Quarta, 08 de Abril de 2020 - 13:10

Filho de desembargadora do TJ-BA e delator conversaram sobre medo de Sérgio Moro

por Cláudia Cardozo

Filho de desembargadora do TJ-BA e delator conversaram sobre medo de Sérgio Moro
Sandra Inês e Vasco Rusciolelli | Fotos: Bahia Noticias e CNA

Em um diálogo interceptado pela Polícia Federal, o filho da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli, do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), manifesta preocupação em como irá receber o pagamento da propina das mãos do delator, o advogado Júlio César Cavalcanti. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o delator tinha autonomia para negociar valores e confeccionar os votos da desembargadora Sandra Inês para favorecer a Bom Jesus Agropecuária na disputa por milhares de hectares de terras no oeste baiano. A preocupação de Vasco Rusciolelli era impedir o rastreio do recebimento da propina repassada por Vanderlei Chilante e pelo produtor rural Nelson Vigolo. 

 

Na conversa, Vasco afirma que a mãe explicaria para Júlio como queria que ele fizesse a decisão para ganhar o processo, e diz: “Agora, a porra [propina] antes, viu, Júlio?”. O delator afirma que o problema é que os aliados da Bom Jesus Agropecuária queriam fazer a transferência para a conta dele. Nisso, Vasco, também conhecido como “Vasquinho”, pede para ele fazer um contrato como advogado, e ele lhe pagaria o valor aos poucos. Nisso, Júlio afirma que, como a empresa está em recuperação, o dinheiro é oriundo de “caixa dois” e não saberia dizer se a Bom Jesus iria quer emissão de nota fiscal. Vasco volta a afirmar para ele fazer o contrato de honorários e que a não emissão de nota seria problema da empresa. Júlio salienta que aí o problema seria de ordem tributária e é alertado por Vasco que ele poderia “se foder” com o Fisco. Júlio pensou em fazer uma aplicação e é interrompindo por Vasco, que diz que é melhor a transferência, junto a um contrato, para ficar “tudo legalizado”. Eles refletem se seria melhor receber tudo em dinheiro. Júlio diz que seria melhor, mas não saberia dizer se teria disponibilidade de dinheiro para saque. Vasco sugere que o pagamento seja feito aos poucos em dinheiro vivo, trazendo pela manhã, para ele esvaziar durante o dia. “Eu não quero dormir com dinheiro aqui, vai que chegue uma visitinha de manhã”, diz Vasco, que pondera ainda que as notas podem estar rastreadas. Júlio reforça que é melhor fazer a transferência, com contrato advocatício, resolvendo a parte tributária depois. A entrega da decisão de Sandra Inês é condicionada ao pagamento. 

 

Vasco e Júlio ainda manifestam preocupação com uma possível entrada do ministro da Justiça Sérgio Moro no caso. Júlio sugere a Vasco gastar o dinheiro com algumas coisas, com compra de carro, por exemplo. Júlio diz que pode fazer saques mensais de R$ 100 mil, sendo R$ 50 mil quinzenal. Vasco sugere sacar R$ 20 mil toda semana “para não chamar a atenção”, pois o “gerente sabe tudo”. Para o MPF, a conversa evidencia que Júlio, junto com Vanderlei Chilante, age de igual maneira, para evitar rastros financeiros do pagamento da propina na compra das decisões de Sandra Inês. 

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