Edvaldo Valério lamenta ser único nadador do Brasil negro medalhista olímpico após 20 anos
Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

Quando começou a partilha de bens do espólio dos Jogos Rio-2016, o ex-nadador Edvaldo Valério, de 41 anos, teve uma participação importante para que a piscina olímpica viesse para Salvador. Após a construção, ele assumiu a coordenação da Arena Aquática de Salvador, localizada no bairro da Pituba, devido à bagagem adquirida durante a carreira vitoriosa na natação.

 

Em 2000, nos Jogos de Sydney, o baiano conquistou a medalha de bronze no revezamento 4x100 metros livre masculino, ao lado de Gustavo Borges, Fernando Scherer e Carlos Jayme. Durante a visita à redação do Bahia Notícias, Edvaldo concedeu entrevista abordando a nova fase da sua vida trabalhando no meio político e também analisou a atual situação da natação brasileira às vésperas das Olimpíadas de Tóquio, apontou as futuras promessas baianas da modalidade e comentou a fase mais difícil da sua vida, que foi quando deixou as piscinas. O baiano ainda lamentou o fato de, 20 anos depois, ainda ser o único nadador brasileiro negro a subir num pódio olímpico. "Achei que minha conquista em Sydney tivesse o poder de mudar esse cenário".

 

Vamos começar pela fase atual da sua vida. Você já foi assessor-chefe do gabinete de Bruno Reis, anunciado como pré-candidato à prefeitura de Salvador, e hoje coordena a Arena Aquática, que foi uma nomeação. Como foi sua entrada nesse meio político?

Estou no meio, mas eu não sou político, sou técnico. A minha entrada se deu muito pela construção da ideia da Arena Aquática. Eu tive a participação na vinda desse equipamento, que é o tal do legado olímpico, em que alguns equipamentos dos Jogos Rio-2016 tinham que tomar algum destino. E, por alguns laços de amizade nessa questão política, eu fui consultado e prontamente acionei a Prefeitura, que topou o projeto. Minha participação começou dessa forma, na construção da vinda da piscina para cá. Por ter colaborado nessa vinda, o prefeito entendeu que era interessante ter toda a minha vivência e experiência no esporte. Já que comecei a nadar cedo, com três anos de idade, e nadei até os 32, tenho toda essa experiência de quase 30 anos na natação. Então, o prefeito me convidou no dia da inauguração e prontamente aceitei. É um desafio constante lidar nesse meio político e público, porque quando se fala de público as pessoas têm um conceito de que o que é público é bagunçado, e não é. A gente consegue gerenciar a Arena de uma forma, sem tanta modéstia, brilhante. Temos uma equipe técnica qualificada, estagiários qualificados, temos a parte administrativa que a gente toca com grande louvor. A minha entrada se deu muito nisso, a vivência esportiva. E também fui me adaptando a essa questão política que tem que ter. Já vou completar quase um ano à frente da Arena Aquática Salvador.

 

O que é mais difícil conquistar: uma medalha nadando contra o australiano Ian Thorpe ou a aprovação de algum projeto nesse meio da política?
São duas questões distintas. A dificuldade talvez seja a mesma, mas como você está engatinhando no processo político e público, talvez para mim seja mais desconfortável hoje lidar com os projetos públicos e políticos. Mas a dificuldade, eu posso afirmar que talvez seja a mesma, claro que nas suas proporções. Ganhar uma medalha olímpica competindo com grandes feras, que têm uma estrutura esportiva de primeiro mundo, e você aqui na Bahia com dificuldade de conseguir patrocínios, é a mesma de aprovar projetos na gestão pública. Porque você tem que justificar, explicar e mostrar o porquê disso, quais os benefícios. Então encaro que talvez seja a mesma proporção. Não digo que ganhar medalha é mais difícil do que aprovar projeto, não. Eu boto numa relação muito parecida.

 

Por estar nesse meio da política, você pensa em um dia disputar algum cargo eletivo, como Aurélio Miguel, que foi campeão olímpico de judô e depois foi vereador de São Paulo? Ou como o tetracampeão Romário, que é senador? Pensa em seguir uma carreira política?

Eu não tenho pretensões políticas. A minha parte é técnica. Agora, por estar à frente de um equipamento público e político, as pessoas sempre questionam. Mas eu, Edvaldo Valério, não tenho pretensões. Pode ser que isso um dia aconteça, mas hoje não. Mas acho que o esporte precisa de um representante sim, até pelo poder dessa ferramenta de transformação que é o esporte. Hoje eu estou à frente de um equipamento público onde já passaram mais de duas mil pessoas e ouço muitos relatos dos benefícios, dos filhos que tinham um comportamento ruim e hoje, pela questão social que o esporte traz, melhoraram questão comportamental, o rendimento escolar... Eu vejo senhoras que fazem hidroginástica que chegaram lá com problemas de articulação, que mal conseguiam andar e hoje estão andando, estão bem, dormindo melhor. Então esses benefícios que o esporte traz são bem satisfatórios para a população. Pode ser que amanhã aconteça, mas hoje eu não tenho pretensão nenhuma de me lançar candidato. Agora, é bom deixar claro, a Arena Aquática tem um viés esportivo e competitivo. É claro que estamos iniciando um trabalho e nesse início vamos sofrer muito. Não é fácil encontrar e lapidar um atleta que tenha um viés esportivo e competitivo, mas estamos garimpando. É um trabalho de médio a longo prazo. Não vai ser fácil encontrar um campeão olímpico em um ou dois anos, ou até mesmo quatro anos. É um trabalho em que estamos realmente engatinhando, mas nesse nicho já conseguimos colher alguns resultados expressivos. A Arena já tem participado de algumas competições oficiais e não oficiais alcançando resultados expressivos para menos de um ano de operação, se colocando no cenário esportivo e competitivo. É bom deixar claro que a Arena Aquática não tem um viés de clube. Não é que as pessoas vão lá para tomar banho de sol. A gente quer encontrar um campeão e por isso que faz essas inscrições de quatro em quatro meses, para renovar o quanto antes, buscar e encontrar um campeão. É claro que alguns vão ter da Arena o suporte para... por exemplo, a gente tem casos lá que as pessoas chegaram com trauma de água ou não sabiam nadar. Eles vão ter o direito de se inscrever. Aquele que não sabe nadar, a Arena vai dar a oportunidade para ele saber e de lá encaminhar para algum clube, se for realmente isso que ele queira da parte esportiva. Em contrapartida, vamos aproveitar aqueles que têm potencial, fazer o treinamento de base para fazer a transição. Porque todo o processo começa na piscina de 25 m, semi-olímpica. À medida que a equipe técnica identificar potencial naquele aluno, ele migra para a piscina de 50 m e passa a fazer parte da equipe competitiva de alto rendimento da Arena Aquática. Esses atletas vão representar a Arena ao longo do ano em competições, sejam de piscina ou mar aberto.

Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias


A Arena Aquática também reserva horários para crianças do ensino público. Você se enxerga nelas, lembrando a época que lutou para se tornar um nadador profissional? Você dá conselhos a elas?
Mas é claro! Eu estudei em escola pública. Na parte esportiva, quando atleta, eu tive que contar com a ajuda dos pais de outros atletas para me manter no esporte, porque minha família não tinha condições financeiras para me dar um suporte. Não estou dizendo que passei por necessidade, mas tive que contar com ajuda de outras pessoas para me manter no esporte. E hoje em dia, eu enxergo lá na Arena também. Claro que a gente atende públicos diversos, tem da classe A, B e C e até mesmo D. Tem gente que não tem condição nenhuma, pega metrô, vai de ônibus e vai até andando. Temos casos que moram em Pernambués e vão andando lá para a Arena, porque enxergam na Arena uma oportunidade de mudança. Eu me enxergo claramente em muitos jovens que passam ou estão ali, até mesmo em adultos na oportunidade.

 

Como você vê o futuro da natação baiana? Temos alguns jovens talentos que se destacam como, por exemplo Aricia Peree. Você vê os jovens baianos com potencial para se destacar no profissional?
A Bahia sempre foi celeiro de campeões. A gente sempre revelou grandes atletas e a vinda dessa piscina passa por isso. Outras cidades também pleitearam a piscina olímpica e por que Salvador foi contemplada? Porque tendencialmente sempre revela grandes atletas, sejam de piscina ou de mar aberto, como temos os casos de Ana Marcela, Allan do Carmo... A gente tem Aricia Peree, tem Guilherme Caribé, que é outro atleta que está despontando bastante. Esse atleta, eu pontuo até que tem tudo aí para ultrapassar os meus recordes. Ele já está bastante próximo. Apesar de todas as dificuldades que temos, a natação baiana sempre revela grandes atletas. Claro que talvez a gente não tenha o quantitativo, mas temos o qualitativo. Os poucos que temos têm extrema qualidade de ganhar campeonatos brasileiros e até internacionais, que são os casos de Aricia e Guilherme. Esse Caribé, eu aponto realmente como meu sucessor. É um atleta de 15 anos que já está atingindo tempos que o credenciam. Isso não significa que ele vai ser “O Cara”, mas já o credencia a ser um novo Edvaldo Valério. Claro que vai depender muito dele, é um atleta ainda jovem que tem muito a melhorar, mas com os tempos que ele vem alcançando, realmente eu crio essa expectativa para que ele possa ser um futuro representante da natação baiana em Jogos Olímpicos.

Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Muitos jovens que se destacam nas categorias de base às vezes não conseguem manter o mesmo ritmo quando chegam ao profissional. O que acontece nesse processo de transição da base para o profissional que alguns talentos se perdem ou acabam não avançando?
É uma questão importante de se tocar. Inclusive, eu quis abandonar o esporte muitas vezes justamente nessa parte transitória, do infantil para adolescente. Eu nunca fui um cara multi-campeão na categoria de base, mas estava ali sempre pelo pódio. O que dificulta é justamente essa questão do incentivo, do apoio e da estrutura que se dá aqui na Bahia. Recentemente a gente tem visto os clubes sociais fechando as portas, clubes tradicionais. Em contrapartida, enquanto esses clubes sociais estão fechando as portas, a gente vê os condomínios subindo com uma piscina semi-olímpica. Então, até pela segurança, ninguém vai querer deixar de fazer um treino ou aula dentro do seu condomínio para querer sair para ir a um clube com essa questão da insegurança que assola a Bahia. A gente tem a questão de estrutura, falta de incentivo e políticas voltadas à parte esportiva. Além disso, tem de conciliar os estudos com o esporte que sempre foi difícil, na minha época já era e hoje ainda é. Talvez seja o complicador maior conciliar o estudo com o esporte. A rotina de atleta de esporte amador e olímpico é bem complicada. Você tem treino duas vezes na semana só de parte de água, tem a rotina da parte física, às vezes tem que fazer um acompanhamento com outros profissionais como psicólogos, nutricionista, fisioterapeuta, treinamento funcional, fisiologista... Então, tem uma série de baterias de ações que você precisa desenvolver. Ser atleta de esporte olímpico não é fácil. As pessoas costumam entender só o resultado final, se o cara ganha medalha ou não. Mas esse processo para ganhar medalha é que realmente as pessoas ainda não têm ideia do quanto é difícil ser atleta de esporte amador aqui no Brasil. Então, essa rotina acaba quebrando. Um adolescente de 15, 16 anos, que está no segundo ou terceiro ano colegial. Sabemos que esses são os anos mais difíceis, para conciliar estudo e esporte. Então, muitos atletas com potencial bacana realmente acabam se perdendo por isso aí e optando por estudar, até porque muitos não ganham dinheiro com a natação. Muitos enxergam que não tem sentido ficar se sacrificando tanto em fazer o esporte somente por amor. Essas questões mostram a dificuldade de se renovar na natação. O esporte é amador em todos os sentidos, não tem assessoria, não tem patrocínio, muitas vezes é o pai que está bancando, é a mãe que é a nutricionista e faz a alimentação. Então, o adolescente acaba "surtando". Ganha uma medalha aqui na Bahia, ganha duas, três, quatro e não vê resultado, não vê respostas. Vê o pai se sacrificando para pagar passagens para algumas competições. Eu lembro que também tinha uma rotina muito puxada quando adolescente. Eu acordava 4h30 para pegar o ônibus de Itapuã até a antiga Fonte Nova para treinar. Depois que acabava o treino eu ia para a escola, ficava até meio-dia, almoçava e descansava um pouco para ir pro treino da tarde e só chegava em casa 20h. Eu chegava para dormir, ou seja, não tinha vida. Minha vida se resumia só ao tempo que tinha na escola. Muitos vivem essa rotina, às vezes até pior, porque hoje você tem uma parte extra da piscina que é o acompanhamento de outros profissionais. Muitos se perdem pela rotina e também pela renúncia da vida social, que esse adolescente passa a não ter ou, se tiver, é bem mínima.

Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Você foi o primeiro nadador brasileiro negro a ganhar uma medalha olímpica. Essa conquista foi nos Jogos de Sydney em 2000. Em outubro do ano passado, o técnico do Bahia, Roger Machado, disse em entrevista que vê o racismo quando ele entra num restaurante ou numa sala de faculdade e ele é o único negro. Como você vê esse sua conquista, já que praticamente 20 anos depois nenhum outro brasileiro negro alcançou o seu feito nas piscinas?
Sinceramente achei que minha conquista em Sydney tivesse o poder de mudar esse cenário, por ser do Nordeste, por ser de um bairro pobre, por ser negro. Achei que essa oportunidade que tive iria ajudar. Ajudou no primeiro ano pela questão eufórica da mídia, mas depois percebi que o retorno dessa conquista não se converteu na prática. Já se passaram quase 20 anos da minha conquista e realmente a gente não enxerga um negro que tenha uma expectativa de ganhar medalha, principalmente em Salvador. A gente tem uma população maçante negra, acho que 70% é negra, no Brasil é 55%, 57% e mesmo assim nesse universo eu fui o primeiro e único nadador negro do Brasil a ganhar medalha [olímpica]. Num cenário desse, é pouco, é quase nada, um atleta ao longo de mais de 100 anos de Jogos Olímpicos ter sido o primeiro e único negro. Eu não estou aqui para pedir mais oportunidade, não, mas a gente precisa também criar mecanismos para incentivar mais a prática esportiva. Eu não quero entrar para esse lado político, mas vou ter que entrar. Eu vejo o prefeito desenvolvendo um trabalho nessa questão política e pública, desenvolvendo ações, inaugurando obras, quadras e campos, a Arena Aquática foi uma grande sacada. Na verdade, Salvador foi contemplada apenas com a piscina olímpica e o prefeito comprou a ideia e mandou construir uma piscina semi-olímpica. Então, eu vejo ações da prefeitura hoje potencializando muito essa questão do incentivo à prática esportiva. Em paralelo a isso, você vê as quadras que são inauguradas, as praças que são inauguradas, o prefeito sempre coloca academia aberta ao povo. Eu vejo políticas voltadas para isso na parte municipal. A gente só tem que encontrar um jeito de potencializar mais isso e criar acesso de uma forma mais fácil. Na Arena Aquática, a gente buscou o tempo todo democratizar e dar lisura a todo o processo. As inscrições são feitas somente através do site, ou seja, não tem indicação política. As vagas são destinadas, de fato, à população. Há um sorteio eletrônico, aí é sorte mesmo e aqueles que forem contemplados são convidados a entregar toda documentação na Arena. A gente se preocupou o tempo todo em abrir o equipamento para a população de fato. Depois que se inscreve no site é orar, rezar para que seja contemplado. Não tem indicação política, não tem fulano que indica, coloca, tira... Nada disso! Todos que fizeram parte ou passaram pela Arena foram pessoas que foram contempladas por esse processo de inscrição. No último processo, tivemos 9.900 inscritos. Há uma procura muito grande das pessoas em fazer uma atividade física, mas a gente não consegue absorver todo mundo. Temos um equipamento que, querendo ou não, tem risco de vida. No menor descuido ali uma criança pode se afogar. Eu vejo mais ou menos isso, essas questões estruturais importantes e pesando bastante para que a gente possa potencializar e valorizar mais ainda o esporte na Bahia.

 

Mas o que precisa ser feito para mudar esse cenário e a gente ver outro atleta negro ou outra atleta negra disputando olimpíadas e conquistando uma medalha olímpica?
Seria abrir mais essa questão do acesso. Lá na Arena, outra coisa que a gente desenvolve é a acessibilidade. A gente tem garantidas algumas vagas para pessoas com deficiência (PCDs). A gente também desenvolve um trabalho de inclusão, que é uma coisa que eu gosto de valorizar bastante. Inclusive, a gente tem um caso lá de um atleta PCD que é de alta performance, nunca teve vivência com natação e hoje está participando de competições de mar aberto representando a Arena e ganhado medalhas. Então, é uma coisa que estamos abrindo, mas quando eu falo de acessibilidade, é de tornar a coisa mais fácil para o público B e C. Muitas vezes, na minha época, nunca fui o atleta mais talentoso, nunca fui o atleta que tinha família com condições financeiras, tinham outros atletas muito melhores do que eu, em termos de resultado, mas eu tinha uma coisa que eles não tinham, que era vontade de me tornar um campeão. Inclusive, outra coisa que fez um diferencial na minha carreira foi justamente o apoio familiar. Meu pai e minha mãe não mediam esforços, apesar das dificuldades para me manter dentro do esporte, seja fazendo rifa para conseguir dinheiro e custear as minhas despesas. Muitas vezes eu não tinha dinheiro para pagar a passagem, mas tinha para pagar hospedagem, aí eu pegava carona. Ou era o inverso, eu tinha dinheiro só para a passagem e não tinha para hospedagem, aí dormia escondido no quarto de outro colega. E foi assim que eu fui levando. Não foi fácil, por isso que digo o tempo todo, as pessoas só enxergam o resultado final, mas não enxergam a construção dessa medalha olímpica. Mas eu vejo isso, a questão da gente abrir mais o acesso para o público negro. A gente já faz isso, temos não só negros, mas pessoas de condição financeira desfavorecida. A gente tem parceria com a Secretaria de Educação ofertando vagas para alunos da escola pública, tem parceria com a questão do PCD. A gente vai se adequando. Tentamos buscar parceria com a própria Federação Bahiana de Desportos Aquático. Sabemos que tem custo para cada inscrição e tentamos buscar essa parceria para atenuar o custo para os alunos da Arena e de federação, porque eles precisam estar federados para participar das competições. Estamos buscando alternativas para tentar amenizar essa questão dos custos e estruturais. Claro que não vamos conseguir atender todos os pleitos, mas o que estamos buscando incialmente conseguiu atender esse público.

 

Falando da natação brasileira. Você conquistou uma medalha olímpica, a sua geração também foi vencedora em olimpíadas como Gustavo Borges, Fernando Scherer, e por último César Cielo, que sempre trouxeram medalhas. Nos Jogos do Rio-2016, o Brasil passou em branco. O que aconteceu com a natação do país que estava sempre brigando, conquistando pódios e agora volta de mãos abanando?
Acho que nos Jogos Rio-2016, por ter sido aqui no Brasil, eles queriam muito e fizeram as coisas atrapalhadas. Por exemplo, rolou muita grana e acho que essa grana foi mal gerenciada, mal aplicada. Patrocinou-se muita gente que, no final, sabia que não ia ganhar medalha, mas por ser aqui no Brasil, tinha que fazer algo e abriram a torneira demais. Acho que os recursos foram mal aplicados. A gente vai sofrer e tem sofrido bastante já com a questão política da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. A Confederação hoje está praticamente quebrada. A gente não consegue trazer grandes competições para o Brasil. Vamos sofrer ainda mais e talvez a gente fique alguns anos ganhando uma ou duas medalhas na natação. Temos alguns atletas que podem até ganhar medalhas, como Bruno Fratus, que tem ganhado medalhas em campeonatos mundiais. É um candidato, mas vai se resumir muito nisso. Em uma ou duas medalhas no máximo, porque ainda estamos pagando o preço de uma má gestão, de como foram mal gerenciados os recursos e de que forma foram aplicados na prática. Talvez a maratona aquática nos dê medalha com Ana Marcela ou Allan do Carmo. Acho que Tóquio vai girar nisso. Mas o importante hoje é recomeçarmos. E o recomeço talvez seja mais doloroso, porque aqui a gente quer resultado mais imediato igual. O brasileiro não tem o hábito de fazer um trabalho a médio e longo prazo. Só que esse trabalho vai ter que ser feito, vai ter que ser reconstruído.

Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Dizem, no sentido figurado, que a aposentadoria do esporte é a primeira morte para um atleta. Como foi esse processo de transição para você quando decidiu encerrar a carreira e passou a ser um “cidadão comum”?
Você resumiu bem, porque foi a fase de transição mais complicada para mim. E olhe que eu tive várias transições, como troca de treinador, troca de cidade, de clube... Mas essa transição de deixar de ser atleta de alta performance para ser um cidadão comum foi a que mais impactou. Eu ganhei muito dinheiro com a natação, mas até eu ganhar foi roendo osso. Depois que ganhei a medalha, as coisas melhoraram. Ficou um processo bom para mim até o outro ciclo, de 2000 a 2004. Foram os anos que consegui me estruturar financeiramente. Mas depois, eu perdi todos aqueles patrocínios e incentivos. A questão financeira pesou bastante, foi bem desafiador mesmo. Fiquei perdido, não sabia o que fazer. Não tinha rumo. Até porque foi muito difícil me manter dentro do esporte e conciliar os estudos. Eu não tinha concluído o terceiro grau quando era atleta. Ou seja, eu não tinha formação acadêmica e ia fazer o quê? O dinheiro tinha acabado, já tinha constituído família [Edvaldo é casado e tem dois filhos, um garoto de 16 anos e uma bebê de 1 ano e três meses]. Tive que recomeçar e esse recomeço é o mais dolorido. Voltei a ganhar o que eu não ganhava desde a época que era guri. Só que tinha o agravante que eu tinha família. Essa parte transitória é bem complicada e eu não me preparei para isso, mas já cheguei num estágio, com 32 anos, que estava cansado daquela rotina de acordar de madrugada, treinar duas, três vezes ao dia, daquela rotina de atleta mesmo. A cabeça já não estava mais me permitindo continuar no esporte. Parei de nadar com 32 anos, trabalhei com projetos sociais durante três anos e foi onde eu me encontrei na parte profissional fora da água, fora da parte esportiva. Dava aula em projeto social e depois montei uma empresa de gestão esportiva e hoje estou na Prefeitura desenvolvendo um trabalho bacana, que acredito muito nele, tem tudo para encontrar um futuro Edvaldinho ao longo dos anos.

 

E você terminou os estudos depois?
Concluí meu curso, sou formado em Educação Física, mas foi depois de ter abandonado a Natação, é aquela questão da rotina da parte esportiva competitiva ser bem pesada. Não consegui conciliar o estudo com o esporte e acho que é uma diferença grande ainda para outros países. Você vê os Estados Unidos em que as faculdades incentivam os atletas a participarem das suas faculdades e aqui no Brasil não. Muitas vezes eu perdi disciplinas na faculdade porque estava em viagem representando o país nas competições internacionais e quando retornava a faculdade não tinha maleabilidade para fazer a segunda chamada. Isso foi um grande dificultador para poder me formar.

 

Ainda está nadando?
O esporte me machucou bastante, viu? Costumo dizer que o esporte de alto rendimento não é o esporte em si. Ele não machuca somente o físico, mas machuca a questão psicológica até pela rotina que a gente estabelece. Apesar de trabalhar num equipamento aquático todos os dias, não consigo nadar. Estou buscando desenvolver outras atividades, estou correndo dia sim, dia não, às vezes tento nadar conciliando a transição da corrida. Eu chego cedo lá na Arena, aí dou uma corrida de 5 km. Quando estou bem disposto, logo depois, eu caio na piscina para fazer a transição, mas esse hábito de nadar, como eu nadava um dia, não consigo mais. Hoje nado esporadicamente e estou procurando outras atividades para não ficar sedentário. Trabalhar na parte pública, realmente, te consome demais. Temos muitos problemas lá para serem equacionados, como relação com os pais, com os alunos, com os professores em relação à metodologia aplicada, com os funcionários. Pode parecer que não, mas temos muito pepinos lá para resolver. Mas na medida em que dá busco fazer alguma atividade. Já estou até bem acima do peso, comendo mal, dormindo mal, se eu não fizer alguma atividade física, a tendência é ficar com um estilo de vida muito diferente daquilo que eu tive ao longo dos anos. Quero me cuidar, mas não consigo mais ter aquela vivência da parte da água.

 

Então você não tem vontade de voltar a disputar torneios de máster?
Tu é doido! (risos). Não tenho pretensão nenhuma! Seria interessante, mas pela rotina que tenho hoje, eu não consigo. Não tenho mais essa disposição de quando era atleta, essa disciplina, comprometimento. Tive isso por quase 30 anos da minha vida. Claro que não perdi, mas não consigo mais ter aquela rotina. Eu acordo cedo, chego ao trabalho todo dias às 7h, muitas vezes saio 18h. Fico ali naquele equipamento por quase 12 horas de relógio, mas resolvendo problemas.

Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

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