Bloco DEM e MDB olha para o próprio umbigo para tentar manter um pé dentro do governo
Arthur Lira motivou 'racha' no centrão | Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil

DEM e MDB formaram um bloco na Câmara dos Deputados e deixaram o centrão, liderado por Arthur Lira (PP). O grupo comandado pelo progressista ainda se mantém com PL, PP, PSD, Solidariedade, PTB, Pros e Avante, porém perde 63 deputados e muita força de negociação com o governo de Jair Bolsonaro. O número de parlamentares é o que importa para o governo federal e essa desidratação enfraquece o único candidato declarado à sucessão de Rodrigo Maia, o próprio Lira. Porém é preciso entender alguns meandros por trás dessa disputa.

 

Arthur Lira é, tanto quanto outros caciques, um legítimo representante da velha política. No entanto, ao se tornar o principal rosto do centrão, ganhou espaço no governo Bolsonaro para tentar segurar um eventual impeachment e até mesmo o prosseguimento de conteúdos considerados inadequados pelo presidente. Como coerência entre discurso e prática nunca foi algo comum para Bolsonaro, o casamento entre o blocão e o governo era a lua-de-mel perfeita. Pena que não contava com o racha de DEM e MDB.

 

Democratas e emedebistas conhecem bem as nuances de disputas de micropoderes (aquelas interna corporis). Sabiam que, ao engrossar o pescoço, Arthur Lira poderia diminuir a ascendência de figuras tradicionais da política, a exemplo de Rodrigo Maia, talvez o mais poderoso articulador da República no atual contexto. E ninguém iria aceitar isso de bom grado. Como há uma intenção de que a presidência da Câmara se mantenha com a dobradinha que se declara independente do governo, a montagem do bloco foi providencial.

 

Entre dissimular independência e pagar o ônus pela associação a um governo malfadado, é lógico que DEM e MDB vão optar por não ingressar totalmente em um barco que pode naufragar a qualquer momento. A saída do centrão passa, principalmente, por manter um pé fora do governo enquanto flerta com concessões em votações e projetos específicos. E retira muito do poder de negociação que Arthur Lira achou ter.

 

Na imprensa, inclusive, chegou a circular o rumor de que a aliança entre os dois partidos teria como pano de fundo as eleições de 2022. Altas gradações de ambos negam. Ainda mais quando tentam associar as legendas à candidatura de João Doria (PSDB). DEM e MDB estão mais olhando para os próprios umbigos do que negociando para fortalecer alguém de fora dos partidos. Quando se há um vácuo de poder, qualquer experimentação é válida. Arthur Lira que o diga. Tentou aproveitar desse espaço, mas parece ter deixado o cavalo passar selado.

 

Este texto integra o comentário desta sexta-feira (31) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios A Tarde FM, Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Alternativa FM Nazaré, Valença FM e Candeias FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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