Em visita a Salvador, Natália Gaudio fala sobre participação no Rio 2016 e legado olímpico
Foto: Edimário Duplat/Bahia Notícias
Única representante brasileira na ginástica rítmica individual dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, a capixaba Natália Gaudio é a terceira atleta do pais a atuar na modalidade em toda a história da competição internacional. Em visita à Salvador no último mês de junho, onde participou do Curso de Atualização Técnica ministrado pela sua treinadora, Monika Queiroz (veja aqui), a ginasta conversou com o Bahia Notícias e falou das dificuldades em praticar o esporte no país, além da preparação emocional e física para o Rio 2016 e o futuro legado das Olimpíadas para as futuras gerações do esporte brasileiro.

Como está sendo a expectativa para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro?


Então, as expectativas são as melhores. É a realização de um sonho depois de 16 anos de carreira e estou treinando muito para isso. Me preparando ao máximo porque quero chegar no meu auge em agosto. Fizemos bastante competições esse ano, que é importante para minha preparação, e ainda temos duas etapas da Copa do Mundo antes das Olimpíadas. Viajamos agora no dia 28 de junho para Berlim e a segunda é em julho no Azerbaijão.

E como funcionam essas competições prévias dos Jogos?

Bem, todo mundo utiliza essas competições como uma preparação. A maioria das meninas que estão se preparando para as Olimpíadas estão competindo essas etapas da Copa do Mundo e você vê que o nível está bem alto, com todo mundo querendo evoluir muito. É um ano de bastante crescimento das ginastas, você vê uma evolução muito grande com todo mundo correndo atrás e melhorando sempre as suas séries até chegar aos Jogos.

Fizemos uma matéria especial com a atleta baiana Amanda Reis, que está precisando de apoio para conseguir viajar para competições fora do país (veja aqui), e conhecendo um pouco da sua história, percebemos que você também passou por esse tipo de dificuldade. Como foi enfrentar situações assim? Como esse tipo de apoio pode ajudar na evolução do atleta?

Todo atleta no Brasil passa por esse tipo de dificuldade, infelizmente. Eu passei dificuldade a vida inteira por conta disso. Tive sempre apoio da minha família que investiu sempre em mim, mas tem momentos que são realmente bem difíceis mesmo. Aquela hora que precisamos fazer vaquinha, pedir ajuda aos amigos para juntar dinheiro para viajar... Porque nenhum atleta chega a lugar algum sem investimento, patrocínio ou apoio. E infelizmente no Brasil a realidade para o atleta é complicada. Eu acho que as Olimpíadas precisam ser o momento em que o povo brasileiro, o governo e a empresa privada mudem um pouco essa cabeça de achar que o atleta só precisa de apoio depois do resultado. Isso não existe, porque para o atleta chegar no resultado ele já precisa de uma estrutura, uma preparação para treinar. E isso falo em relação a ter uma equipe com ele, não só o técnico. Tem preparador físico, nutricionista, psicólogo, professora de ballet. Toda uma equipe que envolve o atleta. Realmente é muito difícil, mas depois da minha classificação olímpica algumas portas abriram e a questão de patrocínio melhorou um pouco. Mas antes de tudo isso foi complicado e posso dizer que esses anos todos eu cheguei onde estou “na marra”, na garra mesmo e lutando por isso. Por exemplo: na minha classificação para os Jogos mesmo, para eu conseguir viajar e treinar antes do Mundial, tive que fazer uma arrecadação de dinheiro e pedir ajuda para pessoas que conhecia e para empresas. Tudo para conseguir fazer um treinamento especial antes da competição. Graças a Deus eu consegui a classificação, mas as pessoas precisam ter noção que esse tipo de apoio é essencial para o atleta ter uma evolução. O ginasta precisa mesmo viajar, fazer intercâmbio de treinos. Essa realidade precisa mudar e espero que depois das Olimpíadas isso mude um pouco.



Foto: Ricardo Bufolini/CBG/Divulgação

Você participou agora do evento teste no Rio de Janeiro. Apesar de já ter uma experiência em campeonatos mundiais, você sente que os Jogos Olímpicos são uma competição diferente? Como foi a impressão de atuar para o público brasileiro às vésperas do Rio 2016?

Foi uma situação bem diferente. Eu tenho certeza que nunca vou sentir uma emoção tão grande como competir nas Olimpíadas. Porque é o maior evento esportivo do mundo dentro de sua própria casa. Vai ser um momento ímpar, único, e eu poder compartilhar isso com os meus amigos e familiares vai ser perfeito. No evento teste já tivemos um gostinho de como vai ser. Competimos na mesma arena olímpica que vamos competir nos Jogos e o público compareceu em peso já naquela ocasião. Foi muito emocionante para mim, tive que me controlar porque é uma emoção que vem de dentro pra fora e você até sente uma vontade de chorar. É uma coisa que nunca senti na vida.

Para você, esse sentimento é mais como uma pressão ou uma motivação?

Eu vejo mais como uma motivação, mas eu mesmo tempo você precisa controlar as emoções. Foi maravilhoso eu participar do evento teste porque eu já tive uma noção e agora já estou preparada para o que vai vir nos Jogos. Porque se no evento foi daquele jeito, nas Olimpíadas vai ser o triplo. Então é focar na sua apresentação, abafar os gritos e concentrar. Foi incrível a experiência e estou ainda mais ansiosa para o Rio 2016.

Tem se criado uma estrutura interessante para o atual cenário da Ginástica por conta dos Jogos Olímpicos. Mas em relação as novas gerações, você sente que esse legado já tem afetado as futuras atletas?

Eu vejo que a ginástica rítmica tem crescido muito no Brasil. Todos os lugares que eu e a Mônika (Queiroz) temos viajado para fazer o curso e apresentações, sempre temos as escolinhas sempre cheias. E isso faz parte da iniciação na ginástica. Então eu acho que vão surgir muitos talentos nas novas gerações, porque se precisa de muita gente praticando para que possam surgir muitos talentos. E acho que estamos no caminho certo e eu sempre falo que o meu principal objetivo hoje é esse: quero competir, fazer bonito, o meu papel como atleta, pois o Brasil inteiro vai estar me assistindo e quero que isso inspire as novas gerações. Que a nova atleta tenha alguém para se espelhar, que isso a motive para chegar as Olimpíadas também. Estamos no caminho certo e tenho que fazer minha parte, competindo bem e fazer uma apresentação bonita, para poder deixar as meninas orgulhosas e quem sabe transformá-las em novas ginastas olímpicas.

E para os Jogos, qual seria a meta de classificação?

Olha, eu trabalho com a realidade. A gente não tem uma tradição na ginástica rítmica como o Vôlei e o Futebol tem no Brasil. E como falei, nenhum atleta chega a lugar nenhum se investimento. Então, dentro do possível e do que a gente fez durante esse ciclo, se ficássemos entre as 15 primeiras já seria um grande feito para o esporte no Brasil. Porque a última vez que o nosso país teve uma representante na ginástica rítmica foi há 24 anos, em 1992. O ano em que eu nasci estava competindo a última ginasta individual representando o país nos Jogos. Então, eu já estando lá já é uma conquista, porque realmente não é fácil. Estamos conquistando nosso espaço nessa modalidade agora, porque antigamente os outros países até tinham um certo preconceito com o Brasil nesse esporte. Tinham um olhar diferente, porque achavam que não ia ser tão bom, por exemplo. Mas estamos mudando essa realidade e mostrando que o Brasil tem capacidade para chegar lá e brigar de frente com as melhores do mundo. Mas se precisa ainda de muitos anos de trabalho, melhorar estrutura e investimento, para conseguir bater uma ginasta da Ucrânia ou Bielorrússia. Elas, a vida inteira já nascem com a estrutura perfeita de treinos e investimento. Por exemplo, na minha carreira de adulto eu competia os torneios internacionais uma ou duas vezes por ano e isso é muito pouco. Elas disputam 12 por ano e isso é fundamental para o crescimento do atleta. Mas estamos mostrando que estamos no caminho certo e evoluindo, por isso se eu chegar entre as 15 já seria uma grande conquista.

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