Quinta, 12 de Setembro de 2019 - 11:10

Pablo Reis fala de tensão na vida após chacina do Cabula: 'Quiseram passar um recado'

por Júnior Moreira Bordalo

Pablo Reis fala de tensão na vida após chacina do Cabula: 'Quiseram passar um recado'
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Natural de Alagoinhas, no Litoral Norte e Agreste Baiano, o jornalista Pablo Reis é atualmente um dos nomes por trás da TV Aratu, afiliada do SBT. Gestor de conteúdo e inovação da empresa e responsável pelos programas “Universo”, “Dendê na Mochila”, “Liga da Madruga”, “Clube da Alegria”, “Chegue Mais”, “Aratu Repórter”, e do portal “Aratu ON”, ele ainda apresenta as atrações “Liga da Madruga”, “Aratu Repórter”, “Linha de Frente”, “Reunião de Pauta” e “Aratu Talks”. “Hoje tem sido uma experiência muito boa. Gerenciar também é legal. Considero-me uma pessoa que gosta de aprender. De verdade. O sentido da minha vida é descobrir algo novo a cada dia”, confessou em entrevista ao Bahia Notícias. Além disso, será um dos professores do projeto Escola Aratu, que atuará na formação de novos profissionais.

 

No papo sobre carreira, futuro da TV aberta e do jornalismo, o comunicador, egresso da Universidade Federal da Bahia, falou sobre o que achou da indicação de Jéssica Senra para apresentar o “Jornal Nacional” e relembrou um dos momentos mais tensos de sua vida, quando teve a casa invadida após reportagens sobre a chacina do Cabula, que deixou 12 mortos na região há quatro anos. “Fiquei me questionando o motivo de pessoas, que são pais de família, têm seus filhos e rotinas, serem capazes de cometer atrocidades como essas. Quiseram passar um recado e eu entendi da seguinte forma: há necessidade de se ter bons jornalistas, que não se intimidam com algumas coisas. Por outro lado, a função do jornalista, quando é exercida no limite, pode ter algumas consequências. Quem quiser ficar em casa tranquilo assistindo Netflix não vai passar por isso”, ponderou. Confira a entrevista completa:

 

Pablo, você está há 19 anos no mercado como jornalista. Fazer comunicação sempre foi seu sonho?

Fui muito mobilizado por meu pai (Francisco Reis), que é um consumidor voraz de jornais, para entrar em uma faculdade de Comunicação. Como ele tinha assinatura da Tribuna da Bahia, via aqueles artigos e imaginava que queria fazer algo semelhante para o resto da vida. Sempre gostei muito de escrever e achei que era possível ter uma profissão associando essa paixão. Entrei na universidade sabendo apenas que gostaria de trabalhar em jornal impresso. Um pouco antes de me formar, consegui entrar no Correio*, na editoria de esportes, e foi bem prazeroso este período. Não sei se me daria bem em outra profissão. Ao longo do processo, comecei a fazer outras coisas, tanto por necessidade quanto por aventura para explorar outras capacidades.

 

Então acredita que seu pai foi fundamental na sua carreira?

Meu pai tem características muito interessantes, pois ele não tem nível superior, foi bancário e é uma das pessoas mais cultas que conheço, justamente por conta dessa avidez que tem por leitura de jornal e livros. Parece-me que foi por osmose essa vontade de querer exercitar isso.

 

Quando entrou na faculdade que tipo de profissional almejava se tornar?

Acho que queria ser um colunista, articulista... não sei. Talvez de política ou economia, sabe? Uma pessoa que escrevesse artigos e influenciasse outras pessoas a partir da forma de pensar o mundo e analisar. Minha época na Faculdade de Comunicação da UFBA foi muito rica. Jean Wyllys é nosso colega de semestre; Manuela Dias, que hoje é roteirista da Globo, sempre foi muito talentosa; Wagner Moura é de um semestre anterior ao nosso. Ou seja, muitas pessoas surgiram ali não somente para o jornalismo. Isso foi importante para abrir minha cabeça a outras possibilidades. Fui muito influenciado também pela convivência com estes e outros colegas.

Atualmente, é apresentador de diversos produtos da TV Aratu: “Liga da Madruga”, “Aratu Repórter”, “Linha de Frente”, “Reunião de Pauta” e “Aratu Talks”. Apresentar é o que mais te realiza?

Não posso falar em termos eternos. Porém, hoje tem sido uma experiência muito boa. Gerenciar também é legal. Considero-me uma pessoa que gosta de aprender. De verdade. O sentido da minha vida é descobrir algo novo a cada dia. Quando comecei a escrever em jornal, aquilo me realizava por completo. Depois, tomar conta de programas de televisão, algo que nunca tinha pensado, também me fascinou. Tinha resposta muito rápida do público e aquilo trazia uma adrenalina... mais recentemente gerenciar pessoas, que tem muita relação com o essa coisa de entender o outro, e agora como apresentador. Foi algo que comecei a aprender vendo referências atuarem. É entender o veículo de outro ponto de vista. No momento, tenho sido bastante realizado em estar nessa posição. Não sei se o tesão vai durar muito anos e espero que não, porque quero que surja um novo aprendizado e outro desafio.

 

No início deste ano, você revelou que teve a casa invadida após reportagens sobre a chacina do Cabula, que deixou 12 mortos na região há quatro anos. Considera que este foi o momento mais difícil da sua carreira? É difícil apontar os erros dos policiais?

É difícil. Não vou entrar mais em detalhes por orientação do advogado. O caso aconteceu, foi um aprendizado. Serviu para entender as motivações de pessoas que fizeram algo que não concordo, mas fizeram. São, inclusive, pais de famílias. Não vou dizer que acho bonito, legal, nem nada. Até porque conheci alguns parentes das vítimas e sei que não foi nada positivo. Quando aconteceu aquilo, tinha acabado um curso de terapia transpessoal [tem como objeto o estudo da Consciência e de seus Estados não ordinários e, neste sentido, congrega vários Recursos Técnicos como a hipnose, a meditação, o relaxamento, e experiência com alucinógenos, além dos Estados Místicos de Tradições Espirituais]. Ou seja, estava começando um processo de entender um pouco da mente humana e logo depois tive uma experiência muito especial que foi ir para o Caminho de Santiago [Espanha]. Naquele momento, lancei perguntas ao universo e obtive algumas respostas. Fiquei me questionando o motivo de pessoas, que são pais de família, têm seus filhos e rotinas, serem capazes de cometer atrocidades como essas. Quiseram passar um recado e eu entendi da seguinte forma: há necessidade de se ter bons jornalistas, que não se intimidam com algumas coisas. Por outro lado, a função do jornalista, quando é exercida no limite, pode ter algumas consequências. Quem quiser ficar em casa tranquilo assistindo Netflix não vai passar por isso. Resumindo, não tem nada errado. Está todo mundo certo, inclusive quem tomou atitudes assim.

 

Você gerencia diversos programas da casa, como o “Universo”, “Dendê na Mochila”, “Clube da Alegria”, “Chegue Mais” e “Aratu Repórter”, que são diferentes, com públicos diversos. Como estruturar cada um?

A característica principal desses programas é ter uma equipe muito reduzida. Acredito que é uma contribuição que posso dar para a TV e para o mercado, sabe? De uma forma geral, tentar fazer produtos bem produzidos com menores custos. Isso só é possível graças ao comprometimento desses profissionais. O enfoque dos produtos é entregar para seu público o que ele quer ver. São atrações bem sucedidas no que se propõem e, acima de tudo, valorizam a Bahia. Todos eles.

 

Você citou que foi colega de faculdade de Manoela Dias, baiana responsável pela próxima novela das nove da Globo, “Amor de Mãe”. Acredita que há espaço para dramaturgia nas emissoras da Bahia?

A TV aberta como um todo sofre com um processo grave, que é tentar atender ao máximo interesse de pessoas. A TV quer abrir um leque para atingir um público muito grande. Ela está sofrendo bastante com o assédio dos seguimentos, como as redes sociais, que permitem às pessoas encontrar temas específicos, entende? A Globo, por exemplo, também está passando por isso e acredito que as novelas ainda conseguem atender esta demanda de se comunicar com o público de São Paulo e de Roraima. Tem uma grande penetração no público nacional.

 

Coisa que não acontece mais com o jornalismo...

O jornalismo está tendo dificuldades com isso, pois as realidades são distintas. As pessoas de Alagoinhas, que é minha cidade, diferente de 15 anos atrás, hoje têm seus mecanismos, sites, lives para se informarem melhor sobre seu ambiente. Então, não vão buscar necessariamente o programa da Aratu, pois vai falar pouco de Alagoinhas. A TV aberta local tem esse probleminha que não sei se conseguirá conciliar em curto prazo.

Mas o público do interior é importante para a TV aberta? Pois é de conhecimento geral que a audiência – ferramenta fundamental para o retorno financeiro - é medida levando em consideração apenas Salvador.

É uma excelente pergunta. Hoje o Ibope, que é a única ferramenta de medição de audiência, só mede na grande Salvador. Isso para a gente é muito difícil, pois a nossa impressão é que a TV Aratu é muito bem recebida no interior da Bahia. A não ser a TV Bahia, que tem sedes locais, a TV Aratu é muito simpatizada e isso não é medido do ponto de vista objetivo. Olhando subjetivamente, hoje Salvador é um polo de emigração, é uma cidade que tem muitos interioranos. Então, o reflexo do que acontece no interior vai acabar influenciando a análise e percepção aqui na Capital, pois as pessoas trazem seus hábitos. Além disso, tem o aspecto que a TV Aratu está buscando ser uma embaixadora da Bahia. É a única afiliada que não tem um lado político determinado. Pode abraçar qualquer credo religioso, qualquer lado étnico, é a emissora que mais tem negros à frente da televisão e trabalhando por trás. É muito democrática. Não se identifica alguma tendência forte por algum lado. Dentro dessa perspectiva, acho que é muito importante, tem um pacto forte no interior. Salvador tem três milhões de habitantes, mas a Bahia tem 15 milhões.

 

Vemos diariamente que o mercado de jornalismo não vive um momento de glória. Todo dia, temos notícias de demissão, reestruturação e até fechamento de afiliadas. Como a Aratu está nesse cenário?

Os acionistas estão presentes diariamente na empresa. A Aratu tem 200 funcionários e eles conhecem praticamente todos pelos nomes. Isso faz com que se sintam responsáveis não por funcionários, mas por famílias. É um comportamento da rede retardar qualquer tipo de demissão. Se observar que alguém foi demitido por contensão de despesas, pode ter certeza que todas as alternativas foram pensadas. Só que a crise econômica em geral e a crise do meio obrigam algumas tomadas de decisão. Hoje, por exemplo, estamos em franca necessidade de saber como fazer TV aberta com o menor custo possível. Temos vários estudos para tentar entender como podemos concorrer com canais do YouTube, que têm custos baixíssimos de produção. A realidade para TV grande e aberta é um desafio e isso que eles cobram. Temos um mantra que é como realizar “mais, melhor e por menos”. Alguns pontos estamos conseguindo, outros não. Posso dizer que a Aratu tem muita preocupação com o material humano, que é um dos mais caros, após toda a estrutura física já estar montada.

 

Com olhar analítico, a que você atribui a crise que passa a TV Bahia, por exemplo?

Não acompanho a fundo, vou falar como uma pessoa olhando de fora. João Gomes (ex-diretor executivo da TV Bahia), por exemplo, os próprios acionistas da TV Aratu já falaram que é um dos profissionais da mais alta capacidade, um profissional extremamente gentil, uma pessoa criada lá dentro e que conhece do assunto e tema e que, infelizmente, foi “sacrificado” por um sistema adverso. É o que estou falando, essa realidade não faz parte apenas da TV Bahia. Faz parte de grandes grupos de comunicação. Talvez, a própria Globo esteja passando por isso, assim como a Bandeirantes, os jornais impressos. Porém, essa questão da TV Bahia casou com um momento de dificuldade também de audiência, o que determinou que várias pessoas fossem impactadas. Considero, por exemplo, que alguns produtos da Globo são os mais importantes da história do jornalismo brasileiro, o “Jornal Nacional” para mim é um dos melhores telejornais do mundo. Não tenho nenhuma dúvida. Sei que muita gente vai me criticar, dizer que ele tem viés político, mas tecnicamente o que eles conseguem fazer, para quem eles querem fazer – que no caso é o Brasil inteiro – são insuperáveis. Às vezes, soam levianas as críticas que recebem. Talvez, a TV Bahia, com algum atraso, tenha percebido que precisa de uma linguagem regionalizada. O padrão Globo, que é homogeneizador, para a realidade atual não cabe tão bem diante do que as pessoas estão procurando. Hoje, a TV Bahia está tentando falar mais próximo e, nesse caso, tem os acidentes de percurso. É uma questão de hábito. Nesse caminho, acredito que eles perderam um pouco os tradicionais espectadores e ainda não ganharam os novos. Mas é um processo. A Aratu é muito simpática às coisas da TV Bahia.

 

Falando na concorrente, a jornalista Jessica Senra foi a escolhida para representar a Bahia no aniversário dos 50 anos do “Jornal Nacional”. Enquanto comunicador, como você vê essa conquista?

Acho que é muito merecido, ela deve estar bem satisfeita. Conheço Jéssica, sei do propósito dela. A Bahia está sendo muito bem representada. Como profissional de comunicação, considero a mais completa. Excelente apresentadora, passa credibilidade, escreve muito bem e não é muito comum em pessoas que trabalham na televisão apresentando programas. Isso para mim é importante. Ela faz bem rádio, ganhou prêmios, e tem um propósito, sabe para que serve seu trabalho, algo que também não é muito comum entre pessoas que aparecem na TV. Jéssica coloca possibilidades que vão além de ser uma pessoa bonita apresentando, ela tem interesses de vidas que são bem relevantes.

 

Quando pensamos no SBT, lembramos imediatamente de Silvio Santos. No momento em que muitas pessoas pregam o politicamente correto e buscam rever posicionamentos, Silvio vem sendo criticado na internet por conta de alguns comentários que ainda faz. Como você vê esse movimento?

Não conheço Silvio Santos, apenas admiro e sou fã. Considero um ícone, baluarte, alguém que está em um patamar diferente. Porém, uma pessoa com quase 90 anos de idade talvez não acompanhe o ritmo da evolução necessária, de algumas bandeiras que são favoráveis. Talvez, não tenha essa velocidade. Contudo, como ele tem carta branca no SBT – e não poderia ser diferente – para falar o que quer, não apenas como dono, mas diante de tudo que ele representa... acho que a gente não pode relevar atitudes racistas, preconceituosas, que ferem a dignidade do outro, entretanto precisamos entender o contexto, a mente da pessoa que dá algumas declarações. Hoje, estou muito interessado em entender pensamentos diferentes dos meus. Coisas que Silvio Santos falou são diferentes do que eu falaria ou faria, mas quero entender, muito mais do que criticar. Não estou apoiando as atitudes dele, acredito que pela sua própria inteligência, ao rever algumas atitudes a autocritica deve ter sido alarmada.

Como enxerga o futuro do jornalismo ? Para onde caminharemos?

Acho que o jornalismo vai ser uma “joia preciosa”. O jornalista profissional vai ser esse garimpeiro, que no meio de tantas notícias falsas, terá que achar o verdadeiro. Inclusive, vai um conselho, caso tenha esse direito: você que é jornalista profissional, tome muito cuidado com o que faz nas redes sociais, com o que você publica, pois depois o seu grau de credibilidade vai ser medido por isso, por sua capacidade de separar as coisas.

 

Tem algo a mais que queira pontuar?

A TV Aratu fez 50 anos em 2019 e é uma empresa genuinamente baiana. Já foi afiliada de Globo, Manchete e hoje é do SBT. É uma afiliada que quer representar cada vez mais os interesses da Bahia. Estou lá há 15 anos. Antes eu nem pensava a respeito de meu futuro profissional ser diferente da Aratu, hoje já penso. Em algum momento, vou precisar realizar coisas fora de lá, o que é muito natural. Quero realizar coisas na área de comunicação. Não sei quando será, mas, mesmo que algum dia não esteja lá, vou continuar tendo uma grande admiração pelo o que a empresa é, pois confio na proposta que os donos colocam para um grupo de comunicação. Outra coisa que queria pontuar é que, apesar de gerenciar um veículo que, em tese, é concorrente do Bahia Notícias, que é o portal AratuOn, tenho grande admiração por pessoas e iniciativas que inovam, principalmente aqui na Bahia, e vocês representam isso. No momento em que não era comum criar um site de notícias, Ricardo Luzbel e Samuel Celestino [fundadores do Bahia Notícias] resolveram apostar nisso e criaram um veículo importante, consolidaram essa marca, coisa que é muito difícil acontecer. Sei o quanto é difícil empreender aqui na Bahia e quando vejo um veículo como Bahia Notícias, posso dizer que sou bem admirador.

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