Terça, 26 de Maio de 2020 - 07:20

Adiar pico do coronavírus é melhor que antecipá-lo, falta compreendermos isso

por Fernando Duarte

Adiar pico do coronavírus é melhor que antecipá-lo, falta compreendermos isso
Foto: Camila Souza/ GOVBA

“Cada hora o governo diz que o pico do coronavírus é na próxima semana. Quero ver quando vai chegar”. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi esse tipo de reclamação. Ela não vem da imprensa, frequentemente acusada de “torcer pelo vírus”. Vem da população que, na Bahia, segue em isolamento social desde a metade de março e sem uma perspectiva clara de um protocolo de reabertura das atividades. E, por mais absurdo que possa parecer, há muito que se comemorar a cada novo adiamento desse pico de contaminação.

 

Na última sexta-feira (22), um levantamento diário feito pela coeditora do Bahia Notícias, Rebeca Menezes, apontou que, se não houvesse incremento da oferta de leitos de UTIs para a Covid-19 na Bahia, o colapso da saúde começaria ali. A perspectiva acabou mais otimista do que um primeiro dado, ainda em março, que sugeria a sobrecarga no começo de maio. Ainda assim, a data acabou postergada e, sem a antecipação dos feriados, poderia ser já essa semana. De março até aqui, houve tempo para que o governo estadual e a prefeitura de Salvador ampliassem o número de leitos disponíveis para pacientes que venham a desenvolver a forma mais grave da Covid-19.

 

Adiar o pico é adiar que o sistema de saúde entre em colapso. Por isso, vemos o governador Rui Costa e o prefeito ACM Neto celebrando a cada vez que essa data é postergada. Ambos, que estão em lados opostos da política local, uniram forças para reforçar a infraestrutura de saúde na principal cidade da Bahia – e que deve acabar recebendo parte do excedente do interior do estado. Se nada fosse feito, incluindo aí o isolamento social, estaríamos muito próximos do caos visto em cidades como Manaus e Fortaleza, que viveram de maneira antecipada a crise do sistema de saúde.

 

A lógica da imunidade de rebanho também não funciona com um vírus desconhecido como o causador da Covid-19. Há estimativas de que um percentual expressivo de pessoas pode desenvolver a versão mais agressiva da doença, dado os exemplos vivenciados em outras partes do mundo. Caso mantida essa perspectiva, a falta de investimento no sistema de saúde no passado iria provocar cenas ainda mais assustadoras do que as vistas na Itália, onde ficou exposta de maneira explícita a demanda por escolha entre quem vive e quem morre. Até aqui, estamos longe disso – e esperamos que assim permaneçamos. Além disso, ainda garantimos mais tempo para que o mundo encontre uma vacina ou até mesmo um remédio que abrande as perdas de vidas humanas.

 

Não achemos que adiar o pico é atrasar a chegada do problema. O coronavírus vai arrombar a porta de Salvador e da Bahia como fez em outras partes do planeta. No entanto, se estivermos menos despreparados para lidar com ele, talvez fosse um pouco pior. Como diziam nossos avós: é melhor prevenir do que remediar.

 

Este texto integra o comentário desta terça-feira (26) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios A Tarde FM, Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Alternativa FM Nazaré e Candeias FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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