Quinta, 16 de Abril de 2020 - 07:20

Brasil: entre a realidade paralela e um milagre como na cela 7

por Fernando Duarte

Brasil: entre a realidade paralela e um milagre como na cela 7
Foto: Divulgação

Lingo Lingo! É assim que Memo saúda sua filha, Ova, no remake turco de “Milagre na Cela 7”. A história, disponível na Netflix, gira em torno de um homem com deficiência intelectual no corredor da morte. E não é uma propaganda gratuita para o filme. Citar Memo nesse caso é para tentar traçar um paralelo entre o que o personagem vive na cela 7 e a situação que o Brasil vivencia na batalha contra a Covid-19. Aqui encerra-se a possibilidade de spoiler.

 

Por mais que haja um esforço de negação, o novo coronavírus está tendo um efeito devastador na organização social e econômica mundial. Na Hungria, a transformação chegou a ser política, já que Viktor Orbán aproveitou a oportunidade para dar um autogolpe para implantar uma ditadura. Milhares de pessoas estão a morrer ao redor do globo, mas, ainda assim, há quem insista que o Brasil não pode parar. É como se estivéssemos oficialmente condenados à morte, mas ainda assim insistimos que é apenas um rito de passagem.

 

Em terras brasileiras, passamos pela fase da “gripezinha” e chegamos muito recentemente ao momento do “problema aí”. É muito pouco para uma doença que tem devastado nações, que têm uma dificuldade muito grande para enfrentar o colapso da saúde, ao tempo em que tenta lidar com o luto de uma maneira bem distinta do habitual. A Covid-19 tem gerado profundas reflexões sobre o que esperamos do futuro. E sempre com o receio de que pode não haver um futuro para planejarmos ou pensarmos.

 

No filme, Memo e Ova constroem uma linda relação entre pai e filha. A história se desenvolve, principalmente, a partir da perspectiva da pequena, órfã de mãe e criada pelo pai deficiente e pela avó. Enquanto isso o pai espera por uma decisão do que vai acontecer com ele, sem nem mesmo ter consciência real do que o espera. Qualquer semelhança com a atual situação política do Brasil é mera coincidência. Até porque o filme é turco, inspirado em uma produção sul-coreana e sem beber explicitamente em qualquer fonte cultural brasileira.

 

Durante a crise da Covid-19, há a sensação de que algo nos impede de perceber o quão grave é a situação. É como se fosse um universo paralelo e, tal qual o personagem do filme, não nos damos conta da realidade dura que vivemos e viveremos nos próximos anos. Não parece ser algo consciente, mas ainda assim isso traz um risco imenso mesmo para quem está cumprindo ao máximo as regras de isolamento.

 

Pena que essa manifestação possa ser um caminho para a morte para milhares de brasileiros. Morte que é ponte que quase ninguém está preparado para cruzar. Infelizmente, não dá para ficar esperando que aconteça um milagre. Como não é meu papel antecipar o fim do filme, ficamos todos na expectativa sobre o que acontece. Garrafas! É assim que Ova responde ao chamado do pai.

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (16) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM e Alternativa FM Nazaré.

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