Segunda, 25 de Maio de 2020 - 07:20

O capitão, o general e o jipe desgovernado da República

por Fernando Duarte

O capitão, o general e o jipe desgovernado da República
Foto: Carolina Antunes/PR

A repercussão do vídeo da reunião de ministros do dia 22 de abril acabou dividindo os holofotes com um ataque à democracia travestido de interesse da pátria divulgado pela âncora de Jair Bolsonaro no militarismo, o general Augusto Heleno. A carta em que ele frontalmente ameaça os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), por Celso de Mello encaminhar uma notícia-crime para a Procuradoria-Geral da República, uma praxe em processos assim, é absurda e deveria ser alvo de críticas severas da sociedade. Não aconteceu. 

 

Militares da reserva publicaram um manifesto em apoio a Heleno e ainda endossaram mais ameaças ao equilíbrio entre os poderes. Sempre sob a máscara de defensores da nação. Quem quer que defenda a submissão do STF e do Congresso Nacional aos desejos do presidente da República não entende o funcionamento desse projeto de país. Ainda assim, vemos e veremos fardados e não fardados conclamando o povo a favor de Bolsonaro e seus asseclas, que se preocupam muito mais com o status quo do que com o Brasil de fato.

 

A interferência política do presidente na Polícia Federal para defender familiares e amigos está bem cristalizada e confessa, apesar das frágeis "provas" apresentadas pelo ex-ministro Sergio Moro. No entanto, para quem acredita nesse projeto de poder baseado em limitadas visões de "pátria" e "família", é justo que não se enxergue além do óbvio: há em curso uma desmantelação sistemática das instituições democráticas. E com aval de quem diz defendê-las.

 

Ao citar o Artigo 142 da Constituição para sugerir intervenção militar no Brasil, o presidente flerta com seus pares, que pensam da mesma forma, e com o autoritarismo que muito o anima. Sem a menor cerimônia, Bolsonaro falou disso na fatídica reunião do dia 22 de abril, sem que ninguém tenha se instado a questionar. O silêncio, nesse caso, é tão retumbante quanto a carta de ameaça de Augusto Heleno. Quem cala, consente. Inclusive os brasileiros "desarmados" que são figurativamente defendidos pela versão tupiniquim de um fuhrer mal feito.

 

Sabíamos disso desde a campanha eleitoral de 2018, quando um dos novos príncipes da nova república das bananas bradou que para fechar o STF eram necessários um soldado e um cabo, sem nem precisar de um tanque. Agora só as patentes que aumentaram. O general e o capitão estão acelerados dentro de um jipe desgovernado, mostrando que estão mais que dispostos a interromper a democracia no Brasil. Pagamos para ver. E caro.

 

Este texto integra o comentário desta segunda-feira (25) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios A Tarde FM, Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Alternativa FM Nazaré e Candeias FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

Histórico de Conteúdo