Domingo, 23 de Agosto de 2020 - 11:05

Dr. Elsimar, o Sísifo brasileiro

por Luciana Bastianelli

Dr. Elsimar, o Sísifo brasileiro

Esta semana, no último dia 17 de agosto, a Bahia perdeu um dos médicos mais importantes e que mais contribuiu para saúde das mulheres, o médico e cientista Dr. Elsimar Coutinho.
O baiano era autoridade reconhecida mundialmente no tratamento da infertilidade, referência em reprodução humana, planejamento familiar, pioneiro no desenvolvimento de anticoncepcionais femininos e fabricação de implantes hormonais, foi incansável na sua missão de garantir bem estar às mulheres de todas as classes sociais e no trabalho social que desenvolvia. Muitas vezes irreverente, era polêmico e carismático e conseguia arrancar gargalhadas nos congressos de medicina. Como repórter de televisão tive a oportunidade de presenciar alguns momentos como este e adorava ser escalada para entrevistá-lo e repercutir suas ideias inovadoras. 
O médico Dr Elsimar Coutinho tinha um jeito simples e fácil de explicar e passar seu conhecimento aos jornalistas e com certeza impactou positivamente e salvou milhares de vidas. Nós do Bahia Notícias Mulher prestamos, hoje, uma singela homenagem a este grande homem com o artigo que ele já conhecia assinado pela escritora, biomédica e advogada Luciana Pondé Bastianelli Knop.

Iga Bastianelli, 
jornalista e editora do BN Mulher 
 

 

Dr, Elsimar,

 

Não sei se compará-lo a Sísifo seria de fato o mais acertado, já que a figura de Sísifo é revestida de certa leviandade para com os deuses e a punição que lhe é imputada afigura-se em sua existência como seu próprio destino. Sísifo enganou os deuses, desafiou-os, desprezou-os; até que, no inferno, seu suplício foi criado: o castigo de rolar ao topo de um rochedo uma enorme pedra que, neste ponto, movida por força própria, rola terra abaixo a fim de ser novamente reconduzida ao cimo para despencar outra vez e ainda outras mais, em um ciclo contínuo e sem fim....

 

Há duas contraposições no mito de Sísifo para o entendimento do seu rochedo e do seu suplício. Em um primeiro plano, o rochedo é a destinação para o trabalho humano. Se virmos Sísifo como o homem perene – pretérito, presente ou de futuro distante – que, assim como ele, percebe ser seu trabalho uma fonte de produção inútil, esgotável e incompleto em sua faina, decerto o castigo dos deuses em atribuir-lhe tal tarefa parece destruir-lhe a esperança e a lucidez.

 

Em “O Mito de Sísifo”, os argumentos de Albert Camus revelam que todo trabalho humano parece ser inútil, mas dessa inutilidade se vale o homem para tornar-se o senhor de seus dias. E isto torna-se evidente ao ver o homem valer-se da subjeção de sua natureza para resguardar a vida de uma finalidade, cuja verdadeira explanação de sentidos jamais será conhecedor. Para Sísifo, indagar a vida não é exatamente respondê-la, pois a incessante subida ao cimo do rochedo é o seu chamamento; e a resposta, seu movimento.

 

O homem-Sísifo é conhecedor do nada, sabe-o em sua existência em tempos passados e nos que virão, mas esquece o paradigma da sua existência para fazer dele tarefa para seu destino. No reinício incessante do seu tormento, de sua consciência de que nada será completado, transforma-se em senhor único e soberano de seu fado, e com ele seu sentido imaginário de vitória o faz superior a seu suplício.

 

Talvez Sísifo seja uma marionete dos deuses ou talvez o seu corcel. O tempo aqui é hipotético, pois o trabalho humano, por mais rotineiro que pareça, faz a vida fluir, sem que a direção pareça ter um objetivo maior; mas seu movimento é suficiente para criar um ou mais destinos. Seu trabalho, Dr. Elsimar, é o de um corcel: fez de um passo, dois e muitos e muitos mais. Se isto terá um fim? É provável, porém de nada importa, pois seu caminho é a força de uma ideia e a ideia é a sua destinação. Nesse ponto podemos compará-lo a Sísifo, em sua consciência, em sua irreverência, em sua persistência.

 

A persistência é a dona do mundo e dos loucos, sabendo ser ela quem nos impulsiona para um objetivo qualquer, único ou não, provavelmente sem um sentido maior. A figura de Sísifo nos ensina isso, o homem-Elsimar nos ensina isso: ele é o espelho dos nossos próprios esforços e é a sua persistência que destroi qualquer castigo.

 

Contudo, há um contraponto na direção do destino de Sísifo, um aspecto bem mais trágico em seu mito que o homem, por certo, não conhecerá. O sentido da vida se faz perder quando nos ocupamos de nosso destino, já que o pensamento pouco nos traduz sobre ela e o que nos resta é demasiado dramático em sua certeza: o fim de nossas tarefas nos aguarda. É terrível sabermos peças de um quebra-cabeça genético e de um jogo de azar em que o acaso, por vezes, toma proporções enormes de sobrevivência, fazendo surgir facetas novas para um mundo cujo propósito desconhecemos. Porém, é importante ver o homem feliz em suas tarefas e de suas tarefas, porque, diferente de Sísifo neste aspecto, ele é conhecedor de seu fim.

 

O homem perene é o próprio Sísifo em sua fortuna, quando derrota os deuses fazendo de seu rochedo sua vitória suprema. Porém, cada indivíduo é sabedor de sua morte e é neste ponto que os propósitos de Sísifo se distanciam do homem singular. Não se pode esquecer que o rochedo o aguarda pela eternidade, e o adentrar a eternidade consciente de seu destino parece devastador. O que há de mais trágico no mito de Sísifo não é o que ele faz de seu destino. Para os deuses, como Sísifo reveste seu rochedo de nada importa, pois seu castigo está no encarceramento de sua consciência que jamais saberá perdida. O fato de estar-se preso à eternidade pelo seu consciente afigura-se devastador para Sísifo, pois ele jamais conhecerá o fim do seu tormento. E abordar seu estado de consciência pela eternidade é pensar no pior dos castigos, é imaginar uma lucidez jamais interrompida. E aí se percebe a fúria implacável dos deuses em revesti-lo de uma tarefa inútil, sendo ele conhecedor de sua incompletude e infinitude. Desse ponto de vista, não há destino para Sísifo; o trabalho “inútil e sem esperanças” não parece ser seu tormento, mas o estar-se preso à sua realidade e não se desvencilhar jamais dela e de seu próprio ser, de seu próprio pensar, afigura-se dramático pela sua consciência. 

 

Já deu para entender que assim como Sísifo, Dr. Elsimar é o herói absurdo.  “Ele o é tanto pelas suas paixões como por seu tormento”. Posso vislumbrar o tanto de rochas que se espatifaram ao longo do caminho e mesmo as que rolaram antes de o cimo alcançar.  Mas fato, Dr. Elsimar, é que a figura de seu rochedo emerge maior que de muitos outros. Assim como em Camus, curvo-me diante do seu trabalho pelo pioneirismo, pela persistência, pela irreverência. Concentro-me na figura de Elsimar-Sísifo, nas suas mãos sujas de barro, seu suor, seus cabelos emaranhados de poeira e no poder sobre seu rochedo, cuja consciência, para seu conforto, saberá um dia ausente.

 

Ao grande cientista do nosso século e do próximo.

Luciana Bastianelli

* Artigo escrito em Dezembro 1999

 

Dr, Elsimar,

“A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano.” (Albert Camus – O Mito de Sísifo)

Parabéns, Dr. Elsimar, por tudo!

Luciana Bastianelli

 

 

 

 

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