Sexta, 15 de Maio de 2020 - 07:20

A falência do Estado brasileiro e a infeliz necessidade do estímulo ao isolamento

por Fernando Duarte

A falência do Estado brasileiro e a infeliz necessidade do estímulo ao isolamento
Foto: Reprodução/ CEERT.org

Deputados estaduais aprovaram nesta quinta-feira (14) o auxílio de R$ 500 para pessoas diagnosticadas com Covid-19 e que optarem pelo isolamento social em centros de acolhimento estaduais. A iniciativa é importante, pois incentiva pessoas em condição de vulnerabilidade econômica a se distanciarem das comunidades em que estão inseridos, ainda que temporariamente. Essa demanda, criada com a pandemia, também expõe a nossa fragilidade social. Não era para ser necessário esse tipo de benefício.

 

O governo da Bahia está correto em propor a medida. Há um processo claro de empobrecimento da população, iniciado antes da pandemia, mas intensificado quando o novo coronavírus chegou ao país. Assim como o “coronavoucher” – a transferência de renda de R$ 600 pelo governo federal –, esse benefício estadual é uma forma de mitigar a dura realidade de quem precisa fazer malabarismos para sobreviver. Ainda que somados, não chegam ao salário mínimo ideal para uma pessoa sobreviver. Ou seja, ainda que conceda essa “benesse”, o Estado brasileiro é incapaz de permitir condições dignas para um brasileiro ter renda.

 

Essa crítica não é a governante A ou B. É a falência do país enquanto nação que garante direitos mínimos aos seus cidadãos. Primeiro ponto: não era para ser necessária essa transferência direta de renda. A crise com a Covid-19, todavia, mudou paradigmas e obrigou até nações ricas a fazerem ações similares. Isso diminui um pouco o peso do nosso erro histórico. Segundo: a população não deveria precisar de estímulo para cumprir uma medida básica para salvar a própria vida por meio do isolamento social.

 

Culturalmente, mesmo que o Estado não tenha condições de prover o mínimo, criamos uma dependência grande desse mesmo Estado. E até mesmo para fazer o nosso papel, aguardamos que o Estado nos estimule a fazê-lo. Por enquanto, não houve demanda para o isolamento mandatório. Mas isso não quer dizer que não seja necessário. Se isso acontecer, como iremos reagir? São tantas questões, tão complexas, que é difícil responder sem uma reflexão profunda.

 

Ressalto que tanto o governo federal quanto o governo estadual agiram de maneira correta nessa transferência de renda. Mesmo que pouco, para quem recebe o benefício fará uma diferença gigantesca. Talvez esse momento novo também seja importante para nos reavaliarmos enquanto sociedade. É olhar o copo meio cheio.

 

Este texto integra o comentário desta sexta-feira (14) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios A Tarde FM, Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Alternativa FM Nazaré e Candeias FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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