Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Quarta, 30 de Dezembro de 2020 - 07:20

Precisamos de um presidente novo, mesmo que seja o atual remasterizado

por Fernando Duarte

Precisamos de um presidente novo, mesmo que seja o atual remasterizado
O gol que quis desver | Foto: Marcos Corrêa/PR

É pedir muito para 2021 um presidente novo? Pode ser até o atual, numa versão remasterizada ou, simplesmente, com menos defeitos de fabricação. Porque não há explicação lógica para o tanto de problemas causados por Jair Bolsonaro desde que ele chegou a poder. Enquanto ele só afundava o Brasil, até me esforçava para entender quem o defendia. Agora que parece haver um objetivo claro de exterminar uma parte da população, está cada vez mais difícil entender quem vive em um mundo da lua, ao invés da realidade dura e crua.

 

Para Bolsonaro, cabem aos laboratórios farmacêuticos oferecerem vacinas contra o coronavírus, por exemplo. Seria cômico, se não fosse trágico. Ao mesmo tempo que finge ser liberal - com direito à exaltação do posto Ipiranga -, o presidente esquece de um princípio básico do capitalismo: se a demanda é maior que a oferta, que se exploda quem não tem interesse na compra. Qualquer empresa séria prefere garantir a aquisição dos seus produtos em lugares onde há interesse legítimo do que em um país onde o principal líder finge que uma pandemia é uma gripezinha.

 

Até o ídolo-mor do bolsonarismo lambe-botas, Donald Trump, priorizou a vacinação da população ao invés de fazer proselitismo político com a vida alheia. Se a nossa síndrome de vira-latas não se importou em herdar o lixo hospitalar da hidroxicloroquina - ainda há quem acredite piamente na serventia do remédio -, podia aproveitar que o dono do topete laranja comprou o máximo de vacinas possível e defender que o Brasil fizesse o mesmo. Mas nem para isso essa claque presta. Só querem aplaudir desaplaudidos, enquanto a oposição finge brincar de polícia e ladrão (sem definir, é claro, quem está em cada papel).

 

O último constrangimento para servir de cortina de fumaça foi questionar a tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Rousseff. Qualquer um pode discordar politicamente da petista - e eu defendo ao máximo o direito de criticá-la -, mas duvidar da existência de um dos mais abjetos instrumentos de coerção feitos pelo estado, totalmente documentado e testemunhado, extrapola qualquer limite de humanidade. Desculpem-me quem ainda acredita que Bolsonaro é um ser humano normal. Eu deixei de acreditar nesse senso de humanidade há tempos, mas agora estou na fase do asco, algo mais avançado.

 

Nem vou entrar no mérito da estranha e imbricada relação entre os filhos do presidente e as falcatruas em que eles estão sendo acusados. Tenho aprendido que, com família, não dá para brincar e tenho medo de como obscurantistas vão interpretar essa crítica. Preciso confessar que morro de receio de como essa milícia digital pode se comportar quando provocadas por alguém consciente e com capacidade racional.

 

É indefensável continuar fingindo que vivemos em um ambiente normal. O Brasil está cada vez mais tóxico. Não apenas para quem é capaz de criticar o presidente, como eu. A toxicidade está presente no dia a dia, nas relações pessoais, nas comunicações interpessoais. Fico a imaginar quando poderemos acordar sem ter medo do que veremos no noticiário. Podia ser em 2021, não? Se não teremos um novo presidente, pelo menos poderíamos ter um presidente novo.

Histórico de Conteúdo