido a meta, que no caso, até a semana retrasada, tinham sido as crianças (ainda faltava alguma coisa para atingir os 80%), e gestantes. No caso das crianças, inclusive aquelas que eu já falei, que tomaram a dose pela primeira vez, e teriam de tomar a segunda dose em 30 dias. Então, os municípios tiveram autonomia para criar estratégias específicas de vacinação, e priorizar este ou aquele grupo. Por exemplo, Salvador, até a semana passada, estava vacinando exclusivamente as crianças primovacinadas.
 
O senhor disse anteriormente que a redução de casos de H1N1 só deverá acontecer entre julho e agosto, quando a doença entra normalmente em período refluxo.
Na verdade, isso é o que nós chamamos de padrão de normalidade da doença. Analisando a série histórica dela, todos os anos atrás, desde que ela começou a ser monitorada, nós verificamos esse padrão. Contudo, como esse ano houve essa configuração atípica, iniciou-se antes, eu não tenho como garantir que vão terminar também como sempre terminava. Pode acontecer, quem sabe, estou só especulando, de os casos diminuírem também antes. Para isso nós estamos monitorando diariamente todas as notificação. Computando para fazer essa análise estatística.

Existe algum tipo de pacote de medidas previsto para esse período, algum tipo de cuidado que está sendo tomado por parte da Sesab para esse período?
A partir do momento que se observou o surgimento de casos no período anterior ao esperado, nós divulgamos essas informações para todas as regionais de saúde da Bahia. O Ministério Saúde atualizou um protocolo de tratamento para influenza. Esse documento foi divulgado maciçamente. O estado da Bahia também elaborou um plano estadual de enfrentamento da Influenza. Uma outra ação estratégica que nós já falamos foi a antecipação da campanha com o objetivo de conter a circulação do vírus. Com relação ao protocolo, com relação ao plano estadual de enfrentamento, o objetivo é de sensibilizar o sistema de saúde para ficar atento ao surgimento de  casos suspeitos, e com isso fazer os profissionais notificarem esses casos, e a vigilância epidemiológica ter um dado o mais próximo possível do fidedigno.    

Quando nós divulgamos, por exemplo, que, até o momento, tivemos confirmados 87 casos de H1N1 na Bahia com 18 mortos é por conta desse sistema que hoje está mais sensível e notificando de forma mais oportuna os casos. O que mais tem sido feito como ação estratégica?
O estado da Bahia, a equipe técnica da vigilância está visitando as regionais de saúde, mapeando onde os casos estão acontecendo, e a partir daí, priorizando algumas regionais para participar da oficina de manejo clínico para capacitar profissionais para notificação. A vacina é uma das ações, é importante para a prevenção, mas tão importante quanto a vacina é que o serviço de saúde esteja atento a suspeita da doença de uma forma oportuna porque se uma pessoa for diagnosticada com a doença, existe uma forma de tratamento extremamente eficaz que é o uso do antiviral, da medicação, só que para isso ela precisa ser administrada, prescrita, preferencialmente com até 48h após o surgimento dos casos. Então, é uma outra vertente de ação que a rede de assistência está sensibilizada para conter justamente complicações e óbitos pela doença. De uma maneira geral, uma pessoa saudável, um adulto saudável de uma forma geral, ao ser infectado pelo vírus da Influenza, ele vai transcorrer o percurso da doença com tranquilidade, sem precisar se submeter a um quadro de internação. Mas, para isso, é importante que o sistema de saúde esteja atento.

O senhor chegou a citar que algumas regiões estão recebendo atenção especial nesse sentido, o senhor pode comentar quais são eles?
Na verdade não é uma atenção especial.  A partir do mapeamento dos casos no estado da Bahia, nós começamos a agendar visitas técnicas para fazer capacitações de manejo clínico. Então, na região do Sudoeste da Bahia, por exemplo, Vitória da Conquista, nós sabemos que aconteceram três óbitos. Então, é importante capacitar as equipes de lá para esse enfrentamento. Na região Oeste, em Santa Maria da Vitória, tivemos o óbito da médica cubana, e também foi feito um trabalho nesse sentido. A ideia é continuar isso, é um ato em processo. Continuamos visitando esses lugares, fazendo uma espécie de força tarefa, tanto com a vigilância, quanto com a assistência. Isso é importante frisar, não adianta só a vigilância fazer o seu trabalho, e só a assistência fazer o seu trabalho.  Esse é um trabalho de prática integrada. Isso é fundamental, então a assistência farmacêutica, outro setor estratégico para garantir o suprimento da medicação, também está fazendo parte desses fóruns de capacitação também. Estamos elaborando boletins epidemiológicos, nota técnica, publicizando ao máximo as informações para toda a rede de assistência.
 
Voltando a questão do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações, até o dia 27 de abril, 91 municípios baianos não tinham registrado seus números referentes a cobertura vacinal. O banco de dados fica aberto para registro até o próximo dia 10 de junho. Como anda a alimentação desses dados?
Hoje pela manhã [nesta segunda-feira, 30] nós fizemos uma nova análise, e verificamos que não há mais nenhum município sem informação nenhuma. Agora, ainda há municípios que precisam atualizar com brevidade. Mas a cobertura vacinal da Bahia, como um todo, hoje é de 84%. Ou seja, nós já passamos a meta, inclusive acima dos anos anteriores. Só que essa análise precisa ser feita também por municípios, e por grupos. Enquanto idosos e profissionais de saúde, bateram a meta bem além do desejado, a vacinação em gestantes, por exemplo, precisa ser intensificada. Outra questão citada no início da nossa conversa diz respeito a homogeneidade. A cobertura vacinal precisa ser batida de maneira homogenia. Não é interessante para o estado que existam municípios com 100% de cobertura vacinal, e outros com 60%. Esses municípios com cobertura muito baixa podem formar os chamados bolsões de suscetíveis, que podem servir como uma porta de entrada para o vírus se disseminar rapidamente. A partir daí é que podem se formar um quadro de surto. 

Nós tratamos bastante de H1N1 durante nossa conversa, mas é importante ressaltar que a Sesab é responsável pela imunização de outras doenças. Quais são elas, e como costuma ser a recepção do público durante essas campanhas? Existe uma diferença de comportamento entre o público da capital e do interior?
Nós temos dentro da vigilância epidemiológica uma coordenação de imunizações  e de vigilância das doenças chamadas imunopreveníveis, que são justamente aquelas doenças que podem ser prevenidas com o uso da vacinação, que é uma das formas mais eficazes de prevenção na saúde pública.  Existe sim, campanhas como a da poliomielite, famosa pelo personagem do Zé Gotinha, que está mais enraizada na cultura da população. Nós acreditamos que a campanha de vacinação do H1N1 será um divisor de águas no comportamento de até então da população por conta dessa mobilização atípica que tivemos. Existem outras doenças imunopreveníveis no nosso calendário de vacinação que precisam ser monitoradas continuadamente, e assim são independentes de haver situação de alerta, epidemia.  A doença meningocócica, por exemplo, que já foi um problema de saúde pública alguns anos atrás, em 2010 aproximadamente, hoje está controlada com níveis baixos, próximos de zero, mas continua sendo monitorada. A vacina continua sendo disponibilizada, e foi um grande ganho quando ela entrou no calendário da rede pública. Fazendo um estudo comparativo, no momento que a vacina entrou no calendário de vacinação nota-se claramente a redução no número de casos. É importante que os pais e responsáveis fiquem atentas ao cartão de vacinação de suas crianças no sentido se sempre está atualizado. Provavelmente agora em junho nós vamos ter uma semana de multivacinação, que nada mais é que estimular a população a comparecer a uma unidade de saúde com seu cartão de vacinação para que o profissional de saúde veja se há alguma vacina que não está em dia, que precisa ser atualizada. Isso já é feito rotineiramente, mas é importante que a população crie essa consciência sanitária de que quanto mais pessoas estiverem imunizadas, mais dificuldade o vírus terá de circular.

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