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Robson celebra Centro de Boxe e diz que espera 'boa notícia' sobre recurso de luta contra Valdez
Foto: Reprodução / Instagram - @robson60

A notícia de que o governo da Bahia lançou um edital para contratar a empresa que fará a reforma do espaço em que será instalado Centro de Treinamento de Boxe e Artes Marciais (veja aqui) foi motivo de alegria para Robson Conceição. O pugilista vinha cobrando o equipamento desde 2016, quando o governador Rui Costa (PT) o prometeu (saiba mais aqui). "Com o Centro de Treinamentos, vamos poder recrutar muitos jovens, formar novos campeões, novos Robsons, Heberts e Beatrizes", afirmou o lutador, em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias.

 

Vindo de um projeto social, Robson faz questão de sempre ressaltar a importância do esporte para formar cidadãos. "Se a gente puder dar esse conforto a esses novos atletas, tenho certeza que vamos estar desviando eles do mundo do crime", pontua.

 

Para chegar ao patamar de campeão olímpico e postulante ao cinturão do super-penas do Conselho Mundial de Boxe (WBC), o pugilista enfrentou diversos percalços. Teve de treinar descalço, ir a hospitais "pedir para engessar o braço, para usar a atadura como forma de bandagem", treinar com sandálias na mão, "improvisando uma manopla, em quintal de barro, sem local adequado e sem transporte para ir à academia". Isso quando teve academia. 

 

Não é de se estranhar que, mesmo após o doping confirmado de Oscar Valdez (lembre aqui), Robson nem cogitou não disputar o cinturão na última sexta-feira (10), em Tucson, no Arizona. O mexicano testou positivo para substância fentermina, um diurético proibido pela Agência Voluntária Antidopagem, responsável pelo teste, coordenado pelo Conselho Mundial no âmbito do Programa de Boxe Limpo.

 

"Eu lutei mesmo assim porque era a oportunidade de minha vida, de mudar a vida de minha família", afirmou ao BN. Sobre a luta, inclusive, ele voltou dizer que venceu, e comentou sobre o fato de a WBC ter enviado o vídeo do combate a uma comissão independente para analisar o resultado (leia aqui). Apesar de o baiano ter machucado muito o adversário, este sagrou-se vencedor de forma unânime, na visão da arbitragem (confira aqui). 

 

"Eu tenho certeza que vai sair alguma boa coisa, porque eles foram muito pressionados. Tanto que tiveram que bloquear os comentários com marcações dele [Valdez]. (...) Tenho certeza de que teremos uma boa notícia entre cinco e sete dias", destacou. Confira a entrevista completa: 

 

Após 5 anos de promessa, o governo da Bahia finalmente lançou um edital para a Arena de Lutas e Artes Marciais. Qual é a importância disso para o esporte baiano?

A Bahia é um grande celeiro. Com um centro de treinamentos aqui de Salvador, com apoio do governo, eu tenho certeza que vamos dar uma tranquilidade maior a esses atletas, para que eles não precisem se deslocar de seu estado, não precisem estar longe de sua família, para poder ir em busca de oportunidade, apoio, incentivo. Então esse centro vem para isso. Não só para formar novos atletas, mas também para dar apoio para os que já estão aí. Por isso que, depois dessa promessa, venho lutando por isso, cobrando por isso. São meus ideais, minhas metas de vida, dar apoio, suporte, aos atletas que precisam. Até porque eu vim de projeto social, sem apoio, sem incentivo. 

 

Você fala sempre sobre a importância do esporte para tirar jovens da criminalidade. Qual foi a importância que ele teve na sua vida? Quais foram as dificuldades que você enfrentou para se tornar profissional? 

No meu início no esporte, tive que treinar descalço, tive que ir em hospitais pedir para engessar meu braço, para eu usar a atadura como forma de bandagem. Tive que treinar com sandálias na mão, improvisando uma manopla. Em quintal de barro, sem local adequado. Sem transporte para ir à academia, quando eu tive academia. Então, se a gente puder dar esse conforto a esses novos atletas, tenho certeza que vamos estar desviando eles do mundo do crime. Hoje eu moro ainda na favela, em São Caetano, e praticamente, dos sete dias, quatro têm tiroteio, assalto, transtorno para a população. E 90% do pessoal que causa esse transtorno são jovens, sem incentivo, sem uma oportunidade de vida. Com o Centro de Treinamentos, vamos poder recrutar muitos jovens, formar novos campeões, novos Robsons, Heberts e Beatrizes. 

 

De que forma a sua trajetória no boxe pode inspirar novos atletas? E como você se sente sabendo que serve de exemplo para outras pessoas? 

Isso pra mim é uma sensação de dever cumprido, de saber que depois de todo o meu sofrimento, minha falta de apoio no início, hoje eu sou reconhecido porque as crianças se inspiram em mim. É uma sensação de felicidade, saber que eu tô no caminho certo, inspirando novos atletas, pessoas a seguirem o caminho do bem. 

 

O que você diria para pessoas que estão pensando em desistir por falta de estrutura? 

Que não desistam nunca. Eu já tive vários motivos para desistir, mas não deixei que isso me abalasse. Sempre tive um grande objetivo. Na última sexta, lutei contra Oscar Valdez, campeão mundial. Foi pego no doping duas vezes e não poderia lutar, mas eu lutei mesmo assim porque era a oportunidade de minha vida, de mudar a vida de minha família. Uma oportunidade que vai acontecer de novo, mas veio agora e eu abracei, me dediquei, treinei bastante. Fiquei longe de minha filha no aniversário dela, no dia dos pais. Eu tive vários obstáculos, e hoje venho conquistando meu espaço e, pouco a pouco, meus objetivos. 

 

O boxe baiano sempre foi uma modalidade que trouxe muitas conquistas para o Brasil. Temos Popó, Adriana Araújo, você, e agora vem surgindo uma nova geração muito boa: Hebert Conceição, Bia Ferreira, o próprio Keno Marley. Como você vê esse surgimento de novos atletas?

Costumamos falar que a Bahia é a Cuba brasileira. Temos material humano imenso. Poderíamos ter muitos outros talentos, mas, por essa falta de incentivo, a pessoa acaba optando por ir em busca do seu alimento. Com o atleta começando com um centro de treinamento, quando acabou o treino, tem um alimento. Ele vai pra casa mais tranquilo. Material de boxe é muito caro. Uma luva nova, boa, não é menos de R$ 300,00. Uma boa. Tem luva de R$ 100,00, mas tem um custo-benefício horrível. Você vai ter que comprar, em três meses, cinco, seis pares. Então acaba gastando mais. O atleta começando com tudo isso, só vai se preocupar em treinar, e o desenvolvimento dele vai ser muito mais rápido. 

 

Agora sobre a luta contra Oscar Valdez, Robson. Você já falou algumas vezes que venceu. Nós, vendo o combate, percebemos que o mexicano saiu bem machucado do ringue enquanto você estava inteiro. Afinal, a que você atribui essa decisão dos juízes de dar o cinturão para Valdez? 

Ele é o queridinho. Já era o campeão, estava em casa, com o ginásio completamente lotado, com 4500 ingressos vendidos. Apesar de que 90% da torcida não concordou com o resultado da luta. Eu fui muito bem recebido, tirei muitas fotos, recebi muitas mensagens de elogio, dizendo que saí vitorioso. Mas isso [o cenário geral] pode ter tido uma grande influência para que a arbitragem tenha visto uma luta dele, apesar de ele não ter saído vitorioso.

 

Você já chegou a rever a luta? Acha que pode ter errado em alguma coisa?

Meu adversário briga parado. Ele nocauteia seus adversários com facilidade porque, parado, é mais vantagem para ele. Então eu fiz uma estratégia para me movimentar bem, atingir mais ele e não ser atingido. Ocorreu tudo da forma que teria que ser, eu faria tudo novamente da mesma forma, e a sensação de dever cumprido é única. Seguimos firmes e fortes.

 

Até mesmo um dos juízes admitiu que favoreceu o mexicano. Como você recebeu essa notícia? 

Isso é mais uma grande ferramenta que estamos usando para que a comissão possa reavaliar esse resultado, e, muito em breve, eles possam estar voltando com uma resposta que possa nos beneficiar. 

 

Outra coisa que foi muito comentada foi o doping do mexicano. Ele testou positivo para a substância fentermina, que acelera o metabolismo. Por que a WBC permitiu que essa luta acontecesse? Você acha que isso mancha a organização? 

Mancha não só a organização, mas o boxe. O próprio Valdez está muito queimado. Não só no México, mas mundialmente. Isso apaga um pouco daquele fanatismo pelo boxe. As pessoas pensam: 'Ah, como um atleta dopado vai lutar, se não pode?'. Eu fiz sete ou oito exames antidoping. Para quê eu fiz todos esses exames se o meu adversário foi pego? Se a substância é proibida, é proibida em qualquer momento. Sendo que um atleta, quando toma um diurético, é para esconder a verdadeira substância que ele tomou. Então eu não acredito que ele tenha tomado somente o diurético. Naquele momento, não tinha porquê, faltavam duas semanas para a luta. Dava para ele tirar o peso tranquilamente com alimentação saudável. O que achamos? Que ele tomou uma substância proibida, para o desempenho melhorar, e tomou o diurético para encobrir essa substância que ele supostamente tomou. 

 

O Conselho Mundial de Boxe anunciou que vai enviar o vídeo da luta para uma comissão independente. O que pode sair disso? 

Eu tenho certeza que vai sair alguma boa coisa, porque eles foram muito pressionados. Tanto que tiveram que bloquear os comentários com marcações dele [Valdez]. Fizemos uma campanha na internet em que, não só os brasileiros, mas os mexicanos, os argentinos, o mundo todo está cobrando isso da Comissão. Tenho certeza que teremos uma boa notícia entre cinco e sete dias. 

 

Caso haja uma revanche, acha que deve demorar muito? Está ansioso pra subir novamente no ringue contra Valdez? 

A cada luta, o atleta tem que ficar até 30 dias sem fazer nada, principalmente ele, que tomou muitos golpes. Mas eu vou estar de volta aos treinamentos na segunda-feira, e aguardando uma boa notícia, e pronto para representar o Brasil, a Bahia muito bem para sair de lá com o cinturão. Cinturão que inclusive já é meu, mas está nas mãos erradas. 

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